10 março 2017

Resenha Crítica: "Quase Memória" (2016)

 Já imaginaram ter um encontro com o vosso "eu" mais jovem ou com o vosso "eu" mais velho? Carlos, o personagem principal de "Quase Memória", protagoniza um estranho encontro que decorre no âmago da sua mente, ou das suas memórias, ou da realidade peculiar que é criada no interior do enredo desta longa-metragem realizada por Ruy Guerra, um cineasta icónico do chamado Cinema Novo. Carlos, em idade mais avançada (interpretado por Tony Ramos), é colocado diante do seu "eu" mais jovem (interpretado por Charles Fricks), ou vice-versa, com o presente e o passado do protagonista a serem dispostos em diálogo, enquanto ficamos perante um estudo sobre a memória que joga com as regras e as barreiras cinematográficas. Nem sempre tudo resulta, com os trechos de algumas memórias a contarem com um tom demasiado artificial e pitoresco, algo que lhes retira uma certa força e contrasta com o forte impacto provocado pelo encontro entre Carlos Velho e Carlos Novo (vamos tratar os personagens com estes nomes para facilitar o ritmo do texto), embora exista algum sumo a ser espremido de "Quase Memória". A começar pela forma relativamente eficaz como são abordadas as questões relacionadas com as percepções que temos da memória, algo visível desde o primeiro terço de "Quase Memória", quando encontramos Carlos Velho e Carlos Novo a demonstrarem que guardam uma recordação distinta em relação a um episódio que envolve o pai de ambos. Diga-se que este episódio remete ainda para outra situação, nomeadamente, para o facto do personagem interpretado por Tony Ramos ter perdido praticamente o contacto com as suas recordações. Carlos Novo fica preocupado com o estado em que vai ficar no futuro, enquanto recupera, em conjunto com o seu "eu" mais velho, algumas memórias relacionadas com o progenitor. Ernesto (João Miguel), o pai de Carlos, surge como uma figura central do enredo quer por supostamente ter enviado um estranho envelope aos personagens interpretados por Tony Ramos e Charles Fricks, quer pelo facto desta missiva contribuir para que os protagonistas recordem o progenitor, um jornalista que faleceu há cinco anos. O envelope aparece misteriosamente no interior da sala de Carlos e contribui para um ressurgir de memórias que pareciam encobertas por esse grande nevoeiro que é a passagem do tempo. Diga-se que esse nevoeiro é exposto desde o prólogo do filme, quando Ruy Guerra larga o espectador no meio de um pântano dotado de cores frias e imensa névoa, algo que transmite a incerteza em volta das memórias das duas vertentes do protagonista, com Carlos Novo e Carlos Velho a serem colocados perante uma série de situações de outrora, bem como com a contingência de perceberem que nem sempre conviveram pacificamente com estas recordações.


 A certa altura de "Quase Memória", Carlos Velho deixa transparecer um certo conformismo em relação à perda das memórias, algo que salienta ao seu "eu" mais novo: "Se você lembrasse menos, talvez aceitasse as coisas com mais facilidade". Tony Ramos imprime uma postura branda, cansada e solitária a Carlos, com o actor a incutir carisma e um peso acrescido a este indivíduo, para além de exprimir eficazmente os efeitos que o tempo provocou no corpo e na mente do protagonista. Charles Fricks evidencia de forma competente a surpresa de Carlos ao deparar-se com a sua versão mais vetusta, menos enérgica e, pior do que isso, sem boa parte das memórias, com o encontro deste personagem consigo próprio a trazer todo um conjunto de questões e recordações. Carlos Novo e Carlos Velho ainda chegam a formular a hipótese de que se encontram a ser utilizados por um contador de histórias, uma teoria interessante que permite, ainda que de forma ténue, abordar a possibilidade destes elementos perceberem que são personagens de uma história de ficção. O encontro de Carlos consigo próprio decorre maioritariamente no interior da sua casa, um espaço que parece esbater as fronteiras entre o presente e o passado, pontuado por uma iluminação discreta, capaz de traduzir o ambiente algo intimista dos trechos em que os protagonistas se encontram reunidos (adensado por alguns planos mais fechados que permitem que Tony Ramos e Charles Fricks sobressaiam). Estes trechos do presente, que envolvem Carlos Novo e Carlos Velho, contrastam e muito com o tom mais burlesco, leve e artificial das memórias que estas figuras recuperam. Pontuadas por cores bem mais vivas e garridas, interpretações quase a roçar propositadamente a caricatura, diversas músicas de ópera a ritmarem a banda sonora, algumas referências históricas que nunca chegam a ganhar um verdadeiro peso no interior da narrativa, as memórias de Carlos colocam-nos diante de diversos episódios relacionados com o pai do protagonista desde o dia em que o jornalista pediu Maria (Mariana Ximenes) em casamento até aos momentos finais da sua existência. A relação entre Maria e Ernesto pouco é desenvolvida, com Mariana Ximenes a surgir praticamente como figura decorativa, enquanto que a menção aos casos extraconjugais do segundo quase não é aproveitada, com o argumento de Ruy Guerra, Bruno Laet e Diogo Oliveira (inspirado no livro "Quase Memória" de Carlos Heitor Cony) a raramente conseguir atribuir densidade a estes trechos do passado.


