08 abril 2017

Resenha Crítica: "In guerra per amore" (2016)

 Pierfrancesco Diliberto, mais conhecido como Pif, é um dos cineastas contemporâneos que melhor dialoga com as raízes da commedia all'italiana, algo que confirma em "In guerra per amore", a sua segunda longa-metragem como realizador, ao mesmo tempo que exibe que os excelentes indicadores deixados em "La mafia uccide solo d'Estate" não foram mera obra do acaso. Os comentários em voiceover (efectuados pelo personagem principal, interpretado por Pif em ambas as películas), muitas das vezes pontuados pelo bom humor, o desenvolvimento de temáticas relacionadas com a máfia e a Sicília, o protagonista que se depara com uma situação intrincada no interior do território onde nasceu, surgem como elementos que unem "La mafia uccide solo d'Estate" e "In guerra per amore", embora as duas obras cinematográficas abordem períodos de tempo distintos, com a primeira a decorrer entre 1962 e 1992, enquanto que a segunda desenrola-se em 1943. Diga-se que o contexto de um grande conflito bélico traz à memória "La grande guerra", uma commedia all'italiana que mescla praticamente na perfeição os elementos de humor e drama ao mesmo tempo que nos coloca diante de dois soldados peculiares e do meio que rodeia os militares. "La grande guerra" é um dos grandes exemplares das comédias à italiana, com "In guerra per amore" a partilhar diversos elementos associados a estas obras cinematográficas. Note-se que a comédia é eficazmente mesclada com a tragédia, com o humor a brotar muitas das vezes a partir de situações dramáticas, enquanto são efectuados alguns comentários de foro político e social, sempre tendo as particularidades de Itália como pano de fundo. Veja-se a forma como a máfia consegue legitimar-se na Sicília graças ao apoio dos EUA, ou a ligação entre o poder político e os mafiosos, com diversos episódios que ocorreram neste período a contarem com consequências que permanecem bem vivas no presente. Essa legitimação ocorre devido à necessidade das forças aliadas pretenderem penetrar em Itália a partir da Sicília, naquela que foi denominada de Operação Husky, algo exposto no início do filme, quando os representantes dos EUA recorrem a elementos como Lucky Luciano (Rosario Minardi) para conseguirem uma entrada pacífica neste território. Está aberta a porta para Pif expor o lado negro dos conflitos bélicos, com os EUA a combaterem o mal com o mal, ou seja, a enfrentarem os fascistas alemães e italianos com a máfia, enquanto permitem que os gangsters sejam legitimados. É uma situação exposta com imenso humor negro e crueza à mistura, algo latente quando encontramos diversos prisioneiros a serem soltos após terem cometido crimes graves, ou mafiosos como Don Calò (Maurizio Marchetti), a assumirem cargos de poder com o apoio yankee.


Existe alguma hipocrisia e frieza na atitude dos políticos dos EUA, com a solução de recorrerem aos mafiosos para combaterem os elementos do Eixo a parecer um mal menor, apesar desta opção não justificar a inoperância evidenciada para com os criminosos no período que se seguiu à II Guerra Mundial. Quem acaba por participar no conflito é Arturo Giammaresi (Pif), um indivíduo natural de Palermo, algo atrapalhado e ingénuo, propenso a envolver-se em confusões, que se encontra apaixonado por Flora (Miriam Leone). Giammaresi trabalha e habita em Brooklyn, tal como Flora, com ambos a pretenderem contrair matrimónio, embora esta última esteja prometida pelo tio (Orazio Stracuzzi), o dono do restaurante onde o primeiro trabalha, a Carmelo (Lorenzo Patané), o filho de Don Tano (Mario Pupella), o braço direito do gangster Lucky Luciano. A única solução para travar este casamento passa por Arturo viajar até à Sicília, onde habita o pai de Flora, tendo em vista a pedir a mão da amada em casamento. O problema principal: Arturo não tem dinheiro para viajar até à Sicília. O outro problema: a Sicília está a conhecer as vicissitudes da II Guerra Mundial, embora o conflito bélico contribua para que o protagonista viaje em direcção a este território, ainda que inserido no interior do exército dos EUA. Pif transmite o lado atrapalhado, peculiar e ingénuo do protagonista, com o actor a convencer como este indivíduo que se envolve no interior de uma situação que ultrapassa e muito as suas capacidades e expectativas, por vezes a fazer recordar alguns personagens interpretados por Alberto Sordi em diversas comédias à italiana. Vale a pena recordar mais uma vez "La grande guerra", um filme onde Sordi interpreta um soldado preguiçoso que procura fugir aos perigos, embora revele uma enorme coragem nos momentos finais, ou "Mafioso", em que o intérprete dá vida a um indivíduo natural da Sicília que regressa temporariamente a casa, tendo em vista a desfrutar de umas férias na companhia da esposa e dos rebentos, apesar de acabar por se envolver com a máfia e a ser praticamente obrigado a cometer um assassinato. Tal como Alberto Sordi, também Pif tem um talento exímio para o humor quer a nível dos timings com que dispara as falas (é simplesmente delicioso observar o intérprete a tentar dizer "Water"), quer nas expressões corporais, com ambos a convencerem quando dão vida a indivíduos comuns que se envolvem em situações rocambolescas ou perigosas. No caso de "In guerra per amore", o desejo de casar com Flora compele Arturo a envolver-se no interior da missão aliada, após ter sido inserido na mesma devido a um mal-entendido que remete para o inglês peculiar do protagonista.


