14 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Ladri di biciclette" (Ladrões de Bicicletas)

Vittorio De Sica aproveita os momentos iniciais de "Ladri di biciclette" para colocar o espectador diante de alguns indivíduos que se encontram nas imediações de um centro de emprego, a aguardarem por notícias relacionadas com ofertas de trabalho, embora poucos tenham a sorte de serem chamados, algo que reflecte a elevada taxa de desemprego da época, nomeadamente, no período após a II Guerra Mundial. É um contexto conturbado que marca não só o enredo de "Ladri di biciclette", mas também de outras longas-metragens de Vittorio de Sica, tais como "Sciuscià" e "Umberto D", nas quais o realizador e argumentista aborda temáticas relacionadas com a crise financeira e de valores, bem como a pobreza que assola o quotidiano de alguns personagens. No caso dos três filmes mencionados, todos exemplares recomendáveis do neo-realismo, De Sica apresenta um enorme humanismo quer na abordagem das temáticas, quer nos diálogos, quer na construção dos personagens, parecendo praticamente impossível permanecer indiferente em relação aos universos narrativos criados pelo realizador (todos contam com a presença inestimável de Cesare Zavattini na escrita do argumento). Uma das figuras centrais de "Ladri di biciclette" é Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um pai de família que é chamado no início do filme para trabalhar a colar cartazes publicitários. Um sentimento agridoce toma de assalto a mente de Ricci: está feliz por conseguir um trabalho que lhe permite voltar a pagar as contas e viver sem o espectro da miséria, mas a tristeza e a dúvida logo tomam conta da sua mente quando percebe que necessita de uma bicicleta para poder corresponder às necessidades do emprego. Esta situação conduz Maria (Lianella Carell), a esposa do protagonista, a penhorar seis lençóis, um acto que espelha quer a união deste núcleo familiar, quer a condição financeira deplorável do casal. Vale a pena salientar que Maria e Antonio não são os únicos que se encontram a atravessar uma fase marcada por dificuldades materiais e financeiras, algo que se torna paradigmaticamente notório quando o empregado da casa de penhores decide guardar os lençóis deixados pela primeira. O armazém da casa de penhores encontra-se apinhado de lençóis, algo que obriga o empregado a ter de subir bem alto para poder encaixar as peças de roupa que se amontoam neste espaço, com esta situação a evidenciar paradigmaticamente que diversas famílias se desfizeram destes bens, naquela que é uma das cenas assustadoramente marcantes de "Ladri di biciclette".


