15 abril 2017

Resenha Crítica: "Fiore" (2016)

 "Fiore" reúne no seu interior elementos drama familiar e prisional, bem como de romance e obras cinematográficas sobre a transição para a idade adulta, sempre sem puxar em demasia pelos limites dos géneros ou subgéneros enunciados, enquanto nos apresenta a uma jovem problemática, rebelde, imprevisível e irascível. Esta jovem é Daphne Bonori, interpretada com alguma verve por Daphne Scoccia, com a actriz estreante a incutir um estilo felino e arisco a esta personagem muito propensa a envolver-se em enrascadas. No início do filme encontramos Daphne a efectuar alguns furtos de telemóveis nas imediações de uma estação de metro. É exactamente num desses roubos que tudo corre mal para a delinquente. A jovem ainda tenta fugir e esconder-se das autoridades, com a câmara de filmar a acompanhar a correria intensa e desesperada de Daphne, até esta ficar praticamente encurralada e ser detida. Daphne tem de cumprir uma pena a rondar um ano de duração no interior de um reformatório para menores de idade, fruto dos assaltos que cometeu, com "Fiore" a envolver-se pelos meandros destes espaços prisionais. O reformatório onde se desenrola uma parte considerável do enredo conta com a presença de uma ala masculina e outra feminina, com os elementos de sexo distinto a não poderem conviver uns com os outros, embora Daphne logo quebre essa regra ao envolver-se com Josh (Josciua Algeri). Ambos são jovens solitários e rebeldes, que não contam com grandes perspectivas de futuro e estão presos devido a terem cometido furtos. Embora o diálogo regular entre elementos masculinos e femininos não seja permitido, Daphne e Josh conseguem manter contacto seja através de cartas que trocam às escondidas, ou em encontros furtivos, com ambos a contarem com uma irreverência inolvidável e uma perícia notória para se envolverem em enrascadas. A amizade e envolvimento com Josh, um indivíduo que foi recentemente abandonado pela namorada, contribuem para alterar as rotinas de Daphne neste estabelecimento prisional, muito marcadas pelos conflitos e a formação de algumas amizades, bem como por uma série de actividades que nem sempre motivam a protagonista. Daphne encontra em Josh um estranho calor humano que parecia faltar na sua vida, com os dois jovens a complementarem-se e a compreenderem-se praticamente na perfeição. Diga-se que Daphne é uma figura solitária, que não tem problemas em protagonizar episódios de violência, ou em colocar o espaço da prisão em polvorosa. Veja-se o momento em que Daphne incendeia o colchão da sua cama, ou quando esta se envolve em zaragatas com algumas colegas de prisão. Ficamos diante de um interessante estudo de personagem, com Claudio Giovannesi, o realizador de "Fiore", a centrar quase todas os elementos da narrativa em Daphne, enquanto conhecemos as especificidades desta jovem imprevisível e errática.


 Claudio Giovannesi capta o quotidiano de Daphne com um misto de leveza e aspereza, com os planos de longa duração e a utilização da câmara na mão a não só permitirem exacerbar a intensidade dos episódios retratados, mas também a genuinidade que marca os desempenhos de diversos actores e actrizes desta obra cinematográfica que mescla intérpretes estreantes ou não profissionais com elementos bem conhecidos como Valerio Mastandrea. Este interpreta Ascanio Bonori, o pai de Daphne, um indivíduo que saiu recentemente da prisão, após ter estado cerca de sete anos encarcerado, tendo actualmente uma relação com Stefania (Laura Vasiliu). Claudio Giovannesi engana-nos inicialmente em relação a Ascanio, com o cineasta a transmitir a ideia de que o personagem interpretado por Valerio Mastandrea é o estereótipo do pai ausente que pouco ou nada se interessa pela filha, até expor que estamos diante de uma figura que está longe de poder ser encarada a "preto e branco". Embora não seja um exemplo a seguir, nem tenha proporcionado uma educação cuidada a Daphne, Ascanio também não descura alguma atenção para com a jovem, algo notório nas visitas que efectua à filha, apesar de nem sempre estar presente quando esta precisa ou precisou. Um dos actores mais interessantes do panorama cinematográfico italiano contemporâneo, Valerio Mastandrea imprime uma postura calma a Ascanio, um elemento que a espaços tem uma ou outra erupção de fúria, que tenta refazer a sua vida e cumprir com as regras estipuladas para permanecer em liberdade, nomeadamente, não sair de casa durante a noite. Este tarda em assumir uma posição forte de apoio à filha, ou seja, permitir que esta fique a viver consigo em casa de Stefania, embora não descure essa hipótese, com as reticências levantadas por Ascanio a deixarem Daphne algo desiludida. Por vezes parece que "Fiore" vai esboçar um conflito sério entre Daphne e Stefania, ou entre a primeira e o pai, mas Claudio Giovannesi opta quase sempre por uma postura mais sóbria e pouco dada a histerismos. Diga-se que as próprias características de Daphne contribuem para este balançar do enredo entre a crueza e a leveza, com a adolescente a tanto apresentar uma faceta desencantada e arisca como a evidenciar um certo romantismo e desejo em ser feliz. Daphne encontra-se num período turbulento da sua vida, ou seja, entre o final da adolescência e a chegada à idade adulta, uma fase em que os sentimentos afloram com enorme intensidade e facilidade, com Daphne Scoccia a transmitir de forma convincente o turbilhão de emoções que se encontram contidas no interior da alma desta personagem explosiva. Daphne encontra-se ainda a forjar e afirmar a sua identidade, a descobrir a sua sexualidade e a enfrentar uma série de problemáticas complexas inerentes ao mundo dos adultos, enquanto tenta desafiar o destino e a autoridade dos elementos do reformatório.


