08 junho 2017

Resenha Crítica: "Chevalier" (2015)

 "Chevalier" é o título da terceira longa-metragem realizada por Athina Rachel Tsangari e do jogo disputado pelos personagens que pontuam esta obra cinematográfica que aborda os comportamentos masculinos com enorme acidez e sentido crítico, com a cineasta a colocar os protagonistas em ebulição enquanto estes revelam inadvertidamente as suas inseguranças e tentam demonstrar algumas das suas supostas qualidades. É um grupo heterogéneo, embora quase todos os elementos contem com ligações entre si, algumas mais claras do que outras, com "Chevalier" a revelar gradualmente os laços que unem os personagens principais e aquilo que os separa. Inicialmente parece que estamos diante de um grupo de amigos que se reúne para pescar, conviver e libertar a sua "masculinidade" em pleno mar Egeu, longe daqueles que os rodeiam e dos códigos de conduta que marcam o quotidiano dos seis personagens principais, embora, aos poucos, seja notório que existe algum ressentimento e rivalidade a marcar as relações de Yorgos (Panos Koronis), Josef (Vangelis Mourikis), Dimitris (Makis Papadimitriou), Yannis (Yorgos Pirpassopoulos), Christos (Sakis Rouvas) e um indivíduo que apenas conhecemos como Doutor (Yiorgos Kendros). O elenco contribui com interpretações sólidas, com cada intérprete a conseguir transmitir as especificidades dos personagens que interpretam e explanar que aos poucos cada elemento deste grupo parece ter sido consumido por um estranho sentimento de competitividade que remete e muito para o neoliberalismo selvagem e para alguns problemas intrínsecos à nossa sociedade. Diga-se que Athina Rachel Tsangari aborda essa competitividade selvagem com laivos de genialidade, sobretudo quando deixa o absurdo tomar conta do enredo e desarma o espectador com situações que tanto têm de surreais e exageradas como de plenamente plausíveis. Veja-se quando encontramos um personagem a agradecer à esposa por ter mentido ao telemóvel, com o casal a transmitir a falsa ideia de que a relação vive uma fase saudável, quando acontece precisamente o contrário, algo que remete para a dicotomia entre o ser e o parecer que marca a nossa sociedade. Claro que Athina Rachel Tsangari leva a competitividade dos elementos deste grupo ao extremo, ou não estivéssemos perante personagens que a partir de determinado momento começam a comparar erecções e o tamanho do pénis (a forma como alguns elementos tentam colocar a "máquina a trabalhar" é simultaneamente cómica e deprimente), ou a avaliar o modo de dormir de cada um. Esta competitividade explosiva advém do Chevalier, um jogo proposto por Christos que consiste em cada elemento lançar um desafio que permita uma competição entre os diversos integrantes do grupo, nomeadamente, provas físicas, ou um desafio mental, com os concorrentes a avaliarem-se uns aos outros.


 O vencedor recebe um anel Chevalier, um troféu simbólico, embora aquilo que pareça estar em jogo seja o orgulho e o ego de cada personagem, sobretudo a partir do momento em que o desafio proposto por Christos recebe uma adenda: os concorrentes devem avaliar-se em relação a tudo aquilo que fazem. A adenda é proposta por Yorgos e apimenta e de que maneira o jogo, ou não estivesse em disputa o epíteto de "melhor" do grupo. Quando contactamos pela primeira vez com estes personagens ficamos com a falsa sensação de que estamos diante de um grupo unido. Os vários planos de conjunto dão a ideia de que Christos, Yorgos, Yannis, Josef, Dimitris e o Doutor são praticamente inseparáveis, algo adensado pela exposição de pequenos actos protagonizados pelos personagens mencionados, tais como ajudarem-se uns aos outros a tirarem os equipamentos de mergulho, ou pousarem para uma fotografia com os peixes que pescaram, embora este espírito de grupo seja um ledo engano que o argumento destrói de forma progressiva, sobretudo quando quase todos os personagens começam a jogar para os pontos. Para além das situações já mencionadas, não faltam personagens a treinarem discursos para transmitirem uma sensação de sinceridade nas suas falas, ou elementos a fumarem às escondidas para não perderem pontos, ou falsas demonstrações de simpatia que visam a obtenção da confiança daqueles que são simultaneamente amigos e adversários. Aos poucos, os ânimos começam a exaltar-se, com o jogo a trazer ao de cima rivalidades antigas, animosidades reprimidas e uma feroz disputa de egos. O jogo exacerba também as inseguranças de cada um destes personagens. Veja-se a já mencionada medição de pénis, ou a necessidade que Christos tem de se afirmar diante do espelho, um acto que evidencia de forma clara as inseguranças deste indivíduo. Temos ainda o momento em que Yannis decide salientar que vendeu cento e setenta apólices de seguro no espaço de um ano, tendo em vista a afirmar-se e a tentar afastar os comentários sobre o facto de não conseguir engravidar a esposa. Diga-se que a esposa de Yannis é Anna, a filha do Doutor, e ex-namorada de Christos, algo que desperta alguma animosidade entre o primeiro e este último. Veja-se quando Yannis liberta os ressentimentos que se encontravam contidos no âmago da sua alma, com Yorgos Pirpassopoulos a protagonizar alguns momentos intensos e a explanar o lado mais mesquinho do personagem que interpreta, sobretudo quando este resolve expor alguns pormenores relacionados com o envolvimento que Christos manteve com Anna. Christos transmite uma certa segurança exterior, embora também conte com uma série de fragilidades, tendo no Doutor uma figura com quem pode dialogar. O Doutor é um médico respeitado, discreto e veterano, que mantém uma parceria profissional com Christos. Por sua vez, Yorgos surge como um elemento relativamente carismático, que obtém a confiança de diversos integrantes do grupo e procura conquistar o apoio daqueles que o rodeiam. Yorgos é sócio de longa data de Josef, com quem mantém uma relação de grande proximidade, embora a participação no jogo contribua para alguns desaguisados entre estes dois personagens.


