03 março 2017

Resenha Crítica: "Comeback" (2016)

 A música toca, cheia de ritmos melancólicos, pronta a exacerbar a nostalgia de Amador (Nelson Xavier) em relação a um passado que conserva no interior da alma e de um álbum de recortes, embora os tempos sejam outros. É um presente onde o passado já não parece ter lugar, no qual a modernidade começa a consumir um território ainda preso aos tempos de outrora, seja na alma das suas gentes ou dos edifícios, ou das ruas. Por vezes parece quase que estamos diante do embate entre o Novo e o Velho Oeste que encontramos em "The Man Who Shot Liberty Valence", onde os cactos são domesticados em vasos e os cowboys como Tom Doniphon parecem começar a perder o lugar. Diga-se que Amador também aparenta concordar com a velha máxima de tornar as lendas em factos, com o seu álbum a conter uma mescla de verdades e mentiras sobre o passado, com Erico Rassi a realizar uma espécie de western dos tempos modernos que nos traz para o interior do quotidiano de um assassino que foi praticamente obrigado a retirar-se do ofício que preenche a sua alma. Amador procura não ser domesticado como o cacto, que é como quem diz, passar o resto da sua vida a frequentar bailes deprimentes destinados a idosos, apesar do tempo em que era temido parecer fazer parte do passado. O tempo de "Comeback" é outro, embora não seja assim tão diferente em relação ao passado, com Erico Rassi a colocar o espectador diante de um bairro da periferia de Anápolis, marcado pela introdução de slot machines, apesar da concorrência das jukeboxes, com Amador, o protagonista do filme, um antigo assassino a soldo, a ter de vender as primeiras a diversos bares e cafés a mando de José Marins (Gê Martu), mais conhecido como Tio, um criminoso que domina o bairro. Se existe algum bar ou café que não tenha uma slot machine, o Tio logo pede a Amador para convencer os proprietários a aceitarem a instalação destes aparelhos que fomentam o jogo ilegal. Os assassinatos a soldo deixaram de ser o crime da moda, com o jogo ilegal a surgir como uma forma de José Marins comandar o território, pese o desprezo que Amador nutre em relação ao seu superior. Um dos poucos elementos com quem Amador mantém uma relação de amizade é Davi (Everaldo Pontes), um antigo colega do protagonista, que se encontra internado em estado praticamente terminal, com o primeiro a visitar regularmente o segundo. O passado e o presente unem-se quando Amador é contactado pelo neto de Davi (Marcos de Andrade), um jovem algo inexperiente que procura aprender com o antigo pistoleiro. É uma relação quase de mestre e discípulo, embora o primeiro tarde em evidenciar as qualidades pelas quais ficou conhecido, enquanto o segundo nutre uma mescla de respeito e dúvida no que diz respeito a este criminoso experiente e, aparentemente, obsoleto. Nelson Xavier transmite a frieza e humanidade de Amador, bem como a experiência deste indivíduo que apenas parece estar bem a cumprir as funções de matador, ou a permanecer obscuro no interior de locais pouco iluminados. Note-se quando Amador dialoga sobre os seus feitos, tais como uma chacina que obrigou a uma mudança de atitude por parte de José Marins em relação aos assassinatos, com o tom de voz de Nelson Xavier a trazer ao de cima toda a frieza deste indivíduo que encara os homicídios com mais calma do que alguém que se encontra a barrar manteiga numa fatia de pão.


"Vocês precisavam me ver naquele tempo" diz Amador, para quem, "modéstia à parte", com ele no mercado, "não tinha para ninguém", algo que expõe junto de dois realizadores (Sergio Sartorio e Lucio de Souza) que o interpelam e formam a ideia errada de que o protagonista não tem perfil de assassino a soldo. Parece "bonzinho" dizem eles, ignorando o curriculum vitae que este indivíduo guarda no interior de um álbum ao mesmo tempo que exibem as suas dúvidas em relação aos feitos de Amador. Se existe algo que Amador detesta é o esquecimento, ou a noção de que se tornou praticamente irrelevante, com o assassino a considerar-se importante, apesar de apenas um núcleo restrito saber dos seus feitos sanguinolentos. É certo que Amador não ajuda inicialmente a desfazer as dúvidas sobre o seu percurso como pistoleiro, tais as dificuldades que apresenta para conseguir duas ou três metralhadoras, uma tarefa que supostamente seria simples para alguém do seu gabarito. Nesse sentido, as dúvidas levantadas pelos dois realizadores, a desilusão do neto de Davi devido a uma revelação efectuada por Amador e a pouca paciência que o protagonista começa a evidenciar em relação ao Tio, conduzem o antigo pistoleiro a querer regressar ao activo. Amador ainda reluta em regressar ao activo, mas o comeback do título nasce da vontade do protagonista em saciar o monstro que o começa a devorar por dentro, ou não estivéssemos diante de um pistoleiro na fase crepuscular da sua vida que lida mal com o esquecimento e a insignificância, bem como com as dúvidas que levantam em volta da sua pessoa. O orgulho começa a ser mais forte do que Amador, mas também a noção de que lhe falta algo para completar a sua vida, com as memórias do passado a baterem de forma demasiado intensa para que o protagonista consiga conviver com um presente onde é um mero vendedor de slot machines. Muitas das vezes encoberto pela escuridão, pronta a simbolizar quer o negrume da alma do protagonista, quer a necessidade deste indivíduo em não chamar as atenções das autoridades, Amador tem em "mauzinha", uma pistola de bolso, a sua grande companheira. Se a pistola tem uma peça solta, já Amador conta com uma lesão no olho devido a um soco inglês que lhe desferiram em cheio na vista, com ambos a não funcionarem como outrora, embora estejam aptos a provocarem estragos. Erico Rassi respeita o protagonista do filme (existe uma coerência notória no desenvolvimento do personagem) e o espectador, sabe utilizar a banda sonora de forma sublime para adensar a melancolia que consome o âmago de Amador ao mesmo tempo que nos transporta para o interior de um território de Anápolis que se esgueira pelas fronteiras do western ou neo-western (a oposição entre os valores do passado e do presente, a figura do pistoleiro, o código de conduta muito próprio do protagonista, as estradas poeirentas) e do noir (os personagens de moral duvidosa, os crimes, a atmosfera de malaise, as sombras que consomem os corpos e as almas).