 As actividades que Daphne é obrigada a efectuar no reformatório estão longe de agradar à protagonista, com "Fiore" a abordar, sempre num registo que parece não querer avançar por caminhos mais negros e excessivamente duros (estamos longe do dia-a-dia de um reformatório como em "Sciuscià"), o quotidiano nestes espaços e a ineficácia destas instituições como um meio que propicie a reintegração dos jovens na sociedade. É impossível não reflectirmos sobre a ineficácia deste tipo de instituições, ou "Fiore" não surgisse como um pedaço de ficção que se envolve pelos meandros de um reformatório e estimula esse debate. Desde a violência, passando pelas relações proibidas e as transacções, até às actividades obrigatórias e ao convívio entre prisioneiras, "Fiore" transmite de forma simples e eficaz algumas das dinâmicas deste reformatório, para além de expor alguma da frieza que marca as práticas que decorrem nestas instituições. Veja-se a maneira ríspida como tiram uma encomenda das mãos de Daphne, ou a forma brusca como esta é transferida de cela, ou os momentos de pancadaria. Daphne ainda forma relações de alguma proximidade com uma ou outra colega que está a cumprir pena no reformatório. Note-se a espécie de amizade que forma com Irene Mancini (Klea Marku), uma jovem que foi detida por tráfico de droga. No entanto, o elemento de quem esta se encontra mais próxima é Josh, com Josciua Algeri e Daphne Scoccia a contarem com uma química muito particular como este casal que inicia um romance proibido. A partir de um determinado momento do enredo, Daphne tem não só de lidar com algumas situações complicadas relacionadas com Josh, mas também com uma saída temporária do espaço do reformatório na qual a sua maturidade e capacidade de respeitar a ordem são testadas. É uma figura que anseia por ser livre, que ainda está a lidar com as incertezas típicas da idade, com Daphne Scoccia a contribuir para atribuir uma genuinidade notável a esta personagem que esconde alguma sensibilidade no interior da sua faceta arisca. Essa sensibilidade é bem visível quando Daphne sonha que o pai a acarinha na prisão, ou que se consegue escapulir até à cela de Josh, com os sonhos a traduzirem alguns dos desejos que se encontram a bailar pelo interior da alma da protagonista. Daphne corre imenso, seja a fugir da polícia ou como um modo de extravasar os sentimentos, enquanto anseia por se libertar das amarras que lhe são impostas quer pela sociedade, quer pelos elementos do reformatório, com "Fiore" a surgir como um drama competente, marcado por ingredientes de romance e filme de prisão, que nos dá a conhecer uma intérprete com um grande futuro: Daphne Scoccia.


Título original: "Fiore".
Realizador: Claudio Giovannesi.
Argumento: Claudio Giovannesi, Filippo Gravino, Antonella Lattanzi.
Elenco: Daphne Scoccia, Josciua Algeri, Valerio Mastandrea, Laura Vasiliu, Klea Marku.

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