12 março 2017

FESTin 2017 - Entrevista a Erico Rassi sobre "Comeback"

 Erico Rassi tem em "Comeback" um disparo certeiro na estreia como realizador de longas-metragens, com o cineasta a surgir como um nome a ter em grande atenção com este western canarinho pontuado por sentimentos contidos e emoções prontas a serem extravasadas. O Rick's Cinema aproveitou a presença de Erico Rassi na oitava edição do FESTin para entrevistar o cineasta sobre "Comeback", uma obra cinematográfica que nos coloca diante de Amador, um assassino que foi praticamente obrigado a retirar-se do ofício que preenche a sua alma. O comeback do título nasce da vontade do protagonista em saciar o monstro que o começa a devorar por dentro, ou não estivéssemos diante de um pistoleiro na fase crepuscular da sua vida que lida mal com o esquecimento e a insignificância. A interpretar Amador está Nelson Xavier, um actor que atribui ritmos muito próprios ao protagonista, bem como uma aura de experiência, impassibilidade e orgulho, com "Comeback" a efectuar um interessante estudo de personagem. Nesse sentido, seria praticamente impossível entrevistar Erico Rassi e não abordar a importância de Nelson Xavier na criação deste personagem: "O Nelson Xavier é essencial. Sem ele seria outro filme. Ele tem um olhar muito agudo sobre o Brasil. O Nelson encara o Brasil como um país precário, que ainda não consegue cuidar da população de um modo correcto e acaba por trazer isso para a composição dos personagens. Uma coisa que eu sinto que o Nelson Xavier compôs, apesar de não termos conversado especificamente sobre isso, é que ele trouxe essa precariedade de uma pessoa mais velha que vive num país como o Brasil.". Já o processo que conduziu à entrada de Nelson Xavier no elenco do filme foi comentado da seguinte forma: "O casting foi um pouco complicado. Nós não temos muitos actores mais velhos lá no Brasil. Enviámos o argumento para o Nelson, ainda que sem muitas expectativas. Sabíamos das nossas dificuldades. É o nosso primeiro filme e o Nelson Xavier não nos conhecia. Então mandámos o argumento para o Nelson ler e esperámos para ver o que é que aconteceria. Dois dias depois, o Nelson ligou a dizer que aceitava participar do filme. Essencialmente por causa de ter gostado do argumento. É muito difícil contar com o Nelson Xavier ao longo de quarenta dias no interior de Goiás. Ele mudou as datas de alguns trabalhos, deu prioridade ao nosso filme e dispôs-se a filmar durante esse período todo.".


 As filmagens decorreram maioritariamente em Anápolis, um município brasileiro que se encontra situado no interior do estado de Goiás, com Erico Rassi a transformar este espaço numa espécie de cidade de fronteira do Velho Oeste, onde os valores muito próprios de um indivíduo já não se coadunam com os novos tempos. Erico Rassi efectua um aproveitamento exímio dos espaços interiores e exteriores, algo que nos conduziu a questionar o cineasta sobre aquilo que o atraiu em Anápolis para utilizar este território como pano de fundo em "Comeback": "Anápolis é uma cidade relativamente grande, que conta com quatrocentos mil habitantes, mas tem muito essa cara de periferia. Essa coisa das maquininhas caça-niqueis ilegais começou um pouco por ali e depois disseminou-se pelo estado e às vezes até pelo resto do Brasil. A maioria dos westerns trazem uma força progressista, tem sempre uma luta entre a barbárie e o progresso. Em Anápolis parece que não existe essa possibilidade. É como se o Gary Cooper tivesse fugido da cidade de 'High Noon' e aquilo que sobrou foi Anápolis, uma cidade totalmente sem lei, onde a polícia e os governantes não cumprem o papel deles". Mas, será que podemos dizer que o território de Anápolis que "Comeback" apresenta esgueira-se propositadamente pelas fronteiras do western ou neo-western (a oposição entre os valores do passado e do presente, a figura do pistoleiro, o código de conduta muito próprio do protagonista, as estradas poeirentas) e do noir (os personagens de moral duvidosa, os crimes, a atmosfera de malaise, as sombras que consomem os corpos e as almas)? Segundo Erico Rassi, "Algumas coisas nós concebemos, outras surgiram durante a parte da produção. Eu não tinha tão claramente na minha cabeça que o 'Comeback' iria ficar visualmente tão próximo de um western. Quando escrevemos o argumento, algumas locações acabaram por mudar um pouco a cara." Ainda sobre o argumento, a concepção de Amador teve um pouco como base a figura de Carne Frita, um jogador de snooker que caiu no esquecimento, com estas duas figuras a terem alguns elementos em comum: "O Carne Frita também se sente alheado do que ele realmente foi um dia. Ele sente que merecia um reconhecimento que hoje não tem. O tempo passou e ele ficou parado. O Carne Frita não se soube adaptar à nova realidade, então vive de uma glória passada que o próprio tem de guardar já que os outros não se lembram dele. Muitos jogadores de snooker mais novos não ouviram falar ou nunca viram o Carne Frita, porque ele é um jogador que veio antes da televisão. Praticamente não existem registos de imagem dele a jogar. Tem uma cena de um filme brasileiro, chamado 'O Jogo da Vida' do Maurice Capovilla. É o único registo dele. O Carne Frita ficou esquecido. O Amador é meio isso."


 A banda sonora contribui em alguns momentos para exacerbar uma certa melancolia ou saudosismo que existe no interior da alma de Amador. O papel de Erico Rassi na escolha da magnífica banda sonora do filme e a colaboração do cineasta com os irmãos Guilherme e Gustavo Garbato também estiveram entre os assuntos abordados ao longo da entrevista: "Eu cheguei com um conceito mais ou menos resolvido do clima que queria e de algumas músicas que iríamos adquirir (os boleros do Altemar Dutra e da Chavela Vargas). Queria que eles (Guilherme e Gustavo Garbato) reproduzissem esse clima de melancolia e tristeza que vem um pouco dos boleros. Um tio meu ensinou-me a gostar de bolero. Quando eu era pequeno, ele andava sempre com uma caixinha de fitas que tinha músicas de cantores como Julio Iglesias. Acho que trouxe para o filme um pouco do saudosismo que tinha pelas músicas dele (tio).  A partir desse conceito, que discutimos com o pessoal da 'Casa da Sogra' (os irmãos Garbato), eles compuseram as partes de música instrumental. Foi uma colaboração fácil, não teve muitas idas e vindas. Eles pegaram rapidamente no clima do filme e chegaram à instrumentação final.". Esse saudosismo em relação ao passado, quando era um pistoleiro competente (como Amador salienta, "não tinha para ninguém"), leva a que o protagonista procure evitar confrontar a velhice, ou ser domesticado como o cacto em "The Man Who Shot Liberty Valance", algo que o conduz a evitar a entrada nos bailes aparentemente destinados aos idosos. A resposta à pergunta se podemos observar o baile quase como um local onde Amador embate paradigmaticamente de frente com a realidade de que está a envelhecer foi bastante positiva: "Sim, eu encaro assim. O Amador vai, olha, mas resiste em entrar, em fazer parte daquilo. Ele não quer, sabe que ali é o fim. É o contrário da maneira que o Amador gostaria de ser encarado e do reconhecimento que gostaria de ter. O baile é quase como um lugar de esquecimento, o que sobra para a terceira idade. É um mundo à parte e o Amador não quer isso, ele resiste.". Se Amador procura evitar lidar com o esquecimento, já "Comeback" tem tudo para ser falado e recordado, tendo sido recebido de forma calorosa no Festival do Rio. O filme chega agora ao FESTin e as primeiras impressões de Erico Rassi em relação ao festival e ao Cinema São Jorge são bastante positivas: "O cinema São Jorge é muito bonito, a projecção é boa. Estou a gostar muito. É uma iniciativa bacana seleccionar filmes em língua portuguesa e observar como eles dialogam entre si.".


Do FESTin saímos directamente para a Berlinale, nomeadamente, para o elevado número de representantes brasileiros na edição de 2017 deste prestigiado festival. Será que podemos dizer que, apesar da crise política e económica, o cinema brasileiro está a conhecer uma fase de grande fulgor? Esse apelo que os filmes brasileiros despertam nos programadores dos festivais também se traduz no gosto do público? Para Erico Rassi, "O cinema brasileiro está a colher os frutos do investimento que foi efectuado pelo Estado durante anos. O Estado investiu em desenvolvimento e produção e agora começaram a aparecer os frutos. Em relação ao público acho que ainda não. Esses filmes ainda não chegam como poderiam a um grande público. Os filmes brasileiros que contam com mais público no Brasil são as comédias, que algumas pessoas chamam de 'globochanchadas'. Esses filmes que foram para Berlim não têm o perfil das obras cinematográficas que conseguiram ter bastante público no passado recente. Pode ser que algum deles quebre um pouco esse paradigma. Historicamente isso não tem acontecido.". A Comic-Con Experience foi um evento que permitiu a "Comeback" contactar com um público diferente em relação aos festivais de cinema. "Comeback" esteve presente no painel da O2, com Erico Rassi a ter deixado Cristiane Miotto, a produtora do filme, responder às questões sobre a experiência de participar na CCXP (em 2016) e a possibilidade deste evento contribuir para aproximar o filme do grande público: "Foi um experiência boa e diferente. É uma feira diferente em relação ao tipo de público com quem trabalharíamos normalmente. Essa foi uma discussão muito grande com a distribuidora, nomeadamente, qual a intenção de irmos para lá. Na verdade acho que é uma intenção muito positiva, já que encontrámos nichos de pessoas que admiram o tipo de cinema para o qual o 'Comeback' caminhou, que foi essa linguagem western. Tem todo o pessoal muito ligado aos super-heróis, mas tem todo um outro lado de pessoas que estão ali e encontraram no 'Comeback' um cinema que não se faz muito no Brasil e viram algo novo que despertou muito interesse. ". A entrevista a Erico Rassi decorreu antes do término do FESTin, ou seja, quando o filme ainda não tinha sido distinguido com os galardões de Melhor Longa-Metragem de Ficção (Prémio da Crítica) e Melhor Realizador na edição de 2017 do festival. "Comeback" ainda não conta com distribuição em Portugal, uma situação que esperamos que seja meramente temporária.

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