Os personagens que aparecem no interior das memórias contam com uma espessura mais frágil do que um guardanapo de papel, enquanto que o contexto histórico é desenvolvido de forma excessivamente superficial, com Ruy Guerra a optar por um tom propositadamente artificial e mais leve para abordar estas recordações que irrompem regularmente pela narrativa. É certo que alguns momentos de humor funcionam, tais como aquele em que Horácio (Candido Damm), o sogro de Ernesto, repreende o neto por este colocá-lo no interior de um episódio no qual não estava presente, com os trechos associados ao passado a contarem com uma faceta que tanto tem de bem humorada como de desinteressante. Os personagens que aparecem nas memórias não têm problemas em interagir com Carlos Novo e Carlos Velho, uma situação notória quando Mário Flores (Julio Adrião), um crítico de arte e melhor amigo de Ernesto, entra em cena, pronto a trazer novas informações sobre o progenitor do protagonista. Julio Adrião interpreta outro dos personagens de gestos quase caricaturais que pontuam as recordações de Carlos, com Mário Flores a aparecer como uma espécie de crítico da velha guarda. Diga-se que Mário Flores e Ernesto permitem que "Quase Memória" efectue um comentário, ainda que bastante ténue, sobre as mudanças que ocorreram no jornalismo durante o período de tempo em que se desenrolam alguns episódios recordados por Carlos. Veja-se as notícias relacionadas com jornais que tiveram de trabalhar na clandestinidade durante a ditadura, ou as mudanças editoriais que conduzem os jornalistas mais velhos a serem facilmente substituídos pelos mais novos, enquanto Carlos procura recuperar as memórias e perceber as razões de ter sido colocado frente a frente consigo próprio e do envelope que encontrou no interior da sua casa. As duas versões de Carlos recordam-se imenso do pai, inclusive de acontecimentos que nem presenciaram (algo que tanto pode remeter quer para histórias que contaram ao protagonista, quer para um certo descuido do argumento), com o elemento mais velho a começar a resgatar algumas memórias que pensava ter perdido, enquanto que o mais novo recupera o contacto com episódios de outrora, com ambos a evidenciarem que sentem saudades do progenitor. Não faltam memórias que ressurgem, bem como o aparecimento de figuras que se encontravam perdidas pelas brumas do passado, enquanto as músicas de ópera, que figuravam nas preferências de Ernesto, tomam muitas das vezes conta da narrativa e da mente de Carlos. Embora nem sempre se equilibre, com diversos momentos a soarem demasiadamente artificiais e superficiais, nomeadamente, boa parte dos trechos associados ao passado, "Quase Memória" consegue jogar com as barreiras e convenções cinematográficas, enquanto brinda o espectador com uma interpretação de grande nível por parte de Tony Ramos.

Título original: "Quase Memória".
Realizador: Ruy Guerra.
Argumento: Ruy Guerra, Bruno Laet e Diogo Oliveira.
Elenco: Tony Ramos, Charles Fricks, João Miguel, Mariana Ximenes, Julio Adrião, Candido Damm.

Sem comentários: