27 junho 2017

Resenha Crítica: "Bakemono no ko" (O Rapaz e o Monstro)

 A importância da amizade é uma temática transversal a diversos trabalhos de Mamoru Hosoda, tais como "One piece: Omatsuri danshaku to himitsu no shima", "Toki o kakeru shôjo" e "Samâ uôzu", com "Bakemono no ko" (em Portugal, "O Rapaz e o Monstro") a não ser diferente. Estamos diante de mais uma demonstração da capacidade de Mamoru Hosoda para abordar e desenvolver as relações de amizade com enorme precisão, bem como os efeitos que estas provocam nos personagens principais, sempre com algum humor, aventura, romance e situações dramáticas à mistura, enquanto consegue que nos afeiçoemos aos protagonistas deste filme de animação. Os protagonistas que despertam a nossa atenção e simpatia são Ren e Kumatetsu, dois underdogs que pertencem a mundos distintos. Ren é um jovem de nove anos de idade, solitário, rebelde e respondão, que perdeu recentemente a mãe e não sabe o paradeiro do pai, com as dúvidas e o sentimento de perda a conduzirem-no a fugir dos seus guardiões legais. Quando se encontrava a vaguear pelas ruas de Shibuya, praticamente sem rumo, Ren depara-se com Kumatetsu, uma criatura antropomórfica que conta com uma envergadura física considerável e uma fisionomia semelhante a um urso. Kumatetsu é uma criatura algo irresponsável, egoísta, solitária e violenta, que vive em Jutengai, uma cidade do mundo dos monstros, onde é um dos dois candidatos à posição de Grande Mestre. O outro candidato é Iōzen, um monstro que conta com uma destreza notória para o combate e evidencia ser mais responsável e ponderado do que Kumatetsu. Se Iōzen é um pai de família respeitado, que tem dois filhos, os jovens Ichirōhiko e Jirōmaru, bem como um conjunto de discípulos, já Kumatetsu tarda em encontrar quem o queira seguir, com excepção de Tatara, um monstro sarcástico, e Hyakushūbō, um monge de personalidade relativamente ponderada. Como já foi mencionado, o primeiro encontro entre Kumatetsu e Ren decorre em Shibuya, quando o monstro se encontra a vaguear pelo mundo dos humanos. Esta estranha coincidência compele Kumatetsu a convidar o jovem a juntar-se ao território dos monstros e a tornar-se o seu discípulo, embora Ren não pareça inicialmente entusiasmado com a ideia. Sem grandes motivos para permanecer em Shibuya, Ren acaba por aproveitar uma brecha entre os dois mundos para se escapulir em direcção ao território dos monstros, indo acompanhado por uma espécie de rato que surge como um dos seus companheiros inseparáveis ao longo do filme. É o início de "uma bela amizade" entre Kumatetsu e Ren, pontuada por discussões, imensa teimosia e uma relação de mestre e discípulo que se assemelha quase às dinâmicas entre pai e filho, com a dupla de protagonistas a formar uma ligação muito forte.


 A admiração que Ren começa a nutrir por Kumatetsu nasce praticamente a partir do momento em que observa o monstro a combater com Iōzen num duelo em que a multidão torce em peso por este último, com o jovem a sentir que está diante de alguém semelhante a si, ou seja, que se encontra algo à margem da sociedade. Diga-se que o combate em questão é interrompido pelo Grande Mestre, com o líder deste espaço a procurar acalmar os ânimos. Este é um monstro com uma aparência semelhante à de um gato, que conta com uma idade mais avançada do que Iōzen e Kumatetsu, tendo seleccionado estes dois elementos como os seus potenciais sucessores. O Grande Mestre pretende abandonar o cargo para poder reencarnar e transformar-se numa divindade, com este indivíduo a contar com uma postura quase sempre conciliadora, algo que ajuda a explicar a simpatia e os conselhos que dá a Kumatetsu, entre os quais, que este último tenha um pupilo a seu cargo. A relação entre Ren e Kumatetsu é inicialmente complicada, com ambos a contarem com uma personalidade forte e imensa propensão para se irritarem. Ren é um jovem que lida com uma realidade nova e procura aprender o máximo possível com Kumatetsu, enquanto este último não está minimamente preparado para ensinar um petiz. A preguiça e a pouca apetência para o ensino não impedem Kumatetsu de assumir o cargo de mestre de Ren, a quem chama de Kyûta, com ambos a terem diversos atritos e a contarem com imensa expressividade na exposição dos sentimentos (o trabalho da equipa de animação realça imenso as expressões exageradas dos personagens). Estamos diante do típico arco em que os protagonistas apresentam alguma resistência para aceitarem a companhia um do outro, até formarem uma amizade aparentemente inquebrável e dotada de uma série de episódios marcantes. Veja-se quando Ren começa a imitar os movimentos de Kumatetsu, algo que não só transmite a vontade do primeiro em aprender as movimentações do segundo, mas também a admiração que tem pelo monstro. Por sua vez, Kumatetsu tem de treinar constantemente para estar preparado para o dia em que for chamado para combater Iōzen, embora nem sempre cumpra as tarefas de forma disciplinada, enquanto este último tarda em perceber que Ichirōhiko, um dos seus filhos, está a ser consumido pelas sombras do ódio. Ichirōhiko é um dos elementos com quem Ren contacta, tal como Jirōmaru, um jovem peculiar que inicialmente não aceita a presença do protagonista, pelo menos até o rapaz começar a apresentar uma habilidade notória para as artes marciais.


