13 maio 2017

Resenha Crítica: "Occident" (2002)

 Composto por três capítulos que se interligam e complementam (intitulados Luci e Sorina; Miahela e a sua mãe; Nae Zigrid e o sr. Coronel), "Occident" surge como uma comédia de sabor amargo, ou um drama pontuado por traços de humor (muitas das vezes negro), que marca a estreia de Cristian Mungiu na realização de longas-metragens. É uma estreia segura, surpreendentemente madura e recheada de toques de brilhantismo, caracterizada por diversos elementos e temáticas que marcam alguns trabalhos de Cristian Mungiu. Não faltam os personagens que lidam com dilemas intrincados, os planos de longa duração, a câmara muitas das vezes em movimento (pronta a filmar os personagens de costas), a capacidade de explorar temas relacionados com a sociedade romena ao mesmo tempo que são levantadas questões universais, o bom aproveitamento do elenco e a abordagem de problemáticas inerentes à Roménia contemporânea. "Occident" afirma ainda o talento de Cristian Mungiu para valorizar a dimensão humana dos personagens e a capacidade dos actores e actrizes comporem figuras complexas, enquanto transporta o espectador para o interior de uma visão muito própria da Roménia. Diga-se que "Occident" casa surpreendentemente bem com "Bacalaureat", a quarta longa-metragem realizada pelo cineasta. "Occident" coloca o espectador diante de alguns personagens que tardam em conseguir encontrar a estabilidade financeira e laboral no interior da Roménia, uma situação que leva alguns elementos a pretenderem emigrar, sobretudo os mais jovens. "Bacalaureat" transporta o espectador para o interior do dilema moral de Romeo, um médico que emigrou e regressou ao seu país na companhia da sua esposa, embora esteja desiludido com o facto da Roménia tardar em cumprir os sonhos daqueles que esperavam muito mais da sua nação. Romeo procura fazer de tudo para que Eliza, a sua filha, atinja a média necessária para conseguir uma bolsa para estudar em Inglaterra, embora esse desejo encontre uma série de revezes. Se "Bacalaureat" apresenta um tom cru e dramático, expondo quer problemas muito próprios de um pai, a dissolução de um casamento e a corrupção no interior da Roménia, já "Occident" conta com uma série de momentos mais leves, muitas das vezes pontuados por algum humor negro. Não querem estas palavras dizer que "Occident" é totalmente desprovido de momentos dramáticos, bem pelo contrário, ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica pontuada por algumas figuras que conhecem desilusões amorosas e laborais. Também não falta algum romantismo e poesia, com Cristian Mungiu a encontrar o humor e a delicadeza em momentos aparentemente simples, tais como dois personagens, ladeados por disfarces ridículos, a dialogarem sobre poesia, música e assuntos do foro pessoal. A música é um dos elementos de relevo do filme quer para atribuir um tom mais leve ao enredo e sublinhar o humor (a canção "Anul 2000" é utilizada de forma sublime), quer para incrementar trechos mais dramáticos ou imprevisíveis, com o trabalho de Petru Mărgineanu e Ioan Gyuri Pascu a destacar-se pela positiva, tal como o sentido de ritmo que Cristian Mungiu incute a "Occident" e a capacidade do cineasta em jogar com a informação que é concedida em cada um dos capítulos, até chegar à conclusão. No início de "Occident" encontramos a mobília e as roupas de Luci (Alexandru Papadopol) e Sorina (Anca Androne) despejadas no exterior do edifício onde se encontra localizado o apartamento deste casal. Luci e Sorina foram despejados, uma situação que enfurece o primeiro e aumenta ainda mais a vontade da segunda em sair da Roménia.


