01 abril 2017

Resenha Crítica: "Un bacio" (Um Beijo)

 Num determinado momento de "Un bacio" encontramos Renato (Thomas Trabacchi), o pai adoptivo de Lorenzo (Rimau Ritzberger Grillo), a salientar: "O meu filho não deve ser tolerado, ele deve ser aceite como é". É um momento forte de "Un bacio", que reforça paradigmaticamente uma das mensagens centrais do filme: a necessidade de compreendermos e aceitarmos as diferenças e semelhanças daqueles que nos rodeiam, independentemente da orientação sexual, género, ou raça. Essas diferenças e semelhanças são abordadas tendo Blu (Valentina Romani), Lorenzo e Antonio (Leonardo Pazzagli) como figuras centrais, ou os três adolescentes não fossem os protagonistas da terceira longa-metragem realizada por Ivan Cotroneo. Valentina Romani, Rimau Ritzberger Grillo e Leonardo Pazzagli contam com interpretações de bom nível, sobretudo os dois primeiros, com as dinâmicas convincentes entre os integrantes do elenco principal a marcarem "Un bacio" pela positiva. Valentina Romani transmite a mescla de insegurança e força interior de Blu, uma adolescente solitária, que tem na escrita uma forma de se evadir dos aborrecimentos quotidianos e dialogar consigo própria. Veja-se os vários momentos em que encontramos Blu a falar em off, enquanto escreve sobre o seu dia a dia para nunca mais se esquecer da época problemática em que tinha dezasseis anos de idade. Diga-se que a adolescente atravessa uma fase relativamente complicada quer por estar num período da sua vida em que tudo é vivido e sentido com mais intensidade, quer por contar com alguns problemas em casa, quer por ser regularmente insultada e colocada de lado pelos colegas de escola. Os insultos remetem para o facto de quase toda a escola secundária saber que Blu fez sexo em grupo com Giò, o namorado, bem como com alguns amigos deste indivíduo, uma situação que despertou uma série de rumores, com poucos elementos a parecerem interessados em saber toda a verdade. Os contornos deste episódio apenas são esclarecidos no último terço de "Un bacio", quando percebemos que o relacionamento à distância de Blu e Giò conta com uma perigosa carga venenosa. Este relacionamento permite que "Un bacio" aborde temáticas como abusos no interior de um namoro, enquanto Ivan Cotroneo exibe a necessidade premente destes actos serem denunciados e dos jovens contarem com o apoio dos familiares, com o realizador e argumentista a inserir uma série de temas relevantes no interior da narrativa do filme. Não faltam temáticas relacionadas com as descobertas inerentes à transição para a idade adulta, a homofobia, a adopção, a formação da identidade, os relacionamentos entre pais e filhos, o suicídio, o papel dos professores na educação dos alunos, o bullying, envolvimentos amorosos marcados por abusos, a crueldade nas redes sociais, entre outras, sempre tendo Blu, Lorenzo e Antonio como elementos centrais.


 O quotidiano de Blu muda por completo com a chegada de Lorenzo, um adolescente extrovertido que foi recentemente adoptado por Renato e Stefania (Susy Laude), um casal que conta com uma mentalidade aberta e uma enorme afabilidade. Se Blu utiliza inicialmente roupas de tonalidades mais escuras, prontas a evidenciar o momento menos positivo da sua existência e a sua personalidade arisca, já Lorenzo conta com vestimentas de cores garridas e quentes que reforçam o carácter extrovertido deste adolescente cheio de vida. Rimau Ritzberger Grillo evidencia a confiança aparente de Lorenzo, um adolescente de dezasseis anos de idade, abertamente homossexual, fã de Lady Gaga, coleccionador de sapatos, sonhador e irreverente, que imagina ser aceite por todos e cria na sua mente algo que tanto tem de utópico como de naïf e cândido. Veja-se quando sonha que todos recebem-no de forma bastante aberta no interior da sua nova escola, situada em Udine, ou o momento em que finge que a maioria dos seus colegas vieram pedir desculpas por terem criado uma página a insultá-lo. A realidade é bem distinta, com Lorenzo a utilizar a sua criatividade e inteligência para tentar contornar as dores provocadas pela intolerância em relação à sua pessoa. Essa intolerância atravessa não só uma parte considerável dos colegas de Lorenzo, mas também alguns professores, algo que explica a defesa que Renato efectua em relação ao direito que o adolescente tem em vestir-se e maquilhar-se como quiser. "Un bacio" aborda com acerto a intolerância da nossa sociedade em relação aos elementos que são considerados "diferentes", algo exposto na forma como Lorenzo e Blu, dois jovens cheios de personalidade, acabam por ser remetidos para as margens por não corresponderem a um "padrão" do gosto que existe quer no interior das escolas, quer fora destes espaços. Lorenzo forma rapidamente uma forte amizade com Blu, pontuada por uma irreverência e um tom sardónico muito típico da adolescência, com Rimau Ritzberger Grillo e Valentina Romani a contarem com uma química convincente como estes jovens que não se inserem nos grupos das figuras mais populares da escola. Quem também não está entre os elementos mais populares deste estabelecimento de ensino de Udine é Antonio, um indivíduo introvertido, que é um dos melhores jogadores da equipa de basquetebol desta escola secundária, embora conte com más notas e uma inabilidade latente para formar amizades. Lorenzo está apaixonado por Antonio, algo que o conduz, em conjunto com Blu, a convidar o basquetebolista para jantar. O convite é antecedido por um número musical delirante, ao som de "Sunday Girl", com "Un bacio" a não poupar em momentos pontuados pela música e pelas estranhas coreografias. A banda sonora conta com uma relevância indelével no interior da narrativa, com Ivan Cotroneo a utilizar canções como "Loud Like Love", "Hurts", "Born This Way", entre outras, para reforçar os sentimentos que percorrem a alma dos protagonistas. Veja-se o número musical protagonizado por Lorenzo, Blu e Antonio, no qual o trio experimenta uma variedade enorme de roupas, naquele que é um dos momentos de enorme leveza protagonizado por este "bando à parte". 