 O elemento do grupo que evidencia menos problemas em expor algumas das suas fragilidades é Dimitris, o irmão de Yannis, com Makis Papadimitriou a compor um personagem que desperta alguma empatia. Essa empatia pode remeter para a nossa propensão para defender os elementos mais frágeis, embora quase todos os personagens de "Chevalier" tenham fragilidades e inseguranças. São essas fragilidades que ficamos a conhecer, mas também os traços da personalidade de cada um destes personagens e a forma como lidam com uma competição que mexe com o seu ego. Se Yannis e Christos deixam em alguns momentos as suas fragilidades surgirem ao de cima, seja em público ou quando estão sozinhos, com o nervosismo a levar a melhor em relação a uma suposta amizade, já Dimitris tem neste jogo uma forma de superar alguns dos seus receios. Veja-se quando decide dançar e fazer playback em público, ou a forma como opta por efectuar um corte doloroso. O jogo que dá título ao filme exacerba as rivalidades entre estes seis personagens, com Athina Rachel Tsangari a transformar uma viagem de pesca aparentemente calma num desafio onde os níveis de testosterona são elevados e a competitividade atinge níveis absurdos. O enredo decorre maioritariamente entre o iate e os espaços que o rodeiam, nomeadamente, o mar Egeu, com este último a tanto trazer uma sensação de liberdade como de clausura. A partir do momento em que estes elementos iniciam o jogo, o mar parece contribuir para adensar a sensação de que estamos num espaço quase à parte, relativamente fechado, dotado de regras muito próprias, onde a competitividade do mundo laboral e da nossa sociedade é transportada para o plano privado. Já o espaço do iate surge tanto como um palco para diversas situações de lazer como para disputas acirradas, com os luxos a pontuarem o interior do veículo, mas também a presença de um cozinheiro e do seu ajudante, uma dupla que contribui para alguns momentos de humor. Diga-se que o humor está muito presente ao longo do filme, com "Chevalier" a desconstruir a figura masculina e o "macho alpha", enquanto joga com com alguns comportamentos dos homens quer para efectuar comentários sobre os mesmos, quer para satirizá-los. Athina Rachel Tsangari cria assim um universo narrativo habitado maioritariamente por homens, enquanto joga com as interacções dos personagens, expõe-os ao ridículo e deixa-os a exibirem as suas fragilidades, defeitos e virtudes, sempre com alguns comentários sociais à mistura. Ficamos diante de um interessante estudo sobre a masculinidade e a sociedade contemporânea, sempre com alguma sátira e doses generosas de situações absurdas à mistura, com "Chevalier" a confirmar alguns dos bons indicadores que Athina Rachel Tsangari tinha deixado em "Attenberg".

Título original: "Chevalier".
Realizador: Athina Rachel Tsangari.
Argumento: Athina Rachel Tsangari e Efthymis Filippou.
Elenco: Vangelis Mourikis, Yorgos Pirpassopoulos, Yiorgos Kendros, Sakis Rouvas, Makis Papadimitriou, Panos Koronis.

O filme foi visto no Filmin Portugal: https://www.filmin.pt/filme/chevalier/19555

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