25 maio 2017

Resenha Crítica: "După dealuri" (Para Lá das Colinas)

 Quando encontramos Voichita (Cosmina Stratan) a salientar para Alina (Cristina Flutur), aquela que outrora fora a sua melhor amiga, que as "pessoas mudam", percebemos claramente que existe algo a separar estas duas personagens. Esses sinais de separação foram dados desde cedo, embora não impeçam Voichita de tentar ajudar Alina, enquanto esta última procura recuperar a relação que mantinha quando vivia com a primeira no orfanato. A relação destas duas personagens é uma das peças fulcrais de "După dealuri", bem como as dinâmicas no interior de um convento ortodoxo, as marcas de um amor não correspondido, os efeitos nefastos da ignorância e do medo, com Cristian Mungiu a aproveitar ainda para efectuar um comentário sobre a sociedade da Roménia contemporânea. É no espaço do convento onde se desenrola uma série de episódios fundamentais de "După dealuri", com a amizade de Voichita e Alina a ser colocada à prova, tal como a fé da primeira. Voichita decidiu dedicar a sua vida a Deus, tendo como habitação um convento ortodoxo, situado em Dealu Nou, onde conta com uma série de regras que cumpre com enorme rigor, com Cosmina Stratan a transmitir a faceta contida e discreta desta freira. O rosto de Cosmina Stratan contribui e muito para evidenciar a fragilidade de Voichita, uma jovem mulher de voz apagada, relativamente calma e bastante crente, que se veste quase sempre de preto e obedece praticamente a todas as ordens do padre (Valeriu Andriuţă) que lidera o convento. Diga-se que, num determinado momento de "După dealuri" o desespero e as dúvidas a espaços tomam conta de Voichita, algo expresso de forma bastante natural e credível pela actriz, com Cosmina Stratan a convencer e de que maneira como esta freira que tenta salvar a amiga. Alina foi viver para a Alemanha, onde trabalhou quer como governanta, quer como empregada de um bar, embora tarde em esquecer a amiga. Cristina Flutur imprime um tom inicialmente indecifrável a Alina, uma personagem bastante solitária, aparentemente mais prática do que Voichita, que pouco contacta com o irmão (Ionut Ghinea) e tenta recuperar a companhia da amiga, embora não compreenda totalmente as mudanças que esta última conheceu no período de tempo em que se encontraram separadas. A força física de Alina é notória, fruto de outrora ter praticado karaté, apesar da sua mente e a sua alma parecerem claramente fragilizadas. Alina sabe disso, ou pelo menos parece compreender que atravessa uma fase mais delicada, algo que a conduz a pretender ter Voichita do seu lado, ou esta não tivesse sido durante muito tempo um dos grandes baluartes da sua existência.


Voichita e Alina prosseguiram por caminhos bastante distintos após terem atingido a maioridade e saído do orfanato, algo exacerbado não só pela personalidade de cada uma, mas também pelas indumentárias utilizadas por estas duas jovens adultas. Se Voichita conta com vestes maioritariamente negras ou escuras, prontas a cobrirem boa parte do seu corpo e a exacerbarem o seu estilo de vida recatado e discreto, algo inerente à sua função de freira, já Alina utiliza inicialmente roupas práticas, geralmente de marca e por vezes de tonalidades mais claras do que as vestimentas da amiga, com as práticas desta jovem a contrastarem com o despojamento de bens materiais e a rigidez das regras que pontuam o quotidiano no convento ortodoxo. A entrada em cena de Alina vem agitar por completo as dinâmicas do convento ortodoxo, com Cristian Mungiu a aproveitar para colocar diversos personagens diante de uma série de dilemas morais, enquanto aborda com enorme acerto as especificidades de uma amizade que outrora contou com um cariz de enorme proximidade física. Os dilemas de difícil resolução marcam diversos trabalhos de Cristian Mungiu, com "După dealuri" a não ser excepção e a contar com uma série de ingredientes transversais às obras cinematográficas deste magnífico cineasta. Note-se os planos de longa duração, esculpidos com enorme rigor e significado, os dilemas morais, a capacidade do cineasta para evitar soluções fáceis e não julgar os personagens, os comentários sobre a Roménia contemporânea (e as feridas deixadas em aberto pela regime de Nicolae Ceauşescu), a câmara pronta a seguir alguns elementos de costas, a não utilização de banda sonora (ou de música não diegética), entre outros exemplos. A capacidade de extrair interpretações sinceras dos actores e actrizes é outro dos atributos de Cristian Mungiu, com os elementos do elenco a quase que se transformarem nos personagens a quem dão vida e a contribuírem e muito para o poder de alguns episódios retratados. Veja-se a intensidade que Cristina Flutur insere aos gestos de Alina a partir do momento em que esta começa a agir de forma agressiva no interior do mosteiro e protagoniza uma série de episódios delicados. A incompreensão de Alina para com o facto da amiga estar profundamente comprometida com Deus é notória, com "După dealuri" a abordar de forma crua as dores inerentes a um amor não correspondido. Como combater o amor que alguém devota a Deus? Alina não verbaliza esta questão, embora seja provável que a tenha formulado na sua mente, sobretudo quando percebe que não consegue convencer a amiga a partir consigo para a Alemanha. Diga-se que Alina também não compreende a obediência que Voichita e as restantes freiras têm para com o padre que lidera o convento, com as duas amigas a contarem com diversos laços a ligarem-nas, mas também imensas diferenças.


