28 maio 2017

Resenha Crítica: "Miss Sloane" (2016)

 No início de "Miss Sloane", a personagem do título (Jessica Chastain) descreve o lobismo da seguinte forma: "Lobbying is about foresight. About anticipating your opponent's moves and devising counter measures. The winner plots one step ahead of the opposition. And plays her trump card just after they play theirs. It's about making sure you surprise them. And they don't surprise you". Está longe de ser uma descrição apaixonada, embora permita expor na perfeição a faceta pragmática e ambiciosa da protagonista, uma lobista que navega habilmente pelas margens da lei e pelas águas da imoralidade. Elizabeth Sloane é uma lobista conhecida pela astúcia e eloquência, para quem os prazeres da vida parecem meras obrigações, sejam estes sexo, ou tomar alguma refeição, ou esta não tivesse abdicado de quase tudo para se focar apenas na progressão da carreira. Estamos diante de uma protagonista forte, que parece ter sempre a carta certa para jogar, gosta de dominar o meio que a rodeia e evitar surpresas, embora a espaços evidencie alguns laivos de solidão, arrependimento e fragilidade, com Jessica Chastain a não descurar a dimensão humana desta personagem. Jessica Chastain consegue transmitir através dos seus gestos e expressões a acutilância, experiência e ambição desta lobista que muitas das vezes não parece olhar a meios para atingir os fins e raramente se deixa antecipar pelos seus opositores. É o show de Jessica Chastain que John Madden nos apresenta em "Miss Sloane", com o cineasta a deixar a actriz explanar o seu talento para a interpretação e compor uma das personagens mais marcantes da sua carreira. Diga-se que o cineasta concede uma atenção notória ao trabalho dos actores algo que permite a diversos elementos do elenco secundário sobressaírem, tais como Mark Strong, Gugu Mbatha-Raw, Michael Stuhlbarg, John Lithgow, entre outros, enquanto incute uma aura de thriller a esta obra cinematográfica que envolve um duelo de vontades entre duas firmas ligadas aos lobbies, nomeadamente, a Cole Kravitz & Waterman, uma empresa que trabalha para convencer os senadores a chumbarem a Heaton-Harris, uma lei que visa fiscalizar o acesso ao armamento, e a Peterson Wyatt, uma organização que luta para conseguir aprovar este regulamento. Elizabeth Sloane trabalha inicialmente para a Cole Kravitz & Waterman, embora um convite de Rodolfo Schmidt (Mark Strong), o líder da Peterson Wyatt, para se juntar a uma causa aparentemente perdida, contribua para que a protagonista mude de firma e abrace a tentativa de aprovar a Heaton-Harris.


 Rodolfo Schmidt apela a um lado mais idealista e competitivo de Elizabeth Sloane, com Mark Strong a personificar com subtileza e acerto os fortes valores morais deste lobista relativamente calmo, que procura mexer com o establishment e desafiar um dos sectores mais poderosos dos EUA, nomeadamente, do armamento. A possibilidade de virar o tabuleiro do jogo a seu favor é algo que alicia Elizabeth Sloane, sobretudo após ter rejeitado a aproximação de Bob Sanford (Chuck Shamata), o representante do sector das armas, quando ainda trabalhava na Cole Kravitz & Waterman. Elizabeth Sloane chega mesmo a ironizar com as ideias que Sanford tem para compelir as mulheres a aderirem à causa da utilização das armas de fogo, com a protagonista a evidenciar um enorme desinteresse por esta campanha, algo que enfurece a liderança da Cole Kravitz & Waterman. A saída de Elizabeth Sloane da Cole Kravitz & Waterman para a Peterson Wyatt mexe com as estruturas das duas empresas, com esta mulher a trazer alguns dos seus funcionários para a equipa da segunda, apesar de Jane Molloy (Alison Pill), a sua assistente, permanecer na primeira. Diga-se que Alison Pill conta com um papel de relevo numa fase crucial do enredo, com os objectivos de Jane a serem totalmente esclarecidos devido a uma reviravolta que não é totalmente inesperada (basta não esquecermos a forma como a protagonista descreve o lobismo), mas nem por isso deixa de provocar impacto. Jane fica a trabalhar para George Dupont (Sam Waterston), o líder da Cole Kravitz & Waterman, sob a alçada de Pat Connors (Michael Stuhlbarg), um indivíduo perspicaz que procura vencer o "duelo" com Elizabeth Sloane. Michael Stuhlbarg é outro dos elementos do elenco que beneficia da atenção que John Madden concede ao trabalho dos actores, com o intérprete a inculcar um estilo belicoso e decidido a este lobista que tenta influenciar um número considerável de membros do congresso para chumbarem a lei. Não faltam negociações implacáveis, jogos de bastidores, pressões de parte a parte e angariações de fundos, com Elizabeth Sloane a saber desde cedo que parte em desvantagem, embora as adversidades estejam longe de beliscar a confiança que a protagonista tem em relação às suas capacidades. A balança parece inicialmente pender para o lobby das armas, com este sector a possuir mais dinheiro, poder e influência, embora Elizabeth Sloane também tenha os seus trunfos. A começar pela capacidade de dinamizar internamente a Peterson Wyatt, inclusive a utilizar de forma pouco ética alguns dos activos mais relevantes da firma, tais como Esme Manucharian (Gugu Mbatha-Raw), uma lobista que tem dedicado boa parte da sua carreira a combater o lobby das armas, embora com uma atitude muito distinta da protagonista, ou seja, marcada por um respeito pela ética e pelos valores morais.


