21 abril 2017

Resenha Crítica: "Il boom" (Negócio à Italiana)

 Sem dinheiro para grandes investimentos, aventuras, ou devaneios, Giovanni Alberti (Alberto Sordi), o protagonista de "Il boom", é um pequeno empreiteiro que gasta mais do que aquilo que recebe quer para saciar os seus vícios, quer para agradar a Silvia (Gianna Maria Canale), a sua esposa, uma mulher pouco dada à contenção financeira. Filha de um general (Federico Giordano) conservador, Silvia é uma das poucas pessoas que inicialmente não sabem das dívidas do personagem interpretado por Alberto Sordi, enquanto este procura esconder tudo da cara-metade. Por sua vez, Silvia raramente tem demonstrações de afecto para com o esposo, com Gianna Maria Canale a incutir uma faceta frívola a esta mulher, com o matrimónio do casal a parecer estar dependente da situação financeira de Giovanni. O empresário esforça-se para oferecer todas as comodidades e luxos à esposa, embora não tenha dinheiro para pagar os mesmos, algo que o conduz a mentir constantemente à mãe do seu filho, tendo em vista a procurar manter o casamento. Protagonista de comédias à italiana como "La grande guerra", "Il vedovo", "Mafioso", entre outras, Alberto Sordi tem em "Il boom" mais uma demonstração do seu talento para o humor, com o actor a criar um personagem que tanto tem de patético como de trágico e incorrigível. Giovanni é um gastador incurável que pretende não só manter o casamento com Silvia, mas também continuar a contar com um círculo de amigos com um estatuto social e económico elevado. Esse desejo de manter as aparências conduz Giovanni, ainda nos momentos iniciais de "Il boom", a procurar adiar o pagamento das dívidas que tem para com a La Fides, uma empresa especializada em empréstimos. Os amigos e conhecidos rejeitam os pedidos de empréstimo ou possíveis oportunidades de investimento apresentadas por Giovanni, enquanto que o protagonista recusa entrar em contenção financeira. Giovanni continua a praticar ténis, a comprar vestidos dispendiosos para a esposa, a utilizar um carro caro e a participar em jantares de elementos com um estatuto social e financeiro superior ao seu, com a habitação deste personagem, um espaço dotado de diversos luxos, largas dimensões, um terraço com uma bela vista, a simbolizar paradigmaticamente o desejo de grandeza do protagonista de "Il boom". Diga-se que a casa, situada em Roma, representa uma falsa opulência, com Giovanni a exibir algo que não tem condições para manter ao mesmo tempo que tenta evitar de forma desesperada que a esposa descubra a verdade, ou seja, que estão na falência. Alberto Sordi compõe um personagem falador, expressivo na exposição dos sentimentos, que é capaz de despertar o sorriso do espectador mas também o sentimento de vergonha alheia e de angústia, com Giovanni a aparecer como um protagonista dotado de alguma densidade. Este conta no seu interior com diversas ansiedades e contradições dos elementos que tardam em acompanhar a ascensão social e económica daqueles que os rodeiam, com "Il boom" a surgir como uma sátira mordaz da sociedade transalpina entre os anos 50 e o início dos anos 60. 

18 abril 2017

Resenha Crítica: "Pericle il nero" (2016)

