25 abril 2017

Resenha Crítica: "Miracolo a Milano" (O Milagre de Milão)

 Tudo começa com a frase "Era Uma Vez...", quase a dar o mote para a atmosfera próxima de um conto de encantar que rodeia "Miracolo a Milano", uma obra cinematográfica que mescla o realismo e a fantasia, a complexidade e a simplicidade, o lirismo e a crueza, a inocência e o pragmatismo, com Vittorio De Sica a transportar o espectador para o interior de um enredo onde um jovem órfão mexe por completo com o quotidiano daqueles que o rodeiam. O jovem em questão é Totò (Francesco Golisano), o protagonista deste conto neo-realista, um indivíduo simples, optimista e ingénuo, que galvaniza uma série de figuras depauperadas a lutarem pelos seus sonhos, embora acabe muitas das vezes por lidar com a ganância humana, bem como com a bondade dos seus pares e da sua mãe adoptiva. No início de "Miracolo a Milano" encontramos Totò, ainda bebé, a ser adoptado por Lolotta (Emma Gramatica), uma senhora vetusta, simpática e sonhadora. Emma Gramatica tem uma participação curta mas marcante em "Miracolo a Milano", com a actriz a transmitir a personalidade afável, tolerante e sonhadora de Lolotta, uma idosa que tenta passar os seus valores para o filho adoptivo. As dinâmicas entre Totò e Lolotta são pontuadas por algumas doses de ternura e uma sinceridade que contribui quer para o impacto provocado pela morte desta mulher, ainda nos primeiros dez minutos do filme, quer para a facilidade com que acreditamos na personalidade naïf e bondosa do protagonista, fruto da educação da mãe, quer para a candura que marca o regresso temporário desta figura feminina. A morte de Lolotta enche Totò de tristeza, algo notório quando observamos o jovem a acompanhar o veículo que transporta o caixão. Vittorio De Sica deixa Totò a caminhar praticamente sozinho pelas ruas de Milão, num silêncio sepulcral, enquanto exibe os espaços desta cidade que parece incapaz de integrar todos os seus cidadãos, com o cineasta a aproveitar eficazmente este território ao serviço do enredo. Embora conte com diversos elementos de fantasia, "Miracolo a Milano" integra no seu interior uma série de características associadas ao neo-realismo italiano. Note-se as filmagens fora dos espaços dos estúdios (um aproveitamento assertivo da cidade de Milão e das suas margens), a abordagem de temáticas do foro social (a pobreza, a solidão, o capitalismo selvagem, as desigualdades), o destaque dado a figuras desfavorecidas (sempre com uma mescla de realismo e fantasia), ou Totò não surgisse como um protagonista sem grandes possibilidades financeiras que se integra no interior de um bairro de lata.


