21 abril 2017

Resenha Crítica: "Il boom" (Negócio à Italiana)

 Sem dinheiro para grandes investimentos, aventuras, ou devaneios, Giovanni Alberti (Alberto Sordi), o protagonista de "Il boom", é um pequeno empreiteiro que gasta mais do que aquilo que recebe quer para saciar os seus vícios, quer para agradar a Silvia (Gianna Maria Canale), a sua esposa, uma mulher pouco dada à contenção financeira. Filha de um general (Federico Giordano) conservador, Silvia é uma das poucas pessoas que inicialmente não sabem das dívidas do personagem interpretado por Alberto Sordi, enquanto este procura esconder tudo da cara-metade. Por sua vez, Silvia raramente tem demonstrações de afecto para com o esposo, com Gianna Maria Canale a incutir uma faceta frívola a esta mulher, com o matrimónio do casal a parecer estar dependente da situação financeira de Giovanni. O empresário esforça-se para oferecer todas as comodidades e luxos à esposa, embora não tenha dinheiro para pagar os mesmos, algo que o conduz a mentir constantemente à mãe do seu filho, tendo em vista a procurar manter o casamento. Protagonista de comédias à italiana como "La grande guerra", "Il vedovo", "Mafioso", entre outras, Alberto Sordi tem em "Il boom" mais uma demonstração do seu talento para o humor, com o actor a criar um personagem que tanto tem de patético como de trágico e incorrigível. Giovanni é um gastador incurável que pretende não só manter o casamento com Silvia, mas também continuar a contar com um círculo de amigos com um estatuto social e económico elevado. Esse desejo de manter as aparências conduz Giovanni, ainda nos momentos iniciais de "Il boom", a procurar adiar o pagamento das dívidas que tem para com a La Fides, uma empresa especializada em empréstimos. Os amigos e conhecidos rejeitam os pedidos de empréstimo ou possíveis oportunidades de investimento apresentadas por Giovanni, enquanto que o protagonista recusa entrar em contenção financeira. Giovanni continua a praticar ténis, a comprar vestidos dispendiosos para a esposa, a utilizar um carro caro e a participar em jantares de elementos com um estatuto social e financeiro superior ao seu, com a habitação deste personagem, um espaço dotado de diversos luxos, largas dimensões, um terraço com uma bela vista, a simbolizar paradigmaticamente o desejo de grandeza do protagonista de "Il boom". Diga-se que a casa, situada em Roma, representa uma falsa opulência, com Giovanni a exibir algo que não tem condições para manter ao mesmo tempo que tenta evitar de forma desesperada que a esposa descubra a verdade, ou seja, que estão na falência. Alberto Sordi compõe um personagem falador, expressivo na exposição dos sentimentos, que é capaz de despertar o sorriso do espectador mas também o sentimento de vergonha alheia e de angústia, com Giovanni a aparecer como um protagonista dotado de alguma densidade. Este conta no seu interior com diversas ansiedades e contradições dos elementos que tardam em acompanhar a ascensão social e económica daqueles que os rodeiam, com "Il boom" a surgir como uma sátira mordaz da sociedade transalpina entre os anos 50 e o início dos anos 60. 

18 abril 2017

Resenha Crítica: "Pericle il nero" (2016)

 Num determinado momento de "Pericle il nero", encontramos o personagem do título a procurar controlar as emoções, embora praticamente não consiga evitar a queda de lágrimas e a demonstração de algum desespero, enquanto se encontra numa praia de Calais, com este cenário a traduzir paradigmaticamente o estado de espírito desta figura enigmática. As nuvens acinzentadas cobrem o céu, bem como as tonalidades frias, com as características deste cenário a reforçarem a incerteza que envolve o futuro de Pericle (Riccardo Scamarcio), mas também a negritude que rodeia o quotidiano do protagonista de "Pericle il nero", a terceira longa-metragem de ficção realizada por Stefano Mordini. Diga-se que as cores luzidias e quentes estão longe de pontuarem "Pericle il nero", com a fotografia do filme a sobressair muitas das vezes pela capacidade de captar a desesperança que marca uma parte do quotidiano do protagonista. A hostilidade marca o mundo pelo qual Pericle se move, embora, quando se esforce para sair do mesmo, também lide com a aspereza da humanidade, seja numa simples fila da padaria ou a tentar encontrar abrigo junto dos poucos familiares que lhe restam. Como almejar um futuro luzidio quando o passado é marcado pelo negrume? A violência percorre o corpo, a alma, a mente e o sangue que circula pelas veias de Pericle, um gangster lacónico e misterioso, de origem napolitana, que inicialmente desperta a nossa repulsa em relação aos actos que pratica. Pericle não tem como objectivo eliminar as suas vítimas, bem pelo contrário, preferindo antes humilhá-las com actos que deixam marcas na corpo e na alma dos elementos que viola. Quase sempre acompanhado por sacos de areia, que utiliza para desferir golpes na cabeça das suas vítimas e imobilizá-las temporariamente, Pericle tem como hábito sodomizar os seus alvos, ou melhor, ou, para ser mais preciso, obriga os elementos que desobedecem a Don Luigi (Gigio Morra), o seu chefe, a terem sexo anal. É um acto cruel e repugnante, embora Pericle pareça encarar a profissão com a mesma naturalidade com que efectua uns biscates como actor de filmes pornográficos, com Riccardo Scamarcio a conseguir transmitir a faceta negra deste personagem solitário e atormentado. Como seguir com atenção um personagem que comete actos tão repugnantes? Stefano Mordini provoca desde logo o choque ao expor os actos hediondos do protagonista, uma figura misteriosa e pouco recomendável, até começar a desvendar, ainda que parcialmente, a verdadeira personalidade deste criminoso. O cineasta consegue desfazer a imagem inicial que criamos em relação ao criminoso, ainda que a mesma não seja esquecida, com "Pericle il nero" a colocar-nos diante de uma figura deveras complexa e intrigante. Estamos diante de um criminoso que se situa numa zona cinzenta, que tanto sonha ter uma família e efectua actos surpreendentemente delicados como apresenta uma brutalidade e um carácter errático, com Riccardo Scamarcio a conseguir evidenciar a complexidade deste personagem recheado de contradições e uma alma atormentada.