 Num determinado momento de "Pericle il nero", encontramos o personagem do título a procurar controlar as emoções, embora praticamente não consiga evitar a queda de lágrimas e a demonstração de algum desespero, enquanto se encontra numa praia de Calais, com este cenário a traduzir paradigmaticamente o estado de espírito desta figura enigmática. As nuvens acinzentadas cobrem o céu, bem como as tonalidades frias, com as características deste cenário a reforçarem a incerteza que envolve o futuro de Pericle (Riccardo Scamarcio), mas também a negritude que rodeia o quotidiano do protagonista de "Pericle il nero", a terceira longa-metragem de ficção realizada por Stefano Mordini. Diga-se que as cores luzidias e quentes estão longe de pontuarem "Pericle il nero", com a fotografia do filme a sobressair muitas das vezes pela capacidade de captar a desesperança que marca uma parte do quotidiano do protagonista. A hostilidade marca o mundo pelo qual Pericle se move, embora, quando se esforce para sair do mesmo, também lide com a aspereza da humanidade, seja numa simples fila da padaria ou a tentar encontrar abrigo junto dos poucos familiares que lhe restam. Como almejar um futuro luzidio quando o passado é marcado pelo negrume? A violência percorre o corpo, a alma, a mente e o sangue que circula pelas veias de Pericle, um gangster lacónico e misterioso, de origem napolitana, que inicialmente desperta a nossa repulsa em relação aos actos que pratica. Pericle não tem como objectivo eliminar as suas vítimas, bem pelo contrário, preferindo antes humilhá-las com actos que deixam marcas na corpo e na alma dos elementos que viola. Quase sempre acompanhado por sacos de areia, que utiliza para desferir golpes na cabeça das suas vítimas e imobilizá-las temporariamente, Pericle tem como hábito sodomizar os seus alvos, ou melhor, ou, para ser mais preciso, obriga os elementos que desobedecem a Don Luigi (Gigio Morra), o seu chefe, a terem sexo anal. É um acto cruel e repugnante, embora Pericle pareça encarar a profissão com a mesma naturalidade com que efectua uns biscates como actor de filmes pornográficos, com Riccardo Scamarcio a conseguir transmitir a faceta negra deste personagem solitário e atormentado. Como seguir com atenção um personagem que comete actos tão repugnantes? Stefano Mordini provoca desde logo o choque ao expor os actos hediondos do protagonista, uma figura misteriosa e pouco recomendável, até começar a desvendar, ainda que parcialmente, a verdadeira personalidade deste criminoso. O cineasta consegue desfazer a imagem inicial que criamos em relação ao criminoso, ainda que a mesma não seja esquecida, com "Pericle il nero" a colocar-nos diante de uma figura deveras complexa e intrigante. Estamos diante de um criminoso que se situa numa zona cinzenta, que tanto sonha ter uma família e efectua actos surpreendentemente delicados como apresenta uma brutalidade e um carácter errático, com Riccardo Scamarcio a conseguir evidenciar a complexidade deste personagem recheado de contradições e uma alma atormentada.

15 abril 2017

Resenha Crítica: "Fiore" (2016)

 "Fiore" reúne no seu interior elementos drama familiar e prisional, bem como de romance e obras cinematográficas sobre a transição para a idade adulta, sempre sem puxar em demasia pelos limites dos géneros ou subgéneros enunciados, enquanto nos apresenta a uma jovem problemática, rebelde, imprevisível e irascível. Esta jovem é Daphne Bonori, interpretada com alguma verve por Daphne Scoccia, com a actriz estreante a incutir um estilo felino e arisco a esta personagem muito propensa a envolver-se em enrascadas. No início do filme encontramos Daphne a efectuar alguns furtos de telemóveis nas imediações de uma estação de metro. É exactamente num desses roubos que tudo corre mal para a delinquente. A jovem ainda tenta fugir e esconder-se das autoridades, com a câmara de filmar a acompanhar a correria intensa e desesperada de Daphne, até esta ficar praticamente encurralada e ser detida. Daphne tem de cumprir uma pena a rondar um ano de duração no interior de um reformatório para menores de idade, fruto dos assaltos que cometeu, com "Fiore" a envolver-se pelos meandros destes espaços prisionais. O reformatório onde se desenrola uma parte considerável do enredo conta com a presença de uma ala masculina e outra feminina, com os elementos de sexo distinto a não poderem conviver uns com os outros, embora Daphne logo quebre essa regra ao envolver-se com Josh (Josciua Algeri). Ambos são jovens solitários e rebeldes, que não contam com grandes perspectivas de futuro e estão presos devido a terem cometido furtos. Embora o diálogo regular entre elementos masculinos e femininos não seja permitido, Daphne e Josh conseguem manter contacto seja através de cartas que trocam às escondidas, ou em encontros furtivos, com ambos a contarem com uma irreverência inolvidável e uma perícia notória para se envolverem em enrascadas. A amizade e envolvimento com Josh, um indivíduo que foi recentemente abandonado pela namorada, contribuem para alterar as rotinas de Daphne neste estabelecimento prisional, muito marcadas pelos conflitos e a formação de algumas amizades, bem como por uma série de actividades que nem sempre motivam a protagonista. Daphne encontra em Josh um estranho calor humano que parecia faltar na sua vida, com os dois jovens a complementarem-se e a compreenderem-se praticamente na perfeição. Diga-se que Daphne é uma figura solitária, que não tem problemas em protagonizar episódios de violência, ou em colocar o espaço da prisão em polvorosa. Veja-se o momento em que Daphne incendeia o colchão da sua cama, ou quando esta se envolve em zaragatas com algumas colegas de prisão. Ficamos diante de um interessante estudo de personagem, com Claudio Giovannesi, o realizador de "Fiore", a centrar quase todas os elementos da narrativa em Daphne, enquanto conhecemos as especificidades desta jovem imprevisível e errática.

