19 junho 2017

Resenha Crítica: "A Single Man" (Um Homem Singular)

 "Se vai ser um mundo sem tempo para sentimentos, não é um mundo em que eu queira viver". É desta forma que George Falconer (Colin Firth), um professor universitário, responde a Grant Lefanu (Lee Pace), um colega de trabalho, após este último salientar que "Não haverá sentimentalismos quando os russos dispararem um míssil". São dois modos distintos de viver num Mundo em que a Guerra Fria é uma realidade e um conflito bélico entre os EUA e a União Soviética é uma forte possibilidade, com George a evidenciar uma postura menos temerosa e aparentemente mais descontraída, algo que destoa do colega, um indivíduo que reflecte alguma da paranóia da época. George é o protagonista de "A Single Man", um drama sensível e delicado, pontuado por momentos extremamente tocantes, embora conte com algumas doses de humor, com tudo a ser exposto e desenvolvido com enorme classe e uma estética aprumada. É uma estreia de grande nível de Tom Ford como realizador de longas-metragens, com o estilista a transportar o seu sentido estético para a Sétima Arte e a realizar uma obra cinematográfica em que o estilo serve a substância e vice-versa. Diga-se que "A Single Man" surge como um espelho de George, ou seja, complexo, profundamente humano, extremamente delicado, espirituoso e atento aos pormenores. Tudo parece ter sido pensado ao pormenor, seja o aproveitamento da paleta cromática e da iluminação, ou a atenção aos gestos, olhares e corpos dos personagens, ou aos elementos que marcam a decoração dos cenários. A atenção aos detalhes é ainda visível na forma muito própria como Tom Ford transmite a atmosfera da época em que se desenrola o enredo de "A Single Man". Estamos a 30 de Novembro de 1962, ou seja, em plena Guerra Fria, com a Crise dos Misseis de Cuba a encontrar-se bem presente na mente de alguns elementos, para além de existir uma certa paranóia em relação a um possível conflito nuclear entre EUA e URSS, como podemos observar na figura de Grant. O guarda-roupa, os carros, a decoração dos cenários interiores e os espaços exteriores evidenciam que existiu todo um cuidado para respeitar a época em que decorre o enredo, com estes elementos a tanto servirem para transmitir a atmosfera deste período como para incrementar a história de George, um indivíduo que se encontra preso ao passado e revela alguma incapacidade para combater as dores provocadas pela morte de Jim (Matthew Goode), aquele que foi o seu companheiro ao longo de dezasseis anos. Como ultrapassar a dor provocada por uma perda? George tarda em obter uma resposta para esta questão, com o protagonista a estar demasiado preso às memórias de outrora, enquanto demora em encontrar um motivo para viver sem a companhia do amado, com Colin Firth a compor um personagem que se encontra visivelmente deprimido e marcado pelo sentimento de perda.


