09 maio 2017

Resenha Crítica: "La nuit de Varennes" (Il mondo nuovo)

 Num determinado momento de "La nuit de Varennes", encontramos Émile Delage (Pierre Malet) a tentar silenciar Giacomo Casanova (Marcello Mastroianni), após este último considerar que o povo é o mais brutal e tirânico dos soberanos. Thomas Paine (Harvey Keitel) condena imediatamente a atitude extremista de Delage e salienta que a proibição das palavras é sempre um passo para a tirania, com "La nuit de Varennes" a expor de forma clara que a liberdade de expressão tem de ser defendida. O comentário efectuado por Thomas Paine mantém uma actualidade notória, apesar do enredo desta longa-metragem realizada por Ettore Scola ter como pano de fundo o acontecimento histórico denominado de "Fuga de Varennes", um episódio que remete para a tentativa de fuga de Louis XVI e da sua família, entre 20 e 21 de Junho de 1791. Ettore Scola não nos oferece uma lição de História, embora mexa com diversos episódios e figuras históricas, sempre com um misto de exuberância, humor e dramatismo, ou não estivéssemos diante de uma conjuntura fervilhante e de uma série de personagens de personalidade forte. Já imaginaram um encontro fortuito entre Restif de la Bretonne, Giacomo Casanova e Thomas Paine, tendo o mencionado episódio da "Fuga de Varennes" como pano de fundo? É exactamente um encontro do género que se desenrola em "La nuit de Varennes", um drama de pendor histórico que reúne de forma ficcional estas figuras de ideais e feitios distintos. Ettore Scola concede espaço para cada um dos personagens enunciados sobressaírem, bem como os respectivos intérpretes, sempre sem descurar o contexto histórico, ou o diálogo entre as temáticas associadas às balizas cronológicas da narrativa e a época em que "La nuit de Varennes" foi lançado (o filme estreou originalmente em 1982). Não faltam comentários sobre a liberdade de expressão, as desigualdades e as convulsões sociais, a brutalidade e o lado trágico dos conflitos, enquanto ficamos diante de uma experiência cinematográfica onde a história e a ficção se misturam de forma muito viva, com a figura de Restif de la Bretonne a surgir como um elo de ligação fulcral entre os diversos protagonistas e episódios históricos. Jean-Louis Barrault incute uma faceta libertina e intrometida a Nicolas-Edme Rétif, também conhecido como Restif de la Bretonne, um escritor mulherengo que conta com uma vasta obra publicada e imensas dívidas. Recheada de livros por vender, a habitação de Restif deixa transparecer a incapacidade do escritor e impressor em transaccionar as obras literárias, uma situação que contribui para o estado pouco famoso em que se encontram as finanças deste mulherengo inveterado que não tem problemas em manter um caso com Agnès (Evelyne Dress), uma das suas filhas.


A curiosidade e a incapacidade de resistir a jovens de belos pés e de formosa aparência conduzem Restif ao bordel da madame Faustine (Caterina Boratto), onde descobre, através da filha desta, uma jovem que trabalha no Palácio das Tulherias, a informação de que existiram estranhas movimentações nocturnas no interior deste espaço (de onde a família real fugiu). Incauto observador da realidade que o rodeia, Restif procura desde logo averiguar a situação comentada pela filha de Faustine e acaba por tropeçar em mais pistas quando, durante a noite, nas imediações do Palácio das Tulherias, encarregam-no de entregar um pacote a algumas figuras misteriosas que se preparam para entrar numa carruagem. Na manhã seguinte, após reunir-se com Thomas Paine, tendo em vista a cobrar de forma adiantada uma verba relacionada com a impressão da edição francesa de "Direitos do Homem", um livro da autoria do intelectual britânico, antes deste último partir para Metz, Restif acaba por se deparar com as figuras a quem ajudou na noite anterior. Entre essas figuras encontram-se a condessa Sophie de la Borde (Hanna Schygulla), uma das damas de companhia de Marie Antoinette, bem como Monsieur Jacob (Jean-Claude Brialy), o cabeleireiro e confidente da primeira. Jean-Claude Brialy é um dos elementos do elenco que se exibem em bom nível, com o actor a exacerbar as características altivas, algo espalhafatosas e exuberantes deste cabeleireiro que mantém uma enorme lealdade para com Sophie de la Borde e para com os ideais do Antigo Regime, com o guarda-roupa e a maquilhagem a permitirem reforçar as especificidades de Jacob, um personagem mordaz que detesta a presença dos pobres, gosta de se aperaltar e de manter uma certa distância em relação a figuras como Restif. Já Hanna Schygulla insere elegância e mistério a Sophie de la Borde, uma mulher inteligente e charmosa que procura defender os interesses da Coroa e apresenta uma certa abertura para ouvir críticas construtivas. Sophie de la Borde, Jacob e Thomas Paine preparam-se para viajar no interior de uma carruagem que conta ainda com a presença de De Wendel (Daniel Gélin), um indivíduo de largas posses que tem ferrarias na Baixa Alsácia; Marie-Madeleine (Aline Mess), a criada de Sophie de la Borde; Émile Delage, um revolucionário que estuda em Paris; Virginia Capacelli (Laura Betti), uma cantora de ópera; De Florange (Michel Vitold), um juiz de largas posses e personalidade conservadora; Madame Adélaïde Gagnon (Andréa Ferréol), uma viúva de postura inicialmente contida. Restif tenta inserir-se no interior da carruagem, mas acaba por ficar temporariamente de fora devido a um ardil de Jacob. No seu estilo desenrascado, Restif logo aluga um cavalo para tentar alcançar a carruagem, com a viagem a conduzir a um encontro inesperado entre o protagonista e Giacomo Casanova.