14 abril 2017

Resenha Crítica: "Indivisibili" (2016)

 Num determinado momento de "Indivisibili", Alfonso Fasano (Peppe Servillo), um médico que trabalha na Suíça, pergunta a Peppe (Massimiliano Rossi) e Titti (Antonia Truppo), os pais de Dasy (Angela Fontana) e Viola (Marianna Fontana), duas gémeas siamesas, se estes não têm vergonha pelo facto das jovens não terem sido separadas à nascença. O tom de Alfonso Fasano é de alguma reprovação e consternação, ou Peppe e Titti não utilizassem o facto de Dasy e Viola estarem corporalmente ligadas, embora não partilhem nenhum órgão vital (estão unidas pela zona da pélvis), para lucrarem com a situação. É Peppe quem trata das questões contratuais dos casamentos, baptizados e comunhões onde Dasy e Viola cantam, com os talentos vocais de ambas a serem apreciados, embora o interesse dos elementos do público esteja centrado no físico das gémeas, quase como se estas fossem aberrações. Fãs de Janis Joplin, Dasy e Viola estão longe de serem duas aberrações, bem pelo contrário. Estas são duas jovens de dezoito anos de idade, que estão a lidar com uma série de dilemas, desejos e ansiedades muito próprios de quem ainda se encontra numa fase de formação e afirmação da personalidade, com Angela Fontana e Marianna Fontana, irmãs gémeas na vida real, a transmitirem com enorme sagacidade aquilo que une e separa as personagens que interpretam. Angela Fontana coloca em evidência o lado mais destemido de Dasy, bem como o seu desejo de independência e o afecto que nutre pela irmã. Marianna Fontana imprime uma faceta mais frágil e temerosa a Viola, uma jovem que tem um apetite assinalável e teme a possibilidade de se separar da irmã. Ambas contam com um dom para a cantoria, uma beleza física notória, uma característica corporal que praticamente lhes permitiria entrar em "Freaks" e uma ingenuidade que as conduz a nem sempre questionarem os actos daqueles que as rodeiam. Note-se a facilidade com que acreditaram na mentira de que não poderiam ser separadas, ou a fuga pouco planeada que efectuam num determinado momento da narrativa. A entrada em cena de Alfonso Fasano, a salientar a possibilidade das protagonistas serem separadas com recurso a uma operação, é um momento fulcral quer para a vida das gémeas, quer para o enredo de "Indivisibili", a terceira longa-metragem realizada por Edoardo De Angelis, com as palavras do médico a irem ao encontro da vontade de Dasy em prosseguir com a sua vida de forma um pouco mais independente, sem ter que estar preocupada com os efeitos que os seus actos podem provocar na irmã. Veja-se no início do filme, quando encontramos Dasy a masturbar-se, enquanto Viola está a dormir, com os efeitos deste acto a serem sentidos pela segunda ao ponto desta começar a rezar devido a ter sonhado que pecou.

