06 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Umberto D." (1952)

 Drama comovente, capaz de deixar marca, despertar angústia e uma enorme revolta, "Umberto D." apresenta uma actualidade assustadora, enquanto coloca o espectador diante da capacidade de Vittorio De Sica em abordar temáticas socialmente relevantes e despertar emoções bem fortes. As reformas baixas, a incapacidade da sociedade em integrar uma parte significativa da população idosa e as parcas condições de vida de alguns cidadãos de mais idade surgem como problemáticas que marcam o enredo de "Umberto D." e continuam na ordem do dia. "Umberto D." tem como pano de fundo o território de Itália, ainda em recuperação, após a II Guerra Mundial, um contexto que marcou outras obras cinematográficas realizadas por Vittorio De Sica, tais como "Sciuscià" e "Ladri di biciclette" (estas duas últimas no período "pré-Milagre Económico Italiano", enquanto a obra cinematográfica que é alvo desta espécie de resenha acompanha o período da recuperação económica). As três obras cinematográficas mencionadas, todas realizadas por Vittorio De Sica, surgem como exemplares recomendáveis, memoráveis e arrebatadores do neo-realismo italiano, com "Umberto D." a contar com diversas características associadas a este movimento. Veja-se as filmagens nas ruas, com a cidade de Roma a surgir praticamente como uma personagem (Vittorio De Sica e G. R. Aldo, o director de fotografia, contribuem e muito para a transmissão da atmosfera deste espaço citadino e dos comportamentos das suas gentes), ou a abordagem de temáticas ligadas aos mais desfavorecidos ou que passam por dificuldades, ou os comentários de foro social (e político), ou a utilização de um elenco composto maioritariamente por actores e actrizes amadores ou desconhecidos. Carlo Battisti, o intérprete que dá vida ao protagonista de "Umberto D.", é um dos elementos amadores que integram o elenco do filme e são capazes de se transformarem no personagem que interpretam, com o actor a contribuir para a densidade deste reformado que procura manter a dignidade no interior de uma sociedade que parece incapaz de integrá-lo. Umberto D. Ferrari (Carlo Battisti) é um indivíduo vetusto, reformado, educado e bem intencionado, que se encontra a experienciar uma série de dificuldades financeiras, com Vittorio De Sica a abordar um caso particular para expor uma problemática mais lata. Quase sempre acompanhado por Flike, o seu simpático cachorro, Umberto representa alguns dos reformados que trabalharam uma vida inteira, embora pareçam ter sido esquecidos nesta fase crepuscular das suas vidas. A reforma não chega para Umberto pagar a renda (algo que o leva a acumular dívidas), os conhecidos afastam-se da sua pessoa, enquanto que as actividades diárias estão longe de preencherem a alma deste indivíduo, ou seja o quotidiano deste antigo funcionário do Ministério do Trabalho é pontuado por uma série de dificuldades e contratempos que apenas parecem ser contrastados com os momentos de alegria dados por Flike ou pela humanidade de Maria (Maria Pia Casilio), a empregada de Antonia (Lina Gennari), a sua senhoria. Se Maria é uma jovem terna, simples e extremamente prestável, já Antonia apresenta uma frieza indelével e uma altivez praticamente indesmentível, surgindo como uma das várias personagens que apresentam um comportamento hostil para com Umberto. Antonia pretende despejar Umberto a todo o custo, apesar dos esforços deste indivíduo em reunir a verba necessária para pagar as rendas em atraso, algo inerente ao facto do reformado apresentar uma ligação muito forte com o quarto onde habita há vinte anos, embora o seu pequeno cubículo esteja localizado numa espelunca que conta com uma praga de formigas e poucas condições.