 A par de Jean-Louis Barrault, Marcello Mastroianni é o intérprete que mais se destaca em "La nuit de Varennes", com o actor a conquistar facilmente as atenções como esta figura maior que a vida. Este Giacomo Casanova que nos é apresentado é um indivíduo em idade avançada, experiente e bem falante, que se encontra bem longe das glórias passadas, embora ainda mantenha o seu poder de sedução junto das mulheres e dos homens, apesar de já não ter o vigor de outros tempos, uma situação que contribui quer para alguns momentos de humor, quer de maior fatalismo. Casanova está consciente de que o tempo não foi meigo para consigo, embora não deixe de lado uma faceta espirituosa, com Marcello Mastroianni a aproveitar para libertar o seu talento para o humor. Veja-se quando encontramos Casanova e Restif a queixarem-se de maleitas relacionadas com a idade, com estes dois personagens a protagonizarem uma série de episódios marcantes, sobretudo quando Ettore Scola coloca Jean-Louis Barrault e Marcello Mastroianni em conjunto, com a dupla a conquistar facilmente as atenções do espectador como estes elementos com personalidades deveras peculiares. Galanteadores, bem falantes, pouco dados a falsas modéstias, Restif e Casanova beneficiam e muito da dinâmica convincente entre Barrault e Mastroianni, bem como do carisma dos dois intérpretes, com Ettore Scola a estabelecer de forma precisa as ligações que se formam entre os diversos elementos que povoam o enredo. Também Giacomo Casanova e Restif acabam por se juntar à carruagem, com este meio de transporte a surgir como um dos palcos privilegiados para a interacção entre os personagens principais de "La nuit de Varennes". No início da viagem, Jacob situa-se ao lado dos condutores, com Thomas Paine, De Wendel, Virginia Capacelli, Adélaïde Gagnon, De Florange e Sophie de la Borde a posicionarem-se no interior da carruagem, enquanto que Marie-Madeleine e Émile encontram-se na parte superior, uma disposição que se altera de forma amiúde ao longo do filme. Não faltam trocas de confidências e inconfidências, diversas mudanças de posições no interior da carruagem e algumas paragens, enquanto estas figuras percorrem as estradas da História. O argumento de Ettore Scola e Sergio Amidei, inspirado no livro "La nuit de Varennes ou L'impossible n'est pas français", da autoria de Catherine Rihoit, costura de forma certeira os encontros e desencontros deste leque alargado de personagens, com a longa viagem a permitir desenvolver algumas das particularidades destes elementos e as suas dinâmicas.


