20 janeiro 2017

Resenha Crítica: "Cronaca familiare" (Dois irmãos, dois destinos)

 No início de "Cronaca familiare", uma das obras-primas realizadas por Valerio Zurlini, encontramos Enrico (Marcello Mastroianni), um dos protagonistas do filme, na redacção de um jornal, com um olhar cabisbaixo e uma postura que demonstra alguma tristeza e desânimo. Primeiro é confrontado com o facto do jornal do dia seguinte não contar com um único artigo da sua autoria, algo que não o apoquenta. Posteriormente, Enrico recebe uma chamada. A câmara de filmar concentra as suas atenções em Marcello Mastroianni, com o actor a ter um momento de interpretação pontuado pela subtileza e contenção dos sentimentos. Enrico segura o telefone de forma vagarosa, quase que a temer a notícia que aí vem, até ser notificado que Lorenzo (Jacques Perrin), o seu irmão mais novo, faleceu. A lâmpada colocada nas proximidades do telefone no qual Enrico recebeu a notícia não parece ser capaz de iluminar a alma deste indivíduo que permanece absorto nos seus pensamentos, com Marcello Mastroianni a expor paradigmaticamente que Enrico ficou emocionalmente devastado. O silêncio domina estes momentos, com o som de uma máquina de escrever, oriundo do fora de campo, a ser sentido, embora aquilo que fique na memória seja a saída de Enrico da redacção. O sentimento de perda é notório, mesclado com uma certa sensação de culpa e a certeza de que o destino nem sempre foi simpático para com a sua família, com o silêncio de Enrico a ser perturbador e tocante. Enrico caminha pelas ruas, até chegar a casa, parecendo engolido pelos pensamentos, pelas recordações e a triste certeza da impossibilidade de controlar o destino. O silêncio de Enrico termina quando o protagonista chega a casa e decide relatar em off alguns dos episódios que envolvem a sua relação nem sempre próxima com o irmão. Valerio Zurlini deixa-nos diante de longos flashbacks que expõem a história destes dois indivíduos, quase sempre do ponto de vista do personagem interpretado por Marcello Mastroianni, com o actor a assumir as funções de protagonista e narrador de serviço, enquanto ficamos na presença de um drama emocionalmente envolvente, sensível e tocante, que nos coloca perante dois irmãos que são separados e unidos pelo destino. Marcello Mastroianni tem uma interpretação sublime, com o actor a tanto expor o lado fura-vidas de Enrico, um indivíduo que procura lutar contra o destino e vencer na vida, como a evidenciar a sensibilidade e emotividade deste homem que aos poucos forma uma relação de amizade com o irmão. Enrico e Lorenzo foram separados quando o primeiro tinha oito anos e o segundo contava com poucos dias de vida. A mãe de Enrico e Lorenzo falecera, consta que devido a repercussões inerentes ao parto deste último, enquanto que o pai de ambos, uma figura que nunca chegamos a conhecer de forma presencial, encontrava-se internado no hospital, devido a ferimentos sofridos na I Guerra Mundial. Enrico culpara o irmão pela morte da progenitora, enquanto este último ainda era bastante novo para perceber tudo aquilo que o rodeava. Nesta fase da narrativa estamos em Setembro ou Outubro de 1918, com Lorenzo, anteriormente chamado de Dino, a ficar aos cuidados de Salocchi (Salvo Randone), o mordomo de um aristocrata que mora na Villa Rosa. A casa do chefe de Salocchi é pontuada pela abastança, com Lorenzo a ser tratado com os melhores luxos, acabando afastado do irmão, do pai de sangue e da avó (Sylvie). Se a avó de Enrico e Lorenzo é uma mulher simpática, simples e afável, algo transmitido por Sylvie, já Salvo Randone consegue explanar os gestos pomposos e a postura altiva de Salocchi, com o actor a contar com mais um papel secundário onde tem espaço para sobressair, sobretudo quando se reúne com o personagem interpretado por Marcello Mastroianni.


