04 junho 2017

Resenha Crítica: "Nocturnal Animals" (Animais Noturnos)

 A chegada do manuscrito de um livro escrito por Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), o seu ex-marido, altera momentaneamente a vida de Susan Morrow (Amy Adams), com a protagonista de "Nocturnal Animals" a sentir-se compelida a reflectir sobre o seu passado e o seu presente, enquanto se embrenha pela intensa história da obra literária. É entre o presente, o passado e a história do livro escrito por Edward Sheffield que se desenrola o enredo de "Nocturnal Animals", a segunda longa-metragem realizada por Tom Ford, com o cineasta a confirmar que os excelentes apontamentos deixados em "A Single Man" não foram obra do acaso. O estilo e a substância são enormes aliados em "Nocturnal Animals", com Tom Ford e a sua equipa a criarem uma atmosfera que tanto tem de inebriante como de inquietante, ou não estivéssemos diante de um thriller psicológico onde a violência emocional é muitas das vezes sentida e as vinganças trazem os resultados mais inesperados ou reflectem o virar de uma página negra de alguém que se sentiu traído. É uma vingança que emerge da solidão e desesperança, que surge praticamente como símbolo do findar de um amor que se quebrou de forma dolorosa, com "Nocturnal Animals" a contar com uma atmosfera de malaise muito típica dos filmes noir. Diga-se que estamos diante de um neo-noir com traços de thriller psicológico, com Tom Ford a colocar-nos diante de um enredo pontuado por personagens de carácter dúbio, traições e um certo pessimismo a envolver as relações humanas. A habitação de Susan reflecte esse pessimismo, mas também a frieza da relação que esta mantém com Hutton Morrow (Armie Hammer), o seu esposo, com o casal a suportar um matrimónio marcado pela falta de amor, bem como pela necessidade de manter as aparências. É uma mansão dotada de imenso espaço e decoração moderna, pontuada por tonalidades drenadas de vida que adensam a solidão sentida por Susan e a falta de afecto e desejo que grassa por esta casa, com o trabalho de Meg Everist na decoração dos cenários e de Christopher Brown na direcção de arte a contribuir para elevar "Nocturnal Animals". A própria iluminação, ou falta dela, contribui não só para incrementar essa atmosfera algo pessimista que envolve a casa de Susan, mas também para adensar a faceta intrigante desta obra cinematográfica e o hábito da personagem interpretada por Amy Adams de ficar acordada durante a noite, enquanto permanece presa aos seus pensamentos e à leitura do manuscrito.


 Susan possui uma galeria de arte, veste-se de forma elegante e procura manter um casamento marcado pela infelicidade e pela amarga sensação de que as escolhas efectuadas no passado nem sempre foram as melhores. A infelicidade marca o quotidiano de Susan, com o sucesso profissional a não parecer contribuir para lhe trazer alegria, enquanto mantém uma relação aparentemente distante com a filha (India Menuez) e depara-se com a incapacidade de recuperar a chama que a mantinha unida ao esposo. Hutton descura constantemente a esposa e não tem problemas em traí-la, com Armie Hammer a interpretar o personagem mais unidimensional do filme (arrisco-me a dizer que é o ponto fraco de "Nocturnal Animals"). Se Armie Hammer pouco ou nada tem para fazer em "Nocturnal Animals" para além de exibir a sua estampa física e interpretar um elemento adúltero, já Amy Adams conta com uma das personagens mais complexas e atormentadas do filme. Amy Adams compõe uma personagem simultaneamente frágil e capaz de magoar aqueles que a rodeiam, que esconde no seu pragmatismo uma falta de confiança notória que acaba por afectar as suas decisões. Esta é ainda atormentada pela noção de que se tornou naquilo que repudiou durante uma fase da sua vida, ou seja, semelhante à sua mãe (Laura Linney), com ambas a partilharem uma faceta materialista. Diga-se que Susan é um exemplo paradigmático dos personagens de carácter ambíguo que povoam o enredo de "Nocturnal Animals", com Amy Adams a transmitir a complexidade desta figura feminina que está a atravessar uma crise e gosta de ficar acordada durante a noite. Edward não intitulou a sua obra literária ao acaso, com o título, nomeadamente, "Nocturnal Animals", a remeter para a alcunha que colocava à sua ex-mulher ao mesmo tempo que reflecte a faceta pessoal do conteúdo do manuscrito. As histórias dos personagens do manuscrito e os episódios vividos por Susan e Edward parecem não estar directamente interligados, embora contem com mais pontos em comum do que podemos esperar. Num determinado momento de "Nocturnal Animals", Edward salienta a Susan que "Todos escrevem sobre si mesmos". Ao terminarmos de visualizar os acontecimentos que envolvem a história do manuscrito que Susan se encontra a ler, não só percebemos que a obra mexeu de forma indelével com a protagonista, mas também que Edward tem neste livro uma espécie de bálsamo onde expõe as suas inquietações e os seus traumas de forma feroz. Aos poucos ficamos a conhecer a história desta mulher, mas também dos personagens que povoam o livro, bem como dos contornos que conduziram à união e separação de Susan e Edward, com Tom Ford a costurar com classe e acerto as três "faces" da narrativa de "Nocturnal Animals".


