18 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "La ciociara" (Duas Mulheres)

 Cesira (Sophia Loren), a protagonista de "La ciociara", procura proteger Rosetta (Eleonora Brown), a sua filha, uma jovem de doze anos de idade, dos horrores da Guerra, um desiderato que conhece uma série de reveses e um episódio cruel e desolador que mexe com as emoções dos espectadores e dos personagens. "La ciociara" demonstra paradigmaticamente que Vittorio De Sica é um cineasta capaz de valorizar a dimensão humana dos personagens, enquanto aborda como poucos o contexto que rodeia as protagonistas e a forma como este influencia o quotidiano das mesmas. O cineasta contribui ainda para que os actores e actrizes construam figuras dotadas de dimensão, com Sophia Loren, Eleonora Brown e Jean-Paul Belmondo a terem interpretações dignas de atenção, enquanto Vittorio De Sica emociona o espectador com os acontecimentos que rodeiam os envolvidos, um pouco à imagem daquilo que tinha efectuado em "Sciuscià", "Ladri di biciclette", "Umberto D.", entre outras obras cinematográficas. O filme a ser alvo desta espécie de resenha crítica marca também mais uma feliz colaboração entre Vittorio De Sica e o argumentista Cesare Zavattini (inspirado no livro "La ciociara" de Alberto Moravia), com a dupla a contribuir para um retrato bem vivo sobre a forma como alguns italianos viveram e sentiram a II Guerra Mundial (o enredo decorre no Verão de 1943), algo conseguido através do olhar de Cesira e Rosetta, duas das personagens mais marcantes de "La ciociara". A presença das tropas alemãs contamina o território, bem como os bombardeamentos e os disparos, com a chegada de militares dos EUA e das tropas aliadas a ser sentida, com muitos destes elementos a contribuírem para a hostilidade que Cesira e Rosetta sentem nos territórios por onde se deslocam. Os sentimentos ficam muitas das vezes à flor da pele, algo notório nos momentos iniciais do filme, quando um bombardeamento aliado tem a cidade de Roma como destino. É nesse contexto intrincado que Cesira se vê obrigada a fechar temporariamente o seu estabelecimento comercial, enquanto a filha desmaia e o efeito das bombas é sentido, com o chão a estremecer, os objectos a caírem e o perigo a rondar os elementos que se encontram no interior deste cenário. Atormentada pelas consequências da II Guerra Mundial, Cesira prefere não correr riscos e partir para Sant'Eufemia, a sua terra natal, uma região rural e montanhosa, afastada dos grandes espaços citadinos, indo acompanhada por Rosetta. Sophia Loren transmite a personalidade forte, desenrascada e independente de Cesira, uma viúva que procura proteger a filha a todo o custo. Loren explana o seu talento, carisma e beleza como esta viúva de olhar felino que conta com um grande sentido prático, com a actriz a possuir ainda uma dinâmica convincente com Eleonora Brown, a intérprete de Rosetta. Eleonora Brown compõe uma personagem tímida, relativamente inocente, frágil, estudiosa e religiosa, que é confrontada com as agruras da guerra e a crueldade humana. A viagem destas duas personagens até Sant'Eufemia é marcada por alguns contratempos e um conjunto de episódios que deixam antever as dificuldades com que Cesira e Rosetta se deparam ao longo do enredo de "La ciociara", com ambas a manterem o desejo de regressarem brevemente a Roma. Cesira deixa o seu estabelecimento à guarda de Giovanni, um indivíduo casado, pai de dois filhos, que mantém um affair com a protagonista. O calor dos sentimentos que Giovanni e Cesira partilham é quase como uma pequena gota no meio de um oceano de incerteza e violência, onde as acções dos militares são sentidas e a morte paira por qualquer lugar, mesmo em espaços aparentemente calmos e idílicos como Sant'Eufemia


