21 março 2017

Resenha Crítica: "Le cose belle" (2013)

 "Em Nápoles os miúdos não dizem: 'Olá, como estás? Como está a tua família?!!!' Em Nápoles dizem: 'Oh, estamo-nos a cagar para a tua família!' Coisas assim.". É com estas palavras que Enzo Della Volpe descreve o território de Nápoles, um espaço pontuado por uma série de características muito próprias. Enzo é um dos elementos que se encontram em destaque ao longo de "Le cose belle", bem como Adele Serra, Fabio Rippa e Silvana Sorbetti, com o documentário realizado por Agostino Ferrente e Giovanni Piperno a abordar o quotidiano destas figuras quer em 1999, quer em 2013, com a cidade de Nápoles a surgir como o grande ponto de ligação e protagonista desta obra cinematográfica que descai para as fronteiras da docuficção. É um trabalho exemplar, por vezes cortante e doloroso, pronto a expor que os sonhos destes jovens nem sempre se concretizaram e a colocar o passado e o presente em diálogo. Alguns sonhos foram simplesmente agrilhoados ou desfeitos pelo destino, outros por uma série de opções pouco felizes, ou pela incapacidade dos protagonistas em desatarem o nó górdio colocado pela má sorte, com "Le cose belle" a contrastar a esperança, as expectativas e a ingenuidade de Adele, Fabio, Silvana e Enzo em 1999, quando estavam em plena adolescência, com a letargia e desesperança que consomem estas figuras em 2013. Agostino Ferrente e Giovanni Piperno contextualizam eficazmente quer o meio familiar destes jovens, quer as características muito próprias do território que os rodeia. Os sentimentos e as palavras são expostos de forma bem viva, praticamente sem qualquer travão, as detenções e os actos violentos são encarados como algo banal, enquanto que a cidade de Nápoles parece conter uma mescla de crueza e beleza que tanto compele os seus habitantes a sonharem como a enfrentarem o sabor amargo das desilusões inerentes à incapacidade de concretizarem os seus desejos. Diga-se que "Le cose belle" nem sempre é um filme fácil de acompanhar, ou o documentário não tivesse o condão de nos compelir a pensar sobre os nossos sonhos de outrora ao mesmo tempo que nos estimula a reflectir sobre aquilo que concretizámos ou não conseguimos alcançar ao longo da vida, enquanto somos colocados diante do diálogo entre o passado e o presente do quarteto de protagonistas. Adele, Fabio, Silvana e Enzo despertam facilmente a nossa curiosidade, mesmo quando percebemos que as suas vidas embateram numa encruzilhada demasiado difícil de sair. Uns perderam familiares, ou praticamente deixaram de falar com os mesmos, outros tiveram filhos e são obrigados a assumir responsabilidades para as quais não parecem preparados, ou contam com empregos que não satisfazem as suas almas, ou caíram num estado letárgico que consome o corpo e a mente.


O optimismo e a irreverência que estas figuras evidenciam em 1999 parece ter desaparecido em 2013. Enzo é um dos elementos do quarteto que não concretizou os seus sonhos, tais como frequentar o Conservatório e ser cantor de músicas tipicamente napolitanas, dois desideratos que expõe em 1999. No presente, Enzo trabalha como vendedor porta a porta, a tentar impingir as vantagens da Tele2, uma empresa que proporciona serviços de telefone e internet, algo que o obriga a deslocar-se para os locais mais improváveis e peculiares de Nápoles. Enzo parece resignado com aquilo que lhe foi dado pelo destino, embora o momento em que dá uso à sua voz, em 2013, pareça reforçar que a apatia provocada pela necessidade de corresponder às obrigações do presente não destruiu por completo quer o seu talento, quer o apreço que tem pela música. Diga-se que esse momento surge como um dos trechos mais comoventes de "Le cose belle", com Agostino Ferrente e Giovanni Piperno a respeitarem e muito as figuras que retratam, sempre sem julgarem os comportamentos e as opções deste quarteto que nos é dado a conhecer. Se Enzo cresceu a acompanhar o pai a cantar em restaurantes, já Silvana contou com uma situação familiar mais intrincada. Em 1999, Silvana explana o desejo de ser modelo, bem como uma certa irreverência e uma maturidade invulgar para a idade (tem catorze anos quando a conhecemos), fruto de ter sido obrigada a tomar decisões complicadas desde cedo, tais como permanecer a viver com o pai após a mãe ter saído de casa. Em 2013 a vida de Silvana está longe de ser como a jovem sonhara. Entre um noivo detido, uma ligação peculiar com a mãe e a detenção do irmão, Silvana permanece desempregada e sem grandes perspectivas de futuro. Adele Serra também não conseguiu concretizar alguns dos seus desejos, tais como ser actriz, muito pelo contrário. Nos trechos que remetem para 1999, Adele expõe as suas atribulações escolares (chumbou quatro vezes), o gosto que nutre pela dança e as dinâmicas algo problemáticas do seu núcleo familiar. No presente, apesar de ter mantido alguma irreverência tipicamente juvenil e uma faceta problemática, Adele acumula trabalhos como dançarina num clube nocturno e a efectuar limpezas e a servir num hotel. Por último, mas não menos importante, temos Fabio, com a postura deste personagem em 1999 a diferir imenso em relação aos seus comportamentos em 2013. No passado, Fabio denota toda uma insolência e desenvoltura que contrasta com a postura letárgica e resignada que demonstra no presente. Outrora sonhou ser um jogador de futebol, embora, nos dias de hoje, o máximo que se aproxime de um estádio seja para vender ilegalmente cachecóis e bonés. Este vive com a mãe, tem uma namorada e denota não ter projectos para os tempos vindouros, com a falta de planos para o futuro a parecer algo transversal em relação a estes quatro representantes de uma geração que se debate com uma série de dificuldades inesperadas.