 A separação dos dois irmãos começa a ser efectuada, ainda que seja temporária, uma situação relatada por Enrico, com Marcello Mastroianni a incutir um tom bem vivo e sincero à narração, algo que contribui para despertar a sensação de que estamos diante de alguém que se encontra a viver um turbilhão de sentimentos quando recorda o passado. O enredo de "Cronaca familiare" desenrola-se desde o período final da I Guerra Mundial até ao término da II Guerra Mundial, algo que permite expor, ainda que em pano de fundo, algumas convulsões do território italiano (veja-se a presença de um soldado dos EUA na redacção do jornal, logo nos momentos iniciais do filme, ou as notícias oriundas de Espanha sobre Franco). O contexto histórico a espaços parece influenciar a dupla de protagonistas, mas também o destino e o caminho que Enrico e Lorenzo seguiram. Lorenzo foi educado com mais condições materiais e rigidez do que Enrico, embora o primeiro também tenha uma série de reveses que o colocam a embater de frente com a dura realidade. O reencontro entre Enrico e Lorenzo ocorre em 1935. Os dois irmãos já não entravam em contacto há quatro anos, nem pareciam muito interessados nessa possibilidade. Tudo muda num simples acaso. Enrico, quase sempre acompanhado pelos seus cigarros, decide visitar um espaço em Florença onde se joga bilhar e ping-pong. O local é pontuado por paredes claramente deterioradas pela humidade e pela passagem do tempo, com as cascas de tinta a acumularem-se e as tonalidades das mesmas a transmitirem uma certa frieza (diga-se que boa parte dos cenários interiores de "Cronaca familiare" contam com tonalidades pálidas, ou frias, ou praticamente desprovidas de vida), embora Enrico encare este salão de jogos como um espaço decente para se sentar e descansar, enquanto observa os jogadores. É precisamente nesse local que Enrico reencontra Lorenzo. Enrico e Lorenzo não dialogam, não expressam directamente uma palavra um para o outro, mas as expressões de Marcello Mastroianni e Jacques Perrin conseguem transmitir o impacto e a surpresa que este reencontro trouxe para as suas almas. A própria banda sonora de Goffredo Petrassi contribui para adensar o efeito que este reencontro provocou nos dois irmãos. Diga-se que o trabalho de Petrassi contribui e muito para alguns momentos poderosíssimos, parecendo a espaços embalar-nos para uma melancolia extrema que nos contamina o corpo e a alma, enquanto Valerio Zurlini se exibe mais uma vez como um excelente condutor de actores e coloca Marcello Mastroianni e Jacques Perrin a evidenciarem algumas doses do talento que contam para a interpretação. A realização de excelência do cineasta é bem visível neste reencontro, mas também na forma como Zurlini torna a passagem do tempo natural e é capaz de atribuir uma delicadeza arrasadora a esta história que tem no seu cerne dois irmãos desavindos. No entanto, apesar deste tempo de separação, os laços de sangue começam a tilintar e a falar mais alto do que os ressentimentos antigos, algo notório quando Lorenzo decide visitar o quarto onde o irmão se encontra a habitar. O quarto reflecte as parcas condições financeiras de Enrico, mas também o cuidado colocado na decoração e utilização dos cenários ao serviço do enredo e do desenvolvimento dos personagens. Veja-se o caso de Lorenzo, um jovem que começa a cair de estatuto social e financeiro, com os espaços que este frequenta a começarem a ser distintos daqueles que outrora visitava, enquanto se depara com as dores do mundo dos adultos e da realidade. Voltemos ao quarto de Enrico. Este é um cenário praticamente desprovido de iluminação, com o personagem interpretado por Marcello Mastroianni a ficar muitas das vezes sem electricidade, fruto de não pagar as contas, algo que o obriga a recorrer às velas, enquanto a desarrumação, os poucos móveis a a quantidade assinalável de livros exibem mais elementos sobre Enrico. A desarrumação evidencia a desorganização da vida de Enrico, enquanto que os livros demonstram o gosto pela leitura e a vontade do protagonista em aprender e subir na vida, com este indivíduo a coleccionar empregos, embora tarde em encontrar estabilidade como jornalista, tendo ainda de se digladiar de uma doença que o conduz a tossir regularmente (apesar dessa condição delicada não o impedir de continuar a fumar).