13 abril 2017

Resenha Crítica: "Lo chiamavano Trinità..." (Trinitá - Cowboy Insolente)

 Pontuado por lutas ao estilo dos combates de wrestling, uma dinâmica notável entre Terence Hill e Bud Spencer, um grupo de Mormons que evita utilizar a força física, diversos elementos dos spaghetti western mesclados com condimentos de comédia, estradas poeirentas, uma banda sonora marcante, "Lo chiamavano Trinità..." convida o espectador a envolver-se pelo interior de um enredo marcado por figuras peculiares, imenso humor, alguma violência propositadamente inofensiva e uma certa ingenuidade e malandrice, bem como pelas peripécias vividas pela dupla de protagonistas desta icónica obra cinematográfica. As estradas pelas quais os personagens circulam encontram-se recheadas de poeira, prontas a exibir que ainda estamos diante de um território em formação, caracterizado por gentes que não cumprem as leis e imenso calor, com os raios solares a baterem bem forte sobre os espaços onde se desenrola o enredo desta marcante obra cinematográfica. O calor invade o território e os sentimentos, ou não estivéssemos diante de um filme onde os personagens interpretados por Bud Spencer e Terence Hill assumem o papel de estranhos defensores de uma comunidade de Mormons. Não faltam alguns momentos a fazer recordar "Shichinin no samurai" (o plano para defender e treinar um grupo de elementos indefesos), "Yojimbo", "Per un pugno di dollari" (o estranho que chega e mexe com o quotidiano de um espaço citadino), "Per qualche dollaro in più" (a união de dois pistoleiros para combaterem um inimigo comum), entre outras situações que são abordadas quase sempre com algum humor à mistura. As próprias coreografias das lutas corpo a corpo, prontas a exacerbarem a faceta aparentemente indestrutível de Bud Spencer e a personalidade irreverente do personagem interpretado por Terence Hill (o humor físico é um dos "pratos" principais do filme), contribuem para esses momentos mais leves, tal como o trabalho de sonoplastia. Veja-se os sons efusivos dos socos desferidos pelos personagens interpretados por Terence Hill e Bud Spencer, com a dupla a apresentar uma dinâmica assinalável como dois irmãos peculiares, dados a entrarem em confusões e a desrespeitarem a lei. Terence Hill incute um carisma muito próprio a Trinità, um pistoleiro preguiçoso que é denominado de "braço direito do Diabo". Se o pistoleiro sem nome interpretado por Clint Eastwood em "Per un pugno di dollari" mantinha uma faceta lacónica, já Trinità evidencia uma enorme preguiça, sentido de humor, insolência e malandrice que o distinguem e muito em relação ao primeiro, embora ambos partilham uma enorme pontaria quando se encontram de pistola na mão.

11 abril 2017

Resenha Crítica: "La ragazza del mondo" (Worldly Girl)

