30 junho 2017

Resenha Crítica: "Corpo Celeste" (2011)

 Num determinado momento de "Corpo Celeste", Marta (Yle Vianello), a protagonista da primeira longa-metragem realizada por Alice Rohrwacher, tenta perceber o que significa a expressão: "Eli, Eli lema sabachthani". Mais tarde, a jovem pré-adolescente descobre que "Eli, Eli lema sabachthani" significa "Meu Deus, por que me abandonaste?", mas, no momento em que a protagonista efectua esta questão, Santa (Pasqualina Scuncia), a sua catequista, evita responder à pergunta. Mais do que procurar responder às questões da jovem, Santa tenta que os catequistas em formação decorem as orações e cumpram as regras, algo que contribui para alguns atritos entre esta e a protagonista. Marta é uma pré-adolescente questionadora e observadora, que conta com uns olhos azuis bastante expressivos e está a lidar com as mudanças do seu corpo, a descobrir a cidade onde nasceu e a contactar com uma nova cultura. É uma cultura de contradições, onde a modernidade e a tradição se reúnem, seja nos valores dos seus habitantes ou nos edifícios, com Alice Rohrwacher a conseguir evidenciar as dicotomias deste território e a forma como este influencia e é influenciado pelos seus cidadãos (algo que a cineasta repete em "Le meraviglie", a sua segunda longa-metragem). Veja-se o caso da igreja onde Marta tem as aulas de catequese, um espaço onde tanto são efectuadas práticas tradicionais como iniciativas modernas que visam conquistar os mais novos, com o próprio edifício religioso a conter no seu interior as marcas deste ziguezague entre a modernidade e a tradição. Note-se o crucifixo com néones azuis, bastante moderno embora seja visto com um certo despeito quer pelo padre da paróquia, quer por alguns paroquianos, com a ideia do primeiro em trazer um objecto mais tradicional a encher alguns crentes de alegria. Estamos em plena cidade de Reggio Calabria, exposta com uma mescla de encanto e desencanto por Alice Rohrwacher, quase sempre a partir do olhar de Marta. É Marta quem a câmara de filmar acompanha de forma atenta, com os planos a concentrarem-se imenso nesta jovem, bem como naquilo que esta observa, seja uma procissão, o interior da igreja ou os locais praticamente abandonados em que a população despeja o lixo, nomeadamente os espaços que pertencem a rios que se encontram quase secos. Este território também conta com uma certa secura, com as suas características a adensarem o sentimento de alienação e solidão de Marta, enquanto esta procura lidar com as mudanças e sensações típicas da idade, tais como as transformações corporais, para além de ter de suportar as constantes ausências da mãe (Rita, interpretada por Anita Caprioli) e o mau feitio da irmã (Rosa, interpretada por Maria Luisa De Crescenzo)


 Yle Vianello é um achado, com a jovem intérprete a conseguir demonstrar a capacidade de observação e a curiosidade de Marta, bem como o sentimento de alienação que percorre a alma da protagonista. Alice Rohrwacher dota o quotidiano desta jovem de pequenos episódios que marcam a existência da protagonista e a narrativa, tais como o momento em que corta o cabelo, ou o encontro fortuito com Don Lorenzo (Renato Carpentieri), um padre experiente, em Africo Vecchio. Se o corte de cabelo indica uma certa rebeldia e surge como um acto tanto de afirmação como de quebra com o passado, já o encontro com Don Lorenzo permite que Marta contacte com uma visão distinta e mais sincera da fé, fora do aparato das festividades da igreja local e dos jogos de interesse protagonizados por Don Mario (Salvatore Cantalupo), o padre que lidera o espaço onde a protagonista efectua a catequese. Marta está na catequese, prestes a cumprir a Crisma, algo que efectua mais por ser um hábito local e um meio para os jovens conviverem do que pela religiosidade da progenitora. Rita representa uma das muitas emigrantes que regressam a casa em busca do amparo que não encontraram num país estrangeiro, embora não deixe de se sentir algo distanciada deste território e a necessitar de se adaptar ao mesmo, tal como acontece com a protagonista. Marta, Rosa e a mãe estiveram dez anos a viver na Suíça, com Rita a retornar a Reggio Calabria devido a necessitar do apoio da família e de um emprego, embora este regresso esteja longe de apenas ser marcado por facilidades. A mãe de Marta apresenta uma atitude afável, ponderada e pouco conservadora, com Anita Caprioli a contribuir para que acreditemos na sensibilidade da personagem que interpreta e no gosto que Rita tem em estar com as filhas, embora tenha pouco tempo para conviver com as mesmas. Diga-se que "Corpo Celeste" desenvolve a relação entre Rita e Marta com enorme sensibilidade, algo que fica paradigmaticamente demonstrado nas cenas de maior afecto entre mãe e filha, pontuadas por alguma delicadeza e tons mais quentes, com Anita Caprioli e Yle Vianello a convencerem-nos de que existem laços fortes a unirem as personagens que interpretam. Já a relação entre Marta e Rosa, a sua irmã mais velha, é marcada por enorme turbulência e situações de algum atrito, com a segunda a apresentar uma inolvidável falta de paciência para com a irmã. Alice Rohrwacher poderia cair em facilitismos e representar Rosa como uma figura unidimensional, que apenas se limita a gritar e a ser desagradável para com Marta, embora, aos poucos, seja notório que estamos diante de uma jovem adulta que procura acima de tudo defender a mãe e apresenta uma impetuosidade que resulta sobretudo da sua inexperiência e imaturidade.


 Alice Rohrwacher insere alguma dimensão a quase todos os personagens de relevo, com o conhecimento que adquirimos em relação a cada elemento a evidenciar esse cuidado em atribuir complexidade às figuras que povoam o enredo e aos seus actos, mesmo quando não os compreendemos na totalidade. Essa situação é particularmente visível no caso de Santa, uma figura rígida, que procura acima de tudo que os catequistas decorem os textos sagrados e evidencia uma estranha devoção por Don Mario. Vestida quase sempre de forma conservadora, com as suas roupas a sublinharem a sua conduta e os seus comportamentos diários, Pasqualina Scuncia compõe uma personagem que tanto tem de superficial e rígida como de frágil e complexa. Santa dedica boa parte do seu tempo à igreja e a Don Mario, mesmo quando é desprezada por este último e por outros elementos do clero, com as frustrações e as desilusões a marcarem o quotidiano desta mulher de forma recorrente. A exposição dessas desilusões e de alguns dos anseios e desejos de Santa permite atribuir uma dimensão acrescida a alguns dos comportamentos e atitudes da catequista, com "Corpo Celeste" a demonstrar que existe algo mais profundo e intrincado a envolver esta mulher. Santa é uma das várias personagens do filme que permitem efectuar um contraste entre os actos e as atitudes que praticam com os textos sagrados que professam, com "Corpo Celeste" a expor algumas das hipocrisias da Igreja e dos crentes. Veja-se quando encontramos Santa a falar no "perdão dos pecados", embora desfira uma "bofetada simbólica" e violenta na face de Marta, naquele que é um momento de maior tensão, ou o caso de Don Mario, um padre que se encontra desmotivado e desalentado. Salvatore Cantalupo transmite a frustração constante de Don Mario e a sua preocupação em atrair votos para um candidato político local, com o padre a descurar imenso os valores que deveriam reger o seu ofício. Ainda tenta transferir-se e organizar actividades que lhe tragam reconhecimento, tal como trazer um crucifixo de uma igreja abandonada da sua aldeia, mas o seu descomprometimento para com a causa é evidente, embora tente cumprir com os objectivos mínimos. Esse descomprometimento é visível na forma constante como deixa que o telemóvel toque insistentemente, algo que indica um certo desprezo para com aquilo ou aqueles que o rodeiam, ou quando demonstra o seu desejo em ser transferido para uma igreja mais importante. O momento em que se desloca sozinho para o seu quarto, durante a noite, permite explanar paradigmaticamente que estamos diante de uma figura solitária que se encontra presa às suas desilusões e frustrações, que pretende algo mais para a sua vida embora pareça estar destinado a permanecer nesta pequena igreja. 


 Marta ainda chega a protagonizar uma estranha viagem ao lado de Don Mario, onde conhece um lado distinto de Reggio Calabria, nomeadamente, um espaço quase abandonado e representativo das dicotomias deste território. Não faltam espaços verdejantes, casas abandonadas e uma sensação de abandono e alienação, com Alice Rohrwacher a captar as características destes cenários exteriores com enorme precisão. Essas especificidades são ainda visíveis nas imediações da casa de Marta, com os rituais e os hábitos tradicionais a reunirem-se com elementos modernos, sejam estes um placard a anunciar a proximidade de uma loja da Media Markt, ou a venda de balões do Homem-Aranha numa procissão. O contexto que envolve o território também não é esquecido, com as eleições autárquicas a dominarem os noticiários e a influenciarem alguns personagens, enquanto que as notícias da chegada e morte de diversos migrantes contribuem para alguns comentários menos felizes por parte dos locais. Veja-se o caso de Fortunata (Paola Lavini), a tia de Marta e Rosa, com esta mulher a não ter problemas em salientar que não compra peixe do Mediterrâneo por considerar que nunca se sabe o que está a comer devido aos elementos que morrem afogados no mar. Fortunata é mãe de Deborah (Maria Trunfio), uma rapariga mais nova do que Marta, que aprecia as actividades da catequese e é o orgulho dos seus pais, com a jovem a apresentar uma ingenuidade que a protagonista está a perder de forma gradual. São estes personagens que ficamos a conhecer em "Corpo Celeste", bem como uma parcela do território de Reggio Calabria, exposta de forma bem distinta em relação àquilo que é demonstrado nos cartões postais, com Alice Rohrwacher a inserir a realidade local no interior da "realidade" da narrativa do filme (a importância da igreja, o regresso dos emigrantes, as mortes dos migrantes no Mediterrâneo, o esgueirar deste território pelas fronteiras da modernidade e da tradição), enquanto nos deixa diante das descobertas de Marta. Esta é o grande destaque de "Corpo Celeste", com o argumento a revelar um enorme aprumo a abordar temáticas associadas às descobertas que a jovem está a efectuar e a desenvolver as dinâmicas da protagonista com aqueles que a rodeiam. Marta ainda está a descobrir o seu corpo e as contradições e especificidades do território e das gentes que a rodeiam, enquanto forma a sua personalidade e depara-se com uma série de pequenas situações que ganham enorme significado ao longo deste drama sublime que coloca Alice Rohrwacher como uma cineasta e argumentista a ter em enorme atenção.  


Título original: "Corpo Celeste".
Realizadora: Alice Rohrwacher.
Argumento: Alice Rohrwacher.
Elenco: Yle Vianello, Anita Caprioli, Salvatore Cantalupo, Pasqualina Scuncia, Maria Luisa De Crescenzo, Renato Carpentieri, Paola Lavini, Maria Trunfio.

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