15 julho 2017

Resenha Crítica: "Baywatch: Marés Vivas" (2017)

 "Baywatch" é um filme que padece de problemas de identidade. Tanto quer ser uma paródia da série televisiva homónima como homenageia e utiliza de forma descarada alguns dos seus ingredientes. Entre esses elementos encontram-se os diálogos existencialistas, uma defesa feroz do feminismo, um guarda-roupa composto por vestimentas pesadas, personagens dotados de complexidade....ups, desculpem, filme errado. Não faltam corridas em slow-motion, decotes generosos, mamas e rabos a serem realçados pela câmara de filmar (é certo que já vimos muito mais de Alexandra Daddario em "True Detective", ou de Kelly Rohrbach em diversos ensaios fotográficos), actrizes e actores em forma (os músculos salientes de Dwayne Johnson e Zac Efron são recursos de peso ao serviço do humor), salvamentos espalhafatosos, imensa canastrice (por vezes propositada), diálogos manhosos e um caso pueril para a equipa de salva-vidas resolver. Diga-se que quando assume a sua faceta de comédia, ou exibe a sua parvoíce sem qualquer ponta de pudor, ou recorre à metalinguagem, "Baywatch" consegue despertar alguns risos e tem alguns momentos em que proporciona umas boas doses de escapismo. Veja-se os momentos em que encontramos alguns dos nadadores-salvadores a correrem em slow-motion, com os atributos físicos dos intérpretes a sobressaírem em grande estilo, sejam os seios ou os traseiros das actrizes, ou os músculos de Dwayne Johnson e Zac Efron, enquanto alguns personagens ironizam com a situação. Em alguns momentos parece que os personagens de "Baywatch" sabem que estão no interior de um filme inspirado numa série que se encontra completamente datada, com o argumento de Damian Shannon e Mark Swift a inserir de forma relativamente eficaz uma série de referências que remetem para o programa televisivo, ou envolvem comentários sobre o mesmo. Note-se os já mencionados comentários sobre os movimentos em slow-motion, ou Matt Brody (Zac Efron) a salientar que a teoria dos companheiros parece saída de uma série televisiva manhosa. A situação sai de controlo quando "Baywatch" se decide levar um pouco mais a sério, nomeadamente, a partir do momento em que Seth Gordon, o realizador desta obra cinematográfica, decide colocar Mitch Buchannon (Dwayne Johnson) e a sua equipa a investigarem um caso relacionado com tráfico de droga, mortes misteriosas e um plano maquiavélico para privatizar a praia que vigiam. Mitch é um nadador-salvador que encara a sua profissão com enorme seriedade e rigor (com uma inocência e determinação que a espaços quase que nos leva a questionar se não ingere unicórnios às refeições), enquanto dispara frases de efeito, emana canastrice como o seu homónimo interpretado por David Hasselhoff e conta com um físico digno de Hércules.


 O personagem interpretado por Dwayne Johnson comanda uma equipa que conta ainda com a presença de Stephanie Holden (Ilfenesh Hadera) e C. J. Parker (Kelly Rohrbach), duas nadadoras-salvadoras experientes e desprovidas de dimensão, que se destacam sobretudo pelos atributos físicos e pelo engenho com que dominam a arte de correr em câmara lenta. Após a realização de um concurso para encontrar novos nadadores-salvadores, a equipa liderada por Mitch recebe três novos integrantes, nomeadamente, Summer Quinn (Alexandra Daddario), Ronnie (Jon Bass) e Matt Brody. Summer é uma jovem que ambiciona ser nadadora-salvadora e tem como maior traço de personalidade o facto de contar com um corpo escultural. Diga-se que Summer também tem uns olhos azuis hipnotizantes, aparenta inicialmente ter uma personalidade forte (que logo se dilui) e desperta a atenção de Matt. Ronnie é um jovem com conhecimentos de informática e chega à equipa para preencher a quota destinada ao elemento com um corpo fora de forma. Este tem uma paixoneta por C.J. e uma facilidade enorme em envolver-se em situações confrangedoras. Temos ainda Matt Brody, um antigo nadador olímpico, vencedor de duas medalhas de ouro, que caiu em desgraça após vomitar durante uma prova e envolver-se em situações problemáticas. Matt despreza a ideia de fazer parte desta equipa (está a cumprir serviço comunitário), algo que o conduz a entrar inicialmente em choque com Mitch, pelo menos até se tornarem best buddies. O arco do personagem interpretado por Zac Efron é completamente previsível: Matt começa como um tipo irreverente e egoísta, que ignora os valores da equipa e entra em choque com Mitch, até .... (o resto vocês já sabem). Diga-se que Zac Efron tem um talento inato para proferir os diálogos mais estúpidos com grande estilo e encontrar o humor nas situações mais idiotas, com o actor a contar com uma dinâmica eficaz com Dwayne Johnson ao ponto de conseguirem que alguns momentos de humor funcionem. Dwayne Johnson incute uma mistura de inocência e determinação a Mitch, um personagem altruísta, que gosta de defender a sua praia e o oceano, com o actor a transmitir algum do seu carisma a este nadador-salvador canastrão. Diga-se que Mitch tem de responder às ordens de Thorpe (Rob Huebel), o seu chefe, um elemento algo caricatural que a partir de um determinado momento entra em confronto com o protagonista, sobretudo quando o nadador resolve tentar desvendar quem está a traficar heroína nas imediações do seu local de trabalho. Essa investigação leva a que Mitch embata de frente com Victoria Leeds (Priyanka Chopra), a dona do Huntley Club, um bar que se encontra localizado nas proximidades da praia vigiada pelo protagonista.