A morte de Lolotta leva a que Totò seja obrigado a viver no interior de um orfanato, com Vittorio De Sica a aproveitar a entrada do protagonista neste estabelecimento para avançar cronologicamente com a narrativa, com o personagem principal a entrar ainda criança neste espaço e a sair já maior de idade. Totò continua a conservar os ensinamentos de Lolotta, com Francesco Golisano, um actor expressivo (por vezes fica a ideia que poderia ter sido uma estrela do cinema mudo), a conseguir transmitir a inocência, bondade, altruísmo e entusiasmo do protagonista, um jovem quase sempre sorridente (o seu sorriso é contagiante) e pronto a acreditar na generosidade daqueles que o rodeiam. Veja-se quando Totò sai do orfanato, com o protagonista a cumprimentar tudo e todos com um "bom dia" cheio de vida e simpatia, algo que desperta a estranheza daqueles que o rodeiam, ou não estivéssemos perante uma sociedade muitas das vezes fechada em si mesma e pouco dada a actos simples de cortesia. Totò surge como uma espécie quase rara que acredita na bondade e na Humanidade, tendo a capacidade de provocar estranheza em algumas pessoas mas também admiração. A saída do orfanato, após atingir a maioridade, conduz o protagonista a deparar-se com elementos como Alfredo (Arturo Bragaglia), um sem-abrigo. Alfredo rouba a mala do protagonista devido a passar por necessidades, enquanto Totò exibe toda a sua bondade ao oferecer o objecto ao sem-abrigo. Perante a gentileza de Totò, Alfredo decide convidar o jovem a passar a noite na sua casa, uma espécie de tenda improvisada, com a dupla a formar amizade. Alfredo dorme num terreno que se encontra nas margens de Milão, longe dos grandes edifícios, que é povoado por uma série de sem-abrigo que, com excepção de um ou outro elemento, tais como Rappi (Paolo Stoppa), denotam um certo espírito de grupo. Diga-se que este local encontra-se inicialmente coberto de neve, com tudo e todos a necessitarem de correr em direcção aos poucos espaços onde o Sol bate, tendo em vista a aquecerem temporariamente os corpos (Vittorio De Sica é capaz de encontrar poesia em "simples" raios solares). Vittorio De Sica e G.R. Aldo (director de fotografia) captam o largo conjunto de habitantes deste espaço através de alguns planos de conjunto que exibem quer estes elementos que habitam nas ruas, quer a hostilidade deste terreno que se encontra desprovido de condições para alguém viver de forma decente, enquanto deixam os espectadores diante das dificuldades e dos sonhos de algumas destas figuras que procuram viver com dignidade e ultrapassar as adversidades. É mais uma chamada de atenção de Vittorio De Sica para os problemas da sociedade italiana do pós-Guerra, tal como efectua em "Sciuscià", "Ladri di biciclette" e "Umberto D.", três obras neo-realistas, assim como "Miracolo a Milano", que abordam temáticas como a incapacidade da sociedade em integrar e dar condições a todos os seus cidadãos, algo que se repete no filme a ser alvo desta espécie de resenha, com o cineasta a não cair em facilitismos na abordagem dos temas.


 Perante a situação precária de diversos elementos que habitam no terreno onde passou a noite, Totò decide ajudar e inspirar os seus companheiros a construírem uma série de barracas, enquanto arregimenta estes homens e mulheres para transformarem o território num bairro de lata onde podem viver de forma relativamente organizada, ou seja, no seu lar. Não faltam divisórias para solteiros, para casais e para famílias, mas também uma série de actividades que englobam uma boa parte dos sem-abrigo, com Vittorio De Sica a conseguir que tenhamos a noção do espaço ocupado por estes elementos ao mesmo tempo que exacerba a mescla de realismo e fantasia que rodeia o quotidiano dos personagens principais. Francesco Golisano é fundamental para uma boa parte do enredo funcionar, com o actor a criar uma figura genuinamente afável, que tenta ajudar todo aqueles que o rodeiam. Veja-se a forma como o protagonista procura, muitas das vezes de forma quase infantil e ingénua, reconfortar aqueles que contam com algum tipo de problema, ou a maneira peculiar como consegue que Edvige (Brunella Bovo), a jovem empregada de um casal, não seja despedida. Se a patroa de Edvige apresenta uma altivez notória, deixando transparecer que ainda não está habituada à pobreza, já a jovem conta com uma irreverência, candura e simplicidade que combinam praticamente na perfeição com o protagonista. A patroa de Edvige é uma das poucas habitantes deste espaço que destoa em relação aos restantes elementos, um pouco à imagem de Rappi, com Paolo Stoppa a incutir um estilo individualista e pouco confiável a este sem-abrigo que não tem problemas em afastar todos aqueles que habitam perto de si. Outra figura pouco confiável que circunda o terreno onde os sem-abrigo estão instalados é Mobbi (Guglielmo Barnabò), um empresário que adquire este pedaço de terra a Brambi, outro capitalista que não está minimamente interessado no bem-estar do grupo de Totò. O momento em que Mobbi e Brambi regateiam o preço do terreno é um dos vários trechos de "Miracolo a Milano" que remetem para os filmes mudos (a própria banda sonora contribui muitas das vezes para essa situação), com Vittorio De Sica a deixar que os intérpretes utilizem bastante o corpo para se expressarem. No trecho em questão, Mobbi tenta baixar o valor a pagar, enquanto que Brambi procura receber o máximo dinheiro possível, com a dupla a apresentar uma enorme expressividade e ferocidade a esgrimir argumentos ao ponto de parecer que estamos diante de dois bulldogues que começam a latir (vale a pena realçar que por breves momentos apenas ouvimos sons semelhantes a latidos). Por sua vez, Vittorio De Sica insere um tom mordaz a este momento de "Miracolo a Milano", com o cineasta a esboçar uma crítica aos capitalistas selvagens que parecem incapazes de pensarem no "outro", ou seja, que contrastam de forma clara com o altruísmo de Totò.


Se personagens como Totò e Edvige apenas querem viver com dignidade, já Mobbi pretende unicamente lucrar com os negócios, com as intenções deste último a serem bem claras a partir do momento em que os moradores deste bairro de lata descobrem petróleo no interior do terreno. Mobbi procura expulsar Totò e companhia, enquanto o protagonista tenta unir os companheiros para que, em conjunto, consigam travar os intentos do empresário que outrora prometera deixar os sem-abrigo habitarem neste espaço que parecia desprovido de valor. Este desiderato de Totò conta com alguns revezes e diversas surpresas pelo caminho, tais como uma visita inesperada de alguém que chega dos céus, em forma espectral, bem como o auxílio de uma pomba branca que é capaz de materializar os desejos em realidade, com "Miracolo a Milano" a assumir de vez a sua faceta próxima de uma fábula. Os poderes da pomba despertam uma certa ganância no interior destes elementos que nunca tiveram nada, que logo procuram os mesmos luxos daqueles que os desprezam, embora Totò não se deixe influenciar pela possibilidade de ter grandes bens materiais, pretendendo apenas presentear Edvige e ajudar os sem-abrigo. Totò e Edvige denotam que estão interessados um no outro, com ambos a contarem com uma faceta simples e algo naïf que facilmente nos conquista. Francesco Golisano e Brunella Bovo protagonizam alguns momentos dotados de enorme humanidade, com a relação dos personagens interpretados por esta dupla a conter algumas doses de leveza, ternura e simplicidade, com Vittorio De Sica a reunir no interior de "Miracolo a Milano" as porções certas de humor, drama, romance e fantasia. Vittorio De Sica desenvolve eficazmente as dinâmicas destes elementos que se encontram em situações de pobreza extrema, para além de expor, de forma ficcional, as dificuldades sentidas por estes homens e mulheres que procuram viver com dignidade e as ténues conquistas que efectuam, com "Miracolo a Milano" a colocar o altruísmo, optimismo e alegria de figuras como Totò em contraste com o oportunismo dos grandes capitalistas ao mesmo tempo que exibe as discrepâncias de uma sociedade que beneficiaria e muito se tivesse mais indivíduos como o personagem interpretado por Francesco Golisano. Apoiado por um argumento aprumado de Cesare Zavattini, Suso Cecchi D'Amico, Mario Chiari e Adolfo Franci, bem como por um trabalho inspiradíssimo de Vittorio De Sica na realização, "Miracolo a Milano" mescla harmoniosamente o drama, o humor, a fantasia, o romance e a poesia, enquanto aparece praticamente como um bálsamo capaz de fazer sonhar, aliviar qualquer desilusão cinéfila e revigorar a paixão pela Sétima Arte.


Título original: "Miracolo a Milano".
Título em Portugal: "O Milagre de Milão".
Realizador: Vittorio De Sica.
Argumento: Cesare Zavattini, Vittorio De Sica, Suso Cecchi D'Amico, Mario Chiari, Adolfo Franci. Elenco: Francesco Golisano, Emma Gramatica, Brunella Bovo, Paolo Stoppa, Arturo Bragaglia, Guglielmo Barnabò.

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