24 junho 2017

Resenha Crítica: "Bacalaureat" (O Exame)

Filme dotado de sobriedade, complexidade e pertinência, "Bacalaureat" não concede respostas fáceis, faz questão de questionar o espectador, aborda temáticas merecedoras de reflexão e exibe a capacidade de Cristian Mungiu em transportar-nos para o interior da sua visão da Roménia. Ficamos diante de um retrato despido de grandes optimismos, algo desencantado e cru, com Cristian Mungiu a expor alguns problemas da Roménia contemporânea ao mesmo tempo que tece toda uma teia que envolve os personagens deste drama no qual os valores morais e os sonhos acabam muitas das vezes por serem derrotados e as trocas de favores parecem enraizadas no seio de uma nação. O tráfico de influências, escondido na capa de "troca de favores", é uma das temáticas centrais do filme, com Cristian Mungiu a não deixar de lado um comentário sobre a sociedade romena contemporânea. Um favor obriga a outro, enquanto diversos personagens são envolvidos no interior de uma teia capaz de prender aqueles que se deixam dominar pelas malhas do destino, com os pequenos compromissos a ganharem gradualmente proporções e repercussões inesperadas. Romeo (Adrian Titieni), o protagonista de "Bacalaureat", envolve-se numa intrincada troca de favores, tendo em vista a concretizar o desejo de que a filha obtenha a média necessária para estudar numa universidade em Inglaterra. Este pensa que se encontra a ajudar a familiar, algo que remete para outra das temáticas centrais do filme, nomeadamente, o papel dos pais, ou, se preferirem, o questionar daquilo que é ser pai. Qual a melhor forma de educar um filho? Quais os limites que um pai pode estar disposto a ultrapassar para ajudar um filho? O que leva alguém a corromper os seus valores morais? Romeo sempre protegeu Eliza (Maria-Victoria Dragus), a sua filha, uma situação que o conduziu a perspectivar que o melhor para o futuro do seu rebento seria que a jovem estudasse em Inglaterra. A razão para este desejo é complexa: embora outrora tenha regressado à Roménia, na companhia de Magda (Lia Bugnar), a sua esposa, Romeo apresenta um sentimento de descrença notório em relação ao futuro do seu país. É esse desencanto de Romeo e o seu sentido protector, que conduzem o protagonista a pretender que Eliza abandone a Roménia. Se Romeo parece acreditar piamente que a filha deve emigrar, já Eliza não apresenta as mesmas certezas do pai, bem pelo contrário. Esta é uma jovem aparentemente frágil e inteligente, que aos poucos se depara com a necessidade de se soltar da protecção excessiva do progenitor. Veja-se a decisão de Eliza em marcar a viagem de partida para uma data próxima ao início das aulas em Inglaterra, algo que contraria a ideia inicial do progenitor, ou as dúvidas que demonstra em relação a abandonar os amigos, ou as discussões com o pai devido ao facto deste não simpatizar com Marius (Rares Andrici), o namorado da jovem, ou o choque ao descobrir que Romeo mantém um caso extraconjugal.


 Os segredos entre Romeo e Eliza, que aos poucos são revelados, são mais numerosos do que ambos pensavam. Eliza esconde do pai que já perdeu a virgindade, para além de omitir que tem o hábito de fumar. Romeo mente para proteger a filha da realidade, nomeadamente, sobre o facto da avó paterna (Alexandra Davidescu) estar gravemente doente. O médico evita ainda revelar que mantém um affair com Sandra (Malina Manovici), uma professora que lecciona na escola onde Eliza estuda, uma situação que promete surpreender a jovem pela negativa (a personagem interpretada por Maria-Victoria Dragus apresenta uma postura bastante protectora em relação à mãe). Os segredos entre pai e filha surgem como consequência quer da postura protectora de Romeo, quer dos receios da jovem em desiludir ou contrariar o progenitor, com o primeiro a tardar em aprender a deixar a herdeira decidir por si própria. Adrian Titieni transmite a preocupação e o amor que Romeo nutre pela filha, bem como a seriedade deste indivíduo como médico e o desespero que o protagonista sente em alguns trechos do filme (sobretudo quando está isolado), sempre com grande sobriedade e doses notórias de talento, com o intérprete a transformar-se praticamente no personagem que interpreta. Romeo é um indivíduo relativamente bem intencionado, embora cometa alguns actos que pouco abonam a seu favor, tais como utilizar os seus conhecimentos para benefício da filha, trair a esposa, controlar Eliza em demasia e descurar a progenitora. O argumento, escrito por Cristian Mungiu, aborda com sobriedade as diferentes facetas de Romeo quer como pai, quer como esposo, quer como amante, quer como filho, com boa parte destas características a encontrarem-se interligadas. A relação de Romeo e Sandra encontra-se numa fase decisiva, com esta mulher a clamar por um pouco mais de atenção para si e para o seu rebento (um jovem com dificuldades em comunicar). No entanto, as atenções de Romeo estão quase sempre centradas no futuro de Eliza, apesar de ser notório que ama e deseja Sandra (Alexandra Davidescu tem um papel secundário de relevo como uma mãe solteira que tem um papel importante na vida do protagonista), algo que não acontece com Magda. O casamento de Romeo e Magda está prestes a conhecer o ocaso, ou melhor, apenas perdura no papel, pelo menos até Eliza sair da casa dos progenitores. Magda nem sempre concorda com as ideias do esposo, embora partilhe com este o amor pela filha, com Lia Bugnar a traduzir eficazmente o estado de espírito pouco efusivo desta bibliotecária que está consciente de que a sua vida entrou num rumo que não corresponde às expectativas que criara quando era mais jovem, inclusive naquilo que diz respeito ao matrimónio com Romeo. 


 A decoração da casa de Romeo e Magda é marcada pela sobriedade e contribui para discernir que estamos diante de um casal que mantém uma relação pontuada pela distância e frieza. Note-se a presença de um sofá cama na sala de estar, utilizado por Romeo para dormir, algo que sublinha de forma paradigmática que o casamento do protagonista está a definhar. As rotinas e aspirações destes personagens sofrem um rude golpe quando Eliza é alvo de uma brutal agressão, nomeadamente, uma tentativa de violação. Este episódio não é exposto de maneira directa (Cristian Mungiu opta quase sempre pela contenção na abordagem das temáticas), mas a forma como diversos personagens reagem ao mesmo provoca uma convulsão no seio da narrativa, com Eliza a ser a mais afectada. O rosto de Maria-Victoria Dragus transmite a fragilidade de Eliza no período após a tentativa de violação, mas também a capacidade da jovem em desafiar as expectativas, com a intérprete a contribuir para a dimensão complexa desta personagem discreta e pouco expansiva. Ferida no corpo (o pulso e o braço direito ficam em mau estado) e na alma, indecisa em relação ao futuro e fragilizada do ponto de vista psicológico, Eliza não consegue concluir o exame de romeno. Perante a possibilidade da filha falhar a obtenção da média necessária para alcançar uma bolsa para estudar em uma universidade em Cambridge, Romeo decide tomar uma medida que desafia os seus valores morais: utilizar a sua rede de conhecimentos para conseguir que favoreçam Eliza. Nesse sentido, Romeo acaba por entrar em contacto com Serban (Gelu Colceag), o chefe da comissão de provas. O ponto de contacto entre estes dois personagens é Bulai (Petre Ciubotaru), o vice-presidente da Câmara local, um indivíduo conhecido por "ajudar" uma miríade de pessoas. Romeo e Serban já tinham dialogado, ainda que brevemente, antes de Eliza efectuar o exame de romeno, embora o chefe da comissão de provas tenha exibido uma postura bem menos "dócil" para com o protagonista do que aquela que apresenta após falar com Bulai. Serban entrara na rota de Bulai exactamente por necessitar de um favor deste indivíduo, com o vice-presidente a aproveitar este conhecimento para conseguir ajudar Romeo. Por sua vez, também Romeo fica a dever um favor a Bulai (o político necessita de um transplante de fígado), com Cristian Mungiu a deixar-nos diante de dois personagens que aceitam efectuar favores devido a estarem em dívida, embora conservem alguns dos seus valores morais (algo que não os impede de continuarem a manter um sistema corrupto em movimento).


