27 fevereiro 2017

Entrevista a Roni Nunes sobre a oitava edição do FESTin

 Lá diz o ditado popular, "a curiosidade matou o gato". No meu caso, a curiosidade sobre a oitava edição do FESTin conduziu-me a enviar treze questões a Roni Nunes, um dos programadores do certame. Ganha o blog com a disponibilidade do Roni Nunes para responder a esta imensidão de questões (a ideia inicial era fazer algo como "oito perguntas sobre a oitava edição do FESTin", mas, para não variar, falhei o objectivo), bem como aqueles que estiverem interessados em ler um pouco mais sobre este recomendável evento que dignifica e valoriza o cinema em língua portuguesa (vale a pena realçar que esta edição conta com exemplares bem interessantes do cinema brasileiro como "Comeback", "BR716", "Big Jato" e "Curumim", bem como obras cinematográficas nacionais como "A Floresta das Almas Perdidas" que pode, com o tempo, ganhar o estatuto de "filme de culto"). Ao longo da entrevista, Roni Nunes aborda questões relacionadas com a selecção das obras cinematográficas, a parceria com o FILMin, a retrospectiva dedicada a Margarida Gil, o novo formato da FESTinha, entre outros assuntos. Vale ainda a pena salientar que a oitava edição do FESTin começa a 1 de Março e decorre até ao dia 8 de Março.


Rick's Cinema - O ano passado salientaste que "trazer propostas ousadas é um dever de um bom festival". A ousadia foi um dos motes para a selecção dos filmes que se encontram presentes na competição de longas-metragens? Quais foram as principais linhas definidoras para a selecção dos filmes da competição de longas-metragens? 

 Roni Nunes: A competição do FESTin tem feito uma percetível viragem no sentido de se tornar mais autoral, ousada e experimental – sem que o festival como um todo, no entanto, abra mão de outras das suas características, como a mostra de cinema mais acessível e o seu vínculo social. A ideia não é trazer filmes para nichos, mas sim obras que comuniquem com o público – mesmo tendo preocupações estilísticas e uma estética apurada.


RC: Fiquei com a sensação que a Competição de Longas-Metragens procura acima de tudo desafiar e estimular o espectador ao invés de se limitar a ir ao encontro do mesmo com conteúdos que são tão fáceis de digerir como de esquecer. Foi com esse intuito, para além das qualidades que observaram nos filmes, que seleccionaram obras como "BR 716", "Big Jato", "Comeback", "Animal Político", "Quase Memória"? 

RN: Posso afirmar sem grande modéstia que a competição do FESTin este ano, como também já o foi a do ano passado, é a melhor mostra de cinema brasileiro de Portugal. Como disse, ao mesmo tempo são trabalhos bastante acessíveis – como “BR 716”, “Big Jato” ou “Comeback”.


RC: A competição de longas-metragens mescla cineastas experientes como Domingos de Oliveira, Ruy Guerra e Cláudio Assis com estreantes na realização de longas-metragens, tais como Erico Rassi, Tião e José Pedro Lopes. Esta mescla de experiência e "sangue novo" foi algo propositado na elaboração da programação? O que nos podes dizer sobre as longas-metragens dos cineastas mencionados?

RN: Mesmo entre os primeiros que citas há uma diferença de gerações. O Ruy Guerra é um ícone do Cinema Novo, o Cláudio Assis é um génio do século XXI. Não foi algo pensado conscientemente, mas ainda bem que notou isso. É uma prova da vitalidade destas cinematografias. Em relação aos filmes, “Quase Memória” é uma meditação algo nostálgica sobre o passado, com um vai-e-vem na história bastante original – enquanto “BR 716” também vai ao passado mas, neste caso, através de uma leitura a “nouvelle vague” dos anos 60, as suas grandes esperanças e desilusões. Cláudio Assis e Tião são de Pernambuco, um dos grandes impulsionadores do cinema brasileiro do século XXI. Ambos são provocadores e filosóficos – com “Animal Político” recorrendo ao surrealismo e “Big Jato” ao artifício de dois irmãos, ambos vividos pelo magnífico Matheus Natchergaele, para fazer os seus “statements”. Érico Rassi vem das curtas-metragens e o seu primeiro filme é bastante seguro e tem outro intérprete genial, Nélson Xavier, enquanto a obra de José Pedro Lopes segue uma tendência muito contemporânea – a fusão de terror com arthouse.


RC: O oitavo FESTin abre com "O Outro Lado do Paraíso" e encerra com "Elis". Porquê a escolha destes filmes para abrir e fechar o festival?