Os raccords que unem as três facetas do enredo são executados com eficácia e algumas doses de inspiração, com a leitura de um livro a poder ligar um episódio do presente com outro do passado, ou um banho unir um trecho do manuscrito e da história de Susan, com Tom Ford a ter o cuidado de colocar as diferentes vertentes do filme em diálogo. Veja-se ainda quando encontramos duas personagens do livro a serem raptadas, pouco tempo antes de Susan ter ouvido ao telemóvel que o esposo está acompanhado por uma mulher, com o sentimento de perda e impotência a envolver os dois episódios mencionados. Esse diálogo é ainda mais notório se tivermos em conta o papel fundamental que a relação entre Edward e Susan teve para a escrita do livro, com Tom Ford a hipnotizar-nos para o interior destes planos distintos do enredo de "Nocturnal Animals", com todos a contarem com motivos de interesse. Note-se o poder provocado pelos episódios que decorrem no manuscrito da autoria de Edward, com a história da obra literária a conter assassinatos, fugas falhadas, violações, vinganças, personagens moralmente ambíguos e momentos de pura claustrofobia. Tom Ford consegue despertar a sensação de medo e receio no espectador, bem como de revolta, enquanto deixa Jake Gyllenhaal, Michael Shannon e um surpreendente Aaron Taylor-Johnson terem interpretações de grande nível. Jake Gyllenhaal convence no papel duplo que tem em "Nocturnal Animals", embora, nesta fase do texto, o enfoque esteja no trabalho do actor como Tony Hastings, um indivíduo que se depara com uma situação física e emocionalmente violenta, nomeadamente, quando o seu veículo é atacado pelo gang de Ray Marcus (Aaron Taylor-Johnson). No interior do veículo encontravam-se não só Tony, mas também Laura (Isla Fisher), a sua esposa, bem como India (Ellie Bamber), a filha do casal, com o trio a ser abordado durante a noite e colocado diante de situações inquietantes. A escuridão da noite exacerba a insegurança, tal como o facto dos telemóveis não terem rede na zona por onde Tony e a família circulam, com "Nocturnal Animals" a deixar-nos perante momentos intensos e revoltantes, enquanto coloca os nervos destes personagens em franja e deixa Aaron Taylor-Johnson explanar o niilismo, violência e loucura de Ray Marcus. Aaron Taylor-Johnson compõe um personagem perturbador, que tanto é capaz de despertar um sorriso nervoso como a repulsa, com o actor a ter a oportunidade de se exibir a um nível que raramente observámos ao longo da sua carreira. Vale ainda a pena realçar que a história do manuscrito permite ainda que Michael Shannon tenha mais uma interpretação de se tirar o chapéu, com o actor a dar vida a Bobby Andes, um tenente violento que se rege por valores muito próprios e padece de uma doença terminal (algo que adensa o seu desejo de efectuar justiça pelas próprias mãos).