 Romeo pensa que se encontra a ajudar a filha, embora coloque Eliza numa situação deveras complicada, com a jovem a evidenciar imensas dúvidas em relação àquilo que pretende fazer no futuro, tendo ainda de lidar com a investigação efectuada pelas autoridades para encontrarem o indivíduo que a agrediu. Diga-se que, mesmo no interior da polícia encontramos uma série de situações peculiares que colocam em evidência esta cultura da troca de favores e a necessidade de certos personagens terem de cometer actos que desafiam os seus valores morais para singrarem no interior da sociedade. Veja-se o polícia que menciona que o seu irmão tem um acordo com os elementos das ambulâncias para que estes favoreçam a sua agência funerária, ou o facto de ter sido um agente da autoridade (Vlad Ivanov) que contribuiu para Romeo entrar em contacto com Bulai. Romeo não parece muito satisfeito com esta decisão, embora esteja disposto a quase tudo para convencer a filha a aceitar ser beneficiada, algo que o conduz a entrar na órbita do sistema que crítica. No fundo, parece também estar em exame a capacidade de Romeo e Eliza em lidarem com os problemas, com esta última a apresentar mais discernimento e bom senso do que o pai. Romeo é bem intencionado, procura transmitir bons valores à filha, mas acaba por se colocado diante de um dilema moral de difícil resolução que promete dizer muito a qualquer pai (os dilemas morais de difícil resolução surgem como ingredientes fundamentais de diversas obras de Cristian Mungiu, tais como "Occident", "4 luni, 3 saptamâni si 2 zile" e "După dealuri"). Nesse sentido, estamos diante de uma questão que transcende as fronteiras do território romeno, ou seja, o que faríamos na situação deste pai? Romeo pensa estar a fazer o melhor pela sua filha, embora esteja precisamente a envolver-se no interior de um emaranhado de favores que tem tudo para correr mal, fruto da sua desilusão para com as perspectivas que a Roménia tem para dar a Eliza. O que faríamos na posição de Romeo? Estaremos inseridos ou fora do sistema do qual Romeo tenta escapar? Estas são questões que assolam a nossa mente ao longo do filme, com Cristian Mungiu a aproveitar para interrogar o espectador e colocá-lo diante de um pai que procura proteger o futuro da filha. Romeo tem ainda de lidar com o estranho facto de alguém ter partido a sua janela com recurso a um tijolo e destruído o pára-brisas, uma situação que apoquenta o médico, que pensa estar a ser perseguido, embora tarde em descobrir o criminoso.


 O personagem interpretado por Adrian Titieni lida de perto com a insegurança na Roménia, com estes actos de vandalismo e o crime que cometeram sobre a filha a contribuírem para a opinião negativa que tem do seu país. Esta desilusão de Romeo em relação ao rumo do seu país acaba por remeter para "Occident", a primeira longa-metragem realizada por Cristian Mungiu, uma obra que nos coloca diante de elementos como Sorina, uma jovem adulta que inicialmente sonha em emigrar, ou Mihaela, uma personagem que decide viajar para Itália com o noivo, ou seja, duas figuras femininas que pretendem alcançar a felicidade fora da Roménia. "Occident" é um dos filmes marcantes de Cristian Mungiu e da chamada Nova Vaga do Cinema Romeno. "Bacalaureat" conta ainda com diversos elementos associados aos filmes da Nova Vaga do Cinema Romeno. Não faltam os planos de longa duração (a câmara encontra-se muitas das vezes em movimento, a seguir os personagens a partir de trás), os comentários de foro social, a utilização exímia dos sons diegéticos, as sequelas da Roménia de Nicolae Ceauşescu (veja-se a desilusão do protagonista por pouco ter mudado desde a Revolução), a pouca presença da música não diegética, o aproveitamento dos cenários exteriores e interiores. "Bacalaureat" parece ainda efectuar uma crítica ao sistema educativo da Roménia, seja em relação ao facilitismo, com elementos como Marius a não terem problemas em salientarem a facilidade com que copiaram nos exames, ou à forma como um indivíduo com os contactos certos pode alterar as notas dessas provas, com Cristian Mungiu a ancorar a história dos seus personagens no interior de um contexto bem real. A Roménia que nos é apresentada surge como um território que parece propiciar a destruição dos sonhos e das expectativas para o futuro, algo que contribui para a desilusão do protagonista em relação ao seu país, com Cristian Mungiu a abordar esta temática com acerto, bem como assuntos relacionados com a paternidade, a corrupção, as agressões sobre as mulheres, a insegurança em certos espaços citadinos, os dilemas morais, um casamento que se dilui e um affair que vive uma fase decisiva, entre outros, sempre com um tom muito próprio deste cineasta observador e arguto, capaz de transportar a sua visão para as obras cinematográficas que realiza e de questionar o espectador.


Título original: "Bacalaureat".
Título em Portugal: "O Exame".
Realizador: Cristian Mungiu.
Argumento: Cristian Mungiu.
Elenco: Adrian Titieni, Maria-Victoria Dragus, Lia Bugnar, Malina Manovici, Rares Andrici, Gelu Colceag, Vlad Ivanov.

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