RN: “Elis” foi uma escolha fácil por causa da data: o FESTin este ano encerra no Dia Internacional da Mulher (8 de março) e exibir uma obra que referencia uma das grandes artistas da música brasileira faz todo o sentido. Claro que falamos de uma obra com qualidade e que foi uma referência em termos de público no ano passado. “O Outro Lado do Paraíso” acaba por ser uma escolha feliz, pois é um filme muito diferente daqueles que abriram o festival nos últimos anos. É um drama que não é leve nem fútil, mas ao mesmo tempo tem uma abordagem mais clássica, sem ser pesado, trazendo um pano de fundo histórico dos mais ricos – os bastidores da construção de Brasília. Acho que é um filme que pode agradar todos os espectadores da sessão de abertura.


RC: A edição de 2017 da Berlinale terminou recentemente. No entanto, ficou o registo de uma participação brasileira muito forte quer em quantidade, quer em qualidade, bem como uma presença portuguesa relativamente interessante. Sentes que o FESTin é, neste momento, um festival essencial para divulgar o cinema de língua portuguesa em Portugal? Como se explica a dificuldade de valorizar estas obras cinematográficas, bem como o cinema lusófono, fora do circuito dos festivais?

RN: Bom, começando pelo fim, acho que as dificuldades são as mesmas enfrentadas por todas as cinematografias feitas fora de Hollywood: o estrangulamento do circuito de distribuição e a consequente incapacidade destes projetos investirem em marketing. Muitas vezes as pessoas dão como dado adquirido que o público quer ver filmes de Hollywood – mas esquecem que alguns deles chegam a ter US$ 100 milhões gastos em marketing só nos Estados Unidos! Lembro de, há uns anos, ter encontrado um “boneco” do “Amazing spider-man” no meio das alfaces de um hipermercado…! Assim é impossível competir, é muito difícil para uma distribuidora independente colocar filmes no circuito – por vezes obras de grande qualidade e bastante acessíveis a qualquer público. No caso do cinema lusófono não é diferente – o cinema brasileiro não é conhecido em Portugal e o cinema feito cá vive uma relação também complexa com as audiências. Daí as dificuldade. Mas é um trabalho que vem sendo construído, mesmo assim.


RC: Por falar em Berlinale, um dos filmes em destaque na oitava edição do FESTin é "Curumim". Podemos esperar um documentário intenso, comovente e que suscita muitas questões, algo que comentaste no teu texto sobre o filme no Pipoca Moderna? Quais são os principais pontos fortes do filme?

RN: O filme é fortíssimo e muito belo ao mesmo tempo. Marcos Prado fez um retrato emocional, mas evitou o sentimentalismo fácil e as apreciações morais, o que dá ao filme uma terrível acutilância. “Curumim” narra a história do brasileiro condenado por tráfico de drogas na Indonésia. Por portas travessas, ele conseguiu, durante um período dos seus dez anos de cativeiro, contatar Prado e filmar cenas no interior da prisão. É uma história muito humana, sobre as nossas escolhas e as terríveis consequências que elas podem ter.


RC: A "Mostra mulheres no cinema ibero-americano, passado e presente’17" conta com uma retrospectiva dedicada a Margarida Gil. Como chegaram à escolha de Margarida Gil? Qual a importância desta retrospectiva no interior da programação do FESTin? 

RN: O cinema em geral, o português em particular, precisa de resgates constantes para se manter na memória – devido, por exemplo, àquele problema que mencionei, da distribuição. No caso da Margarida Gil, para além de estar inserida nos eventos da Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura, inscreve-se perfeitamente na ideia do FESTin este ano de analisar o papel da mulher no audiovisual.


RC: Continuando ainda no tema das retrospectivas. O FESTin contou com retrospectivas dedicadas a Hector Babenco e a Jardel Filho na edição de 2012. No caso deste ano, temos a já mencionada retrospectiva dedicada a Margarida Gil. Estas retrospectivas são para continuar nas próximas edições ou contam com uma faceta esporádica?

RN: As retrospetivas vão continuar, certamente. O que não faltam, aliás, são ideias. Nem sempre são fáceis de viabilizar – por diferentes razões, mas há inúmeros cineastas e intérpretes que mereceriam uma retrospetiva. Espero que possamos continuar a fazê-las.


