15 janeiro 2017

Resenha Crítica: La ragazza con la valigia" (A Rapariga da Mala)

 Melodrama envolvente, emocionalmente potente e tocante, pontuado por paixões impossíveis, abandonos dolorosos, sonhos desfeitos, relações improváveis, sentimentos fortes e interpretações de grande nível de Claudia Cardinale e Jacques Perrin, "La ragazza con la valigia" não consegue gerar indiferença ou sair facilmente da memória. Claudia Cardinale enche o ecrã de charme, delicadeza, ambição, sensualidade e ingenuidade como Aida Zepponi. Jacques Perrin transmite de forma exímia a personalidade sensível e delicada de Lorenzo, uma adolescente de dezasseis anos de idade que começa a sentir um fraquinho por Aida. É o regresso de Valerio Zurlini às relações proibidas, ou desaprovadas pelos familiares da dupla de protagonistas, um pouco à imagem de "Estate Violenta", a primeira longa-metragem realizada pelo cineasta. Em "Estate violenta", Jean-Louis Trintignant e Eleonora Rossi Drago interpretam um casal que desafia as expectativas daqueles que os rodeiam. Ele é filho de um fascista e tem menos idade do que a figura amada. Ela é filha de uma mulher conservadora, viúva de um herói de guerra, tendo uma petiz de tenra idade. Tal como em "Estate violenta", a reunião da dupla de protagonistas de "La ragazza con la valigia" acontece no meio de um contexto caótico. Diga-se que este caos foi provocado por Marcello Fainardi (Corrado Pani), o irmão mais velho de Lorenzo. Aida largou tudo e todos para seguir à aventura com Marcello, um indivíduo que lhe prometeu mundos e fundos, embora não tenha problemas em abandonar esta figura feminina de forma fria e cruel. A personagem interpretada por Claudia Cardinalle mantinha uma relação ambígua com Piero (Gian Maria Volontè), um indivíduo agressivo e impulsivo. Marcello também está longe de ter as melhores das intenções para com Aida, algo notório quando utiliza um apelido falso para enganá-la, nomeadamente, Marchiori. Sem dinheiro, apenas com uma mala com poucos bens e uma imensidão de sonhos por cumprir, Aida decide deslocar-se até à casa de Marcello e Lorenzo, tendo em vista a encontrar Marchiori, mas apenas se depara com a desilusão e a destruição dos sonhos que formara. As ilusões formadas por Aida transformam-se rapidamente em desilusões, com a protagonista a conhecer mais um revés que marca a sua alma. O rosto de Claudia Cardinale transmite raiva e desespero, com a actriz a evidenciar as contradições de Aida, uma cantora que sabe da sua beleza e conta com alguma experiência de vida, embora seja pouco expedita a perceber quando está a ser enganada, algo evidenciado por diversas vezes ao longo de "La ragazza con la valigia". Quem recebe Aida é Lorenzo, naquele que é um dos vários momentos marcantes do filme. Aida finge inicialmente que é uma vendedora de seguros, enquanto Lorenzo tenta proteger esta mulher da verdade ao mesmo tempo que procura manter a mentira do irmão. O olhar de Lorenzo não engana, com Jacques Perrin a demonstrar que o adolescente ficou condoído com a situação de Aida. A banda sonora contribui para exacerbar o tom melodramático que pontua o primeiro encontro entre a dupla de protagonistas, um momento fulcral para os sentimentos fortes que se geram entre Lorenzo e Aida. Perante a situação delicada em que se encontra, Aida opta por habitar temporariamente num pequeno quarto, num hotel barato, embora não consiga pagar o mesmo, tendo uma série de problemas financeiros. Esta conta temporariamente com o apoio financeiro de Lorenzo, enquanto o adolescente se aproxima da protagonista e tenta que esta não descubra que é irmão de Marcello.


