07 abril 2017

Resenha Crítica: "Le confessioni" (Políticos não se confessam)

 Simplista na abordagem das temáticas, incapaz de incutir o mistério que deseja ao enredo, pouco assertivo no aproveitamento do elenco, pontuado por um argumento pueril, "Le confessioni" é um filme praticamente falhado, que tenta mesclar elementos de suspense, drama, religião, crítica política e comentário social, embora raramente consiga efectuar esta mistura de maneira harmoniosa. Junte-se a irritante persistência de "Le confessioni" transmitir a ideia de que está a tentar despertar a consciência do espectador para algo desconhecido, quando apenas está a constatar o óbvio de forma pouco complexa e tudo se torna mais desinteressante de acompanhar. Realizado por Roberto Andò, "Le confessioni" procura efectuar uma crítica à vacuidade do discurso e das acções de alguns políticos, à ingerência das grandes instituições internacionais no seio de Estados soberanos, bem como ao capitalismo selvagem e à incapacidade de alguns burocratas concederem prioridade ao factor humano, embora tudo seja exposto de forma demasiado simplista, maniqueísta e redundante. O enredo de "Le confessioni" coloca o espectador diante de uma reunião peculiar do G8, na qual se reúnem os Ministros da Economia da Alemanha (Richard Sammel), Canadá (Marie-Josée Croze), França (Stéphane Freiss), Itália (Pierfrancesco Favino), Japão (Togo Igawa), Rússia (Aleksei Guskov), Reino Unido (Andy de la Tour) e Estados Unidos da América (John Keogh). A juntar a estes elementos, a reunião conta ainda com a presença de Daniel Roché (Daniel Auteuil), o director do FMI, o organizador do evento, bem como de três convidados especiais, nomeadamente, Roberto Salus (Toni Servillo), Michael Wintzl (Johan Heldenbergh) e Claire Seth (Connie Nielsen). Michael Wintz é convidado devido a representar uma ONG que efectua um trabalho considerado meritório nos países mais pobres. Claire Seth é uma escritora de livros infantis, que conta com um enorme sucesso profissional e uma personalidade frágil, tendo sido convidada devido a desempenhar um papel de relevo na defesa dos países mais desfavorecidos. Roberto Salus é um monge italiano que escreve livros, gosta de fumar, grava regularmente o canto dos pássaros, respeita o silêncio e o poder das palavras e acaba por se ver envolvido no interior de uma situação intrincada.


A razão para Roberto Salus ter sido convidado é um mistério para boa parte dos convidados, com excepção de Daniel Roché, o responsável pelo monge estar na reunião. Destes três convidados especiais, Roberto Salus é o único personagem que conta com alguma espessura, com Roberto Andò a dispor de um elenco alargado, embora raramente consiga aproveitar os actores e actrizes que integram "Le confessioni". Johan Heldenbergh insere um tom confiante, extrovertido, curioso, patético e caricatural a Michael Wintzl, um cantor canastrão, com o actor a pouco ou nada poder fazer perante a pobreza do material que tem à disposição. Connie Nielsen tem alguns (poucos) momentos para sobressair, com Claire a procurar apoiar o monge a partir da ocasião em que o protagonista se depara com uma situação delicada, embora a escritora esteja longe de surgir como uma personagem de especial relevo. Toni Servillo não salva o filme, mas é capaz de compor um personagem que convence, com o actor a transmitir a sapiência, experiência, eloquência e ponderação deste monge que apresenta bom senso, escreve livros pouco consensuais e mantém uma relação muito particular com a natureza (a utilização certeira dos close-ups permite exacerbar todo o cuidado colocado por Toni Servillo para expor as especificidades do personagem). De batina branca, sandálias e gostos simples, a visão que Roberto Salus tem do Mundo diverge e muito da superficialidade dos elementos que se encontram presentes no evento, com o monge a estar habituado a um estilo de vida modesto e a parecer contar com uma dimensão etérea, algo exposto no último terço do filme, após o personagem interpretado por Toni Servillo proferir um discurso onde Roberto Andò aproveita para expor de forma clara a sua crítica aos políticos e ao FMI. A reunião decorre num hotel de luxo situado na Alemanha, perto da praia, onde os luxos e as medidas de segurança apenas parecem ser igualados pela impessoalidade das paredes brancas e dos segredos que se escondem no interior de alguns dos quartos nos quais se encontram instalados os elementos do G8. O principal objectivo da reunião centra-se na aprovação de uma manobra secreta que promete trazer consequências nocivas para os países mais pobres, com este desiderato a não ser do conhecimento do trio de convidados. Os representantes de Itália e do Canadá apresentam algumas reticências em relação a este plano que tem tudo para destruir a economia de diversos países menos poderosos, embora boa parte dos seus pares esteja pouco preocupada com a situação.


A maioria dos intérpretes dos Ministros e Ministras da Economia não se consegue destacar, com excepção de Pierfrancesco Favino e Marie-Josée Croze, com o argumento a não conceder espaço para que boa parte dos actores secundários consigam compor personagens dignos de interesse (muitos deles a representarem o estereótipo de cada país). Pierfrancesco Favino interpreta o Ministro da Economia italiano, um indivíduo com claros problemas de consciência, com o actor a transmitir as dúvidas que assolam a mente deste político que ainda não perdeu totalmente os valores, embora tenha vendido boa parte dos mesmos ao longo da sua carreira. Marie-Josée Croze transmite a faceta simultaneamente pragmática e consciente da personagem que interpreta, uma ministra que procura manter os seus casos amorosos durante um período muito limitado de tempo e oscila entre apoiar ou rejeitar o plano do grupo. No entanto, os restantes Ministros da Economia surgem como figuras maioritariamente unidimensionais, que pensam acima de tudo nos seus interesses e proferem diálogos superficiais que visam evidenciar de forma escancarada o lado negro da política e dos interesses instalados (o argumento é de uma pobreza franciscana e de um maniqueísmo que tira poder às mensagens transmitidas). O espaço do hotel de luxo é aproveitado com algum acerto por Roberto Andò, sobretudo para efectuar o contraste entre este local e o protagonista. Veja-se como Roberto Salus prefere nadar na praia ao invés de utilizar a piscina do hotel, ou a forma simples como resolve começar a limpar a mesa, embora seja avisado de que está a quebrar o protocolo do espaço hoteleiro. Tudo muda quando Roché convida Salus, tendo em vista a confessar-se junto do monge. Os episódios que decorreram neste momento privado são expostos maioritariamente em flashback, com Roberto Andò a tentar incutir algum mistério, embora de forma falhada, em relação ao conteúdo da confissão de Daniel Roché, bem como aos perigos que envolvem o monge devido a supostamente saber informação confidencial sobre a manobra dos elementos do G8. Daniel Auteuil confere um estilo aparentemente polido a Daniel Roché, com o intérprete a expor a personalidade pragmática, pouco dada a grandes contemplações e algo sobranceira do personagem que interpreta, uma figura que pensa essencialmente no lucro e tem consciência de que foi perdendo os valores morais. Se o espectador conhece, ainda que gradualmente, alguns episódios da confissão, bem como aquilo que Daniel Roché revelou a Roberto Salus, já os restantes elementos que constam no evento não sabem praticamente nada daquilo que ocorreu no decorrer deste acto privado, uma situação que promete colocar o monge num imbróglio de difícil resolução. 