15 abril 2017

Resenha Crítica: "Fiore" (2016)

 "Fiore" reúne no seu interior elementos drama familiar e prisional, bem como de romance e obras cinematográficas sobre a transição para a idade adulta, sempre sem puxar em demasia pelos limites dos géneros ou subgéneros enunciados, enquanto nos apresenta a uma jovem problemática, rebelde, imprevisível e irascível. Esta jovem é Daphne Bonori, interpretada com alguma verve por Daphne Scoccia, com a actriz estreante a incutir um estilo felino e arisco a esta personagem muito propensa a envolver-se em enrascadas. No início do filme encontramos Daphne a efectuar alguns furtos de telemóveis nas imediações de uma estação de metro. É exactamente num desses roubos que tudo corre mal para a delinquente. A jovem ainda tenta fugir e esconder-se das autoridades, com a câmara de filmar a acompanhar a correria intensa e desesperada de Daphne, até esta ficar praticamente encurralada e ser detida. Daphne tem de cumprir uma pena a rondar um ano de duração no interior de um reformatório para menores de idade, fruto dos assaltos que cometeu, com "Fiore" a envolver-se pelos meandros destes espaços prisionais. O reformatório onde se desenrola uma parte considerável do enredo conta com a presença de uma ala masculina e outra feminina, com os elementos de sexo distinto a não poderem conviver uns com os outros, embora Daphne logo quebre essa regra ao envolver-se com Josh (Josciua Algeri). Ambos são jovens solitários e rebeldes, que não contam com grandes perspectivas de futuro e estão presos devido a terem cometido furtos. Embora o diálogo regular entre elementos masculinos e femininos não seja permitido, Daphne e Josh conseguem manter contacto seja através de cartas que trocam às escondidas, ou em encontros furtivos, com ambos a contarem com uma irreverência inolvidável e uma perícia notória para se envolverem em enrascadas. A amizade e envolvimento com Josh, um indivíduo que foi recentemente abandonado pela namorada, contribuem para alterar as rotinas de Daphne neste estabelecimento prisional, muito marcadas pelos conflitos e a formação de algumas amizades, bem como por uma série de actividades que nem sempre motivam a protagonista. Daphne encontra em Josh um estranho calor humano que parecia faltar na sua vida, com os dois jovens a complementarem-se e a compreenderem-se praticamente na perfeição. Diga-se que Daphne é uma figura solitária, que não tem problemas em protagonizar episódios de violência, ou em colocar o espaço da prisão em polvorosa. Veja-se o momento em que Daphne incendeia o colchão da sua cama, ou quando esta se envolve em zaragatas com algumas colegas de prisão. Ficamos diante de um interessante estudo de personagem, com Claudio Giovannesi, o realizador de "Fiore", a centrar quase todas os elementos da narrativa em Daphne, enquanto conhecemos as especificidades desta jovem imprevisível e errática.

14 abril 2017

Resenha Crítica: "Indivisibili" (2016)

