01 junho 2017

Resenha Crítica: "Tramps" (2016)

 Com uma dupla de protagonistas capaz de despertar empatia, uma história dotada de enorme simplicidade e precisão, "Tramps", a segunda longa-metragem realizada por Adam Leon, é modesta nas suas ambições mas imensamente certeira a agarrar a nossa atenção e a proporcionar uma experiência cinematográfica leve e agradável. É certo que o seu desfecho e algumas das suas reviravoltas são previsíveis ou esperadas quase desde o início, embora "Tramps" não tenha a pretensão de "enganar" o espectador. Estamos diante de uma espécie de relação em que a confiança impera, com Adam Leon a entregar ao espectador uma obra cinematográfica dotada de sinceridade, situações rocambolescas, algum romance, humor e uma banda sonora que sublinha de forma eficaz os sentimentos que rodeiam os episódios protagonizados por Danny (Callum Turner) e Ellie (Grace Van Patten). Em troca, Adam Leon espera e consegue que sejamos compelidos a acreditar em Danny e Ellie e nas peripécias que estes dois jovens protagonizam, bem como nos sentimentos que nutrem um pelo outro. Estes são os "Tramps" do título, dois jovens adultos sem grande rumo, financeiramente pouco abonados, que se vestem de forma simples e agem muitas das vezes sem ponderação. Ellie e Danny travam conhecimento no decorrer de uma entrega misteriosa, com "Tramps" a abordar com acerto a típica relação improvável que se forma no interior de um contexto intrincado. Danny tem de substituir temporariamente Darren (Michal Vondel), o seu irmão, após a detenção deste último, algo que praticamente obriga o protagonista a ter de transportar uma pasta e entregá-la a um receptor que ainda não conhece. Se Danny é praticamente obrigado a participar nesta tarefa devido à argumentação utilizada pelo irmão (pretende receber mil e quinhentos dólares) e a mãe (Margaret Collin), já Ellie tem no dinheiro o principal factor para se envolver na entrega da pasta. Actualmente desempregada, rebelde e dona de uma personalidade muito própria, Ellie está encarregue de conduzir o veículo que transporta Danny até à plataforma da estação de metro. O plano parecia simples e fácil de executar, embora não previsse um erro humano, nomeadamente, o facto de Danny entregar a pasta à pessoa errada, algo que o obriga a ter de recuperar o objecto. Ellie acaba por praticamente ser obrigada a participar na recuperação da pasta, com Scott (Mike Birbiglia), o elemento que a contratou, a apenas pagar a verba combinada no caso do apetrecho chegar ao destinatário ou destinatária. 


 A tentativa caótica de recuperar a pasta conduz Danny e Ellie a protagonizarem um conjunto de acções que favorecem a criação de laços, com Grace Van Patten e Callum Turner a contarem com uma química sublime que acentua a sensação de que estamos diante de dois personagens com personalidades que se complementam praticamente na perfeição. Grace Van Patten é a grande revelação ou confirmação de "Tramps", com a intérprete a transmitir a mescla de rebeldia e fragilidade da personagem que interpreta. Um simples olhar de Grace Van Patten contribui para percebermos as dúvidas, ou as certezas de Ellie, uma jovem mulher que parece ainda demasiado marcada pelos efeitos secundários de uma relação venenosa. Num determinado momento de "Tramps", Ellie tem a oportunidade de trair Danny, embora pareça claro que esta não tem personalidade para enganar totalmente o seu companheiro de desventura. Tanto Ellie como Danny são jovens solitários, com este último a exibir desde cedo um respeito e interesse pela primeira que soa como algo genuíno. Callum Turner imprime um tom algo naïf e atrapalhado a Danny, um jovem solitário, sem grande rumo, que trabalha num restaurante de fast food e não parece ter a total consciência de tudo aquilo que envolve a missão de que é encarregue. Danny está longe de ter uma relação familiar saudável, com a mãe, uma senhora de origem polaca, a ter na organização de apostas ilegais uma fonte de rendimentos, enquanto Darren não tem problemas em envolver o irmão numa enrascada de todo o tamanho, com o protagonista a evidenciar por diversas vezes que não sente um grande entusiasmo a participar nestes "negócios" familiares. A pasta aparece como uma espécie de MacGuffin, com a recuperação deste objecto a surgir como uma oportunidade para Adam Leon ritmar a pulsação da relação que se forma entre Danny e Ellie, enquanto a dupla protagoniza um conjunto de situações inusitadas e dotadas de alguns perigos. Os personagens interpretados por Grace Van Patten e Callum Turner circulam regularmente por Nova Iorque, com esta cidade a surgir quer como o palco primordial de diversos acontecimentos relevantes de "Tramps", quer como uma espécie de protagonista, com os ritmos deste espaço citadino a parecerem contribuir para o tom frenético de alguns episódios protagonizados por Danny e Ellie, com a dupla a encontrar-se quase sempre em movimento. Veja-se quando encontramos Ellie e Danny a movimentarem-se e a dialogarem de forma agitada, após o segundo revelar à primeira que entregou a pasta à pessoa errada, com o desespero e o nervosismo a acercar-se temporariamente destes personagens. 


