26 abril 2017

Resenha Crítica: "Ma Loute" (2016)

 A bandeira vermelha é exibida de forma regular ao longo de "Ma Loute", embora o perigo que ronda alguns personagens desta longa-metragem realizada por Bruno Dumont não venha directamente das águas revoltas, mas sim de uma família de canibais que habita em St. Michel, um bairro de pescadores situado nas imediações de Pas-de-Calais. O núcleo desta família é composto por um casal (os Brufort) e os seus quatro filhos, Cloclo (Noah Noulard), Ti-Louis (Noa Creton), Patte (Julian Teiten) e Ma Loute (Brandon Lavieville), com este último a surgir como um dos personagens principais do filme. Ma Loute e L'Éternel (Thierry Lavieville), o seu pai, trabalham quer na apanha de mexilhão, quer como barqueiros, para além de acumularem, de livre vontade, a tarefa de esvaziarem o território da presença de turistas. O método que Ma Loute e L'Éternel utilizam para esvaziar o território é simples: eliminar e comer alguns dos turistas, com Bruno Dumont a expor de forma bem gráfica algumas partes dos corpos que são bastante apreciadas pelos Brufort. Veja-se quando somos colocados diante de um balde recheado de pedaços de um corpo, ou o momento em que encontramos a Srª Brufort (Caroline Carbonnier) a perguntar se os seus quatro filhos pretendem comer mais um pé, entre outros episódios que exibem o gosto de Bruno Dumont em jogar com as expectativas e os limites do espectador. Diga-se que o cineasta tem em "Ma Loute" uma obra de grande vigor, irreverência e uma mescla certeira entre o refinamento e o grotesco (tanto somos colocados diante de um plano belíssimo como de um personagem a cuspir ou a comer carne humana), com alguma crítica social e humor à mistura. Note-se o tom jocoso com que Bruno Dumont retrata os personagens que representam a burguesia, ou o desprezo que os elementos mais abastados evidenciam para com a populaça (algo revelador da tentativa de manter a estratificação social). Pelo meio não falta uma investigação protagonizada por dois inspectores peculiares e parcamente perspicazes, um pouco a fazer recordar "P'tit Quinquin", uma minissérie realizada por Bruno Dumont, com os dois trabalhos do cineasta a contarem com diversos elementos em comum. Desde os personagens de fisionomia e comportamentos peculiares, passando pelos cenários aparentemente paradisíacos e marcados pela presença das praias, até aos crimes que despoletam uma investigação policial, não faltam elementos a ligarem "P'tit Quinquin" e "Ma Loute", embora o maior ponto de união seja esta faceta leve, algo anárquica e inspirada de Bruno Dumont. O cineasta deixa regularmente os personagens e a narrativa à deriva (por vezes em demasia), enquanto capta e exacerba a faceta absurda de alguns comportamentos do ser humano, com a investigação protagonizada pelo Inspector Alfred Machin (Didier Desprès) e Malfoy (Cyril Rigaux), o seu adjunto, dois representantes das autoridades que contam com estranhos métodos de trabalho, uma faceta caricatural e uma dinâmica muito particular, a surgir como um dos fiapos que ligam o enredo de "Ma Loute".


 Os desaparecimentos de turistas acumulam-se, embora Machin e Malfoy tardem em resolver este caso deveras intrincado e escabroso, bem como em encontrarem o paradeiro dos corpos. Didier Desprès utiliza de forma eficaz o humor físico ao serviço da composição do personagem que interpreta, um inspector que apresenta uma grande propensão para rebolar e cair, com o actor a deixar saliente quer a incapacidade de Machin em dialogar de forma fluente, quer a pouca sagacidade que este indivíduo apresenta na recolha de pistas. De vestes negras e pesadas, mesmo com um calor abrasador a marcar o território, pouco expeditos a encontrarem informação, Machin e Malfoy parecem a versão de Dupont e Dupont, ou de Laurel e Hardy, de Bruno Dumont, com a dupla a tentar desvendar este estranho caso que afecta o espaço em que se desenrola o enredo. Estamos em pleno Verão de 1910, com Bruno Dumont a deixar-nos diante desta investigação peculiar, bem como de dois núcleos distintos de personagens, nomeadamente, os Brufort e os Van Peteghem, com os destinos destes elementos a reunirem-se em alguns pontos da narrativa. O destaque dado a estas famílias permite que Bruno Dumont aborde as idiossincrasias destes dois grupos (um pertencente ao povo, outro à burguesia), para além de contribuir para que o cineasta extraia diferentes tipos de interpretação aos núcleos distintos de actores e actrizes. Intérpretes como Brandon Lavieville, Thierry Lavieville e Caroline Carbonnier, três estreantes na representação (nas lides cinematográficas), apresentam um tom relativamente mais sóbrio e natural em relação aos profissionais que encarnam diversos integrantes dos Van Peteghen, uma família burguesa marcada por relações incestuosas e figuras de gestos e comportamentos caricaturais, com a bizarria de Ma Loute, L'Éternel e da Srª Brufort a remeter mais para os seus actos do que para o trabalho dos actores e da actriz. Esse tom mais caricatural dos membros aburguesados é desde logo visível em figuras como André Van Peteghem (Fabrice Luchini) e Isabelle Van Peteghem (Valeria Bruni Tedeschi), um casal que conta com algumas posses financeiras, roupas que reforçam a sua dimensão caricatural, uma mansão com vista para a Baía de Slack e uma ligação demasiado familiar, ou não fossem primos (Bruno Dumont satiriza esta burguesia degenerada que mantém as relações matrimoniais no seio da própria família). André e Isabelle apreciam de sobremaneira este território, embora encarem os habitantes locais como elementos pitorescos, quase rústicos, algo notório quando encontramos Isabelle, no interior do veículo do esposo, a salientar a sua felicidade por estar de regresso a este cenário ao mesmo tempo que aprecia a presença dos apanhadores de mexilhão, nomeadamente, Ma Loute e os seus familiares, quase como se fizessem parte da decoração natural deste espaço costeiro.