  Elevado por um argumento certeiro e uma interpretação sublime de Sara Serraiocco, "La ragazza del mondo" articula eficazmente as temáticas inerentes às descobertas efectuadas por uma jovem adulta e às mudanças muito próprias desta idade com um romance proibido e uma reflexão sobre o mundo das Testemunhas de Jeová. "La ragazza del Mondo" não efectua juízos de valor, nem condena as crenças pelas quais se regem as Testemunhas de Jeová, embora permita um debate interessante sobre todo este mundo que conta com códigos de conduta muito próprios que começam a sufocar Giulia (Sara Serraiocco), a protagonista da primeira longa-metragem realizada por Marco Danieli. Cineasta a ter em clara atenção, Marco Danieli desenvolve com acerto as temáticas relacionadas com as descobertas efectuadas pela protagonista, uma jovem que se depara com questões e anseios relacionados com a sexualidade, a formação da identidade e o primeiro amor, com Sara Serraiocco a incutir um misto de fragilidade, força interior e delicadeza a Giulia. O talento da actriz é exacerbado pelos close-ups recorrentes, com Marco Danieli a deixar muitas das vezes que o rosto da intérprete sublinhe os dilemas com que a protagonista se depara ao longo do filme. Note-se a dificuldade que a protagonista tem em continuar com os estudos, apesar de ser uma das melhores alunas da turma e pretender avançar para o ensino superior, embora Celestino (Marco Leonardi) e Costanza (Stefania Montorsi), os seus pais, duas Testemunhas de Jeová imensamente conservadoras, tentem que esta prossiga pela via profissional (como administrativa na fábrica onde trabalha o progenitor), ou a impossibilidade destes elementos iniciarem relações com "pessoas do Mundo", algo que limita as decisões que Giulia necessita de tomar para o futuro. Giulia tem cerca de dezanove anos de idade, encontra-se inserida no interior de uma comunidade protectora, fechada, rígida e conservadora, conta com boas notas e é consumida por uma série de dúvidas e sentimentos incontroláveis. Como controlar os sentimentos e a curiosidade numa fase como a transição entre o final da adolescência e a chegada à maioridade, ou seja, quando ambos parecem incontroláveis? Como reprimir as sensações e emoções quando estas brotam do âmago da alma como se fossem lava no interior de um vulcão em erupção? Sara Serraiocco imprime uma postura discreta e contida a Giulia, uma jovem que vive pacificamente com os pais e a irmã, de acordo com os textos sagrados, pelo menos até se deparar com Libero (Michele Riondino), um indivíduo com um passado nebuloso e uma personalidade problemática e errática.

10 abril 2017

Resenha Crítica: "Se Dio vuole" (Se Deus Quiser)

 Tommaso (Marco Giallini) é um cirurgião ateu, arrogante, pouco dado a grandes sentimentalismos, que não tem problemas em efectuar comentários depreciativos sobre aqueles que o rodeiam e em julgar previamente os elementos com quem contacta. Este é casado com Carla (Laura Morante), uma mulher que gosta de adoptar crianças oriundas de um contexto intrincado. Carla encontra-se deprimida, aprecia beber vinho às escondidas e prepara-se para expor a sua revolta em relação ao rumo da sua vida. O casal conta com dois filhos biológicos, Bianca (Ilaria Spada) e Andrea (Enrico Oetiker), ambos jovens adultos, com a primeira a não primar pela sagacidade e inteligência, enquanto que o segundo surpreende tudo e todos ao salientar que pretende abandonar o curso de medicina para ser padre. Tommaso ainda tenta fingir que apoia o filho, embora procure fazer de tudo para descobrir esqueletos no armário de Pietro (Alessandro Gassmann), o padre que contribuiu para Andrea descobrir o gosto por seguir os caminhos da fé. Com um passado nebuloso, um discurso irreverente, dinâmico e espirituoso, Pietro tem uma facilidade latente em atrair a atenção dos fiéis, embora desperte uma série de dúvidas em Tommaso, pelo menos até este último formar uma relação de respeito e amizade com o padre. Estes são alguns dos personagens que habitam o enredo de "Se Dio vuole", uma comédia desinspirada, previsível e insípida, que é incapaz de desenvolver boa parte das tramas e subtramas ou de deixar marca. É certo que "Se Dio vuole" beneficia e muito do talento e carisma de intérpretes como Marco Giallini e Alessandro Gassmann, com ambos a conseguirem espremer ao máximo o material que lhes é colocado à disposição, embora a dupla conte com uma missão quase impossível: salvar o filme da mediocridade. Se Tommaso é descrito como um cirurgião competente e implacável, já Edoardo Maria Falcone não apresenta a mesma precisão na sua estreia como realizador de longas-metragens, ou "Se Dio vuole" não contasse com toda a atmosfera de uma sitcom mal-enjorcada que foi elaborada por um cineasta sem marca ou "voz própria". Sem conseguir que a maioria dos personagens ultrapasse uma unidimensionalidade pouco recomendável, ou se solte dos estereótipos aos quais foram presos, "Se Dio vuole" raramente contribui para despertar alguns risos, para além de ser incapaz de abordar de forma minimamente decente boa parte das temáticas que são lançadas para o interior da narrativa, com os tropeços a sucederem-se em catadupa.