 Enrico trabalhou como tipógrafo, bem como a vender refrigerantes, ou seja, empregos que pouco contribuíram para lhe conceder estabilidade financeira, uma situação que conduziu o jornalista a deixar a avó num asilo. Por sua vez, Lorenzo viu o pai adoptivo sair da mansão do antigo chefe, após a morte do aristocrata, com o jovem e Salocchi a habitarem num quarto alugado e a viverem das poupanças deste último. A chegada de Lorenzo ao quarto de Enrico é um passo decisivo para a reaproximação entre os dois familiares, com o primeiro a procurar descobrir mais sobre a mãe e o irmão, para além de tomar a iniciativa de reencontrar a avó, com o momento em que o trio se junta no asilo a surgir como um pedaço comovente de cinema, com Marcello Mastroianni, Jacques Perrin e Sylvie a contribuírem para que o espectador fique comovido ao observar esta reunião. Sylvie consegue expressar no seu olhar as agruras pelas quais a avó de Enrico e Lorenzo passou, com a actriz a evidenciar que a personagem que interpreta conheceu uma série de dificuldades ao longo da vida. A avó dos protagonistas é uma figura afável, simpática, pouco letrada mas de enorme coração, que surge como uma ponte de união entre Enrico e Lorenzo. Jacques Perrin consegue imprimir um tom relativamente frágil e mimado a Lorenzo, um indivíduo que viveu protegido numa espécie de bolha, embora tenha de lidar repentinamente com toda uma nova realidade a partir do momento em que Salocchi começa a apresentar debilidades financeiras e pouca paciência para aceitar as suas aventuras. Lorenzo falta às aulas, gosta de jogar ping-pong, mete conversa com mulheres que não agradam ao pai adoptivo, com este último a ligar e muito a personalidade do primeiro a Enrico. Diga-se que Enrico e Salocchi apresentam um desprezo mútuo, com Marcello Mastroianni e Salvo Randone a contarem com uma cena onde as diferenças entre os personagens que interpretam ficam bem patentes, nomeadamente, quando colocam a conversa em dia e dialogam sobre Lorenzo. Entre as aproximações e afastamentos de Lorenzo e Enrico, "Cronaca familiare" coloca-nos diante de dois irmãos de personalidade, fisionomia e educação distinta, embora contem com algo de muito forte a ligá-los. Os laços de sangue e a figura agregadora da personagem interpretada por Sylvie contribuem e muito para esta união que se forma entre dois irmãos separados e reunidos pelo destino, com Valerio Zurlini a criar um drama emocionalmente poderoso, sensível, pontuado por interpretações de grande nível e momentos que tardam em sair da memória. Veja-se o momento em que Enrico exibe o desespero perante a situação delicada de Lorenzo quando este último se encontra internado no hospital, ou o gesto da avó a dar dinheiro ao primeiro para ajudá-lo a enfrentar as adversidades financeiras. Enrico é um inconformado que luta contra o destino e aos poucos se depara com a estranha sensação de nutrir sentimentos fortes por alguém que ignorava ou procurava ignorar. Marcello Mastroianni consegue expressar as dúvidas que assolam a mente de Enrico, ou este indivíduo não tivesse desprezado o irmão durante boa parte da sua vida, tendo culpado o mesmo pelo falecimento da progenitora. No entanto, a partir do momento em que Lorenzo entra no interior do seu quarto, Enrico não consegue desprezar totalmente o irmão. Lorenzo é um elemento que foi ensinado e educado para servir, obedecer e assistir resignado ao mundo que o rodeia (o sobretudo bege que o protagonista utiliza de forma amiúde remete exactamente para a sua passividade, com a tonalidade a contribuir para este significado), algo que promete ser complicado para o jovem, sobretudo quando é obrigado a entrar no mercado de trabalho e percebe que não tem objectivos, nem conhecimentos práticos, nem energia para se debater com o destino quando este resolve fazer do seu corpo um saco de pancada.