 Se Marcello é um indivíduo relativamente frio, mimado e pouco preocupado com os sentimentos dos outros, já Lorenzo apresenta uma certa ingenuidade e bondade, mesmo que a espaços cometa actos pouco pragmáticos ou minta àqueles que ama. Jacques Perrin compõe um personagem complexo, que se encontra a descobrir os reveses da vida e a lidar com as dores inerentes à transição para a idade adulta. Quase sempre bem vestido, gentil e afável, Lorenzo forma amizade com Aida, começando a sentir algo mais forte por esta mulher que é bastante mais velha. É um sentimento que tanto tem de irracional como de terno, com Aida e Lorenzo a formarem uma relação de amizade que aos poucos nos conquista e contribui para alguns dos melhores momentos de "La ragazza con la valigia", com Jacques Perrin e Claudia Cardinale a exibirem que estamos diante de duas figuras relativamente solitárias, que parecem encontrar algum calor humano quando estão na companhia um do outro. Aida consegue companhia quando quer, embora quase todos os homens a encarem como um objecto descartável, inclusive Marcello, com esta a encontrar-se muitas das vezes dependente das figuras masculinas. Inicialmente parece que Lorenzo pretende corrigir os erros cometidos pelo irmão, embora acabe por se apaixonar por esta mulher. Nada é fácil para Aida e Lorenzo, nem esperaríamos algo diferente numa relação de amizade pontuada por algumas doses consideráveis de ambiguidade e um certo desejo que parece contido no interior de duas almas frágeis e quebradiças. Lorenzo bem tenta esconder a amizade que formou com Aida. Veja-se quando Lorenzo decide apresentar a sua casa a Aida, quando ninguém está no interior da habitação, parecendo quase que estamos diante de uma espécie de conto de fadas, com a protagonista a demonstrar o seu espanto com este espaço, enquanto revela diversos episódios sobre o seu passado. Percebemos que Aida protagonizou uma miríade de situações complicadas, sobretudo quando trabalhava como bailarina, enquanto Lorenzo denota um fascínio notório por esta mulher. Valerio Zurlini é um cineasta que dedica uma atenção enorme aos pormenores, algo que podemos verificar quando observamos atentamente a casa dos Fainardi e o guarda-roupa dos elementos que habitam neste espaço, com o cenário a transmitir paradigmaticamente que estamos diante de uma família que pertence a um grupo social elevado. O espaço exterior desta mansão situada em Parma é enorme, enquanto o seu interior encontra-se decorado como se os seus proprietários fizessem parte de um grupo aristocrático financeiramente abonado. Não faltam estatuetas, quadros, estantes com uma miríade de livros, roupas caras, toalhas de diversas cores, uma longa escadaria, embora seja possível discernir que nem sempre existe calor humano. A mãe de Marcello e Lorenzo já faleceu, enquanto o pai de ambos está muitas das vezes fora de casa, com estes a contarem com a presença regular da tia (Luciana Angiolillo), uma mulher de personalidade austera. A inexperiência de Lorenzo e a sua polidez parecem combinar com a personalidade simultaneamente experiente e ingénua de Aida, com esta a tentar encontrar Marchiori, embora tarde em cumprir esse desiderato.

