18 maio 2017

Resenha Crítica: "4 luni, 3 saptamâni si 2 zile" (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias)

 Drama pontuado por uma crueza indelével e um retrato áspero da Roménia de 1987, ou seja, da fase final da Governação do ditador Nicolae Ceaușescu (cuja presença nunca é vista, ou mencionada, embora as suas políticas sejam sentidas), "4 luni, 3 saptamâni si 2 zile" (para facilitar a escrita, iremos o utilizar o título em português, nomeadamente, "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias") transporta o espectador para o interior da dura realidade de Otilia Mihartescu (Anamaria Marinca) e Gabriela Dragut (Laura Vasiliu), duas estudantes universitárias, sempre tendo em atenção as dinâmicas do período histórico representado. Gabriela, mais conhecida por Găbița, divide o quarto com Otilia no interior de um dormitório universitário pontuado por quartos diminutos, corredores estreitos, poucos luxos e imenso contrabando. Laura Vasiliu incute um tom de voz relativamente baixo e frágil a Găbița, enquanto transmite a personalidade algo apagada, nervosa, precipitada e egoísta (a forma como coloca a amiga em perigo é de uma enorme irresponsabilidade) desta personagem que procura efectuar um aborto ilegal (o título remete para o tempo que Găbița tem de gravidez). Găbița conta com a ajuda e apoio de Otilia, embora o espírito de camaradagem desta última acabe por colocar a personagem interpretada por Anamaria Marinca diante de uma série de perigos e episódios emocionalmente devastadores. Otilia é uma estudante universitária relativamente independente, que apresenta uma personalidade mais forte e pragmática do que Găbița, bem como um maior à vontade a lidar com os acontecimentos e as adversidades, algo transmitido por Anamaria Marinca, com a actriz a surgir como uma das figuras centrais da narrativa e do olhar de Cristian Mungiu, o realizador deste drama onde a luz é envolta pelo cinzentismo da temperatura e dos sentimentos. A actriz tem uma interpretação marcada pela contenção na exposição dos sentimentos, embora Otilia nem sempre consiga manter a calma, sobretudo quando é colocada diante de uma situação extrema. Diga-se que os personagens que lidam com problemas de difícil resolução ou dilemas que desafiam os seus limites surgem como algo que une "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" com outros trabalhos de Cristian Mungiu, tais como "Occident", "După dealuri" e "Bacalaureat". Não faltam ainda outras temáticas e elementos a unirem as obras mencionadas, tais como a ausência de música não diegética, os planos-sequência executados com enorme rigor, a câmara de filmar quase sempre pronta a acompanhar as emoções dos protagonistas, os personagens filmados de costas, o bom aproveitamento dos actores e actrizes que compõem o elenco, os cenários utilizados com enorme acerto, a abordagem de temas relacionados com a sociedade romena ao mesmo tempo que são levantadas questões relativamente universais. A atmosfera que rodeia a representação do território da Roménia está longe de ser a mais apolínea, ou optimista, com este espaço a parecer combinar praticamente na perfeição com o estado de espírito dos personagens. As árvores surgem despidas de folhas, o céu dotado de um cinzentismo arrasador, enquanto os jovens recorrem ao contrabando e a serviços ilegais para obterem os seus intentos, sejam estes comprar tabaco ou cometer um aborto. Otilia e Găbița fumam, compram produtos contrabandeados (não faltam referências a marcas de tabaco, sabonetes, a produtos de beleza, entre outros) e apresentam uma camaradagem típica de quem habita no mesmo local, embora contem com diversas diferenças a nível de personalidade e gostos.