Se Casanova e Restif desenvolvem uma ligação de alguma amizade e proximidade, ou ambos não partilhassem o gosto pelas conquistas e pelos prazeres da vida, para além de apresentarem uma enorme capacidade de observação, já De Wendel e De Florange não denotam grande satisfação em relação à presença dos dois primeiros. Por sua vez, Thomas Paine opta por tomar uma série de atitudes ponderadas e sapientes, com Harvey Keitel a transmitir assertivamente o carácter culto deste revolucionário que defende os direitos dos seres humanos. Temos ainda Adélaïde, Sophie e Virginia, com o trio feminino a demonstrar alguma curiosidade em relação a Casanova e aos feitos deste homem, com Marcello Mastroianni a transmitir a aura especial que rodeia esta figura que se locomove com alguma dificuldade, veste-se de forma pomposa e tem nos feitos de outrora um afrodisíaco que parece mexer com a mente daqueles que circulam junto de si. De roupas maioritariamente brancas, farta maquilhagem e uma cabeleira cuidada que esconde alguma calvície, Casanova é apresentado como uma figura que se encontra a dar o seu canto do cisne, marcada por problemas de audição e uma sonolência notória, com o argumento a dar espaço para Marcello Mastroianni criar mais um personagem marcante da sua carreira. Esta é mais uma parceria feliz entre Marcello Mastroianni e Ettore Scola, após terem colaborado em obras cinematográficas como "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)" e "Una giornata particolare" (um drama no qual o realizador mescla acontecimentos históricos com elementos de ficção, um pouco à imagem do filme a ser alvo de análise nesta espécie de resenha), com o cineasta a exibir mais uma vez uma sensibilidade notória na condução dos actores. Diga-se que ao longo do filme torna-se particularmente notório que existiu todo um cuidado no desenvolvimento dos personagens e na escolha dos figurinos e na decoração dos cenários, com "La nuit de Varennes" a respeitar não só a época em que se desenrola o enredo mas também alguns traços da personalidade das figuras retratadas, sempre sem descurar o facto de estarmos diante de uma obra de ficção que toma diversas liberdades históricas. De ideais muitas das vezes contrastantes, pontuados por personalidades fortes e estatutos sociais distintos, os personagens que se encontram a efectuar esta viagem contam com uma miríade de diferenças, embora partilhem o facto de estarem a viver de perto os acontecimentos relacionados com a fuga da família real.


Aos poucos, os objectivos e ansiedades de cada elemento deste grupo heterogéneo são revelados. Note-se os casos de Émile e Sophie de la Borde, dois elementos que apresentam posturas claramente contrastantes, com o primeiro a expor de forma extremista os seus ideais revolucionários e o seu desprezo para com o Rei, enquanto que a segunda tenta transportar dois pacotes que têm Louis XVI como destinatário. Sophie de la Borde e Jacob efectuam a viagem na esperança de conseguirem seguir o caminho efectuado pela família real, um desiderato que promete não terminar como estes dois personagens esperam. Émile inicia ainda um fervoroso caso amoroso com Marie-Madeleine, com o primeiro a não ter problemas em expor os seus sentimentos de forma bem viva, enquanto a segunda, uma criada negra, encontra neste revolucionário um conjunto de sensações e emoções que lhe pareciam até então vedadas quer pelos preconceitos raciais, quer pela sua condição social. Pelo caminho ainda existe espaço para elementos do elenco secundário como Jean-Louis Trintignant e Didi Perego sobressaírem, com Ettore Scola a extrair interpretações sólidas do núcleo de intérpretes desta obra cinematográfica onde os factos e a ficção se juntam para algo que tanto tem de dramático como de deliciosamente delirante. Em pano de fundo, temos a fuga da família real e a incerteza que contamina a alma de alguns personagens que não sabem aquilo que vai acontecer a estes elementos da realeza, com "La nuit de Varennes" a não descurar a exposição do contexto histórico turbulento e da animosidade crescente do povo em relação ao monarca. São tempos fervilhantes que resultam em mudanças notórias em França, com "La nuit de Varennes" a expor eficazmente o contexto histórico turbulento, sempre com alguns retoques de humor a polvilhar a tinta dramática que envolve o enredo, enquanto nos coloca diante de uma série de figuras de forte personalidade, com Ettore Scola a realizar uma obra cinematográfica pontuada por bons valores de produção, um elenco de luxo que tem oportunidade para se destacar e uma série de situações que ficam na memória.


Título original: "La nuit de Varennes".
Título em Itália: "Il mondo nuovo".
Título em Portugal: "A Noite de Varennes".
Realizador: Ettore Scola.
Argumento: Ettore Scola e Sergio Amidei.
Elenco: Jean-Louis Barrault, Marcello Mastroianni, Harvey Keitel, Hanna Schygulla, Andréa Ferréol, Laura Betti, Jean-Louis Trintignant, Pierre Malet, Dora Doll, Daniel Gélin, Aline Mess, Michel Vitold, Caterina Boratto, Evelyne Dress.

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