09 abril 2017

Resenha crítica: "Smetto quando voglio - Masterclass"

 Pontuado por situações delirantes como uma perseguição e fuga em plena Villa Adriana, uma dinâmica convincente entre os diferentes personagens, uma banda sonora enérgica, uma capacidade muito italiana de encontrar o humor em momentos muitas das vezes desesperantes ou dramáticos, "Smetto quando voglio - Masterclass" surge como uma comédia cheia de ritmo, estilizada, pronta a divertir o espectador sem ferir a inteligência do mesmo, enquanto comprova que a commedia all'italiana está viva, de boa saúde e recomenda-se. "Smetto quando voglio - Masterclass" efectua alguns comentários de foro social sobre temáticas relacionadas com o desemprego, a dificuldade dos licenciados em integrarem ou serem inseridos no mercado de trabalho, o tráfico de drogas, entre outras, embora o foco esteja no humor, acção e aventura, com Sydney Sibilia a realizar uma obra cinematográfica pontuada por imensos ingredientes do género. O argumento aposta na familiaridade entre o espectador e os personagens, bem como nas dinâmicas destes últimos, ou os eventos que se desenrolam em "Smetto quando voglio - Masterclass", o segundo capítulo da trilogia "Smetto quando voglio", não tivessem como protagonistas a quadrilha de criminosos com o “quociente de inteligência mais alto de sempre". Liderada por Pietro Zinni (Edoardo Leo), um indivíduo formado em neurobiologia, esta equipa conta com os seguintes elementos: Alberto Petrelli (Stefano Fresi), um especialista em química computacional; Andrea De Sanctis (Pietro Sermonti), um antropólogo; Mattia Argeri (Valerio Aprea) e Giorgio Sironi (Lorenzo Lavia), dois latinistas; Bartolomeo Bonelli (Libero De Rienzo), um especialista em macroeconomia dinâmica; Arturo Frantini (Paolo Calabresi), um arqueólogo. Em "Smetto quando voglio", Pietro reuniu estes elementos para formar um negócio ilegal relacionado com o fabrico e venda de smart drugs. Ou seja, a quadrilha de Pietro é constituída por elementos que contam com imenso conhecimento sobre diversas áreas, embora não tenham experiência nos meandros do tráfico de substâncias estupefacientes, algo que não os impediu de criar uma smart drug que se revela um sucesso de vendas. No entanto, a falta de preparação dos diversos integrantes do grupo acaba não só por conduzir a que Pietro Zinni seja detido, mas também a que o negócio termine de forma inglória. "Smetto quando voglio - Masterclass" reúne estes personagens e insere uma série de novas figuras que se encaixam relativamente bem no interior desta obra cinematográfica cheia de estilo e ritmo, tais como Paola Coletti (Greta Scarano), uma inspectora da divisão de narcóticos que se prepara para utilizar o gang de Pietro para o combate às smart drugs.

08 abril 2017

Resenha Crítica: "In guerra per amore" (2016)