 Num determinado momento de "Indivisibili", Alfonso Fasano (Peppe Servillo), um médico que trabalha na Suíça, pergunta a Peppe (Massimiliano Rossi) e Titti (Antonia Truppo), os pais de Dasy (Angela Fontana) e Viola (Marianna Fontana), duas gémeas siamesas, se estes não têm vergonha pelo facto das jovens não terem sido separadas à nascença. O tom de Alfonso Fasano é de alguma reprovação e consternação, ou Peppe e Titti não utilizassem o facto de Dasy e Viola estarem corporalmente ligadas, embora não partilhem nenhum órgão vital (estão unidas pela zona da pélvis), para lucrarem com a situação. É Peppe quem trata das questões contratuais dos casamentos, baptizados e comunhões onde Dasy e Viola cantam, com os talentos vocais de ambas a serem apreciados, embora o interesse dos elementos do público esteja centrado no físico das gémeas, quase como se estas fossem aberrações. Fãs de Janis Joplin, Dasy e Viola estão longe de serem duas aberrações, bem pelo contrário. Estas são duas jovens de dezoito anos de idade, que estão a lidar com uma série de dilemas, desejos e ansiedades muito próprios de quem ainda se encontra numa fase de formação e afirmação da personalidade, com Angela Fontana e Marianna Fontana, irmãs gémeas na vida real, a transmitirem com enorme sagacidade aquilo que une e separa as personagens que interpretam. Angela Fontana coloca em evidência o lado mais destemido de Dasy, bem como o seu desejo de independência e o afecto que nutre pela irmã. Marianna Fontana imprime uma faceta mais frágil e temerosa a Viola, uma jovem que tem um apetite assinalável e teme a possibilidade de se separar da irmã. Ambas contam com um dom para a cantoria, uma beleza física notória, uma característica corporal que praticamente lhes permitiria entrar em "Freaks" e uma ingenuidade que as conduz a nem sempre questionarem os actos daqueles que as rodeiam. Note-se a facilidade com que acreditaram na mentira de que não poderiam ser separadas, ou a fuga pouco planeada que efectuam num determinado momento da narrativa. A entrada em cena de Alfonso Fasano, a salientar a possibilidade das protagonistas serem separadas com recurso a uma operação, é um momento fulcral quer para a vida das gémeas, quer para o enredo de "Indivisibili", a terceira longa-metragem realizada por Edoardo De Angelis, com as palavras do médico a irem ao encontro da vontade de Dasy em prosseguir com a sua vida de forma um pouco mais independente, sem ter que estar preocupada com os efeitos que os seus actos podem provocar na irmã. Veja-se no início do filme, quando encontramos Dasy a masturbar-se, enquanto Viola está a dormir, com os efeitos deste acto a serem sentidos pela segunda ao ponto desta começar a rezar devido a ter sonhado que pecou.

13 abril 2017

Resenha Crítica: "Lo chiamavano Trinità..." (Trinitá - Cowboy Insolente)

 Pontuado por lutas ao estilo dos combates de wrestling, uma dinâmica notável entre Terence Hill e Bud Spencer, um grupo de Mormons que evita utilizar a força física, diversos elementos dos spaghetti western mesclados com condimentos de comédia, estradas poeirentas, uma banda sonora marcante, "Lo chiamavano Trinità..." convida o espectador a envolver-se pelo interior de um enredo marcado por figuras peculiares, imenso humor, alguma violência propositadamente inofensiva e uma certa ingenuidade e malandrice, bem como pelas peripécias vividas pela dupla de protagonistas desta icónica obra cinematográfica. As estradas pelas quais os personagens circulam encontram-se recheadas de poeira, prontas a exibir que ainda estamos diante de um território em formação, caracterizado por gentes que não cumprem as leis e imenso calor, com os raios solares a baterem bem forte sobre os espaços onde se desenrola o enredo desta marcante obra cinematográfica. O calor invade o território e os sentimentos, ou não estivéssemos diante de um filme onde os personagens interpretados por Bud Spencer e Terence Hill assumem o papel de estranhos defensores de uma comunidade de Mormons. Não faltam alguns momentos a fazer recordar "Shichinin no samurai" (o plano para defender e treinar um grupo de elementos indefesos), "Yojimbo", "Per un pugno di dollari" (o estranho que chega e mexe com o quotidiano de um espaço citadino), "Per qualche dollaro in più" (a união de dois pistoleiros para combaterem um inimigo comum), entre outras situações que são abordadas quase sempre com algum humor à mistura. As próprias coreografias das lutas corpo a corpo, prontas a exacerbarem a faceta aparentemente indestrutível de Bud Spencer e a personalidade irreverente do personagem interpretado por Terence Hill (o humor físico é um dos "pratos" principais do filme), contribuem para esses momentos mais leves, tal como o trabalho de sonoplastia. Veja-se os sons efusivos dos socos desferidos pelos personagens interpretados por Terence Hill e Bud Spencer, com a dupla a apresentar uma dinâmica assinalável como dois irmãos peculiares, dados a entrarem em confusões e a desrespeitarem a lei. Terence Hill incute um carisma muito próprio a Trinità, um pistoleiro preguiçoso que é denominado de "braço direito do Diabo". Se o pistoleiro sem nome interpretado por Clint Eastwood em "Per un pugno di dollari" mantinha uma faceta lacónica, já Trinità evidencia uma enorme preguiça, sentido de humor, insolência e malandrice que o distinguem e muito em relação ao primeiro, embora ambos partilham uma enorme pontaria quando se encontram de pistola na mão.