 Os personagens interpretados por Fabrice Luchini e Valeria Bruni Tedeschi contam ainda com a companhia das duas filhas, as jovens Gaby (Lauréna Thellier) e Blanche (Manon Royère), bem como de Billie (Raph), o sobrinho, para além de receberem a companhia de Christian (Jean-Luc Vincent), o irmão da segunda, um elemento com uma personalidade deveras estranha. O argumento, escrito por Bruno Dumont, introduz uma dimensão caricatural e deveras espalhafatosa a quase todos os personagens que pertencem ao núcleo burguês, com o elenco a elevar e muito aquilo que é pedido pelo cineasta, sobretudo Fabrice Luchini e Juliette Binoche, com a dupla a abraçar os exageros, o gosto pelo absurdo e os devaneios que pontuam o enredo de "Ma Loute". Fabrice Luchini sobressai como André, um burguês de gestos caricaturais, andar peculiar e um estilo algo atrapalhado. É um dos grandes destaques do elenco a par de Juliette Binoche, com Bruno Dumont a saber aproveitar o talento dos intérpretes profissionais que tem à sua disposição para criar figuras extravagantes que tanto repelem como provocam o riso. Juliette Binoche assume com gosto as características exageradas e algo surreais que Bruno Dumont imprime a "Ma Loute", com a actriz a criar uma personagem frívola e altiva que conserva no seu interior as dores de ter sido criada no interior de uma família burguesa onde primos casam com primos, um pai teve relações com a filha, enquanto que um irmão pode ter engravidado a irmã. Nesse sentido, tanto os Peteghem como os Brufort contam com uma série de segredos negros e uma faceta grotesca, com Bruno Dumont a encontrar o humor em situações trágicas, um pouco a fazer recordar as comédias à italiana (essa aliança entre o humor, a tragédia, o grotesco e os comentários de cariz social remetem desde logo para obras como "Brutti, sporchi e cattivi"). Binoche interpreta uma dessas figuras que despertam sentimentos mistos no espectador, nomeadamente, Aude Van Peteghem, a irmã de André, uma figura feminina que frequenta regularmente a casa de férias dos familiares e tem uma relação conturbada com Billie, o seu filho, um jovem que se veste frequentemente de rapariga. Não faltam personagens que ficam na dúvida se Billie é do sexo feminino ou masculino, com o argumento a esboçar uma tentativa de jogar com as barreiras do género do personagem interpretado por Raph, algo que se adensa quando se adivinha um possível romance entre este elemento e Ma Loute. Vale a pena salientar que o enredo conta ainda com uma subtrama relacionada com o romance entre Ma Loute e Billie, com ambos a quebrarem temporariamente as barreiras sociais que separam estas duas famílias unidas por uma faceta grotesca. O romance tem tudo para terminar mal quer por Billie mentir a Ma Loute, quer pelo personagem do título contar com instintos canibais, embora ambos denotem inicialmente algum interesse um pelo outro.