Se cenários como a galeria de Susan transmitem uma certa sensação de impessoalidade e frialdade, com as tonalidades brancas a dominarem, já as zonas do Texas em que se desenrola a investigação protagonizada por Andes contam com características mais quentes e selvagens, prontas a exacerbarem as especificidades dos personagens que circulam por estes espaços e os sentimentos inquietos que perpassam pela alma dos mesmos. Estes dois exemplos permitem realçar novamente o bom trabalho que é feito quer no aproveitamento e decoração dos cenários interiores, quer na escolha dos espaços externos, com as áreas do Texas em que decorrem os episódios do manuscrito a contrastarem de sobremaneira com os locais de Los Angeles em que se desenrolam os acontecimentos do presente e do passado. A unir o cenário do Texas com a galeria e a casa de Susan está a sensação de isolamento, com Tom Ford a utilizar estes espaços grandiosos para exacerbar a solidão de alguns dos personagens, enquanto os deixa perdidos no interior dos seus pensamentos. Essa solitude parece contribuir ainda mais para a forma bem viva como Susan se embrenha pelo manuscrito da autoria do ex-marido, enquanto somos colocados diante da ferocidade que contamina todos os poros da obra literária. A história do livro de Edward conta com contornos negros e uma violência emocional que envolve os protagonistas e perpassa para o espectador, enquanto o escritor procura comunicar com a ex-mulher através de um manuscrito que diz muito sobre a forma como lidou com o processo de separação. Oriundos do Texas, Edward e Susan iniciaram um romance quando ainda eram jovens e tinham alguns planos para o futuro. Edward pretendia ser escritor, enquanto que Susan tinha a certeza de que não poderia ser uma artista, com ambos a contarem com uma simplicidade notória. A passagem do tempo e as mudanças de objectivos de vida por parte de Susan conduzem a algumas fissuras no relacionamento do casal, com o envolvimento da protagonista com Hutton a surgir como uma das estocadas finais no matrimónio. A estocada final terá sido muito certamente o facto de Susan ter cometido aborto sem avisar o cônjuge, com o escritor a transportar a dor provocada por esta dupla perda para o interior do manuscrito. Edward e Susan dialogaram muito pouco ao longo dos anos, mas a chegada do manuscrito traz toda uma carga emocional que se desfolha de página para página e compele a protagonista a ponderar os seus actos do passado e do presente. Esse regressar às memórias do passado conduz Susan a perscrutar os seus actos de outrora com uma perspectiva distinta, com o livro escrito por Edward a mexer imenso com a protagonista (e o espectador).


Nunca conhecemos Edward pessoalmente durante os trechos que se desenrolam no presente, embora as cenas que decorrem no passado permitam que Jake Gyllenhaal crie um personagem bem intencionado e afável que aos poucos é consumido por alguma amargura devido aos revezes que conhece, com o livro a simbolizar a cicatrização de algumas feridas que muito provavelmente tardavam em sarar. Diga-se que Tony Hastings também tem de lidar com a dor e o sentimento de perda, com Edward a transportar os seus sentimentos para o personagem que criou, ainda que estes sejam sentidos num contexto diferente. Também Susan está emocionalmente fragilizada quer por um casamento que se encontra no seu ocaso, quer pela chegada de um manuscrito que reacende questões antigas. Ainda no primeiro terço de "Nocturnal Animals", encontramos uma caixa de madeira no interior da casa de Susan e Hutton que conta com a indicação de que no seu interior se encontra material frágil. Estamos perante um excelente indicador do estado emocional da protagonista, com Amy Adams a transmitir que estamos diante de uma figura solitária e complexa, com a actriz a destacar-se quer nas cenas do presente, quer nas do passado. O argumento e a atenção de Tom Ford aos pormenores que rodeiam a protagonista também contribuem para essa complexidade de Susan. Veja-se quando encontramos Susan a retirar o batom carregado que tinha nos lábios (a ficar com uma maquilhagem mais simples, ou seja, como nos trechos do passado), ou a colocar um vestido de tonalidade verde para ir a um encontro (símbolo da esperança que esta tem em recuperar algo de outrora), ou a presença de elementos vermelhos a rodearem a protagonista em alguns momentos do filme (exacerbador da confusão sentimental desta mulher e exemplo paradigmático da boa utilização da paleta cromática), entre outros exemplos que contribuem para sublinhar o estado de espírito da personagem principal. Note-se ainda os planos poderosos nos quais Tom Ford afasta a câmara da protagonista e acentua a solidão desta mulher no interior de um restaurante, enquanto a banda sonora sublinha a melancolia e tristeza que envolve o momento e alguns close-ups sobre o rosto de Amy Adams provocam um efeito devastador, com "Nocturnal Animals" a conseguir transportar-nos de forma quase hipnótica para as diferentes facetas da sua narrativa. Os três enredos distintos são reunidos com imenso acerto, enquanto as relações entre os personagens são maioritariamente bem desenvolvidas e a banda sonora contribui para imprimir um cunho simultaneamente inebriante e intenso a esta obra cinematográfica dotada de algum mistério, personagens pontuados por complexidade e um guarda-roupa que merecia um texto praticamente à parte (tal o aprumo neste quesito), com "Nocturnal Animals" a surgir como uma excelente confirmação do talento de Tom Ford como realizador.


Título original: "Nocturnal Animals".
Título em Portugal: "Animais Noturnos".
Realizador: Tom Ford.
Argumento: Tom Ford (inspirado no livro "Tony and Susan").
Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Armie Hammer, Michael Shannon, Isla Fisher, Aaron Taylor-Johnson, Ellie Bamber, Laura Linney, India Menuez.

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