 A dinâmica sincera entre a dupla de personagens principais, o MacGuffin, as deambulações por Nova Iorque e a aparente simplicidade do enredo surgem como elementos que unem "Tramps" e "Gimme the Loot", a primeira longa-metragem realizada por Adam Leon, com o cineasta a deixar-nos novamente diante dois jovens que se encontram quase sempre em movimento como protagonistas. Danny e Ellie deslocam-se pelas ruas, estações de metro e comboio, bem como por estes meios de transporte, ou por locais como a feira popular, um restaurante e uma casa de uma família financeiramente abonada, seja durante o dia, quando a luz do Sol bate bem forte, ou durante a noite, com a cidade de Nova Iorque a surgir quase sempre como pano de fundo, enquanto os protagonistas estabelecem laços que aos poucos parecem conter sentimentos mais fortes do que estes esperavam forjar quando se conheceram. Adam Leon ritma a relação destes personagens de forma precisa, com o cineasta a estabelecer a dinâmica entre Ellie e Danny de maneira bem viva e credível. As reviravoltas que esta relação conhece nem sempre surpreendem, tal como as temáticas abordadas estão longe de serem novas, mas aquilo que mais encanta em "Tramps" é a forma simultaneamente simples, coerente e sincera como estas são desenvolvidas e o caminho que Adam Leon escolheu percorrer até chegar ao destino pretendido. É um caminho seguro, que facilmente nos compele a acreditar no filme e nos seus personagens, sejam estes Ellie, Danny, ou a cidade de Nova Iorque. Diga-se que Adam Leon concede uma enorme atenção aos pequenos acontecimentos que decorrem em volta dos espaços por onde os personagens circulam, com o cineasta a dar tempo para que o espectador contacte com alguma da realidade da cidade que nunca dorme, enquanto Danny e Ellie se movimentam por este território e protagonizam alguns episódios que deixam marcas em ambos. Veja-se os momentos na feira popular, com Adam Leon a transmitir a atmosfera deste espaço e a forma como os personagens se inserem no interior deste local. Estamos diante de dois personagens que deixam marca um no outro e naqueles que se deixam embrenhar por "Tramps", com Grace Van Patten e Callum Turner a contarem com uma química assinalável e a elevarem esta obra cinematográfica pontuada por doses de romance, humor, algum drama e imenso movimento, com Adam Leon a comprovar de forma clara que amadureceu bastante como cineasta e continua como um nome a manter em atenção. 


Título original: "Tramps".
Realizador: Adam Leon.
Argumento: Adam Leon.
Elenco: Callum Turner, Grace Van Patten, Michal Vondel, Margaret Colin, Mike Birbiglia, Rachel Zeiger-Haag.

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