 Victoria é uma vilã de gestos caricaturais e roupas decotadas (um atributo essencial para figurar no enredo do filme), que conta com menos densidade do que um antagonista de um mau episódio de "Scooby-Doo". Diga-se que o argumento raramente desenvolve a personalidade das personagens femininas, algo que proporciona pouco espaço para intérpretes como Alexandra Daddario, Ilfenesh Hadera, Kelly Rohrbach e Priyanka Chopra conseguirem exibir algo mais do que o seu físico. É certo que ainda existe uma ou outra referência a ironizar com possíveis situações machistas, ou a envolverem a exposição gratuita de algumas das partes corporais quer dos actores, quer das actrizes, embora também não deixe de ser notório que Seth Gordon comete a incoerência de utilizar alguns dos elementos que satiriza. No entanto, a grande pedra no sapato de "Baywatch" é a sua falta de identidade, com o filme a ficar entre a reverência para com a série original e a sátira ao programa protagonizado por David Hasselhof, algo que lhe retira força. Diga-se que a partir do momento em que Mitch e a sua equipa decidem assumir a faceta de detectives privados, "Baywatch" perde fulgor e exibe todas as limitações do seu argumento. Por vezes parece que estamos diante de um episódio da série, ainda que conte com um orçamento anabolizado, mas é algo que sabe a pouco, sobretudo quando estamos perante um filme que teria muito a ganhar se soubesse abraçar o seu lado camp e estapafúrdio. É certo que a série na qual o filme se inspira não era conhecida pela qualidade do argumento, bem pelo contrário, com os seus principais atributos a surgirem na forma das nadadoras-salvadoras em fato de banho vermelho e na canastrice carismática do lendário David Hasselhoff (que tem um cameo hilariante no filme), ou na sua capacidade de alçar algumas estrelas de seios robustos para o estrelato, mas pedia-se algo mais a esta adaptação. Seth Gordon e a sua equipa preferem seguir um caminho anódino e pouco memorável, com a adaptação da série a ter para oferecer canastrice, diálogos que variam entre o aceitável e a puerilidade, imensas corridas em câmara lenta, diversas piadas relacionadas com genitais, actores e actrizes que demonstram a sua boa condição física, um uso relativamente eficaz da metalinguagem e uma boa dinâmica entre Dwayne Johnson e Zac Efron, com "Baywatch" a surgir como uma obra cinematográfica que tanto é marcada pela idiotice como pela capacidade de proporcionar alguns momentos de escapismo. Poderia ter dado certo, mas são mais os remates que saem ao lado do que aqueles que acertam no alvo.


Título original: "Baywatch".
Título em Portugal: "Baywatch: Marés Vivas".
Realizador: Seth Gordon.
Argumento: Damian Shannon e Mark Swift.
Elenco: Dwayne Johnson, Zac Efron, Alexandra Daddario, Kelly Rohrbach, Ilfenesh Hadera, Jon Bass, Priyanka Chopra.

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