 Pierfrancesco Diliberto, mais conhecido como Pif, é um dos cineastas contemporâneos que melhor dialoga com as raízes da commedia all'italiana, algo que confirma em "In guerra per amore", a sua segunda longa-metragem como realizador, ao mesmo tempo que exibe que os excelentes indicadores deixados em "La mafia uccide solo d'Estate" não foram mera obra do acaso. Os comentários em voiceover (efectuados pelo personagem principal, interpretado por Pif em ambas as películas), muitas das vezes pontuados pelo bom humor, o desenvolvimento de temáticas relacionadas com a máfia e a Sicília, o protagonista que se depara com uma situação intrincada no interior do território onde nasceu, surgem como elementos que unem "La mafia uccide solo d'Estate" e "In guerra per amore", embora as duas obras cinematográficas abordem períodos de tempo distintos, com a primeira a decorrer entre 1962 e 1992, enquanto que a segunda desenrola-se em 1943. Diga-se que o contexto de um grande conflito bélico traz à memória "La grande guerra", uma commedia all'italiana que mescla praticamente na perfeição os elementos de humor e drama ao mesmo tempo que nos coloca diante de dois soldados peculiares e do meio que rodeia os militares. "La grande guerra" é um dos grandes exemplares das comédias à italiana, com "In guerra per amore" a partilhar diversos elementos associados a estas obras cinematográficas. Note-se que a comédia é eficazmente mesclada com a tragédia, com o humor a brotar muitas das vezes a partir de situações dramáticas, enquanto são efectuados alguns comentários de foro político e social, sempre tendo as particularidades de Itália como pano de fundo. Veja-se a forma como a máfia consegue legitimar-se na Sicília graças ao apoio dos EUA, ou a ligação entre o poder político e os mafiosos, com diversos episódios que ocorreram neste período a contarem com consequências que permanecem bem vivas no presente. Essa legitimação ocorre devido à necessidade das forças aliadas pretenderem penetrar em Itália a partir da Sicília, naquela que foi denominada de Operação Husky, algo exposto no início do filme, quando os representantes dos EUA recorrem a elementos como Lucky Luciano (Rosario Minardi) para conseguirem uma entrada pacífica neste território. Está aberta a porta para Pif expor o lado negro dos conflitos bélicos, com os EUA a combaterem o mal com o mal, ou seja, a enfrentarem os fascistas alemães e italianos com a máfia, enquanto permitem que os gangsters sejam legitimados. É uma situação exposta com imenso humor negro e crueza à mistura, algo latente quando encontramos diversos prisioneiros a serem soltos após terem cometido crimes graves, ou mafiosos como Don Calò (Maurizio Marchetti), a assumirem cargos de poder com o apoio yankee.

07 abril 2017

Resenha Crítica: "Le confessioni" (Políticos não se confessam)

 Simplista na abordagem das temáticas, incapaz de incutir o mistério que deseja ao enredo, pouco assertivo no aproveitamento do elenco, pontuado por um argumento pueril, "Le confessioni" é um filme praticamente falhado, que tenta mesclar elementos de suspense, drama, religião, crítica política e comentário social, embora raramente consiga efectuar esta mistura de maneira harmoniosa. Junte-se a irritante persistência de "Le confessioni" transmitir a ideia de que está a tentar despertar a consciência do espectador para algo desconhecido, quando apenas está a constatar o óbvio de forma pouco complexa e tudo se torna mais desinteressante de acompanhar. Realizado por Roberto Andò, "Le confessioni" procura efectuar uma crítica à vacuidade do discurso e das acções de alguns políticos, à ingerência das grandes instituições internacionais no seio de Estados soberanos, bem como ao capitalismo selvagem e à incapacidade de alguns burocratas concederem prioridade ao factor humano, embora tudo seja exposto de forma demasiado simplista, maniqueísta e redundante. O enredo de "Le confessioni" coloca o espectador diante de uma reunião peculiar do G8, na qual se reúnem os Ministros da Economia da Alemanha (Richard Sammel), Canadá (Marie-Josée Croze), França (Stéphane Freiss), Itália (Pierfrancesco Favino), Japão (Togo Igawa), Rússia (Aleksei Guskov), Reino Unido (Andy de la Tour) e Estados Unidos da América (John Keogh). A juntar a estes elementos, a reunião conta ainda com a presença de Daniel Roché (Daniel Auteuil), o director do FMI, o organizador do evento, bem como de três convidados especiais, nomeadamente, Roberto Salus (Toni Servillo), Michael Wintzl (Johan Heldenbergh) e Claire Seth (Connie Nielsen). Michael Wintz é convidado devido a representar uma ONG que efectua um trabalho considerado meritório nos países mais pobres. Claire Seth é uma escritora de livros infantis, que conta com um enorme sucesso profissional e uma personalidade frágil, tendo sido convidada devido a desempenhar um papel de relevo na defesa dos países mais desfavorecidos. Roberto Salus é um monge italiano que escreve livros, gosta de fumar, grava regularmente o canto dos pássaros, respeita o silêncio e o poder das palavras e acaba por se ver envolvido no interior de uma situação intrincada.