11 abril 2017

Resenha Crítica: "La ragazza del mondo" (Worldly Girl)

  Elevado por um argumento certeiro e uma interpretação sublime de Sara Serraiocco, "La ragazza del mondo" articula eficazmente as temáticas inerentes às descobertas efectuadas por uma jovem adulta e às mudanças muito próprias desta idade com um romance proibido e uma reflexão sobre o mundo das Testemunhas de Jeová. "La ragazza del Mondo" não efectua juízos de valor, nem condena as crenças pelas quais se regem as Testemunhas de Jeová, embora permita um debate interessante sobre todo este mundo que conta com códigos de conduta muito próprios que começam a sufocar Giulia (Sara Serraiocco), a protagonista da primeira longa-metragem realizada por Marco Danieli. Cineasta a ter em clara atenção, Marco Danieli desenvolve com acerto as temáticas relacionadas com as descobertas efectuadas pela protagonista, uma jovem que se depara com questões e anseios relacionados com a sexualidade, a formação da identidade e o primeiro amor, com Sara Serraiocco a incutir um misto de fragilidade, força interior e delicadeza a Giulia. O talento da actriz é exacerbado pelos close-ups recorrentes, com Marco Danieli a deixar muitas das vezes que o rosto da intérprete sublinhe os dilemas com que a protagonista se depara ao longo do filme. Note-se a dificuldade que a protagonista tem em continuar com os estudos, apesar de ser uma das melhores alunas da turma e pretender avançar para o ensino superior, embora Celestino (Marco Leonardi) e Costanza (Stefania Montorsi), os seus pais, duas Testemunhas de Jeová imensamente conservadoras, tentem que esta prossiga pela via profissional (como administrativa na fábrica onde trabalha o progenitor), ou a impossibilidade destes elementos iniciarem relações com "pessoas do Mundo", algo que limita as decisões que Giulia necessita de tomar para o futuro. Giulia tem cerca de dezanove anos de idade, encontra-se inserida no interior de uma comunidade protectora, fechada, rígida e conservadora, conta com boas notas e é consumida por uma série de dúvidas e sentimentos incontroláveis. Como controlar os sentimentos e a curiosidade numa fase como a transição entre o final da adolescência e a chegada à maioridade, ou seja, quando ambos parecem incontroláveis? Como reprimir as sensações e emoções quando estas brotam do âmago da alma como se fossem lava no interior de um vulcão em erupção? Sara Serraiocco imprime uma postura discreta e contida a Giulia, uma jovem que vive pacificamente com os pais e a irmã, de acordo com os textos sagrados, pelo menos até se deparar com Libero (Michele Riondino), um indivíduo com um passado nebuloso e uma personalidade problemática e errática.

10 abril 2017

Resenha Crítica: "Se Dio vuole" (Se Deus Quiser)

 Tommaso (Marco Giallini) é um cirurgião ateu, arrogante, pouco dado a grandes sentimentalismos, que não tem problemas em efectuar comentários depreciativos sobre aqueles que o rodeiam e em julgar previamente os elementos com quem contacta. Este é casado com Carla (Laura Morante), uma mulher que gosta de adoptar crianças oriundas de um contexto intrincado. Carla encontra-se deprimida, aprecia beber vinho às escondidas e prepara-se para expor a sua revolta em relação ao rumo da sua vida. O casal conta com dois filhos biológicos, Bianca (Ilaria Spada) e Andrea (Enrico Oetiker), ambos jovens adultos, com a primeira a não primar pela sagacidade e inteligência, enquanto que o segundo surpreende tudo e todos ao salientar que pretende abandonar o curso de medicina para ser padre. Tommaso ainda tenta fingir que apoia o filho, embora procure fazer de tudo para descobrir esqueletos no armário de Pietro (Alessandro Gassmann), o padre que contribuiu para Andrea descobrir o gosto por seguir os caminhos da fé. Com um passado nebuloso, um discurso irreverente, dinâmico e espirituoso, Pietro tem uma facilidade latente em atrair a atenção dos fiéis, embora desperte uma série de dúvidas em Tommaso, pelo menos até este último formar uma relação de respeito e amizade com o padre. Estes são alguns dos personagens que habitam o enredo de "Se Dio vuole", uma comédia desinspirada, previsível e insípida, que é incapaz de desenvolver boa parte das tramas e subtramas ou de deixar marca. É certo que "Se Dio vuole" beneficia e muito do talento e carisma de intérpretes como Marco Giallini e Alessandro Gassmann, com ambos a conseguirem espremer ao máximo o material que lhes é colocado à disposição, embora a dupla conte com uma missão quase impossível: salvar o filme da mediocridade. Se Tommaso é descrito como um cirurgião competente e implacável, já Edoardo Maria Falcone não apresenta a mesma precisão na sua estreia como realizador de longas-metragens, ou "Se Dio vuole" não contasse com toda a atmosfera de uma sitcom mal-enjorcada que foi elaborada por um cineasta sem marca ou "voz própria". Sem conseguir que a maioria dos personagens ultrapasse uma unidimensionalidade pouco recomendável, ou se solte dos estereótipos aos quais foram presos, "Se Dio vuole" raramente contribui para despertar alguns risos, para além de ser incapaz de abordar de forma minimamente decente boa parte das temáticas que são lançadas para o interior da narrativa, com os tropeços a sucederem-se em catadupa.