Com um chapéu quase à detective noir ou à cowboy, roupas simples e uma postura própria de alguém que viu e protagonizou muita coisa, ou não estivéssemos diante de um pistoleiro para quem a morte alheia é uma ocorrência banal, Amador é uma figura complexa, simultaneamente imoral e dotada de humanidade, com Nelson Xavier a contribuir para a densidade deste antigo assassino de quem esperamos o pior. A direcção de actores é irrepreensível, embora Nelson Xavier sobressaia acima de todos os outros colegas do elenco, com Erico Rassi a dar espaço para o intérprete continuar a surpreender. O cineasta concede uma atenção indelével aos pequenos gestos do protagonista, sejam estes um simples acto de Amador a tirar os sapatos e a colocar os chinelos, ou a bater impacientemente com uma mão na outra, com Erico Rassi a destacar situações aparentemente simples que são relevantes para explanar alguns pedacinhos do quotidiano do protagonista e realçar que estamos perante alguém com hábitos como qualquer um de nós, embora seja um assassino letal. Nelson Xavier atribui ritmos muito próprios a Amador, bem como uma aura de experiência, impassibilidade e orgulho, com "Comeback" a efectuar um interessante estudo de personagem e a apostar eficazmente na contenção ao invés de bombardear o espectador com ondas de violência constantes. Outro dos elementos do elenco que sobressaem é Gê Martu como o Tio, uma figura capaz de transmitir sentimentos ambíguos (tanto parece inofensivo como perigoso), que domina este território da periferia. O argumento aproveita este personagem quer para expor as "novas" formas de crime e controlo do território (o vício pela morte é substituído pelo vício pelo jogo), quer para colocar em evidência a corrupção e a maneira como esta se encontra enraizada neste Brasil que é exposto em "Comeback". Veja-se quando encontramos uma reportagem televisiva a elogiar o papel do Tio junto da comunidade do território onde habita, num momento recheado de humor negro e um comentário do foro político e social, ou o enaltecimento do investimento privado em espaços públicos não contivesse no seu interior um esquecimento em relação à proveniência do dinheiro. O próprio Nelson Xavier associou, em parte, o personagem que interpreta e os seus comportamentos com o Brasil, um comentário efectuado durante o Festival do Rio (via Adoro Cinema), que permite reforçar a ideia de que Amador conserva no seu interior algumas características intrínsecas ao território canarinho: "(...) Essa contradição, esse paradoxo, para mim, é extraordinário. 'Ah, mato ou não mato?' Pra ele é uma coisa banal. A vida humana é banal, como é no Brasil, como é a ética brasileira".


 O território do Brasil que nos é exposto é o da periferia, das estradas muitas das vezes cheias de poeira, realçadas pelo trabalho de André Carvalheira na fotografia, um espaço que parece saído de uma cidade de fronteira do Velho Oeste, onde os valores muito próprios de um indivíduo já não se coadunam com os novos tempos. Dito assim quase parece que saímos de "No Country for Old Men", embora algumas temáticas destas obras cinematográficas até entrem em diálogo, tais como este conflito entre o presente e o passado, mas também os personagens com valores muito próprios, para além de um certo saudosismo, da parte do protagonista, por um tempo que existe mais na memória do que na História. Amador circula por estes espaços de Anápolis quer de forma solitária, quer acompanhado pelo neto de Davi, enquanto procura reencontrar a relevância que obtivera por crimes pouco recomendáveis. Ostracizado pela passagem do tempo, por vezes capaz de transmitir a ideia de que se encontra deprimido, Amador foi inspirado em Carne Frita, um antigo jogador de snooker que apenas é conhecido no meio onde habita, com Erico Rassi a demonstrar uma preocupação genuína pelo protagonista e pelo trabalho dos elementos que povoam o elenco do filme. Nelson Xavier corresponde e eleva a obra cinematográfica, com Amador a surgir como uma figura marcante que, a certa altura, decide regressar a uma das poucas funções na qual é competente, ou seja, matar alvos designados. No último terço de "Comeback" ocorre uma chacina. Como sabemos se é uma chacina? De acordo com Amador, "Quando é uma chacina, dá para saber. Você entra no lugar e fala: isto aqui foi uma chacina". A lógica do protagonista permite expor a frieza do mesmo, enquanto Erico Rassi rejeita expor a chacina durante a colocação do crime em prática, até exibir as consequências deste acto. Primeiro temos as luzes e os sons, com Erico Rassi a deixar a imaginação do espectador a fervilhar em relação àquilo que ocorre no fora de campo, até ficarmos diante da violência cometida por um personagem. Se Amador procura fazer o seu comeback, após algum tempo de frustrações como vendedor de slot machines, já Erico Rassi tem um disparo certeiro na estreia como realizador de longas-metragens, com o cineasta a surgir como um nome a ter em grande atenção com este western canarinho pontuado por sentimentos contidos e emoções prontas a serem extravasadas.

Título original: "Comeback".
Realizador: Erico Rassi.
Argumento: Erico Rassi.
Elenco: Nelson Xavier, Marcos de Andrade, Gê Martu, Everaldo Pontes.

Sem comentários: