08 março 2017

Entrevista a Daniela Love sobre "A Floresta das Almas Perdidas"

 As longas-metragens de terror portuguesas, ou propositadamente de terror, escasseiam, com "A Floresta das Almas Perdidas" a surgir como um exemplar raro no panorama cinematográfico nacional. O filme teve a sua estreia na edição de 2017 do Fantasporto, tendo posteriormente sido exibido no FESTin. Foi exactamente no âmbito do FESTin que aproveitámos para entrevistar Daniela Love, a protagonista de "A Floresta das Almas Perdidas". A escassez de longas-metragens de terror nacionais foi um tema abordado, nomeadamente, as razões para não se arriscar no desenvolvimento de filmes do género. Embora tenha procurado evitar abordar questões relacionadas com o mercado, Daniela Love salientou que "se se fizessem mais filmes de terror, se calhar haveria mais pessoas a vê-los. E, se houvesse mais pessoas a vê-los haveriam mais filmes de terror". Nesse sentido, "A Floresta das Almas Perdidas" pode servir como um exemplo de que as longas-metragens de terror nacionais são rentáveis, embora este género continue a surgir em bom ritmo no formato de curtas-metragens. Daniela Love já participou em diversas curtas-metragens, inclusive de terror, tais como "M is For Mail", onde interpretava uma personagem que contribuía para acelerar a morte alheia, um pouco à imagem daquilo que acontece com Carolina, a protagonista de "A Floresta das Almas Perdidas", embora as duas figuras femininas contem com características bem distintas. Diga-se que Carolina é uma personagem que tem um grande impacto ao longo de "A Floresta das Almas Perdidas", sobretudo a partir do momento em que o enredo assume uma faceta slasher, algo que nos conduziu a questionar a actriz sobre os desafios que encontrou a interpretar a protagonista desta recomendável longa-metragem. De acordo com Daniela Love, "antes da faceta slasher dela, o meu principal desafio foi entender a Carolina e as suas motivações. É uma miúda hipster e inconsequente, que se aproveita da fragilidade das outras pessoas. Se pensarmos muito bem, ela não tem um trauma que levou àquilo. Ela basicamente é assim porque pode ser assim. Foi isso que me levou algum tempo a perceber. A parte slasher, em que ela começa efectivamente a matar pessoas, foi a que gostei mais e a que tive mais facilidade em trabalhar."


 A faceta slasher do filme conduz a um momento mais violento entre Carolina e Ricardo, com Daniela Love e Jorge Mota a protagonizarem algumas cenas marcantes. Nesse sentido decidimos perguntar a Daniela Love como foi trabalhar com Jorge Mota, bem como aquilo que a experiência do actor trouxe ao filme. A resposta foi bastante positiva, com Daniela Love a demonstrar um enorme apreço pelo colega: "Foi incrível trabalhar com o Jorge Mota. É dos actores mais generosos com quem trabalhei. Apesar de não ser da minha geração e de não trabalharmos da mesma maneira, o Jorge Mota era sempre muito receptivo à maneira como eu trabalhava. Sempre foi bom colega e ajudou-me imenso. Transmite uma segurança diferente. Quando faço trabalhos com um elenco mais jovem é um bocado às cegas. Quando eu tenho a companhia de actores mais velhos, que estão abertos ao que estamos a fazer, se calhar confio mais no trabalho que estou a fazer.". Não poderíamos ainda deixar de tirar a dúvida se a Daniela Love trouxe algo de si para a personagem que interpreta, ou se seguiu apenas o argumento de José Pedro Lopes. Segundo a actriz, "O José Pedro Lopes deixou as coisas muito em aberto para que eu também conseguisse ir construindo. Às vezes chegávamos a um acordo sobre questões em que era aquilo que o José Pedro Lopes estava a pensar e depois conseguíamos chegar lá. Acho que quando o José Pedro Lopes me deu a personagem, já esperava que eu atribuísse um cunho mais pessoal à mesma." Ao longo da entrevista, a intérprete foi ainda questionada se a mescla eficaz de géneros, que "A Floresta das Almas Perdidas" contém no seu interior, surgiu como um dos argumentos que a atraíram para o interior do projecto, bem como em relação à possibilidade de José Pedro Lopes ter escrito Carolina consigo em mente: Ele diz que sim. Na altura em que me propôs o papel, o José Pedro Lopes disse que era uma continuação da Margarida, uma personagem que eu interpretei em 'Videoclube', uma curta-metragem realizada pela Ana Almeida (uma das produtoras de 'A Floresta das Almas Perdidas'). Eles (José Pedro Lopes e Ana Almeida) tiveram uma reunião comigo, falaram do argumento e eu fiquei bastante interessada. Achei o argumento bom, mesmo antes deles me dizerem 'queres fazer isto'. Junta muitos géneros que eu gosto. Eu tenho feito alguns trabalhos no cinema fantástico, é uma área que eu gosto."


 Na entrevista concedida ao Rick's Cinema, José Pedro Lopes salientou que "o filme tem contado com muito apoio do movimento Women in Horror que celebra a mulher no cinema de terror e a igualdade de género". Decidimos aproveitar este ponto para perguntar a Daniela Love se a actriz sente que ainda existe alguma distinção a nível dos papéis atribuídos aos homens e às mulheres, ou se essa diferença já começa a ser atenuada. Daniela Love sente que ainda existe alguma distinção, algo que comentou na sua resposta ao Rick's Cinema: "Eu sinto que ainda há muita diferença. Tanto que quando aceitei esta personagem, gostei dela porque faz o trabalho de um homem e não precisa de ser um homem para fazer o trabalho do mesmo. Estamos em 2017, acho que algumas coisas já começam a mudar. Os argumentistas já começam a escrever personagens que não são simplesmente a dream pixie girl. Acho que já começa a mudar, ainda que exista muito sexismo internalizado. Mesmo argumentistas que tenham atenção a isso acabam sempre por fazer personagens estereotipadas. Mas acho que está a mudar, embora ainda seja precisa uma mudança muito grande.". "A Floresta das Almas Perdidas" é o mais recente trabalho de Daniela Love a estrear nas salas de cinema, embora a actriz já conte com mais trabalhos a caminho do grande ecrã, tais como "Ramiro", o novo filme realizado por Manuel Mozos, onde a intérprete tem uma "pequena participação", bem como a nova curta-metragem realizada por Pedro Augusto Almeida: "um jovem cineasta de Setúbal, que criou agora uma nova associação, o Cinema Bocage. É basicamente uma curta que retrata o ambiente de Setúbal e das gerações mais jovens desta cidade, bem como o ambiente das bandas e da música que se faz do outro lado do rio." Se a curta-metragem de Pedro Augusto Almeida ainda está em pós-produção, já "A Floresta das Almas Perdidas" estreou recentemente no Fantasporto e teve a sua segunda exibição no FESTin: "(...) é bom estar nestes circuitos portugueses. Para mim é mesmo muito bom ter um filme no Fantasporto, porque eu era cliente habitual do 'Fantas'. Fiquei muito feliz porque a sala esteve praticamente cheia. Sobre o FESTin ainda não posso dizer porque ainda não aconteceu (na data em que a entrevista foi efectuada a sessão ainda não tinha decorrido).".


 A exibição em festivais como o Fantasporto e o Festin tem permitido que "A Floresta das Almas Perdidas" tenha granjeado todo um acompanhamento por parte da imprensa, algo que se traduz em críticas ao filme. Algumas têm sido bastante positivas, outras nem tanto: "Estou muito surpreendida com o impacto que tem tido. Também temos recebido críticas más, mas mesmo essas também acabam por ser boas. É a opinião das pessoas. Mesmo as críticas más deixam-me feliz porque estão a criticar as coisas certas e isso é bom.". Com trabalhos em curtas, longas e na televisão, seria praticamente impossível fugir à pergunta básica de abordar o meio em que Daniela Love considera conseguir compor personagens mais complexas, ou no qual tem mais tempo para criar as personagens: "Não posso comparar a minha experiência televisiva com a experiência real de televisão. Como fiz telefilmes e a série "Dentro", que também não foi filmada com ritmo de televisão, pelo menos enquanto estive lá, a minha experiência televisiva foi um bocado como cinema. Gosto mais desse tipo de ritmo, de ter tempo para criar as coisas, de filmar com tempo, de me preparar, de ter ensaios. A minha experiência em televisão acaba por ser mais próxima do cinema, um bocadinho diferente, mas acaba por não ser tanto de televisão mas mais de cinema. Tenho mais facilidade em criar nesse ritmo, gosto de investir e pensar sobre as personagens e o filme.". Assim terminou a entrevista a Daniela Love, a quem agradecemos pelo tempo despendido a falar um pouco sobre "A Floresta das Almas Perdidas" (e não só).

Trailer de "A Floresta das Almas Perdidas":



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