 Cristian Mungiu aproveita o início de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" para apresentar de forma rápida o quarto das jovens e as dinâmicas na residência estudantil, até colocar Otilia a tratar de assuntos como a reserva de um quarto de hotel (sempre sem levantar grandes suspeitas) e o encontro com Viarel Bebe (Vlad Ivanov), o indivíduo que vai realizar o aborto de Găbița. Vlad Ivanov é o elemento do elenco que mais se destaca, com o actor a interpretar uma figura hedionda, repugnante e inflexível, algo exposto pelo actor de forma brilhante quando Bebe está na presença de figuras femininas. Veja-se o encontro entre Bebe e a mãe, com o primeiro a exibir uma frieza indelével e uma crueza nas palavras que deixam antever alguns momentos tensos entre este indivíduo e as duas estudantes universitárias. O episódio em que Bebe se dirige ao encontro da progenitora permite ainda expor a mestria com que Cristian Mungiu utiliza o espaço do campo e aproveita os cenários, com Otilia a surgir em primeiro plano, no interior do carro, enquanto o personagem interpretado por Vlad Ivanov aparece em pano de fundo, a dialogar com a mãe, com o cineasta a aproveitar para exibir alguns traços da personalidade deste indivíduo e a deixar a tensão fervilhar no seio deste território marcado por uma atmosfera pessimista. Vlad Ivanov surge em pano de fundo, apesar de estar no centro das atenções no momento em que discute com a mãe, com este indivíduo a entrar na esfera de Otilia devido ao aborto que Găbița pretende realizar. A longa cena em que Bebe se encontra com Otilia e Găbița no quarto de hotel é emocionalmente poderosa e devastadora, com Cristian Mungiu a fazer questão de deixar espaço para Vlad Ivanov, Laura Vasiliu e Anamaria Marinca explanarem o talento que denotam para a interpretação, enquanto diversas mentiras e segredos são revelados e uma amizade é colocada à prova. Vlad Ivanov domina as atenções, ou Bebe não aparecesse como uma figura inquietante, pronta a reprimir as suas interlocutoras e a aproveitar-se das mesmas. O aborto é proibido por lei. Bebe, Găbița e Otilia sabem disso, embora conheçam algumas figuras femininas que interromperam propositadamente a gravidez. A prática de aborto ilegal e a presença dos produtos contrabandeados exibem quer o cuidado na representação da época, em particular a forma como a população procurava encontrar meios para ultrapassar as políticas de Nicolae Ceaușescu (a interrupção voluntária da gravidez era proibida por lei devido ao facto do ditador pretender aumentar a taxa de natalidade do país), quer a capacidade do cineasta em abordar diversas temáticas e elementos associados a este período histórico e a maneira como o contexto influencia os comportamentos e o modo de vida dos personagens. Veja-se o guarda-roupa dos personagens, ou os diálogos trocados em momentos de maior conflito geracional (particularmente notório no jantar de aniversário da mãe de Adi, o namorado de Otilia), ou a atmosfera opressora que rodeia as duas protagonistas.