 Cardinale e Perrin protagonizam um momento particularmente tocante, com Valerio Zurlini a ajudar e muito a elevar a cena em questão e a contribuir para a dupla de protagonistas explanar o seu talento para a interpretação. Aida convida Lorenzo para sair consigo, com este a conseguir escapulir-se de casa, embora descubra que a protagonista está acompanhada por um indivíduo pouco recomendável. Ficamos diante de uma série de defeitos e virtudes de Aida: a ingenuidade, a procura de utilizar a sua sensualidade para ganhar favores dos homens (algo que a conduziu a aceitar fugir com o irmão de Lorenzo), a sua incapacidade para perceber quando alguém apenas está interessado no seu físico, a capacidade que a protagonista denota para transmitir que sabe onde errou e a sua enorme candura. É uma personagem mais complexa do que parece, simultaneamente aproveitadora e ingénua, que acaba por cair em desgraça e formar uma relação de amizade com um adolescente. Por sua vez, Jacques Perrin pode e deve fazer vénias a Valerio Zurlini e ao director de fotografia do filme (Tino Santoni). A parte memorável deste momento acontece quando Aida dança com um estranho, no interior do topo do hotel onde Lorenzo conseguiu um quarto para a protagonista, enquanto o adolescente fica a observar esta mulher à distância. Lorenzo não diz nada durante um longo período de tempo, remetendo-se para um silêncio doloroso e sepulcral, enquanto a câmara se fixa no rosto do protagonista, num close-up que permite exibir a inquietude que percorre a alma do jovem. Jacques Perrin transmite uma imensidão de sentimentos sem proferir uma única palavra, com Valerio Zurlini a deixar-nos diante das emoções do jovem quando observa Aida à distância, parecendo certo que Lorenzo encontra-se apaixonado pela protagonista. É notório que existem sentimentos muito intensos a unirem Lorenzo e Aida, mas também uma série de contrariedades, ou não estivéssemos perante uma relação forte que se forma entre um adolescente e uma mulher adulta, com ambos a parecerem denotar um interesse que remete para algo mais do que uma mera amizade. Tudo e todos parecem condenar a possibilidade do protagonista se envolver com a artista, enquanto Valerio Zurlini aproveita para revisitar a temática da "relação proibida", ou que não é aprovada pelos familiares dos intervenientes, um pouco à imagem daquilo que efectuara no recomendável "Estate violenta". Aida apresenta quase sempre um tom supostamente ingénuo em relação aos actos de Lorenzo, procurando não elaborar muitas perguntas sobre a forma como o jovem consegue o dinheiro para ajudá-la, ou adquirir roupas caras para que esta consiga frequentar os jantares do hotel. Parece certo que é praticamente impossível que Lorenzo e Aida fiquem juntos, embora formem uma dupla que mexe com os nossos sentimentos, com os protagonistas a transmitirem a ideia de que poderiam ter sido felizes se o contexto e as condições que os rodeiam fossem distintas. A idade de Lorenzo é um empecilho, bem como as atitudes daqueles que o rodeiam, com a relação entre o adolescente e Aida a contar com uma complexidade latente, sobretudo pelo facto do primeiro a começar a nutrir sentimentos amorosos por esta mulher.

 O filme conta ainda com um ou outro personagem secundário que tem espaço para sobressair, com Gian Maria Volontè a não precisar de muito tempo para expor o lado irascível, truculento e violento de Piero, o antigo namorado de Aida e líder da banda onde esta mulher cantava. Outro dos personagens secundários que se destaca é Romolo (Riccardo Garrone), o primo de Piero, um indivíduo que também se aproxima de Aida com uma mão cheia de falsas promessas e outra recheada de nada. Temos ainda a figura de Dom Pietro Introna (Romolo Valli), um padre conservador, que ensina Lorenzo e intromete-se na relação que o adolescente forma com Aida. Os valores religiosos parecem bastante inculcados no interior da sociedade deste período, simultaneamente conservadora e moderna, que mescla no seu interior uma miríade de contradições. Esse contraste é visível nos carros caros (símbolo de prosperidade), algumas músicas ouvidas pelos personagens, a publicidade à Coca-Cola, a presença das jukeboxes, com Valerio Zurlini a explorar essas contradições de um território onde os novos e os antigos valores se mesclam de forma nem sempre homogénea. A própria dupla de protagonistas evidencia as dicotomias presentes na narrativa, com Lorenzo a pertencer a uma família financeiramente abastada, com uma fortuna que perpassa de familiar para familiar, enquanto Aida pouco ou nada tem ou consegue alcançar, guardando na sua alma o amargo sabor de não conseguir encontrar segurança financeira, sucesso profissional e estabilidade na vida pessoal. Drama delicado, pontuado por alguns episódios memoráveis, uma banda sonora pronta a adensar os sentimentos transmitidos, um aproveitamento sublime dos cenários interiores e exteriores, "La ragazza con la valigia" é conduzido com mestria por Valerio Zurlini, um cineasta capaz de extrair interpretações de grande nível de Claudia Cardinale e Jacques Perrin, uma dupla que protagoniza uma série de momentos que prometem permanecer na memória.

Título original: "La ragazza con la valigia".
Título em Portugal: "A Rapariga da Mala".
Realizador: Valerio Zurlini.
Argumento: Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Enrico Medioli, Giuseppe Patroni Griffi, Valerio Zurlini.
Elenco: Claudia Cardinale, Jacques Perrin, Corrado Pani, Gian Maria Volontè, Riccardo Garrone, Luciana Angiolillo, Romolo Valli.

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