 Gugu Mbatha-Raw encarna outra das personagens dotadas de complexidade que pontuam o enredo de "Miss Sloane", com a actriz a transmitir o misto de idealismo e fragilidade desta figura feminina que num determinado momento do filme é colocada perante algumas situações delicadas. A espaços parece que Elizabeth Sloane ainda pretende formar amizade com Esme, embora a jogada de um trunfo para vencer um debate demonstre que esta possibilidade é bastante ténue, com a frieza e a obstinação a dominarem muitas das vezes as acções da protagonista. Não é uma personagem de trato fácil, nem que goste de ser "amordaçada", algo que percebemos logo nos momentos iniciais do filme, quando se encontra a ser instruída por Daniel Posner (David Wilson Barnes), o seu advogado, para utilizar a Quinta Emenda e assim não ter que cometer perjúrio no decorrer de uma audiência no Congresso. Liderada pelo senador Ronald Sperling (John Lithgow), um indivíduo que também guarda uma série de esqueletos no armário, a audiência visa aferir se Elizabeth Sloane violou as normas éticas do senado, quando ainda estava ao serviço da Cole Kravitz & Waterman. São vários os personagens desta obra cinematográfica que desafiam a lei e a ética, com os momentos desta audiência a corroborarem essa situação ao mesmo tempo que contribuem para incutir uma faceta de filme de tribunal a "Miss Sloane". Diga-se que esta audiência é parcialmente interrompida por flashbacks que permitem expor os acontecimentos que conduziram Elizabeth Sloane a este evento e à entrada na Peterson Wyatt, para além de contribuírem para exibir as especificidades do jogo de influências protagonizado pela personagem principal, até John Madden avançar novamente para os desenvolvimentos deste episódio que conta com um desfecho demasiado optimista e marcado por uma reviravolta intensa mas algo naïf. Essa ingenuidade pode também remeter para o pessimismo da pessoa que escreve este texto, ou para o optimismo de John Madden, com o cineasta a ter em "Miss Sloane" uma obra cinematográfica capaz de abordar algumas questões relacionadas com a influência e o poder que alguns sectores exercem sobre a classe política (e a opinião pública), os esforços dos senadores para manterem os seus cargos a todo o custo (mesmo que tenham de descurar os interesses do eleitorado) e o lamaçal por onde se envolvem os lobistas, com a personagem do título a ter que se movimentar pelo interior deste meio muitas das vezes nebuloso. É pelos meandros mais obscuros da política e dos lobbies que "Miss Sloane" se move, bem como alguns dos seus personagens, com a própria protagonista a estar longe de ser um exemplo moral, com John Madden, auxiliado pelo sólido argumento de Jonathan Perera, a colocar em evidência a imoralidade e a corrupção que rodeia alguns elementos que circulam por estes sectores. Veja-se quando Elizabeth decide utilizar o passado de Esme para ganhar um debate e a simpatia da opinião pública, ou o momento em que tenta convencer Rodolfo Schmidt a utilizar aparelhos ilegais de vigilância, com a vontade de vencer a toldar muitas das vezes o discernimento da protagonista e a incapacitá-la de criar ou fortalecer relações com aqueles que a rodeiam.


 Será que Elizabeth Sloane poderia agir de forma distinta para vencer esta batalha tão desigual? É uma pergunta que por vezes nos colocamos, embora a protagonista esteja inserida no interior de um debate feroz, que está longe de gerar consensos e mexe com questões melindrosas da sociedade dos EUA. A discussão sobre a facilidade com que as armas de fogo são adquiridas nos EUA é algo que continua na ordem do dia, embora esse debate esteja longe de gerar uma solução que agrade quer aos defensores da regulação, quer aos interesses instalados que pretendem manter o status quo. "Miss Sloane" expõe a um ritmo intenso a tentativa de um grupo em aprovar uma lei (ficcional) que mexe com esses interesses instalados, com John Madden a envolver-nos no interior deste frenético e intenso jogo de bastidores. Jessica Chastain contribui para elevar este "jogo", seja pela forma convicta como profere as suas falas, ou pelas suas expressões, ou pela aura intensa que inculca à personagem do título, com os close-ups a adensarem a capacidade que a actriz tem em dominar as atenções como uma lobista que se envolve numa luta aparentemente desigual e desgastante para tentar levar de vencida o lobby das armas. O descanso é uma palavra quase desconhecida para Elizabeth Sloane, com os poucos momentos que tem fora destes meandros das negociatas implacáveis a acontecerem quando se reúne com Forde (Jake Lacy), um acompanhante de luxo com quem mantém relações sexuais a troco de dinheiro. Vale a pena salientar que é com Forde que a espaços Elizabeth baixa um pouco a guarda, embora tente evitar expor a sua vida privada, com as rotinas da protagonista a parecerem caminhar para um perigoso abismo. Essa quase queda no abismo é reveladora de alguma da fragilidade da protagonista, com a "capa" forte com que esta se protege a nem sempre conseguir libertá-la de todas as suas inquietações e da ambição excessiva que por vezes consome a sua alma e a sua mente. John Madden concede tempo para compreendermos a protagonista e o mundo que a rodeia, enquanto controla com acerto os ritmos do enredo e transporta-nos para o interior dos meandros de um mundo onde parece valer quase tudo para controlar o poder e a opinião pública. "Miss Sloane" envolve-nos assim pelos escritórios e gabinetes de Washington D.C., bem como pelos bastidores do mundo dos lobbies, enquanto transforma uma luta pela aprovação de uma lei num duelo de vontades que decorre a um ritmo intenso e é elevado por uma interpretação sublime e marcante de Jessica Chastain.


Título original: "Miss Sloane".
Título em Portugal: "Miss Sloane - Uma Mulher de Armas".
Realizador: John Madden.
Argumento: Jonathan Perera.
Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Gugu Mbatha-Raw, Michael Stuhlbarg, Alison Pill, Jake Lacy, John Lithgow, Sam Waterston.

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