 A chegada de Rosetta e Cesira a Sant'Eufemia, um espaço campestre, é marcada pela presença de homens e mulheres a comerem, beberem e cantarem, uma conjuntura que transmite uma sensação ilusória de paz e sossego. No entanto, esta sensação logo é quebrada pela presença de luzes de reconhecimento, bem como pela chegada de militares alemães, tropas italianas (fascistas), soldados ingleses e situações violentas. É em Sant'Eufemia que mãe e filha conhecem Michele (Jean-Paul Belmondo), um intelectual de vinte e cinco anos, que apresenta um idealismo naïf, conta com alguma erudição e uma uma certa simpatia para com os ideais comunistas. Jean-Paul Belmondo é outro dos grandes destaques do elenco, com o actor a contribuir para atribuir dimensão a Michele, um personagem bastante directo na exposição dos seus ideais que forma amizade com Cesira e Rosetta. Diga-se que Michele apaixona-se por Cesira e desperta a admiração da jovem Rosetta, com os ideais deste intelectual a embaterem de frente com o modo de vida dos seus pais, um casal de camponeses que procura não levantar ondas. A vivacidade com que Michele exibe os seus ideais é notória em situações como o estudante a expor o desprezo que nutre para com os símbolos do fascismo, ou a menorizar a educação em escolas religiosas, ou a elogiar os camponeses, embora tarde em tomar uma medida prática para lutar contra o sistema. É certo que Michele é bem intencionado, que se mostra disponível para utilizar os seus contactos para ajudar Cesira e Rosetta, apesar de parecer demasiado naïf para perceber claramente a diferença entre a teoria e a prática, mesmo quando tem a razão do seu lado ou procura despertar a mente daqueles que o rodeiam em Sant'Eufemia. O território de Sant'Eufemia é marcado por espaços montanhosos, larga vegetação e um certo isolamento em relação às grandes cidades, algo transmitido por Vittorio De Sica (com o auxílio do trabalho competente de Gábor Pogány na cinematografia), com o cineasta a expor eficazmente o quotidiano dos personagens que se encontram no interior deste espaço onde as privações, o trabalho da terra e a presença militar são uma realidade. A presença militar seja através dos representantes do contingente italiano, ou do lado aliado, contribui e muito para a sensação de perigo que envolve o dia a dia de Cesira e Rosetta. Veja-se quando Cesira e Rosetta deparam-se com dois soldados italianos, com estes indivíduos a apresentarem uma postura hostil, ou os disparos provenientes de um avião que eliminam um transeunte que tinha acabado de dialogar com a protagonista e a jovem. Temos ainda a representação da chegada dos soldados dos EUA, com os tanques a aparecerem com grande pompa e circunstância, embora as protagonistas estejam longe de beneficiarem imediatamente da presença destes elementos no território.


 Cesira pretende proteger a filha a todo o custo, algo que a leva a deslocar-se com a jovem para Sant'Eufemia, embora acabe por conhecer uma série de reveses, com o momento em que procuram regressar a Roma a ser marcado por um acto de violência extrema. Mãe e filha decidem descansar no interior de uma igreja abandonada e degradada, um espaço sagrado que é conspurcado pela maldade humana quando um grupo de goumiers marroquinos (representantes do lado aliado, uma situação que evidencia paradigmaticamente a crueldade inerente aos actos hediondos cometidos na guerra) invade o local e viola estas duas figuras femininas. Rosetta e Cesira ainda correm, tentam fugir, com a segunda a procurar proteger a primeira, embora seja um combate desigual. Vittorio De Sica arquitecta um momento de puro terror, no qual as faces de Sophia Loren e Eleonora Brown espelham o desespero, o medo e a dor das personagens a quem dão vida. Ficamos diante de um caso de marocchinate, com Vittorio De Sica a utilizar este acto hediondo que é cometido sobre Cesira e Rosetta para expor um problema mais lato que marcou o território de Itália durante a II Guerra Mundial. Sophia Loren e Eleonora Brown fazem com que o espectador perceba e sinta o abalo que o acto cometido pelos goumiers provocou nas personagens que interpretam, com a dupla de protagonistas a sentir na pele o lado mais negro da humanidade e da guerra. A face de Eleonora Brown e os seus gestos corporais indicam o trauma de Rosetta, com a jovem a apresentar uma postura prostrada e um rosto desprovido da ingenuidade que outrora permeava a sua conduta e a sua alma. Sophia Loren assume e espelha as dores de Cesira, uma mãe desolada por não ter conseguido proteger a filha, revoltada quer com o destino, quer com as figuras que exercem uma influência trágica na existência do povo italiano. O beijo da morte chega a alguns personagens, bem como as desilusões e a loucura (veja-se quando Cesira e Michele deparam-se com uma mulher que enlouquece após ter visto o filho a ser assassinado pelas tropas alemãs), com os sentimentos a encontrarem-se à flor da pele, ou o contexto que rodeia o enredo de "La ciociara" não estivesse conspurcado pelas agruras da guerra. Veja-se os indivíduos que procuram abusar de Cesira e Rosetta, com o facto desta última ser menor a não parecer travar os avanços de alguns elementos, ou o comerciante que se aproveita da crise para vender um queijo a um preço exorbitante. O contexto histórico influencia e muito o quotidiano e as dinâmicas de Cesira e Rosetta, com as duas familiares a terem de lidar com uma realidade abrasiva, enquanto tentam manter os laços fortes que as unem, com Vittorio De Sica a atribuir uma enorme atenção ao vínculo que liga estas duas personagens ao longo deste drama marcante, poderoso e envolvente. 

Título original: "La ciociara". 
Título em Portugal: "Duas Mulheres". 
Realizador: Vittorio De Sica. 
Argumento: Cesare Zavattini
Elenco:
Sophia Loren, Jean-Paul Belmondo, Eleonora Brown, Raf Vallone

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