16 julho 2017

Resenha Crítica: "Cars 3" (Carros 3)

 É praticamente impossível visionarmos "Cars 3" e não pensarmos em diversos filme da saga "Rocky". Desde a crise de confiança do protagonista, passando pelo contraste entre o treino old school do personagem principal e a metodologia moderna e de ponta do rival, até à aceitação das limitações inerentes ao avançar da idade e à descoberta do prazer de treinar um novato, não faltam temas e situações que unem "Cars 3" aos filmes da icónica saga imortalizada por Sylvester Stallone. Temos ainda a abordagem de alguns problemas que afectam diversos desportistas que se deparam com o avançar da idade, nomeadamente, a perda de algumas qualidades e a inevitabilidade de terem de lidar com a entrada em cena de novatos com fome de títulos. No caso de Lightning McQueen (Owen Wilson), este percebe que a sua carreira está num impasse a partir do momento em que é colocado diante do ímpeto vencedor de Jackson Storm (Armie Hammer) e sofre um grave acidente de viação que coloca a sua vida em perigo (naquele que é um dos momentos mais pesados da saga). É algo a que McQueen não estava habituado, ou não estivéssemos diante de um piloto confiante nas suas capacidades, que colecciona um grande número de vitórias e parece praticamente imbatível, uma situação que muda quando começa a observar diversos colegas a retirarem-se das corridas e encontra um adversário temível. Storm é um carro preto, novato, que utiliza tecnologia moderna para treinar e apresenta uma confiança inabalável que parece começar a faltar a McQueen. O acidente e as derrotas levam a que o protagonista comece a duvidar de si próprio, embora pretenda regressar aos grandes palcos e vincar o seu valor no meio dos novatos. Nesse sentido, McQueen decide começar a treinar no novo centro de treino da Rust-eze, um espaço moderno, recheado dos melhores equipamentos. Este espaço foi construído com o dinheiro de Sterling (Nathan Fillion), um empresário de sucesso que comprou a Rust-eze, embora esteja longe de apresentar a mesma lealdade para com McQueen do que Rusty e Dusty, os antigos proprietários da marca que patrocina a equipa do protagonista. Se Rusty e Dusty mantinham uma relação de amizade com o protagonista, já Sterling encara McQueen como uma marca que deve ser preservada e utilizada para vender uma série de merchandising, ou seja, como a Pixar e a Disney encaram a franquia de "Cars", com as ideias do empresário a colidirem com as pretensões do piloto, sobretudo nas questões relacionadas com a carreira deste último.


  Sterling oferece uma série de condições extraordinárias para McQueen treinar, embora a incursão deste último pelo centro de treino seja um desastre. É no centro de treino que McQueen conhece Cruz Ramirez (Cristela Alonzo), uma treinadora enérgica, de cor amarela, que conta com uma personalidade peculiar e surge como uma espécie de substituto de Mater (Larry the Cable Guy) como sidekick do protagonista. Diga-se que Brian Fee (o realizador desta longa-metragem) demonstra que aprendeu com alguns dos erros cometidos por John Lasseter e Brad Lewis em "Cars 2", algo que se traduz numa presença mais reduzida de Mater em "Cars 3" (um personagem que se torna completamente irritante quando aparece em excesso), com Ramirez a surgir como uma simpática adição à franquia. A entrada em cena de Ramirez é, também, uma forma de Brian Fee e a sua equipa inserirem "sangue novo" na saga ao mesmo tempo que permite um piscar de olho ao público feminino, com o último terço a contar com uma reviravolta importante a envolver esta personagem (que permite inserir uma faceta feminista a esta franquia). Ramirez é fã de McQueen e tem um papel fundamental nos treinos do piloto, embora este último rejeite inicialmente os métodos desta enérgica treinadora, com a estadia do protagonista no centro da Rust-eze a revelar-se um fracasso. Após protagonizar uma série de episódios embaraçosos no centro de treino, algo que proporciona um ou outro momento de humor, McQueen decide treinar em modo old school, tendo em vista a recuperar o seu "mojo" (ou se preferirem, o "eye of the tiger") e efectuar um comeback (do género de Rocky em "Rocky III"). A acompanhar McQueen encontram-se Cruz Ramirez, bem como os já conhecidos Mack (John Ratzenberger), Luigi (Tony Shalhoub) e Guido (Guido Quaroni), com o protagonista a ter de enfrentar as dúvidas que apoquentam a sua mente, enquanto efectua uma série de treinos e forma uma forte relação de amizade com a treinadora (com algumas quezílias pelo meio). Diga-se que as dinâmicas entre McQueen e Ramirez evoluem e muito ao longo do filme, sobretudo a partir do momento em que o primeiro assume uma faceta de mestre da segunda, enquanto a treinadora transforma-se "inesperadamente" numa underdog (mais um elemento "à Rocky"). Também McQueen precisa de alguém que o guie, algo que o conduz a procurar Smokey (Chris Cooper), o antigo mecânico e líder da equipa de Doc Hudson (Paul Newman), o mentor do primeiro, com as recordações que envolvem este último a contribuírem para que a nostalgia se apodere momentaneamente da alma do filme, enquanto o protagonista tenta "reinventar-se" e regressar às corridas.