 Ren tem ainda de se adaptar a um novo território, com o jovem a surgir inicialmente como uma espécie de corpo estranho que destoa de boa parte dos habitantes de Jutengai. Mamoru Hosoda e a sua equipa de animação não poupam na atenção aos detalhes para explanarem as especificidades e a diversidade dos monstros que habitam em Jutengai, bem como as características distintas do mundo destas criaturas antropomórficas em relação aos espaços citadinos por onde Ren circula quando está em Shibuya. Diga-se que tanto o mundo dos monstros como o território de Shibuya contam com imensa população, embora isso nem sempre implique que todos os habitantes se sintam completamente integrados no interior destes espaços. Veja-se o caso de Kumatetsu, um monstro que ganhou toda a sua força e habilidade para o combate a treinar praticamente sozinho. Não deixa também de ser algo irónico que Ren se sinta tão solitário no interior de um espaço citadino como Shibuya, que se encontra superpovoado, embora essas características do território até pareçam adensar a solitude do jovem. Recheado de néones, imensos edifícios e características urbanas que contrastam com a faceta quase rural de Jutengai, um espaço onde os mitos e ritos da cultura nipónica estão bem vivos e a fantasia se mescla com situações e sentimentos bem reais, o bairro de Shibuya, situado em Tóquio, conta com imensa população mas nem sempre parece trazer uma sensação de pertença e conforto ao protagonista, com Mamoru Hosoda a representar este território com enorme cuidado. É maioritariamente nestes dois territórios mencionados que os personagens de "O Rapaz e o Monstro" circulam e protagonizam uma série de episódios emotivos e marcantes, embora, a partir de um determinado momento, Ren comece a balançar entre permanecer em Jutengai ou regressar permanentemente ao mundo dos humanos. "O Rapaz e o Monstro" é também um filme sobre os rituais de crescimento, com o enredo a acompanhar Ren quer durante o período de tempo em que tem nove anos, quer quando se encontra no final da adolescência e a chegar à idade adulta, algo que o conduz a experimentar sentimentos e sensações muito próprias desta fase da vida. A possibilidade de regressar temporariamente ao mundo dos humanos mexe com o protagonista, com este a conhecer o primeiro amor e a ser praticamente obrigado a confrontar o passado e a lidar com as dúvidas que apoquentam a sua alma.


 O despertar dos sentimentos amorosos entre adolescentes é outra das temáticas que unem "O Rapaz e o Monstro" e o apaixonante "Toki o kakeru shôjo", com Mamoru Hosoda a desenvolver o tema com uma mescla de leveza e delicadeza, com a entrada em cena de Kaede (Suzu Hirose) a surgir como um momento fulcral para o protagonista. Kaede é uma jovem algo introvertida, estudiosa e delicada, que forma uma ligação muito forte com Ren. Diga-se que o contacto com Kumatetsu, Kaede e o pai, contribui para mexer com Ren e preencher um estranho vazio que a espaços ameaça consumir o coração do jovem. Também Ren mexe com os elementos que o rodeiam, com o jovem a ter ainda de chamar a si a responsabilidade de defender aqueles que lhe são próximos e aquilo em que acredita, enquanto procura não ser consumido pela crueldade das trevas, com o último terço a contar com alguns momentos recheados de emotividade. Se Ren sempre teve conhecimento do seu passado e foi educado a lutar para ultrapassar as adversidades, já Ichirōhiko encontra-se no lado distinto da medalha, com Mamoru Hosoda a criar um paralelismo evidente entre estes dois personagens (com uma referência a "Moby Dick" à mistura), enquanto concede espaço para que ambos sobressaiam ao longo de "O Rapaz e o Monstro". Ren é uma das peças fulcrais do filme, bem como Kumatetsu, com "O Rapaz e o Monstro" a contar com uma dupla de protagonistas consistente e uma capacidade apreciável de integrar elementos de humor, aventura, drama e romance no interior do enredo, com Mamoru Hosoda a abordar de forma coerente e sagaz temas como a importância da amizade, a formação da identidade, o primeiro amor, a relação entre pais e filhos e entre mestres e discípulos, as "dores" de crescimento, o luto e a solidão. "O Rapaz e o Monstro" contém ainda a habitual capacidade de Mamoru Hosoda em transportar-nos para o interior de universos narrativos que mesclam sentimentos e situações bem reais com elementos associado ao fantástico, com o cineasta a confirmar mais uma vez que é um dos nomes mais entusiasmantes do panorama da animação japonesa contemporânea.


Título original: "Bakemono no ko".
Título em Portugal: "O Rapaz e o Monstro".
Título nos EUA: "The Boy and the Beast".
Realizador: Mamoru Hosoda.
Argumento: Mamoru Hosoda.
Elenco vocal: Aoi Miyazaki (quando Ren tem nove anos de idade), Shôta Sometani (durante a adolescência de Ren), Kôji Yakusho (Kumatetsu), Kazuhiro Yamaji (Iōzen), Haru Kuroki (quando Ichirōhiko é um jovem rapaz), Mamoru Miyano (durante a adolescência de Ichirōhiko), Keishi Nagatsuka (pai de Ren), Suzu Hirose (Kaede), Lily Franky (Hyakushūbō), Yo Oizumi (Tatara).

O "Rapaz e o Monstro" foi visto no Filmin Portugal: https://www.filmin.pt/filme/o-rapaz-e-o-monstro 

O filme é distribuído em Portugal pela Outsider Films: https://www.facebook.com/outsider.films.portugal/ 

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