09 abril 2017

Resenha crítica: "Smetto quando voglio - Masterclass"

 Pontuado por situações delirantes como uma perseguição e fuga em plena Villa Adriana, uma dinâmica convincente entre os diferentes personagens, uma banda sonora enérgica, uma capacidade muito italiana de encontrar o humor em momentos muitas das vezes desesperantes ou dramáticos, "Smetto quando voglio - Masterclass" surge como uma comédia cheia de ritmo, estilizada, pronta a divertir o espectador sem ferir a inteligência do mesmo, enquanto comprova que a commedia all'italiana está viva, de boa saúde e recomenda-se. "Smetto quando voglio - Masterclass" efectua alguns comentários de foro social sobre temáticas relacionadas com o desemprego, a dificuldade dos licenciados em integrarem ou serem inseridos no mercado de trabalho, o tráfico de drogas, entre outras, embora o foco esteja no humor, acção e aventura, com Sydney Sibilia a realizar uma obra cinematográfica pontuada por imensos ingredientes do género. O argumento aposta na familiaridade entre o espectador e os personagens, bem como nas dinâmicas destes últimos, ou os eventos que se desenrolam em "Smetto quando voglio - Masterclass", o segundo capítulo da trilogia "Smetto quando voglio", não tivessem como protagonistas a quadrilha de criminosos com o “quociente de inteligência mais alto de sempre". Liderada por Pietro Zinni (Edoardo Leo), um indivíduo formado em neurobiologia, esta equipa conta com os seguintes elementos: Alberto Petrelli (Stefano Fresi), um especialista em química computacional; Andrea De Sanctis (Pietro Sermonti), um antropólogo; Mattia Argeri (Valerio Aprea) e Giorgio Sironi (Lorenzo Lavia), dois latinistas; Bartolomeo Bonelli (Libero De Rienzo), um especialista em macroeconomia dinâmica; Arturo Frantini (Paolo Calabresi), um arqueólogo. Em "Smetto quando voglio", Pietro reuniu estes elementos para formar um negócio ilegal relacionado com o fabrico e venda de smart drugs. Ou seja, a quadrilha de Pietro é constituída por elementos que contam com imenso conhecimento sobre diversas áreas, embora não tenham experiência nos meandros do tráfico de substâncias estupefacientes, algo que não os impediu de criar uma smart drug que se revela um sucesso de vendas. No entanto, a falta de preparação dos diversos integrantes do grupo acaba não só por conduzir a que Pietro Zinni seja detido, mas também a que o negócio termine de forma inglória. "Smetto quando voglio - Masterclass" reúne estes personagens e insere uma série de novas figuras que se encaixam relativamente bem no interior desta obra cinematográfica cheia de estilo e ritmo, tais como Paola Coletti (Greta Scarano), uma inspectora da divisão de narcóticos que se prepara para utilizar o gang de Pietro para o combate às smart drugs.

08 abril 2017

Resenha Crítica: "In guerra per amore" (2016)

 Pierfrancesco Diliberto, mais conhecido como Pif, é um dos cineastas contemporâneos que melhor dialoga com as raízes da commedia all'italiana, algo que confirma em "In guerra per amore", a sua segunda longa-metragem como realizador, ao mesmo tempo que exibe que os excelentes indicadores deixados em "La mafia uccide solo d'Estate" não foram mera obra do acaso. Os comentários em voiceover (efectuados pelo personagem principal, interpretado por Pif em ambas as películas), muitas das vezes pontuados pelo bom humor, o desenvolvimento de temáticas relacionadas com a máfia e a Sicília, o protagonista que se depara com uma situação intrincada no interior do território onde nasceu, surgem como elementos que unem "La mafia uccide solo d'Estate" e "In guerra per amore", embora as duas obras cinematográficas abordem períodos de tempo distintos, com a primeira a decorrer entre 1962 e 1992, enquanto que a segunda desenrola-se em 1943. Diga-se que o contexto de um grande conflito bélico traz à memória "La grande guerra", uma commedia all'italiana que mescla praticamente na perfeição os elementos de humor e drama ao mesmo tempo que nos coloca diante de dois soldados peculiares e do meio que rodeia os militares. "La grande guerra" é um dos grandes exemplares das comédias à italiana, com "In guerra per amore" a partilhar diversos elementos associados a estas obras cinematográficas. Note-se que a comédia é eficazmente mesclada com a tragédia, com o humor a brotar muitas das vezes a partir de situações dramáticas, enquanto são efectuados alguns comentários de foro político e social, sempre tendo as particularidades de Itália como pano de fundo. Veja-se a forma como a máfia consegue legitimar-se na Sicília graças ao apoio dos EUA, ou a ligação entre o poder político e os mafiosos, com diversos episódios que ocorreram neste período a contarem com consequências que permanecem bem vivas no presente. Essa legitimação ocorre devido à necessidade das forças aliadas pretenderem penetrar em Itália a partir da Sicília, naquela que foi denominada de Operação Husky, algo exposto no início do filme, quando os representantes dos EUA recorrem a elementos como Lucky Luciano (Rosario Minardi) para conseguirem uma entrada pacífica neste território. Está aberta a porta para Pif expor o lado negro dos conflitos bélicos, com os EUA a combaterem o mal com o mal, ou seja, a enfrentarem os fascistas alemães e italianos com a máfia, enquanto permitem que os gangsters sejam legitimados. É uma situação exposta com imenso humor negro e crueza à mistura, algo latente quando encontramos diversos prisioneiros a serem soltos após terem cometido crimes graves, ou mafiosos como Don Calò (Maurizio Marchetti), a assumirem cargos de poder com o apoio yankee.