 As diferenças entre Voichita e Alina começam desde logo a notar-se na atitude que cada uma tem em relação à fé. Voichita pretende que Alina encontre os caminhos de Deus. Alina ainda tenta viver no convento, mas apenas deseja sair dali para fora com Voichita. A liderar este espaço encontra-se o padre interpretado por Valeriu Andriuţă, um colaborador habitual de Cristian Mungiu que volta a contar com uma interpretação marcada pela solidez, com o actor a convencer como este elemento de longa barba, roupas pretas, uma fé notória e uma postura dominadora e conservadora. Diga-se que tanto o padre como Alina tentam influenciar as decisões de Voichita, com a jovem freira a encontrar-se numa encruzilhada para efectuar as suas escolhas para o futuro de forma completamente livre. É certo que o padre não é representado de forma maniqueísta, mas também não deixa de ser notório que estamos diante de uma figura masculina que exerce um domínio perigoso sobre os elementos femininos, com excepção de Alina. Num determinado momento de "După dealuri", Alina começa a apresentar atitudes suicidas e violentas. Ainda chega a ser internada no hospital, mas os médicos estão longe de se preocuparem com o estado de saúde desta mulher, tal como a família com quem esta viveu durante algum tempo. As críticas à falta de condições dos hospitais públicos e à pouca sensibilidade de alguns médicos estão bem presentes, com a irresponsabilidade dos elementos da unidade hospitalar, ao deixarem Alina a cargo das freiras e do padre do convento, sem conhecimento prático para lidarem com os problemas de saúde desta mulher, a traduzir o descuido e despreocupação para com o estado da paciente. Os comportamentos de Alina conduzem a uma série de situações que tanto têm de violentas como de delicadas, com as emoções a aflorarem pelas almas dos habitantes do convento, sejam estes os mais experientes como o padre ou a madre superior (Dana Tapalagă como uma religiosa relativamente compreensiva), ou algumas freiras com pouca preparação para lidar com os actos desta mulher. Parece claro que Alina padece de distúrbios do foro mental, embora o padre e as restantes freiras pensem que a amiga de Voichita se encontra possuída pelo demónio, algo que promete trazer consequências trágicas para esta jovem que não tem um tratamento adequado para os seus problemas de saúde. O caso foi livremente inspirado no exorcismo de Tanacu, que ocorreu num convento situado no local mencionado e resultou na morte de Maricica Irina Cornici, uma freira com doenças do foro psiquiátrico. O padre que liderava o convento decidiu efectuar um acto de exorcismo em Maricica Irina Cornici, tendo o auxílio de quatro freiras, com este episódio a ter contado com consequências trágicas e a inspirar este poderoso drama.


A irracionalidade inerente à fé é uma das temáticas que permeiam o enredo do filme, bem como as dúvidas éticas e morais que envolvem as práticas no convento, apesar de Cristian Mungiu não julgar os seus personagens. Note-se quando encontramos duas personagens a apresentarem visões distintas em relação à forma de lidar com o cancro, com uma freira a acreditar que a fé pode resolver imensos problemas, enquanto outra personagem exibe uma perspectiva diferente, com Cristian Mungiu a colocar em diálogo um espectro mais racional e outro mais voltado para a crença. Cristian Mungiu deixa a tarefa de avaliar os actos e as crenças dos personagens para o espectador enquanto atira-o para o interior deste convento marcado por características austeras, uma atmosfera opressora e uma sensação de isolamento. Estas especificidades advêm não só das regras impostas pelo padre que lidera esta estrutura religiosa, mas também pela localização e decoração deste cenário desprovido de electricidade. As cores quentes escasseiam no interior deste espaço marcado pela presença de imensa iconografia religiosa, diversas velas (boa utilização da luz natural e das velas) e uma austeridade que reflecte o estilo de vida contido do padre e das freiras. Diga-se que o convento conta com estruturas e condições que permitem o desenvolvimento de uma série de actividades no interior desta propriedade. Não faltam galinhas, burros, um poço onde as freiras vão buscar a água e um certa sensação de isolamento, ou o convento não estivesse situado numa zona relativamente afastada dos grandes espaços urbanos. Esta sensação de isolamento aparece ainda mais vincada quando Cristian Mungiu nos coloca diante de alguns planos bem abertos que exibem de forma paradigmática as especificidades deste espaço onde as freiras habitam e cumprem as suas actividades diárias. Veja-se quando encontramos Voichita e Alina a chegarem ao convento, ainda no início do filme, após atravessarem um terreno descampado (com um espaço coberto por habitações em pano de fundo), ou o momento em que a primeira atravessa um longo pedaço de terra coberto de neve. A partir de uma fase mais adiantada de "După dealuri", a neve começa a consumir os cenários e a transmitir uma certa sensação de desesperança, com o medo e o receio inerentes quer ao desconhecimento, quer à crença de uma possível possessão a trazerem a desgraça, com Cristian Mungiu a utilizar com acerto as características do território ao serviço do enredo. A frieza da neve não enregela os sentimentos, bem pelo contrário, com Cristian Mungiu a realizar um drama poderoso, que não percorre caminhos fáceis, evita julgar boa parte dos seus personagens e deixa uma marca indelével no espectador, ou, pelo menos, neste que escreve este texto.


Título original: "După dealuri".
Título em inglês: "Beyond the Hills".
Título em Portugal: "Para Lá das Colinas".
Título no Brasil": "Além das Colinas".
Realizador: Cristian Mungiu.
Argumento: Cristian Mungiu.
Elenco: Cosmina Stratan, Cristina Flutur, Valeriu Andriuţă, Dana Tapalagă, Ionut Ghinea.

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