Se Lorenzo está apaixonado por Antonio, já este último encontra-se interessado em Blu, com o trio a protagonizar uma série de episódios delirantes até a tragédia chegar e trazer consequências que exibem paradigmaticamente o lado negro da intolerância, do medo e do preconceito. Ivan Cotroneo não engana o espectador em relação às mensagens que pretende e consegue transmitir ao longo de "Un bacio", com o cineasta a realizar uma obra cinematográfica que deveria ser de visualização praticamente obrigatória para todos os adolescentes (e não só). É certo que as mensagens e as temáticas relevantes por si só não fazem com que um filme tenha valor cinematográfico, mas "Un bacio" sabe aproveitar maioritariamente as mesmas ao serviço do enredo, apesar de um ou outro tropeço. Veja-se a incapacidade de Ivan Cotroneo em conseguir que os colegas de Blu, Antonio e Lorenzo ultrapassem o estereótipo de elementos superficiais que não compreendem os protagonistas e dificultam a vida aos mesmos, ou o "final duplo" que reforça apenas o óbvio, ou os "ingredientes" de animação que são inseridos com a mesma facilidade com que são descartados. Já a relação dos protagonistas com os familiares está longe de poder ser considerada um tropeço, bem pelo contrário. Atente-se à relação marcada pela compreensão de Lorenzo com os pais adoptivos, ou o quotidiano nem sempre pacífico de Blu com os progenitores (interpretados por Simonetta Solder e Giorgio Marchesi). A relação de Antonio com os pais também conta com algumas particularidades. O pai (Sergio Romano) leva-o constantemente a caçar, embora Antonio não tenha grande talento para a caça, enquanto que a mãe (Laura Mazzi) ainda parece demasiado presa à dor provocada pela morte do irmão do protagonista. Diga-se que Antonio também se encontra afectado pela morte do irmão mais velho, algo notório quando o encontramos a contactar de forma imaginária com o familiar. Leonardo Pazzagli tem uma interpretação relativamente competente como este adolescente que está longe de ser um exemplo de eloquência ou de compreender totalmente aquilo que o rodeia, enquanto lida com uma série de sensações, descobertas e receios. O medo promete minar a relação do trio de protagonistas, até então marcada por diálogos típicos da adolescência e uma série de actos que evidenciam alguma imaturidade desta fase de transição para a idade adulta, enquanto que a chegada de um beijo traz um terramoto que abala por completo a amizade de Blu, Lorenzo e Antonio. Blu e Lorenzo tentam afastar-se das amarras impostas por uma sociedade conservadora (quer a nível dos comportamentos, quer do guarda-roupa, quer da atitude), algo que conduz a que sejam praticamente colocados de parte por aqueles que os rodeiam, enquanto Antonio parece temer os comentários dos restantes colegas, com "Un bacio" a explorar com acerto as dinâmicas que envolvem este trio. Entre paixões não correspondidas, uma abordagem eficaz de uma série de temáticas relevantes e uma dinâmica deliciosamente convincente de Rimau Ritzberger Grillo e Valeria Romani, "Un bacio" capta com alguma inspiração as ansiedades, dores, alegrias e diversas problemáticas associadas à adolescência.

Título original: "Un bacio". 
Título em inglês: "One Kiss". 
Título em Portugal: "Um Beijo".
Realizador: Ivan Cotroneo.
Argumento: Ivan Cotroneo e Monica Rametta.
Elenco: Rimau Ritzberger Grillo, Valentina Romani, Leonardo Pazzagli, Thomas Trabacchi, Susy Laude, Laura Mazzi, Sergio Romano, Simonetta Solder e Giorgio Marchesi.

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