 Perante a impossibilidade de abortar de forma legal, Găbița recorre aos serviços de Bebe, pedindo pelo caminho a ajuda de Otilia. O que estas não esperavam, ou, pelo menos, Otilia não sabia, é que Bebe iria aproveitar-se da situação para se envolver sexualmente com ambas em troca de provocar a interrupção da gravidez de Găbița. Esta não tem grandes condições financeiras para pagar a Bebe, mentiu em relação à gravidez (inicialmente mencionou a Bebe e Otilia que se encontrava grávida de dois meses, posteriormente de três, até confirmar que já está no quarto mês), quebrou uma série de regras estipuladas pelo personagem interpretado por Vlad Ivanov (como não ter marcado um quarto em um dos hotéis pretendidos pelo abortador), faltou à verdade a Otilia, para além de parecer incapaz de lidar de forma inflexível com este indivíduo que começa a jogar psicologicamente com as duas estudantes. Diga-se que Găbița já tinha apresentado uma fragilidade indelével ao deixar Otilia praticamente no centro de boa parte da preparação do aborto, embora nada fizesse prever que esta personagem relativamente sonsa acabaria por colocar a integridade da amiga em risco. Găbița e Otilia ficam numa situação delicada, com o aborto da primeira a depender daquilo que as duas amigas estão dispostas a fazer com Bebe. Não faltam doses consideráveis de tensão no seio destes momentos que decorrem no interior do quarto do hotel, com Cristian Mungiu a surgir como um mestre a controlar as emoções do espectador e dos personagens, sempre com alguma subtileza à mistura. O cineasta exibe os momentos que antecedem e sucedem ao abuso sexual, omitindo pelo caminho a exibição deste episódio que marca Otilia e Găbița. A face de Anamaria Marinca transmite a dor, a raiva contida, a repulsa e o desespero sentido por Otilia, enquanto Laura Vasiliu exibe o descontrolo e uma faceta menos conhecida de Găbița, com as duas personagens a serem alvo de uma chantagem desumana por parte de um individuo que tem o "dom" de repugnar aqueles que se aproximam da sua pessoa, sejam as protagonistas ou o espectador. Cristian Mungiu não expõe este episódios de forma sensacionalista, embora aborde o processo de um aborto ilegal com uma crueza notória, bem como os problemas que afectam quer a amizade de Găbița e Otilia, quer o namoro desta última e Adi (Alexandru Potocean).


Os problemas entre Otilia e Adi conhecem um ponto alto no dia em que decorre o aborto de Găbița. Otilia chega atrasada a casa de Adi, no dia de aniversário da mãe deste último, devido ao facto de se encontrar a prestar assistência a Găbița, algo que incomoda o namorado (este não sabe, ainda que inicialmente, as razões para o atraso da namorada). A presença da jovem na casa de Adi dura pouco tempo e está longe de ser marcada pelos episódios mais agradáveis, pese os pais do namorado de Otilia apresentarem uma disponibilidade latente. Veja-se quando Otilia se encontra à mesa, de olhar praticamente vazio, ou afastado, com a sua mente a não parecer estar concentrada naquele jantar. É quase impossível deixar de compreender Otilia, apesar de ser improvável que consigamos descobrir tudo aquilo que percorre a mente da jovem. Rodeada por estranhos, estantes recheadas de livros e uma mesa repleta de comida e bebida, Otilia tenta manter a concentração, apesar de parecer pouco interessada na conversa dos convidados e familiares de Adi. O caso não é para menos, ou Otilia não tivesse de lidar com as memórias de ter cometido um acto que a repugna, para além de se encontrar preocupada com o facto da amiga correr risco de vida (devido ao aborto) e estar francamente desiludida com as mentiras de Găbița. Tudo piora quando o casal decide dialogar no quarto de Adi. A iluminação é diminuta, bem como o tom de voz utilizado pelos elementos do casal, com Otilia a aproveitar para expor as suas inquietações e Adi a sua perplexidade. Adi tenta minorar estragos (nota-se que nem sempre compreendeu a cara-metade), embora o namoro com Otilia não pareça ter grande futuro. Cristian Mungiu não julga estes personagens, tal como não julga o acto de Găbița ter decidido interromper voluntariamente a gravidez, com o cineasta a deixar essa tarefa para o espectador e preferir uma abordagem mais complexa, tal como em "Occident", "După dealuri" e "Bacalaureat". A desesperança parece contaminar os personagens e o enredo de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", com Cristian Mungiu a não dar tréguas a Otilia e Găbița, enquanto efectua um retrato cru, duro e poderoso da Roménia em 1987 ao longo deste drama que permitiu reconhecimento definitivo do cineasta por parte da crítica e do público.


Título original: 4 luni, 3 saptamâni si 2 zile".
Título em Portugal: "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias".
Título em inglês: "4 Months, 3 Weeks and 2 Days".
Realizador: Cristian Mungiu.
Argumento: Cristian Mungiu.
Elenco: Vlad Ivanov, Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Alexandru Potocean.

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