 McQueen protagoniza uma jornada marcada por descobertas e redescobertas, enquanto tenta alcançar a forma necessária para poder vencer a Piston Cup e recuperar aquela chama que o conduzia a nunca duvidar das suas capacidades. Estamos diante de um arco relativamente previsível, com "Cars 3" a optar por não correr grandes riscos e a exceder-se na repetição das suas mensagens (por vezes parece que estamos a andar às voltas num circulo), embora o último terço conte com uma reviravolta assinalável e as dinâmicas entre McQueen e Ramirez funcionem com algum acerto, sobretudo quando treinam em conjunto. McQueen e Ramirez treinam na praia, participam numa emotiva corrida de demolição, enquanto correm, discutem e protagonizam diversos episódios que pecam muitas das vezes por se estenderem em demasia e por contarem com um uso excessivo dos clichés associados aos filmes que envolvem underdogs ou atletas que procuram efectuar um comeback, embora estes trechos permitam estabelecer com eficácia a relação destes dois personagens. Temos ainda a presença de outros velhos conhecidos dos espectadores da saga, tais como o já mencionado Mater, bem como Sally Carrera (Bonnie Hunt), a namorada de McQueen, ainda que em doses reduzidas, com o foco do filme a estar na jornada do protagonista e na relação de amizade que este forma com Ramirez. Pelo meio não faltam alterações do visual de alguns personagens para vender mais bonecada, uma utilização esfuziante da paleta de cores, diversos momentos de humor (sim, os tractores voltam a aparecer), uma banda sonora enérgica e imensos trechos de corridas (o melhor filme da saga neste quesito) e a sensação de que Brian Fee percebeu as virtudes, limitações e defeitos da franquia na qual "Cars 3" está inserido. Se "Cars 2" surge como uma das produções mais entediantes e pouco conseguidas da Pixar (por vezes parece que o filme só foi desenvolvido para vender mais bonecos e para expor o quão idiota é a ideia de dar o co-protagonismo a Mater), já "Cars 3" regressa à zona de conforto de "Cars", com o primeiro e o terceiro capítulo da franquia a percorrerem caminhos seguros, sempre sem efectuarem grandes acrobacias ou desvios perigosos, embora também não se envolvam em despistes aparatosos e acabem por proporcionar umas doses agradáveis de entretenimento. É certo que todos os elementos mencionados não chegam para proporcionar algo de memorável, embora seja notório que essa não é a ambição da Pixar, com "Cars 3" a surgir como um filme simples, capaz de captar a atenção do público mais novo e vender imensa bonecada.


Título original: "Cars 3".
Título em Portugal: "Carros 3".
Realizador: Brian Fee.
Argumento: Kiel Murray, Bob Peterson, Mike Rich.
Elenco vocal: Owen Wilson, Cristela Alonzo, Armie Hammer, Chris Cooper, Nathan Fillion, Paul Newman, Bonnie Hunt, Larry the Cable Guy, Tony Shalhoub, Guido Quaroni, John Ratzenberger.

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