Arturo é colocado inicialmente a desempenhar funções anódinas, nomeadamente, cuidar dos burros, até ser designado para resgatar o tenente Philip Catelli (Andrea Di Stefano), um dos seus superiores, em Crisafulli, um território da Sicília que está a conhecer toda uma série de mudanças com a entrada em cena dos aliados. O resgate envolve alguns perigos e imenso humor, com Pif a utilizar as peculiaridades dos sicilianos, tais como os valores muito próprios deste povo, ao serviço da comédia e do enredo. Veja-se o camponês que pretende eliminar dois personagens que "desonraram" a sua filha, ou as barreiras linguísticas entre Catelli e os sicilianos, com o tenente a saber falar italiano embora não entenda o dialecto local. Andrea Di Stefano evidencia convincentemente a personalidade correcta, bem intencionada, audaz e idealista de Catelli, um militar que forma uma relação de amizade com Arturo. Philip Catelli é um dos vários personagens secundários que se destacam ao longo do filme, bem como Don Calò, um mafioso poderoso que pretende eliminar Arturo, com Maurizio Marchetti a incutir um tom simultaneamente maldoso e patético a este criminoso. A vida de Arturo está em perigo quer por situações inerentes ao conflito, quer devido ao facto deste estar na mira da máfia a mando de Don Tano, embora o protagonista não esteja consciente que é um alvo a abater. Arturo procura fazer de tudo para encontrar o pai da amada ao mesmo tempo que forma amizades e começa a ganhar consciência da realidade que o rodeia, com Pif a não poupar nos comentários de foro político e social. Veja-se o mencionado caso da máfia, ou a forma como boa parte dos elementos dos EUA ignoram o facto do crime organizado estar a tomar conta da Sicília, ou a maneira como os políticos yankees facilitam a chegada dos gangsters ao poder para evitarem a entrada dos comunistas nos círculos de decisão italianos. "In guerra per amore" transmite eficazmente o contexto da época, seja através dos episódios retratados (tal como em "La mafia uccide solo d'Estate", Pif mescla episódios históricos com elementos ficcionais), ou dos cenários (note-se a iconografia relacionada com Benito Mussolini, os cartazes nas ruas, a decoração das casas, o abrigo onde habitantes se escondem durante os bombardeamentos, as bandeiras dos EUA em diversos locais de Crisafulli), ou do guarda-roupa, ao mesmo tempo que somos colocados diante de uma plêiade de personagens que conquistam o nosso interesse. Para além dos personagens mencionados, é importante realçar elementos como Sebastiano (Samuele Segreto), um rapaz que vive com a mãe e com o avô, enquanto aguarda pelo regresso do pai, um militar italiano. 


Agostino (Antonello Puglisi), o avô de Sebastiano, é um indivíduo algo casmurro e conservador, que admira Mussolini e aguarda pela chegada do filho, enquanto que Teresa (Stella Egitto), a mãe do rapaz, procura proteger o jovem e manter o bom humor, ainda que a conjuntura que rodeie esta família seja bastante intrincada. Este trio contribui quer para alguns momentos de boa disposição (associados ao culto que o veterano efectua a Benito Mussolini), quer de amargura, com Pif a exibir assertivamente as consequências das agruras inerentes à guerra. A violência é algo que perpassa pelos poros deste conflito e atinge o território, seja através dos bombardeamentos, das mudanças efectuadas neste espaço, ou nas mortes que são sentidas, com "In guerra per amore" a reunir harmoniosamente os elementos mais dramáticos com o romance e as situações mais leves. Não falta um gag relacionado com o encontro entre as estátuas de Mussolini e da Nossa Senhora, ou situações completamente estapafúrdias associadas ao inglês manhoso de Arturo (a fazer recordar o oficial Cabtree de "'Allo 'Allo!"), ou episódios delirantes que envolvem Saro (um cego interpretado por Sergio Vespertino) e Mimmo (Maurizio Bologna como um maltrapilho), dois amigos inseparáveis e quase sempre esfomeados, ou as tentativas de Flora para adiar o casamento com Carmelo, ou o escárnio em relação a uma fotografia "romântica". As estátuas de Mussolini e da Nossa Senhora contribuem ainda para dois momentos emocionalmente poderosos, que simbolizam quer a perda de confiança no ditador, quer a sensação de que nem as figuras santificadas conseguem proteger o povo de Crisafulli, com Arturo a viver uma série de episódios marcantes no interior deste espaço siciliano. Pif parte da busca que Arturo efectua com a finalidade de encontrar o pai da amada para abordar uma série de temáticas que envolvem a II Guerra Mundial, a máfia, a forma hipócrita como os EUA utilizam o mal para combater o mal, enquanto aproveita para nos puxar para o interior da Sicília, um território exposto de forma vivaz ao longo desta obra cinematográfica. Dotado de um argumento certeiro, boas interpretações, uma energia contagiante e uma capacidade notável de reunir o humor e a tragédia, "In guerra per amore" é um digno herdeiro dos melhores exemplares da commedia all'italiana, com Pierfrancesco Diliberto a confirmar que é um nome para acompanhar com enorme atenção, seja como realizador, intérprete ou argumentista.  

Título original: "In guerra per amore".
Título em inglês: "At War With Love".
Título em Portugal:
Realizador: Pif.
Argumento: Pif, Michele Astori, Marco Martani.
Elenco: Pif, Miriam Leone, Andrea Di Stefano, Lorenzo Patané, Orazio Stracuzzi, Stella Egitto, Samuele Segreto, Maurizio Bologna, Sergio Vespertino, Antonello Puglisi

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