 O destino parece exercer um papel de peso ao longo de "Cronaca familiare", que o digam Enrico e Lorenzo. Enrico ainda tenta lutar contra o destino, algo latente quando combate uma doença grave e consegue triunfar na profissão que sonhava. No entanto, nem sempre é possível vencer o destino, com uma doença incurável a prometer consumir Lorenzo e arrasar Enrico, com estes dois irmãos a formarem uma relação de respeito e amizade que facilmente nos comove e evidencia o trabalho convincente entre Mastroianni e Perrin. Zurlini exibe mais uma vez que é um excelente condutor de actores e um cineasta exímio a trabalhar os espaços onde decorrem o enredo, com os cenários interiores e exteriores a contribuírem para adensar determinados estados de espírito ou características dos personagens, ou simplesmente para exporem as alterações no interior de Itália. Veja-se o desespero de Enrico nas ruas quando os produtos escasseiam durante a II Guerra Mundial, ou as cores desprovidas de vida do hospital, ou o mencionado quarto do personagem interpretado por Marcello Mastroianni em 1935. Temos ainda o espaço onde Salocchi começou a viver com Lorenzo, um pequeno quarto que se encontra com as paredes quase todas preenchidas por quadros, porcelanas e outros luxos que parecem pertencer há antiga habitação do chefe do primeiro. A decoração evidencia que outrora Salocchi contou com um estatuto social elevado, embora a forma como os mesmos destoam das paredes do quarto diminuto exiba que este continua preso ao passado, com a sua prosperidade a ser apenas uma realidade de outros tempos. A narrativa deambula no tempo, sendo exposta regularmente a partir do ponto de vista de Enrico, com Valerio Zurlini a conseguir que este recurso contribua para acrescentar algo ao enredo, com o tom de voz de Mastroianni a ajudar e muito para atribuir um peso acrescido aos episódios relatados. O sentimento de culpa parece afectar Enrico, com este personagem, bem como Lorenzo, a deixarem muito por dizer, ou estes dois familiares não se encontrassem a ser constantemente reunidos e separados pelo destino, pelo menos até chegar a notícia desastrosa que é transmitida no início do filme. Valerio Zurlini deixa que Mastroianni e Perrin componham protagonistas complexos, com um simples close-up no rosto de cada um dos actores a poder transmitir imenso, com a dupla a facilitar e muito a vida ao cineasta, enquanto este constrói um drama sublime, que não apresenta contemplações para com os personagens. Sentimentos como tristeza e melancolia assolam a mente dos personagens e dos espectadores, bem como a espaços alguns trechos de leveza e ternura, embora a vida esteja longe de ser simpática para com Lorenzo, Enrico e avó destes dois elementos, com os dois irmãos a terem algumas discussões pelo caminho e a formarem a certeza de que existe algo de muito forte a uni-los. Drama poderoso, envolvente, dotado de uma banda sonora pronta a expressar a melancolia que a espaços toma conta do enredo e uma cinematografia notável, "Cronaca familiare" coloca-nos diante da reunião entre dois irmãos que pouco conviveram durante a juventude, com Valerio Zurlini a estabelecer as dinâmicas dos mesmos de forma sublime, enquanto concede espaço para Marcello Mastroianni e Jacques Perrin brilharem em bom nível.

Título original: "Cronaca familiare".
Título em Portugal: "Dois irmãos, dois destinos".
Realizador: Valerio Zurlini.
Argumento: Mario Missiroli (inspirado no livro "Cronaca familiare" de Vasco Pratolini).
Elenco: Marcello Mastroianni, Jacques Perrin, Sylvie, Salvo Randone.

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