 A verba recebida pelos lençóis permite que Antonio Ricci recupere a sua bicicleta, após ter penhorado o meio de transporte para conseguir dinheiro para alimentar a família. Ricci vive com a esposa e os seus dois filhos no interior de um apartamento modesto, pontuado pela simplicidade e pela pobreza, que reflecte as dificuldades sentidas por esta família. Veja-se que Bruno (Enzo Staiola), o filho mais velho de Ricci e Maria, um jovem petiz, tem de trabalhar para ajudar a família, com o rapaz a dialogar muitas das vezes como se fosse um adulto. Diga-se que a necessidade dos jovens terem de trabalhar é encarada como uma situação "normal" por aqueles que os rodeiam, algo que exibe mais uma vez o contexto difícil de Itália no período após a II Guerra Mundial e une "Ladri di biciclette" e "Siuscià", duas obras cinematográficas que abordam a temática do trabalho infantil. A chegada a um emprego relativamente estável, após superar o empecilho inicial de não ter uma bicicleta, desperta um entusiasmo notório em Antonio. Esse entusiasmo é visível quando Ricci pega na esposa ao colo para lhe tentar mostrar o local de trabalho, nomeadamente, a partir das frestas de uma janela. É um momento delicado, pontuado por uma enorme humanidade, que reflecte o cuidado colocado por Vittorio de Sica na representação das relações e dos sentimentos. O rosto de Lianella Carell explana eficazmente a alegria de Maria ao observar o local de trabalho do esposo, bem como uma certa desilusão quando alguém fecha as portas da janela, com a personagem a apresentar uma atitude simultaneamente pragmática e naïf. Lianella Carell contribui para atribuir credibilidade ao sentido prático e à simplicidade desarmante de Maria, com Vittorio De Sica a conseguir extrair interpretações bastante sólidas dos elementos que integram o elenco principal. O casal aparenta contar com uma relação forte, embora a felicidade de Antonio não dure muito tempo, com este indivíduo a ser roubado no primeiro dia de trabalho. Um jovem ladrão (Vittorio Antonucci) observa quer o posicionamento de Antonio, quer da bicicleta, até conseguir subir para o velocípede do protagonista e fugir pelas ruas e estradas de Roma. Antonio ainda grita e corre desesperadamente, mas não consegue recuperar a ferramenta de trabalho. A banda sonora atinge ritmos mais melancólicos e pouco esperançosos, enquanto o desespero se apodera da mente e do corpo de Antonio, com Lamberto Maggiorani a expressar os sentimentos tempestuosos que percorrem a alma do personagem que interpreta. Os valores morais de Antonio são colocados à prova, ou o protagonista não estivesse na situação limite de poder voltar a ficar sem emprego, ou seja, impedido de sustentar a família. Diga-se que o desânimo e a desesperança conduzem Antonio a cometer actos pouco pragmáticos, toldam-lhe a razão e preenchem o seu âmago de incerteza em relação ao futuro. É um personagem profundamente humano, recheado de virtudes e imensos defeitos, com estes últimos a sobressaírem quando a inquietação toma as rédeas da sua alma. Veja-se quando Antonio acusa um inocente de lhe ter furtado a bicicleta, ou o momento em que perturba o funcionamento de uma missa para tentar dialogar com um mendigo que contactara com o indivíduo que roubou o seu meio de transporte.


 Antonio está quase sempre acompanhado por Bruno, com o jovem a apresentar um misto de inocência e desenvoltura, enquanto encara o progenitor como uma espécie de exemplo a seguir, apesar do protagonista nem sempre tomar as atitudes mais pragmáticas. A afeição que Bruno nutre pelo progenitor, exemplarmente demonstrada pelo jovem Enzo Staiola, contribui e muito para adensar o impacto provocado por um momento devastador, que resulta das consequências de um acto cometido por Antonio numa ocasião de desespero. O rosto de Bruno transmite a desilusão, receio e angústia do jovem diante do acto cometido pelo pai, enquanto Lamberto Maggiorani evidencia a multitude de sentimentos (tais como a vergonha) que percorrem a mente deste indivíduo que deixou o espírito de sobrevivência levar a melhor sobre o pragmatismo. Antonio procura fazer de tudo para encontrar a bicicleta, um objecto que simboliza a sua libertação da miséria, embora os intentos deste indivíduo acabem quase sempre por não serem concluídos com sucesso. As autoridades pouco ligam ao caso de Antonio, enquanto que as deambulações que este indivíduo efectua pela cidade revelam-se maioritariamente infrutíferas ou frustrantes, sobretudo quando o protagonista percebe que ter razão não chega para conseguir fazer valer uma acusação. Veja-se quando Antonio se desloca até ao mercado negro, situado na Piazza Vittorio, um espaço onde são vendidos diversos produtos roubados, tais como bicicletas e peças deste velocípede. Este mercado é utilizado e aproveitado de forma irrepreensível por Vittorio De Sica, com o cineasta a filmar "Ladri di biciclette" fora dos lugares dos estúdios, algo que contribui quer para a autenticidade do enredo, quer para expor as dinâmicas da cidade de Roma, o local onde o protagonista trabalha e habita, ou não estivéssemos diante de um drama neo-realista que praticamente capta o real através da ficção. Note-se que "Ladri di biciclette" conta com uma série de ingredientes associados ao neo-realismo italiano, tais como as filmagens fora dos locais dos estúdios (bom aproveitamento da cidade de Roma, desde as suas ruas e mercados, passando pelos edifícios, estradas e as suas gentes, com este espaço citadino a surgir como um personagem secundário de grande relevo), os comentários de foro social, a utilização de actores e actrizes amadores ou desconhecidos (Lamberto Maggiorani era um operário, enquanto Enzo Staiola trabalhava a ajudar o pai a vender flores), a abordagem de temáticas associadas às gentes comuns ou desfavorecidas, a representação de Itália no período após a II Guerra Mundial, as mudanças que ocorrem na sociedade desta época, a capacidade de captar emoções bem reais, entre outros elementos que pontuam este drama de fino recorte.