RC: A Margarida Gil é uma das convidadas do FESTin, bem como Mariana Ximenes, Andréia Horta, Erico Rassi, entre outros realizadores, realizadoras, actores e actrizes. Podemos esperar um ambiente especial em volta dos filmes apresentados por estes convidados? Consideras que a presença dos convidados é fulcral quer para o crescimento do festival, quer para o "diálogo" do público com os filmes?

RN: Mesmo sendo um festival de baixo orçamento, o FESTin teve sempre uma excelente afluência de convidados. Neste sentido, não nos podemos queixar – principalmente se pensarmos na forma incrivelmente despreocupada com que conseguimos as presenças deste ano. No caso dos mais mediáticos, como Mariana Ximenes, Pedro Cardoso e Andreia Horta, que é uma das revelações do cinema brasileiro do ano passado, foram todos imediatamente cooperantes e aceitaram logo o convite. É fantástico. De resto temos cineastas e atores convidados de diversos filmes em variadas seções do festival – sendo exaustivo enumerar a todos. É evidente que a sua presença enaltece enormemente o FESTin.


RC:  Uma das novidades desta edição do FESTin passa pelo facto da FESTinha surgir como uma sessão competitiva. Quais os motivos para esta alteração. Como surgiu a ideia de criar um júri composto por crianças (os principais destinatários dos filmes da FESTinha)? 

RN: O público infantil está cada vez mais presente nos festivais em Lisboa – o que é excelente, é uma forma de lhes mostrar desde cedo filmes alternativos àqueles que estão habituados. Neste sentido, nada mais engraçado do que deixar eles próprios atribuírem uma Menção Honrosa aos trabalhos que assistem – estimulando, de alguma forma, que pensem criticamente.


RC:  Apesar da crise política e económica, o Brasil continua a brindar os espectadores com obras cinematográficas de grande valor (nem todas, mas existem exemplares muito recomendáveis em cada colheita anual). É possível dizer que o FESTin conseguiu trazer algum do "melhor cinema" que se fez recentemente no Brasil? Decidiram deixar "Aquarius" de fora ou não conseguiram incluir esta obra cinematográfica no interior da programação?

RN: As programações, como os organizadores de todos os festivais sabem, refletem por vezes acontecimentos circunstanciais que não dependem da vontade dos envolvidos. Há uma variedade de questões que podem dificultar a presença de um filme desejado pela equipa e, neste ano, aconteceu por vezes – pois as distribuidoras nacionais ou produtoras internacionais tinham outros planos para os seus projetos. Mas, com a variedade de alternativas que tínhamos, posso dizer que esse não foi um grande problema para nós, não foi dramático.


RC: Virando o foco da entrevista para algo diferente. A articulação entre os festivais e alguns serviços de streaming ou VOD tem acontecido de forma cada vez mais regular. Por exemplo, o 8 1/2 Festa do Cinema Italiano exibiu o "Lo chiamavano Jeeg Robot" no TV Cine e Séries praticamente em simultâneo com o festival, enquanto que o FILMin tem efectuado parcerias com o Festival de Roterdão, a Judaica, a Monstra, o My French Film Festival, bem como com o FESTin. Quais são as principais vantagens desta parceria? Aproveito ainda para te perguntar qual é a tua opinião sobre os serviços de streaming como o FILMin?

RN: A Filmin é uma excelente ideia exatamente em função das razões que mencionei acima – o estrangulamento do sistema de distribuição. Neste sentido, a plataforma também consegue contornar eventuais dificuldades que as pessoas tenham para deslocarem-se à uma sala de cinema. O objetivo é essencialmente disponibilizar cinema alternativo, por isso faz todo o sentido as parcerias que mencionaste – assim como aquela ligada ao FESTin. Neste caso, a Filmin vai colocar no site algumas das curtas-metragens em competição depois destas serem exibidas em sala.

RC: O ano passado comentaste que a edição de 2016 do FESTin tinha a melhor programação de sempre. A programação da edição de 2017 iguala ou supera a do ano passado? Quais os principais pontos fortes da oitava edição do FESTin? 

RN: Gosto muito das duas últimas programações, especialmente. Reunimos muito do melhor cinema feito no Brasil e, este ano, tivemos a sorte de ter dois excelentes projetos portugueses – algo que não foi possível o ano passado – lá está, pelos tais fatores circunstanciais. A estas alturas penso que já falamos de todos os destaques – os nove filmes da competição e as obras de Abertura e Encerramento. Da Mostra de Cinema Brasileiro destacaria ainda “O Filho Eterno”, um drama sobre paternidade, e “Sob Pressão”, uma espécie de “thriller” passado na favela.

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