 O apego ao lar, as dívidas e as parcas condições financeiras surgem como elementos de peso para ajudar a explicar a presença de Umberto no interior de uma manifestação protagonizada por vários reformados que pretendem expor o seu desagrado. A manifestação decorre no início de "Umberto D.", quando nos deparamos com um grupo de reformados a reclamar por um aumento das pensões/reformas, para além de pretenderem que seja feita justiça para com aqueles que trabalharam toda a vida, embora o protesto seja rapidamente reprimido pelas autoridades. Este é um dos vários momentos marcantes de "Umberto D.", com Vittorio De Sica a aproveitar não só para dar a conhecer o protagonista e a parca condição financeira do mesmo, mas também para demonstrar que este é um entre vários reformados que contam com dificuldades (as preocupações do foro social, nomeadamente, a incapacidade da sociedade e do Estado em integrarem os mais desfavorecidos, são expressas de forma vincada ao longo do filme). Vittorio De Sica filma as massas anónimas e os seus rostos, exibe o espaço da cidade que é incapaz de as albergar, até deixar a polícia entrar em cena e desmantelar o protesto. Fica demonstrada uma das preocupações sociais do cineasta, bem como do argumento de Cesare Zavattini, com Vittorio De Sica a apelar à nossa consciência ao mesmo tempo que expõe a história de um personagem ficcional que parece demasiado real ao olhar do espectador. Umberto é um homem simples, que se recusa a pedir esmola, embora chegue a ponderar o assunto, com o protagonista a ser obrigado a pensar em medidas drásticas. Tal como em "Sciuscià" e "Ladri di biciclette", o contexto que rodeia os protagonistas, bem como a hostilidade da sociedade e algumas decisões tomadas pelos personagens principais, acaba por contribuir e muito por influenciar estes elementos. Umberto parece caminhar a passos largos para um beco sem saída, apesar de tentar manter uma réstia de humanidade e dignidade. O protagonista vende um relógio valioso ao desbarato, desfaz-se dos seus livros por uma quantia irrisória, não consegue encontrar alguém que lhe empreste dinheiro, tendo ainda de lidar com uma senhoria inflexível e cruel. Veja-se quando Antonia aluga o quarto de Umberto por uma hora, com o protagonista a deparar-se com um casal na sua cama, ou as discussões entre os dois primeiros. Umberto trabalhou como funcionário no Ministério do Trabalho, um emprego aparentemente seguro, embora a reforma deste indivíduo esteja longe de lhe proporcionar a dignidade necessária. O quarto onde este habita é caro, apesar de ser uma espelunca, embora Umberto não tenha grandes alternativas, com o protagonista a praticamente não ter dinheiro para comer ou cuidar do seu cão. O que fazer numa situação destas? Umberto procura preservar a dignidade, apesar de nem sempre conseguir, com os reveses que encontra a parecerem demasiado fortes para qualquer ser humano aguentar ou manter a calma. Aos poucos, Umberto é obrigado a tomar medidas extremas como procurar arranjar um meio para se manter internado mais tempo no hospital (um meio de conseguir comida quente e poupar fundos), após ter sido hospitalizado devido a uma amigdalite, ou ponderar pedir dinheiro, ou cometer suicídio. Antonia parece disposta a tudo para se livrar de Umberto e de Flike, aguardando ansiosamente pelo final do mês, enquanto que os antigos colegas e conhecidos do protagonista não parecem verdadeiramente interessados no mesmo, algo que se torna problemático para o reformado, sobretudo por este perceber que está a travar uma luta desigual para fintar um destino ainda mais desagradável.


 Carlo Battisti tem uma interpretação sublime, com o actor a expressar o carácter solitário e bem intencionado de Umberto, um personagem que parece ter deixado de ter interesse para uma sociedade que não sabe cuidar dos elementos mais idosos. O actor beneficia e muito do bom argumento de Cesare Zavattini, bem como da realização de Vittorio De Sica, em particular, da atenção que o cineasta concede aos pequenos gestos que tanto dizem sobre os personagens. Veja-se a preocupação que Umberto tem em relação Flike, com uma pequena festa quando se encontram na rua a indicar o apreço e afeição pelo cão, ou os receios genuínos que tem em deixar o seu companheiro de quatro patas sozinho, entre outros actos que fazem com que um gesto desesperado do protagonista acabe por provocar um aperto na garganta do espectador (sobretudo se visionar o filme ao lado do seu cão). Temos ainda gestos como Maria a mexer na barriga e no peito, como que a procurar perceber as modificações do seu corpo, algum tempo depois de revelar que está grávida, enquanto as lágrimas escapam pelo rosto desta personagem. O olhar de Maria transmite os sentimentos contraditórios que percorrem a alma desta figura feminina generosa e amável, com a criada a encontrar-se feliz, embora receie perder o emprego e demonstre alguma preocupação por não saber ao certo quem é o pai da sua criança. Maria Pia Casilio e Carlo Battisti contribuem para esta genuinidade dos gestos, expressões, falas e silêncios dos personagens que interpretam, com a dupla a contar ainda com uma dinâmica bastante convincente. Observe-se atentamente o momento em que Maria revela a Umberto que está grávida, embora não saiba ao certo quem é o progenitor do rebento (tanto pode ser um militar de Nápoles como um de Florença), ou o trecho em que a primeira visita o segundo ao hospital. Outro dos personagens que não pode ser esquecido é Flike, ou não estivéssemos diante do grande companheiro de Umberto, com ambos a protagonizarem um conjunto de cenas tocantes (e um ou outro trecho mais leve). Veja-se no último terço do filme, quando Umberto pondera dar o cão a uma jovem, ou o momento em que este indivíduo procura Flike num canil, ou um acto desesperado do protagonista que traz à memória os trechos finais de "Ladri di biciclette", com Vittorio De Sica a expor paradigmaticamente a cacofonia de sentimentos que perpassam pela mente do personagem principal. De Sica tem ainda o mérito de transformar a cidade de Roma numa espécie de personagem de relevo que é captada com enorme realismo, com o cineasta a saber aproveitar os espaços deste local de forma exímia, bem como os cenários interiores. Atente-se ao quarto de Umberto, um cenário que se torna gradualmente mais hostil e desagradável, sobretudo quando Antonia decide efectuar obras na sua propriedade, ou o espaço do hospital, marcado pela presença de indivíduos que procuram manter-se neste local para poderem ter comida durante algum tempo. Emocionalmente poderoso, tocante, envolvente e memorável, "Umberto D." é um dos grandes marcos do cinema italiano e da carreira de Vittorio De Sica, com o cineasta a criar uma obra de arte recheada de humanismo, que é capaz de mexer com os sentimentos do espectador, alertar para os problemas da nossa sociedade e apresentar um personagem tão inesquecível como aquele que é magnificamente interpretado por Carlo Battisti.


Título original: "Umberto D.".
Título em Portugal: "Humberto D".
Realizador: Vittorio De Sica.
Argumento: Cesare Zavattini.
Elenco: Carlo Battisti, Maria Pia Casilio, Lina Gennari.

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