 Se Sorina representa os cidadãos que pretendem abandonar a Roménia, tendo em vista a lutarem por melhores condições de vida, já Luci verbaliza parte das inquietações daqueles que desejam permanecer no território. Cristian Mungiu não julga os argumentos de Luci ou de Sorina, com o cineasta a deixar essa missão para o espectador enquanto exibe um período complicado na vida de alguns elementos que desejam conquistar a sua afirmação no interior de uma sociedade que não oferece grandes perspectivas de futuro. Os pertences de Luci e Sorina encontram-se situados junto de um grupo de cães errantes, bem como de um espaço recheado de terra e pedras, com este cenário exterior a transmitir uma certa sensação de desolação e desesperança (o retrato que "Occident" efectua da Roménia está longe de ser o mais optimista). Tal como os cães errantes, também boa parte dos personagens mais jovens de "Occident" parecem caminhar sem rumo, ao sabor do destino, enquanto são um joguete do mesmo. Sorina trabalha como educadora de infância, ama o namorado, mas não parece disposta a seguir os planos de Luci. Este é um indivíduo de características simples, licenciado em silvicultura, que tarda em encontrar um emprego estável e pretende viver temporariamente na casa de Leana (Eugenia Bosânceanu), a sua tia, uma idosa simpática e prestável, embora a habitação tenha muito pouco espaço (o próprio frigorífico, bastante vazio, reforça as parcas condições financeiras desta idosa bem intencionada). Sorina não partilha a vontade de Luci em viver na casa de Leana, com o casal a apresentar objectivos distintos para o futuro, algo que coloca a relação em causa. Recheada de dúvidas, Sorina decide dirigir-se ao cemitério, tendo em vista a pedir um sinal ao seu falecido pai. Luci acompanha Sorina e é estranhamente atingido na cabeça por uma garrafa com bebida alcoólica. O protagonista fica temporariamente imobilizado, sendo levado ao hospital por Jerome (Samuel Tastet), um indivíduo de origem francesa, com quem Sorina decide viver de forma supostamente temporária. O personagem que atira o objecto apenas é conhecido no terceiro capítulo, intitulado "Nae Zigrid e o Sr. Coronel", com Cristian Mungiu a saber jogar com a informação que é concedida ao espectador ao longo do filme. Nesse sentido, a perspectiva que temos sobre certos episódios pode diferir consoante o capítulo onde os mesmos se desenrolam, com Cristian Mungiu a entrelaçar os destinos de diversos elementos, enquanto concede mais informação em relação aos acontecimentos e aos personagens. Os títulos dos capítulos realçam ainda outro dos recursos de Cristian Mungiu, nomeadamente, atribuir uma relevância inesperada a determinados personagens que inicialmente pareciam secundários. Veja-se a presença de uma noiva (Tania Popa) no cemitério, quando Sorina e Luci estão no local, com esta figura feminina a ganhar relevo no segundo capítulo, ou a forma como Cristian Mungiu joga com acontecimentos que ocorrem em cada um dos capítulos (alicerçado em um trabalho de montagem exímio). Temos ainda situações como a remetente de uma notícia importante ser uma figura distinta daquela que esperamos, ou um momento que parece saído dos clichés dos romances (não falta uma corrida à chuva), embora tenha um desfecho agridoce, ou uma partida que esconde um destino distinto em relação àquele que é inicialmente dado a entender ao espectador.


 Voltemos agora a Luci e Sorina, os personagens que dão o nome ao primeiro capítulo de "Occident". Quando recupera do incidente, Luci decide ir a uma entrevista para uma agência publicitária onde consegue um novo emprego graças à directora da cresce onde Sorina trabalha (a troca de favores é outra das temáticas a unir "Occident" e "Bacalaureat"). Diga-se que esta empresa do sector da publicidade é especialista em empregar funcionários tendo em vista a "ajudar" amigos, que o diga Luci mas também Mihaela (contratada devido ao facto do pai conhecer o chefe). Esta é a noiva que se encontra no cemitério, sendo dada a conhecer com maior profundidade no segundo capítulo de "Occident", intitulado "Mihaela e a sua mãe" (como o título indica, o protagonismo do segundo capítulo recai e muito nestas duas figuras femininas), embora a personagem entre em contacto com Luci ainda na primeira parte do filme. Mihaela inicia uma relação de proximidade com Luci, ou os dois personagens não conservassem uma faceta relativamente naïf. Tania Popa transmite a personalidade introvertida e solitária de Mihaela, uma jovem abandonada no altar, que trabalha no ramo da publicidade, ou melhor, a utilizar um disfarce em forma de telemóvel, tendo em vista a divulgar o produto de uma empresa. É nesse trabalho, no interior de um centro comercial, que Mihaela entra em contacto com Luci. Ele ainda está a lidar com a partida de Sorina (a viver temporariamente com Jerome) e a tentar reconquistar a amada. Ela tenta superar o facto de ter sido abandonada pelo noivo, enquanto forma uma relação de proximidade com Luci. Mihaela deixa a entender que sente algo mais forte por Luci, embora o protagonista tarde em perceber os sinais que são dados por esta figura feminina (algo que remete ainda para a temática das dificuldades de comunicação). Alexandru Papadopol é um dos grandes destaques do elenco, com o actor a contribuir para adensar o estilo simples, credível e sincero de Luci, um indivíduo que trabalha com um disfarce que pode servir quer como garrafa, quer como urso (algo que contribui para um momento bastante cómico devido a uma chamada para a polícia). Luci e Mihaela tardam em encontrar um emprego estável, com ambos a viverem na casa de familiares. Mihaela vive com os pais, enquanto escreve poemas que tardam em ser publicados e tem um trabalho pouco motivante. A mãe de Mihaela (Coca Bloos) é uma cabeleireira casamenteira que procura casar a filha a todo o custo, chegando a utilizar os serviços de uma agência de encontros (algo que proporciona diversas situações caricatas). O pai de Mihaela (Dorel Vișan) é um coronel de barriga saliente, conservador, protector em relação à filha. O coronel é outra das figuras de relevo desta narrativa fragmentada (sobretudo no terceiro capítulo), com o representante das autoridades a envolver-se num caso intrincado que envolve Nae Zigrid (Valeriu Andriutã - outro dos elementos em destaque em "Nae Zigrid e o sr. Coronel"), um emigrante romeno que se encontra a trabalhar na Alemanha, tendo regressado ao país natal para entrar em contacto com Luci.