 O desemprego e a pobreza marcam a vida de uma parte significativa da população deste período, algo que contribui quer para as dificuldades destas gentes, quer para o acto desesperado que Antonio efectua um pouco antes do final de "Ladri di biciclette". O acto é simultaneamente condenável e compreensível à luz dos acontecimentos, embora acabe por trair os princípios de Antonio, um personagem de gestos e falas simples. Lamberto Maggiorani convence a exprimir a simplicidade e enorme humanidade de Antonio, um indivíduo que apenas deseja ter um emprego que permita pagar as contas e sustentar a família, embora o destino não seja simpático para com o protagonista, bem pelo contrário, parecendo até brincar com os seus anseios e objectivos. O roubo da bicicleta significa o furto da liberdade deste indivíduo, ou melhor, da sua libertação da miséria, com Antonio a procurar recuperar este objecto a todo o custo, embora essa tarefa pareça praticamente impossível. O argumento desenvolve esta busca de Antonio de forma credível e emotiva, bem como as dinâmicas deste indivíduo com o filho ao longo desta jornada quixotesca. Lamberto Maggiorani e Enzo Staiola elevam os momentos protagonizados por Antonio e Bruno, tal como Vittorio De Sica, com o cineasta a saber jogar com as emoções dos espectadores e dos personagens. Veja-se quando Antonio decide levar Bruno a almoçar num restaurante, com ambos a partilharem momentos de alguma ternura que reflectem a simplicidade dos dois personagens. Não falta música ao vivo no espaço deste restaurante que não vende pizza, mas também a presença de uma família financeiramente abonada, com "Ladri di biciclette" a aproveitar para expor as diferenças gritantes entre grupos sociais ao mesmo tempo que nos deixa diante de um momento terno entre um pai e o seu filho. "Ladri di biciclette" é, também, um filme que estimula a nossa reflexão, nomeadamente, em relação àquilo que faríamos na mesma situação de Antonio, com Vittorio De Sica a ter ainda o mérito de nos faz sentir as "dores" dos protagonistas e de explanar de forma certeira as dificuldades que estes sentem no interior desta sociedade italiana do pós-Guerra. No fundo, estamos perante um pai de família que procura sustentar o seu lar, que anseia libertar-se das amarras da miséria e do desemprego, embora o destino lhe pregue uma partida cruel. Este é também um filme sobre um filho que acompanha o seu progenitor, enquanto exibe uma profunda curiosidade em relação a este último e uma necessidade notória de contar com o seu amor, algo expresso de forma paradigmática por Enzo Staiola. Ficamos diante de um drama sublime sobre gentes comuns, que tanto nos diz e faz sentir, com Vittorio De Sica a ser capaz de captar os ritmos, a atmosfera, os sentimentos e as dificuldades de um período conturbado da História de Itália, nomeadamente, após a II Guerra Mundial, naquela que é um dos grandes feitos cinematográficos deste magnífico cineasta.


Título original: "Ladri di biciclette".
Título em Portugal: "Ladrões de Bicicletas".
Realizador: Vittorio De Sica.
Argumento: Vittorio De Sica, Cesare Zavattini, Suso Cecchi d'Amico, Gerardo Guerrieri, Oreste Biancoli, Adolfo Franci.
Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci.

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