Praticamente todos os elementos do quarteto que nos é apresentado lidam com a sensação frustrante de não terem alcançado os seus objectivos, com o passado de Adele, Fabio, Silvana e Enzo a ser colocado em diálogo com o presente. Diga-se que é um diálogo dotado de interesse, mais complexo do que a sua superfície deixa transparecer, pronto a evidenciar os efeitos da força inexorável e implacável da passagem do tempo. Silvana, Fabio, Adele e Enzo habitam e circulam pelas margens de Nápoles, com "Le cose belle" a aventurar-se por estes espaços da periferia ao mesmo tempo que nos dá a conhecer as suas gentes. Não falta a exposição de prédios degredados, praias, bairros e a lota, entre outros espaços, com Agostino Ferrente e Giovanni Piperno a abordarem eficazmente as relações de Adele, Silvana, Fabio e Enzo com o território e com aqueles que os rodeiam. A juntar a estes elementos mencionados, temos ainda comentários sobre a precariedade laboral, o desemprego, a incapacidade de serem encontradas medidas que integrem os cidadãos no interior da sociedade que os rodeia, a violência, a solidão e um certo sentimento de letargia e desolação daqueles que acabam por ser confrontados com as expectativas goradas, ou seja temáticas relativamente universais, ainda que inseridas no contexto napolitano. É quase como se a vida tivesse seguido um rumo ao qual não se pode escapar, com as escolhas de outrora, associadas ao papel do destino, a praticamente não permitirem outra opção a não ser aceitar conviver com o facto de alguns sonhos permanecerem apenas como uma vaga recordação da memória. No caso de "Le cose belle" essas recordações foram guardadas em vídeo e reservadas para este documentário que acompanha alguns fragmentos da vida dos elementos em estudo. Os trechos de 1999 (a adolescência do quarteto) dialogam de forma exímia com os vídeos de 2013 (quando os quatro elementos são jovens adultos), com os sonhos, as derrotas, vitórias, alegrias e tristezas destes elementos a serem captados ao longo de dois períodos da vida do quarteto de protagonistas. Podemos, como é óbvio, questionar o papel da câmara de filmar nas atitudes destes elementos, bem como aquilo que é ficção e o que é "real" em "Le cose belle", mas não deixa de ser notório que transparece toda uma sinceridade e crueza na abordagem das temáticas, no aproveitamento do território de Nápoles e na exposição do quotidiano de Adele, Silvana, Enzo e Fabio, que contribuem para que este documentário provoque um forte efeito no espectador. Entre sonhos que se quebram com a passagem do tempo, expectativas criadas durante a adolescência, figuras outrora recheadas de alegria que embatem de frente com as responsabilidades inerentes à idade adulta, um estado letárgico que parece consumir os corpos e as almas, "Le cose belle" consegue abordar eficazmente uma série de temáticas socialmente relevantes ao mesmo tempo que nos apresenta a quatro elementos dignos de toda a nossa atenção, com Agostino Ferrente e Giovanni Piperno a realizarem um documentário cheio de vida e interesse. 

Título original: "Le cose belle".
Título em Portugal:
Realizador: Agostino Ferrente e Giovanni Piperno.
Argumento: Agostino Ferrente e Giovanni Piperno.
Elenco: Enzo della Volpe, Fabio Rippa, Adele Serra, Silvana Sorbetti.

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