 A relação de George e Jim era marcada por enorme cumplicidade, intimidade e imensas doses de afecto, algo exposto em diversos flashbacks, com Colin Firth e Matthew Goode a transmitirem os laços fortes que uniam os personagens que interpretam. Diga-se que apenas conhecemos Jim a partir dos pedaços das memórias de George (boa utilização do recurso da narração em off e dos flashbacks), com o protagonista a evidenciar que está claramente marcado pela perda do amado e pelo facto de não ter participado na homenagem fúnebre do mesmo. Veja-se quando encontramos George a sonhar que se dirige ao encontro do corpo de Jim, pouco tempo depois do acidente de viação que vitimara o amado, com a neve e as cores frias a cobrirem este cenário eivado de frieza e desesperança. A banda sonora adensa a profunda tristeza deste momento, até George acordar e perceber que tudo não passou de um sonho. Ao acordar, George percebe que a tinta preta de uma caneta sujou os lençóis brancos da sua cama, embora aquilo que mais parece marcar este personagem seja a morte do amado e o facto de não ter conseguido despedir-se do mesmo. Os pais de Jim não permitiram a presença de George no funeral devido a considerarem que a cerimónia fúnebre apenas deveria ser destinada aos "familiares" do falecido, algo que remete para a intolerância e os preconceitos em relação aos homossexuais. Tom Ford aborda essa intolerância de forma subtil (não é a orientação sexual que define os personagens), sempre sem deixar de expor como o desconhecimento e a falta de compreensão em relação aos envolvimentos de pessoas do mesmo sexo estão profundamente enraizados na sociedade. Veja-se quando encontramos Charlotte (Julianne Moore), a melhor amiga de George, a questionar o protagonista se o relacionamento que este tinha com Jim não era "um substituto de outra coisa", algo que o irrita profundamente. Charlotte sempre aceitou a orientação sexual do amigo, embora não deixe de exibir algumas dúvidas sobre os sentimentos que uniam o casal, algo que gera alguns momentos de tensão entre George e a amiga. Não se tenha a falsa ideia de que estamos diante de uma figura insensível, com Charlotte a estar longe de ser uma figura que é representada a "preto e branco", com Julianne Moore a imprimir um estilo extravagante, espirituoso e desiludido a esta mulher elegante, que aprecia imensos luxos, não tem problemas em dizer o que pensa e conta com um passado em comum com o protagonista (ambos namoraram quando eram mais jovens). Tanto George como Charlotte são originários de Inglaterra, com ambos a contarem com uma enorme cumplicidade, uma situação notória quando observamos o primeiro a contactar com a amiga após receber a notícia da morte de Jim, com Tom Ford a deixar o som da chuva a ritmar o momento, enquanto o professor universitário exibe a tristeza que percorre a sua alma.


 A cena em que George recebe a notícia da morte do amado é de partir o coração, com Tom Ford a jogar com os sentimentos do espectador e do personagem, enquanto contribui para Colin Firth ter um grande momento de interpretação. É uma cena marcada pela contenção na exposição dos sentimentos, com Colin Firth a exibir de forma subtil como a dor se apodera gradualmente de George. A respiração começa a ficar mais descontrolada, quase como se o ar estivesse mais pesado, enquanto as questões surgem de forma espontânea e o sentimento de perda começa a apoderar-se do corpo e da alma do protagonista. Segue-se o silêncio e uma tentativa de aguentar o sofrimento sozinho, até George perceber que precisa de desabafar com Charlotte. A chuva percorre os cenários e abafa as palavras proferidas por George e Charlotte, enquanto uma tempestade de sofrimento abala os alicerces deste professor universitário. O tempo passa, mais precisamente oito meses, mas não deixa de ser notório que está longe de ter curado as feridas que foram abertas na alma de George, com o protagonista a tardar em conseguir encontrar um antídoto para o sentimento de perda provocado pela morte do amado. Estamos diante de um indivíduo culto e ponderado, que se deixou consumir pelo passado e tarda em encontrar motivos para encarar o presente e perspectivar o futuro, com o acto de acordar a ser um suplício, algo que George salienta logo no início do filme ao comentar que "Nos últimos oito meses, acordar tem, na verdade, doído bastante". A narração em off permite inserir informação relevante e ampliar a ligação entre o espectador e o protagonista, quase como se estivéssemos a partilhar este dia marcante da vida de George. Diga-se que o dia deste indivíduo começa praticamente como todos os outros, com George a manter as suas rotinas e a tentar transmitir para o exterior que se encontra em perfeita harmonia, embora esteja a ponderar cometer suicídio. Veja-se o cuidado que George tem a fazer a barba, a dar lustro aos sapatos, a colocar a camisa engomada, até entrar no carro e partir em direcção à faculdade onde dá aulas e demonstra a sua desilusão em relação à falta de ambição dos seus alunos. Esse inconformismo é visível quando encontramos George a falar sobre o medo e as minorias, enquanto exibe a sua eloquência, expõe os preconceitos da sociedade e desperta a atenção de Kenny Potter (Nicholas Hoult), um estudante dotado de alguma inocência, que admira o professor e apresenta uma série de dúvidas em relação ao mundo que o rodeia. É um jovem ainda algo inocente, que a espaços traz à memória alguns traços de George durante a sua juventude, com Nicholas Hoult a transmitir eficazmente a candura deste personagem e a contar com uma dinâmica convincente com Colin Firth.


 A inocência de Kenny é adensada pelas cores da roupas que o jovem utiliza, com Tom Ford e a sua equipa a exibirem que existiu todo um cuidado para que o guarda-roupa permita sublinhar as características e sentimentos dos personagens. Kenny encontra-se regularmente vestido de branco, com esta tonalidade a reforçar a inocência e a pureza deste personagem que surge quase como uma página em branco de um livro que ainda está a começar a ser escrito. Veja-se ainda as roupas de Charlotte, maioritariamente caras e refinadas, prontas a exibir o materialismo desta mulher e a exacerbar a sua elegância, ou os fatos de George, quase sempre bem engomados e aprumados, enquanto transmitem a tentativa deste indivíduo em passar para o exterior a ideia de que se encontra estável. Nada parece ter sido deixado ao acaso, com a escolha das cores que sobressaem em diversos momentos do enredo de "A Single Man" a transmitirem esse aprumo que envolve o filme. Note-se o caso do momento em que Kenny e George se encontram num bar, numa situação que traz ecos das memórias deste último, com a cor encarnada a sobressair quer nos bancos deste estabelecimento, quer na toalha que cobre a mesa. É uma cor que remete para os sentimentos intensos que envolvem o encontro e adensa o calor emocional e a inquietação que se acerca da mente e da alma de George e Kenny, enquanto Tom Ford concede uma enorme atenção à troca de gestos e olhares destes personagens (muitas das vezes com recurso a close-ups), bem como ao meio que os rodeia, com tudo a contar com um significado e a não ser colocado no enredo ao acaso. Esta é uma das situações em que George volta momentaneamente a observar o mundo que o rodeia de forma mais quente e vivaz, algo que contrasta com boa parte das ocasiões em que a tristeza e a dor consomem as tonalidades dos episódios que protagoniza, com Tom Ford a utilizar as cores e a iluminação para exacerbar o estado de espírito deste professor universitário. Veja-se a forma como Tom Ford deixa que as tonalidades que pontuam os trechos do passado contem com características mais quentes e envolventes, algo que sublinha a intensidade da ligação entre Jim e George. Se essas cores são quentes no passado, já no presente o quotidiano de George é exposto muitas das vezes com tonalidades esbatidas, ou desprovidas de vida, com excepção das situações em que o protagonista aprecia os pequenos pormenores que a espaços contribuem para fazer esquecer as tristezas que abriram fortes feridas no interior da sua alma.