 Luci e Mihaela tardam em alcançar segurança profissional e financeira, com a dupla a reflectir os problemas que apoquentam alguns cidadãos mais jovens, enquanto o coronel está numa situação distinta, com o veterano a encontrar-se prestes a entrar na reforma, algo que o apoquenta. Diga-se que o coronel teme ainda perder a companhia da filha, apesar de compreender o desejo que esta assume, em determinado momento do enredo, de partir para o estrangeiro. Os pais de Mihaela exibem uma preocupação notória em relação ao futuro do rebento, algo que liga "Occident" a "Bacalaureat", embora a primeira longa-metragem de Cristian Mungiu, como já foi salientado, conte com doses notórias de leveza. O argumento estabelece a personalidade destes personagens de maneira eficaz, bem como a forma muito particular como o destino acaba por juntar alguns elementos (é simplesmente delicioso observar como "Occident" coloca em contacto diversos personagens aparentemente sem importância ou ligação), enquanto Cristian Mungiu aproveita o elenco competente que tem à disposição e joga com a percepção que o espectador forma em relação a alguns dos acontecimentos representados. O elenco destaca-se, bem como o sentido de humor que Cristian Mungiu incute ao enredo, seja devido a um encontro com características peculiares, ou a um conjunto de jovens a cuspirem uns nos outros, ou a doses de açúcar que são colocadas em doses generosas, ou a uma boneca insuflável que supostamente foi utilizada para uma fuga do país. "Occident" é também um filme sobre o desejo de diversas pessoas emigrarem devido a não encontrarem condições no seu país de origem (as feridas por sarar do legado de Nicolae Ceauşescu ainda são sentidas), uma temática abordada no âmbito da Roménia (o próprio título remete a emigração para a Europa Ocidental), apesar do assunto contar com uma carga universal (basta vermos o caso português). Não faltam ainda temáticas que dizem imenso aos espectadores quer sejam da Roménia ou de outro país, tais como as desilusões amorosas, as dificuldades a nível profissional, as preocupações dos pais em relação aos filhos, entre outras. Cristian Mungiu deixa assim o espectador diante de uma comédia com um travo amargo, marcada por uma série de personagens de real interesse, um conjunto de figuras cujo destino acaba em alguns momentos por se entrelaçar, enquanto o cineasta tem uma estreia imensamente recomendável na realização de longas-metragens, com "Occident" a surgir quer como um excelente ponto de entrada nos trabalhos do realizador, quer como a prova do vigor da chamada Nova Vaga do Cinema Romeno.


Título original: "Occident".
Realizador: Cristian Mungiu.
Argumento: Cristian Mungiu.
Elenco: Alexandru Papadopol, Anca Androne, Tania PopaEugenia Bosânceanu, Valeriu Andriutã,
Coca Bloos.

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