 De orelhas salientes, um rosto muito típico dos personagens dos filmes de Bruno Dumont, ou seja, longe de um modelo mas expressivo, Brandon Lavieville transmite de forma competente as características pouco expansivas e impetuosas de Ma Loute, um jovem adulto que dialoga pouco e aprecia imenso carne humana. As próprias roupas de Ma Loute, bem como de todo o núcleo masculino dos Brufort, pontuadas por tons azulados, remetem para a tentativa destes elementos em manterem uma postura discreta junto daqueles que o rodeiam, algo que contrasta com a forma de vestir dos Van Peteghem, ou estes não gostassem de ser o centro das atenções. Note-se o caso das roupas espampanantes de Aude, com as vestimentas da personagem interpretada por Juliette Binoche a reflectirem paradigmaticamente a personalidade pedante e exuberante desta figura que se encontra de passagem na casa do irmão e da cunhada. Temos ainda as já mencionadas vestimentas negras de Machin e Malfoy, uma cor neutra que remete para o facto de ambos os representantes das autoridades não se encontrarem inseridos quer no núcleo dos Brufort, quer dos Van Peteghem. O guarda-roupa dos personagens merecia por si só um artigo separado desta espécie de crítica, com o resultado final de "Ma Loute" a transmitir a ideia de que existiu todo um cuidado neste quesito quer para corresponder ao ano em que se desenrola o enredo, quer para sublinhar características de alguns dos elementos que povoam a narrativa. Note-se ainda o caso da personagem interpretada por Valeria Bruni Tedeschi, que tanto apresenta atitudes pouco polidas como se veste em algumas ocasiões de forma elegante e vistosa. Valeria Bruni Tedeschi é outra das intérpretes que podemos e devemos realçar, com a actriz a incutir em alguns momentos um tom mais brando a Isabelle, embora esta personagem também cometa actos pouco condizentes com o seu estatuto, algo notório quando a encontramos a salientar que a empregada de um restaurante e um pescador são diferentes ("não são como nós", diz Isabelle para as filhas), ou a cuspir numa estatueta que se encontra na sua casa, tendo em vista a retirar o pó que estava a cobrir o objecto. A decoração da mansão permite exacerbar o estatuto social dos Van Peteghem, com os cortinados, os quadros, as estatuetas, os talheres caros a surgirem como alguns elementos que evidenciam a opulência financeira desta família. É um espaço pontuado por diversos luxos, segredos negros e figuras peculiares, tais como os elementos mencionados, ou Nadège (Laura Dupré), a criada, uma jovem de língua afiada, desprezada por boa parte dos habitantes desta mansão, que conta com uma estranha relação de proximidade com Ma Loute.


 A própria estrutura e localização das habitações dos Brufort e dos Van Peteghem permite exacerbar as dicotomias destes dois grupos. A mansão apresenta uma estrutura opulenta, pronta a marcar o território, encontrando-se num local relativamente elevado (tal como o estatuto social destes personagens) com vista para a baía onde ocorrem estranhos desaparecimentos. Já a casa dos Brufort conta com características mais modestas e rústicas, com a sua localização, no bairro dos pescadores, a transmitir a forma de vida aparentemente mais simples destes personagens. Bruno Dumont aproveita estes espaços de forma eficiente, bem como o território circundante, com o cineasta, apoiado pelo trabalho assertivo de Guillaume Deffontaines na cinematografia (pronto a exacerbar os tons quentes e o calor que marca este território), a utilizar as características destes cenários ao serviço do enredo (não é por acaso que notamos muitas das vezes um aproveitamento da profundidade de campo). Os planos bem abertos exacerbam a imensidão do espaço costeiro, pontuado por um enorme areal e pelas longas águas do mar e do rio, ao mesmo tempo que transmitem uma certa sensação de clausura, ou não estivéssemos diante de um espaço que tanto tem de belo como de fechado em si mesmo, que conta no seu interior com uma perigosa família de canibais e um mistério que tarda em ser resolvido por uma dupla de detectives algo incompetente. É um território onde quase tudo pode acontecer, seja elementos a comer carne humana, ou personagens a flutuarem em momentos Fellinianos, com Bruno Dumont a não ter problemas em percorrer caminhos delirantes e a roçar o absurdo, bem como em envolver-se novamente pela religião, embora nem sempre desenvolva todas as temáticas ou subtramas que lança para o interior da narrativa. Note-se a incapacidade ou falta de vontade em desenvolver um possível dilema interior de Ma Loute, nomeadamente, quando o jovem tenta controlar o apetite num momento mais intimo com Billie, ou o desinteresse que parece existir em volta de diversas temáticas que são lançadas para o interior da narrativa (como a questão de identidade de género de Billie). A preocupação primordial de Bruno Dumont parece estar centralizada no aproveitamento da liberdade oferecida pela comédia, enquanto joga com os núcleos distintos de personagens e coloca-os em diálogo ou em confronto, ao mesmo tempo que extrai interpretações de bom nível de diversos elementos do elenco principal, sobretudo de Juliette Binoche, com a actriz a saber interpretar na perfeição a faceta delirante e alucinada de "Ma Loute".


Título original: "Ma Loute".
Título em inglês: "Slack Bay".
Título no Brasil: "Mistério na Costa Chanel".
Realizador: Bruno Dumont.
Argumento: Bruno Dumont.
Elenco: Fabrice Luchini, Juliette Binoche, Valeria Bruni Tedeschi, Brandon Lavieville, Raph, Didier Després, Cyril Rigaux, Laura Dupré, Thierry Lavieville, Caroline Carbonnier.

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