O quotidiano do monge muda quando Daniel Roché comete suicídio, com o protagonista a procurar respeitar e jogar com o sigilo inerente ao acto de confissão, enquanto é pressionado por quase tudo e todos para revelar o conteúdo dos segredos supostamente revelados pelo director do FMI. Em "I Confess", Alfred Hitchcock colocou o espectador diante de um poderoso drama mesclado com mistério, suspense e elementos de filme de tribunal, no qual um padre é julgado por um crime que não cometeu. O assassino revelou em confissão que cometeu um homicídio, um acto que conduz o padre a rejeitar revelar o acto desse indivíduo, tendo em vista a respeitar as regras da Igreja Católica. Em "Le confessioni", Roberto Andò procura jogar com o dever dos padres manterem a confissão em sigilo para criar algum mistério em volta do conhecimento que Roberto Salus obteve em relação aos planos do grupo e de Daniel Roché, com o cineasta a nem sempre conseguir manter o suspense, embora crie toda uma situação peculiar que permite exacerbar os receios dos elementos do G8. Se Alfred Hitchcock é um mestre a controlar os ritmos do enredo e os sentimentos do espectador, já Roberto Andò é incapaz de atribuir um rumo a "Le confessioni" com o cineasta a transmitir a ideia de que tem algo relevante para dizer, embora apenas constate o óbvio e seja pouco arguto a atribuir complexidade às temáticas abordadas (vale a pena realçar que "Le confessioni" contém ainda uma referência pouco subtil e redundante relacionada com "I Confess"). Esses problemas são agravados pelo facto da realidade ser bem mais complexa do que aquilo que "Le confessioni" apresenta, com o cineasta a ser claramente ultrapassado pela actualidade política e económica. Quando encontramos a personagem interpretada por Marie-Josée Croze a ironizar com a vacuidade dos jargões utilizados pelos políticos (tais como "a inversão na curva do desemprego" ou "retorno do crescimento"), ou a explanar algum desencanto em relação à sua actividade profissional, percebemos a ideia de Roberto Andò mas, infelizmente, andamos a "enfardar" regularmente com expressões do género nos telejornais para nos contentarmos com uma representação simplista, pueril e maniqueísta da degradação dos valores morais neste sector. A juntar a este comentário político, Roberto Andò procura incutir algum mistério em relação ao possível segredo guardado por Roberto Salus, embora falhe em criar um verdadeiro sentido de urgência em volta da busca efectuada por alguns personagens para descobrirem aquilo que o monge sabe sobre os planos do grupo (a banda sonora bem tenta incrementar o mistério e suspense).


 O monge surpreende tudo e todos com a sua calma e ponderação, mesmo quando é interrogado devido à morte de Daniel Roché. Diga-se que não faltam figuras que decidem dialogar com Roberto Salus, tendo em vista a tentarem obter informações, tais como Mark Klein (Moritz Bleibtreu), o indivíduo responsável por cuidar das questões de segurança que envolvem a cúpula; Caterina (Giulia Andò), uma funcionária que trabalha na equipa de boas-vindas, cuja relevância para a narrativa é praticamente nula; Paul Kis (Lambert Wilson), o melhor amigo de Daniel Roché, entre outros elementos. Temos ainda o dono do hotel, um indivíduo que padece de Alzheimer, uma doença abordada de raspão, com o personagem a ser introduzido a martelo no interior da narrativa, com o argumento de Roberto Andò e Angelo Pasquini a exibir uma fragilidade que é impossível de escamotear, inclusive na investigação efectuada por alguns elementos para aferirem o conhecimento do protagonista e confirmarem a causa da morte de Daniel Roché. O espaço do hotel surge como o cenário primordial da maioria dos episódios que decorrem no interior da narrativa de "Le confessioni", tais como as situações que envolvem as dúvidas dos diversos ministros, seja em relação ao conhecimento que o monge obteve ao ouvir a suposta confissão do director do FMI, ou à capacidade de levarem o plano adiante, ou àquilo que devem dizer à imprensa sobre a morte de Roché. Os diversos ministros procuram controlar a saída da informação da morte de Daniel Roché, com tudo e todos a tentarem minimizar os possíveis danos financeiros que esta notícia poderia provocar no FMI e na Bolsa de Valores, enquanto Roberto Andò aproveita para exibir, mais uma vez, o materialismo excessivo e a falta de valores morais dos políticos, embora tudo seja exposto demasiado a "preto e branco". Pronto a abordar temáticas intrincadas com a complexidade de um manual para crianças da primária, inepto na condução do mistério ou na criação do suspense, "Le confessioni" expõe de forma caricatural e unidimensional alguns dos problemas que afectam a realidade contemporânea, sempre sem procurar estimular o pensamento do espectador ou tentar que este reflicta sobre as temáticas abordadas. Num determinado momento de "Le confessioni", Daniel Roché salienta a Roberto Salus que não tem o hábito de perder tempo. Salus responde que "perder tempo nunca fez mal a ninguém". Quando "Le confessioni" termina, este comentário de Roberto Salus parece destinado a confortar o espectador que se sente defraudado em relação a esta obra cinematográfica.


Título original: "Le confessioni".
Título no Brasil: "As Confissões".
Título em Portugal: "Políticos não se confessam". 
Realizador: Roberto Andò.
Argumento: Roberto Andò e Angelo Pasquini.
Elenco: Toni Servillo, Daniel Auteuil, Pierfrancesco Favino, Connie Nielsen, Moritz Bleibtreu,  Marie-Josée Croze, Lambert Wilson.

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