07 abril 2017

Resenha Crítica: "Le confessioni" (Políticos não se confessam)

 Simplista na abordagem das temáticas, incapaz de incutir o mistério que deseja ao enredo, pouco assertivo no aproveitamento do elenco, pontuado por um argumento pueril, "Le confessioni" é um filme praticamente falhado, que tenta mesclar elementos de suspense, drama, religião, crítica política e comentário social, embora raramente consiga efectuar esta mistura de maneira harmoniosa. Junte-se a irritante persistência de "Le confessioni" transmitir a ideia de que está a tentar despertar a consciência do espectador para algo desconhecido, quando apenas está a constatar o óbvio de forma pouco complexa e tudo se torna mais desinteressante de acompanhar. Realizado por Roberto Andò, "Le confessioni" procura efectuar uma crítica à vacuidade do discurso e das acções de alguns políticos, à ingerência das grandes instituições internacionais no seio de Estados soberanos, bem como ao capitalismo selvagem e à incapacidade de alguns burocratas concederem prioridade ao factor humano, embora tudo seja exposto de forma demasiado simplista, maniqueísta e redundante. O enredo de "Le confessioni" coloca o espectador diante de uma reunião peculiar do G8, na qual se reúnem os Ministros da Economia da Alemanha (Richard Sammel), Canadá (Marie-Josée Croze), França (Stéphane Freiss), Itália (Pierfrancesco Favino), Japão (Togo Igawa), Rússia (Aleksei Guskov), Reino Unido (Andy de la Tour) e Estados Unidos da América (John Keogh). A juntar a estes elementos, a reunião conta ainda com a presença de Daniel Roché (Daniel Auteuil), o director do FMI, o organizador do evento, bem como de três convidados especiais, nomeadamente, Roberto Salus (Toni Servillo), Michael Wintzl (Johan Heldenbergh) e Claire Seth (Connie Nielsen). Michael Wintz é convidado devido a representar uma ONG que efectua um trabalho considerado meritório nos países mais pobres. Claire Seth é uma escritora de livros infantis, que conta com um enorme sucesso profissional e uma personalidade frágil, tendo sido convidada devido a desempenhar um papel de relevo na defesa dos países mais desfavorecidos. Roberto Salus é um monge italiano que escreve livros, gosta de fumar, grava regularmente o canto dos pássaros, respeita o silêncio e o poder das palavras e acaba por se ver envolvido no interior de uma situação intrincada.

06 abril 2017

Entrevista a Stefano Savio sobre a décima edição da Festa do Cinema Italiano

 Director artístico e programador da Festa do Cinema Italiano, um dos festivais de cinema mais entusiasmantes e interessantes do panorama nacional, Stefano Savio concedeu uma entrevista ao Rick's Cinema na qual abordou diversos assuntos relacionados com a décima edição do certame. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a unidade temática dos filmes que se encontram na secção competitiva, bem como com a retrospectiva dedicada a Dino Risi e os ingredientes do sucesso da Festa do Cinema Italiano. A articulação entre a Festa do Cinema Italiano e o FILMin foi outro dos temas abordados, tal como o Fórum de co-desenvolvimento e criação de projectos cinematográficos italo-portugueses, entre outros assuntos.


Rick's Cinema: A Festa do Cinema Italiano consegue crescer de ano para ano quer no número de espectadores, quer na qualidade e diversidade da sua programação cinematográfica. Quais são os ingredientes que contribuem para esta receita de sucesso?

Stefano Savio: O cinema italiano. A matéria-prima com que estamos a trabalhar. Temos uma boa e interessante cinematografia contemporânea. Nem todos os anos são iguais, mas nos últimos quinze anos contámos com alguns autores interessantes e uma filmografia mais regular. Temos ainda um grande tesouro, nomeadamente, o cinema clássico. É muito fácil seleccionar por lá, pois existe uma grande diversidade. A amplitude da oferta contribui para o sucesso da Festa do Cinema Italiano. Dentro de uma cinematografia nacional tanto podemos ir de um cinema de terror, de género, como o "Suspiria" do Dario Argento, ou para o mais experimental como o "Spira Mirabilis", ou efectuar uma retrospectiva sobre um autor da commedia all'italiana, ou homenagear uma personagem do cinema popular como o Bud Spencer. Esta variedade, que existe dentro do contexto limitado do cinema italiano, é provavelmente uma das chaves do sucesso. Nós conseguimos divulgar o evento com um conceito bastante firme, que é o cinema italiano, mas dentro do cinema italiano também podemos brincar e viajar muito entre vários contextos. No nosso caso jogamos não só com o cinema, mas também com a música, a literatura e a gastronomia, algo que permite enriquecer a oferta.


RC: Um dos elementos que sobressaem quando observamos a programação é a grande diversidade de propostas cinematográficas. É um desafio conseguir conciliar estas diferentes vertentes do cinema italiano na programação?

SS: Sim. Do nosso lado existe uma atenção em relação ao público. A Festa do Cinema Italiano tenta representar todos os diferentes espectadores do festival. Não se dedica unicamente aos cinéfilos, ou aos italianos que estão em Portugal, ou ao cinema mais popular. Temos uma coerência de qualidade, uma qualidade que respeita o espectador. A nossa tarefa passa fundamentalmente por imaginarmos diferentes tipos de espectadores e tentarmos encaixar cada um. Perguntamos: "Um espectador mais ligado ao cinema clássico gostaria disto?" Se a resposta é sim, então escolhemos o filme. O mesmo aplica-se a outro tipo de filmes. Enquanto organizador existe alguma preferência ou um olhar mais específico, mas tentamos sempre que a Festa do Cinema Italiano seja para um público que gosta de cinema e ao mesmo tempo para o espectador que se encontra a descobrir. Muitas das vezes temos público que gosta do evento, mas não é um espectador de cinema. Gosta do evento e descobre o cinema italiano. Não queremos fechar-nos numa programação demasiado ligada a um festival, a este mundo. Por isso procuramos ampliar o festival em cidades, em salas. É o único festival um pouco maior que está nas salas da UCI, que contam com um público mais generalista. Ao mesmo tempo temos a Cinemateca para ligar ao cinema clássico. A chave é respeitar o nosso público. No sentido de que o nosso público é bastante diversificado. Tanto temos espectadores que pretendem divertir-se e ver uma uma comédia, ou que querem ver os filmes de Dino Risi, ou as obras cinematográficas que estrearam em Locarno. São filmes diferentes, mas procuramos respeitar cada um deles e atribuir-lhes um percurso temático.


RC: Aproveito para pegar na deixa do percurso temático. A secção Competitiva é composta por seis longas-metragens, com quatro delas a abordarem temáticas ligadas aos adolescentes ou aos jovens adultos, algo notório no "Un bacio", "Fiore", "Piuma" e "La ragazza del mondo". Esta semelhança temática foi algo propositado para colocar os filmes a "dialogarem" entre si ou foi algo que se formou durante a selecção dos filmes?

SS: Foi algo que se formou. Percebemos depois que os filmes, vistos de seguida, poderiam funcionar como um bom apanhado sobre a forma como o cinema italiano retrata um período ou momento utópico como é a passagem da idade juvenil para a idade adulta. Os seis filmes contam com uma vertente temática que se liga. Não só temática mas também a nível do mood, que é muito nostálgico, claro e preciso sobre o desenvolvimento inerente a esta idade. O "Un bacio" conta com personagens que têm de enfrentar o mundo dos adultos, que é muitas das vezes mais feio e duro do que o seu. O "Piuma" também é um filme desse género. O "La ragazza del mondo" aborda essas temáticas mencionadas, ainda que inseridas no contexto religioso, em particular, na comunidade das Testemunhas de Jeová: a saída de uma comunidade protectora e a entrada no mundo dos adultos. No "La pelle dell'orso", uma caça ao urso protagonizada por um pai e o seu filho surge quase como uma passagem de uma geração à outra.
 Tirámos da competição os filmes que tivessem uma vertente demasiado comercial ou popular. Também tirámos os filmes que pudessem ter uma linguagem mais alternativa e inserimos os mesmos na secção Altre Visione. Tirando o "Orecchie", que conta com alguma atenção mais formal, quase todas as obras cinematográficas da secção competitiva respeitam a narratividade como um elemento bastante típico do cinema italiano. Todos contam com histórias bem contadas sobre uma idade determinante.