"A Single Man" é, também, um filme sobre aqueles pequenos momentos que podem não durar muito tempo, mas trazem a feliz sensação de que vale a pena continuar a viver, algo transmitido através de George, com o próprio a perceber isso quando menciona que: "Poucas vezes na minha vida tive momentos de absoluta clareza. Quando por alguns breves segundos o silêncio afoga o ruído. E eu consigo sentir. Em vez de pensar. E as coisas parecem tão nítidas. E o mundo parece tão fresco. É como se tudo se tornasse real. Nunca consigo que esses momentos durem. Agarro-me a eles, mas como tudo, eles esfumam-se. Eu vivi a minha vida desses momentos. Eles trazem-me de novo ao presente. E compreendo que tudo é exactamente como deve ser (...)". Esses momentos de "absoluta clareza" permitem que George observe o mundo que o rodeia de forma bem vivida. Veja-se quando encontramos George a observar alguns jovens a jogarem ténis em tronco nu, enquanto começa a ver tudo de forma mais luzidia e quente, ou o momento em que conhece Carlos (Jon Kortajarena), um acompanhante de origem espanhola, ou quando se encontra na companhia de Charlotte ou Kenny, ou os já mencionados flashbacks em que percebemos peremptoriamente a cumplicidade entre o protagonista e Jim. Tanto os momentos em que George observa os jogadores, como os trechos em que contempla Carlos ou Kenny evidenciam não só o prazer que este indivíduo encontra a encarar a beleza alheia, mas também a atenção que Tom Ford concede aos corpos, com o cineasta a representar os mesmos muitas das vezes como se fossem esculturas que se movem e provocam um efeito indelével no protagonista. Diga-se que a espaços Tom Ford incute laivos de erotismo a "A Single Man", com a forma como George observa o corpo desnudo de Kenny a corroborar essa situação. Note-se ainda o momento em que George dialoga com Carlos, com Tom Ford a encontrar uma estranha poesia num cenário poluído e amplamente marcado por um poster de "Psycho". Colin Firth é exímio a transmitir imenso com os seus gestos e olhares, com o actor a evidenciar o efeito que Carlos provocou em George, enquanto um poster de "Psycho" surge como uma estranha (e observadora) testemunha deste encontro e uma mescla de tons cor de rosa e roxo invade o céu e contribui para inserir um efeito inebriante a este episódio no qual os dois personagens fumam, dialogam e esboçam um leve jogo de sedução.


Se os momentos entre George e Carlos, bem como entre o protagonista e Kenny contam com algumas doses de sedução, já os trechos que o protagonista divide com Charlotte permitem discernir que estamos diante de uma dupla que conta com uma amizade forte e se conhece bastante bem. Essa relação peculiar é particularmente evidente quando George janta em casa de Charlotte, com ambos a partilharem alguns momentos pontuados por uma miríade de sentimentos. Dançam, riem, zangam-se, comem, trocam graçolas e comentários mais ríspidos, com a casa a surgir como uma testemunha destes momentos marcantes. É um espaço dotado de enormes luxos, que traduz na perfeição o estilo de vida algo superficial desta mulher e a sua solidão, com Julianne Moore a compor uma figura que se encontra bastante presa ao passado. Charlotte é divorciada, tem uma relação afastada com o filho e uma série de sonhos que se desfizeram com o passar do tempo, com George a ser a única grande amizade que esta manteve ao longo dos anos. O momento em que George e Charlotte dançam é de enorme leveza, embora a espaços sejamos envolvidos por uma sensação de melancolia, ou não soubéssemos que o primeiro planeou o seu suicídio de forma cuidada. A ideia de antecipar a morte está presente desde cedo na mente de George, com este a evidenciar uma enorme dificuldade em lidar com o luto e a solidão, apesar de a espaços protagonizar alguns pequenos momentos que lhe permitem trazer algum prazer em viver, sejam estes a companhia de Kenny ou Charlotte, ou receber um afia, ou uma brincadeira com um fox terrier que lhe traz gratas recordações. Colin Firth é sublime a transmitir a dor, a solidão e os sentimentos inquietos do personagem que interpreta, com o actor a incutir um tom sincero às suas falas e a expressar imenso quando deixa George exteriorizar aquilo que lhe vai na alma através dos seus gestos e olhares. Estamos diante de uma obra cinematográfica que sabe como mexer com os nossos sentimentos, dotada de uma banda sonora inebriante e uma interpretação magistral de Colin Firth, com Tom Ford a não descurar a atenção aos gestos e aos pequenos detalhes, enquanto nos apresenta a um protagonista profundamente humano e realiza um filme belíssimo que aborda temas como o luto, a depressão, as tentativas de suicídio, o valor dos pequenos momentos, sempre com enorme classe e imenso estilo.


Título original: "A Single Man".
Título em Portugal: "Um Homem Singular".
Realizador: Tom Ford.
Argumento: Tom Ford e David Scearce (tendo como base o livro "A Single Man", de Christopher Isherwood).
Elenco: Colin Firth, Julianne Moore, Matthew Goode, Nicholas Hoult, Lee Pace.

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