03 abril 2017

Resenha Crítica: "Fai bei sogni" (Sonhos Cor-de-Rosa)

 Numa fase relativamente adiantada do enredo de "Fai bei sogni", encontramos Massimo (Valerio Mastandrea), em idade adulta, a aceitar o convite de Elisa (Bérénice Bejo), uma médica que ganha algum relevo na vida do jornalista, para dançar. Até então Massimo procurara manter uma postura discreta, contida e distanciada, pouco dada a demonstrações de afecto ou à formação de laços, tendo em vista a evitar voltar a sentir a dor de uma perda, algo quebrado, ainda que de forma inicialmente relutante, na festa do sexagésimo aniversário de casamento dos avós de Elisa. É um momento de extroversão dos sentimentos que se encontravam aprisionados no interior de feridas mal saradas que teimavam em consumir a mente do protagonista, com este episódio, ritmado pela canção "Surfin' Bird", a marcar uma ruptura de Massimo em relação ao passado e a permitir que Valerio Mastandrea brilhe em bom nível. Valerio Mastandrea deixa transparecer a carga libertadora que envolve esta dança, com o actor a convencer quer neste momento efusivo e delirante, quer quando imprime uma postura mais séria e contida ao protagonista. Note-se a eficácia com que Valerio Mastandrea exprime os sentimentos de Massimo com poucas falas, ou transmite as tormentas que apoquentam este jornalista que se encontra demasiado preso às dores do passado. Essa reticência de Massimo em dançar, também demonstrada quando o protagonista está a trabalhar como repórter de guerra em Sarajevo, remete exactamente para um episódio relevante da infância deste indivíduo, quando tinha nove anos de idade (interpretado por Nicolò Cabras), nomeadamente, a ocasião em que dança com a mãe (Barbara Rochi). É um momento pontuado por alguma candura e inocência, que decorre no início do filme e simboliza um dos últimos pedaços de alegria entre mãe e filho. A ligação forte que existe entre Massimo e a mãe é estabelecida de forma certeira por Marco Bellocchio, o realizador desta obra cinematográfica, com Barbara Rochi e Nicolò Cabras a revelarem uma dinâmica convincente, algo que é fulcral para "Fai bei sogni" funcionar. Note-se que os trechos que remetem para a infância e adolescência do protagonista são essenciais (embora não estejam livres de uma ou outra situação redundante) para atribuírem peso aos comportamentos do personagem principal quando a narrativa deambula pela década de 90, ou seja, durante a idade adulta do jornalista, para além de permitirem dar a conhecer as inquietações deste indivíduo. 

01 abril 2017

Resenha Crítica: "Un bacio" (Um Beijo)

 Num determinado momento de "Un bacio" encontramos Renato (Thomas Trabacchi), o pai adoptivo de Lorenzo (Rimau Ritzberger Grillo), a salientar: "O meu filho não deve ser tolerado, ele deve ser aceite como é". É um momento forte de "Un bacio", que reforça paradigmaticamente uma das mensagens centrais do filme: a necessidade de compreendermos e aceitarmos as diferenças e semelhanças daqueles que nos rodeiam, independentemente da orientação sexual, género, ou raça. Essas diferenças e semelhanças são abordadas tendo Blu (Valentina Romani), Lorenzo e Antonio (Leonardo Pazzagli) como figuras centrais, ou os três adolescentes não fossem os protagonistas da terceira longa-metragem realizada por Ivan Cotroneo. Valentina Romani, Rimau Ritzberger Grillo e Leonardo Pazzagli contam com interpretações de bom nível, sobretudo os dois primeiros, com as dinâmicas convincentes entre os integrantes do elenco principal a marcarem "Un bacio" pela positiva. Valentina Romani transmite a mescla de insegurança e força interior de Blu, uma adolescente solitária, que tem na escrita uma forma de se evadir dos aborrecimentos quotidianos e dialogar consigo própria. Veja-se os vários momentos em que encontramos Blu a falar em off, enquanto escreve sobre o seu dia a dia para nunca mais se esquecer da época problemática em que tinha dezasseis anos de idade. Diga-se que a adolescente atravessa uma fase relativamente complicada quer por estar num período da sua vida em que tudo é vivido e sentido com mais intensidade, quer por contar com alguns problemas em casa, quer por ser regularmente insultada e colocada de lado pelos colegas de escola. Os insultos remetem para o facto de quase toda a escola secundária saber que Blu fez sexo em grupo com Giò, o namorado, bem como com alguns amigos deste indivíduo, uma situação que despertou uma série de rumores, com poucos elementos a parecerem interessados em saber toda a verdade. Os contornos deste episódio apenas são esclarecidos no último terço de "Un bacio", quando percebemos que o relacionamento à distância de Blu e Giò conta com uma perigosa carga venenosa. Este relacionamento permite que "Un bacio" aborde temáticas como abusos no interior de um namoro, enquanto Ivan Cotroneo exibe a necessidade premente destes actos serem denunciados e dos jovens contarem com o apoio dos familiares, com o realizador e argumentista a inserir uma série de temas relevantes no interior da narrativa do filme. Não faltam temáticas relacionadas com as descobertas inerentes à transição para a idade adulta, a homofobia, a adopção, a formação da identidade, os relacionamentos entre pais e filhos, o suicídio, o papel dos professores na educação dos alunos, o bullying, envolvimentos amorosos marcados por abusos, a crueldade nas redes sociais, entre outras, sempre tendo Blu, Lorenzo e Antonio como elementos centrais.