06 abril 2017

Entrevista a Stefano Savio sobre a décima edição da Festa do Cinema Italiano

 Director artístico e programador da Festa do Cinema Italiano, um dos festivais de cinema mais entusiasmantes e interessantes do panorama nacional, Stefano Savio concedeu uma entrevista ao Rick's Cinema na qual abordou diversos assuntos relacionados com a décima edição do certame. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a unidade temática dos filmes que se encontram na secção competitiva, bem como com a retrospectiva dedicada a Dino Risi e os ingredientes do sucesso da Festa do Cinema Italiano. A articulação entre a Festa do Cinema Italiano e o FILMin foi outro dos temas abordados, tal como o Fórum de co-desenvolvimento e criação de projectos cinematográficos italo-portugueses, entre outros assuntos.


Rick's Cinema: A Festa do Cinema Italiano consegue crescer de ano para ano quer no número de espectadores, quer na qualidade e diversidade da sua programação cinematográfica. Quais são os ingredientes que contribuem para esta receita de sucesso?

Stefano Savio: O cinema italiano. A matéria-prima com que estamos a trabalhar. Temos uma boa e interessante cinematografia contemporânea. Nem todos os anos são iguais, mas nos últimos quinze anos contámos com alguns autores interessantes e uma filmografia mais regular. Temos ainda um grande tesouro, nomeadamente, o cinema clássico. É muito fácil seleccionar por lá, pois existe uma grande diversidade. A amplitude da oferta contribui para o sucesso da Festa do Cinema Italiano. Dentro de uma cinematografia nacional tanto podemos ir de um cinema de terror, de género, como o "Suspiria" do Dario Argento, ou para o mais experimental como o "Spira Mirabilis", ou efectuar uma retrospectiva sobre um autor da commedia all'italiana, ou homenagear uma personagem do cinema popular como o Bud Spencer. Esta variedade, que existe dentro do contexto limitado do cinema italiano, é provavelmente uma das chaves do sucesso. Nós conseguimos divulgar o evento com um conceito bastante firme, que é o cinema italiano, mas dentro do cinema italiano também podemos brincar e viajar muito entre vários contextos. No nosso caso jogamos não só com o cinema, mas também com a música, a literatura e a gastronomia, algo que permite enriquecer a oferta.


RC: Um dos elementos que sobressaem quando observamos a programação é a grande diversidade de propostas cinematográficas. É um desafio conseguir conciliar estas diferentes vertentes do cinema italiano na programação?

SS: Sim. Do nosso lado existe uma atenção em relação ao público. A Festa do Cinema Italiano tenta representar todos os diferentes espectadores do festival. Não se dedica unicamente aos cinéfilos, ou aos italianos que estão em Portugal, ou ao cinema mais popular. Temos uma coerência de qualidade, uma qualidade que respeita o espectador. A nossa tarefa passa fundamentalmente por imaginarmos diferentes tipos de espectadores e tentarmos encaixar cada um. Perguntamos: "Um espectador mais ligado ao cinema clássico gostaria disto?" Se a resposta é sim, então escolhemos o filme. O mesmo aplica-se a outro tipo de filmes. Enquanto organizador existe alguma preferência ou um olhar mais específico, mas tentamos sempre que a Festa do Cinema Italiano seja para um público que gosta de cinema e ao mesmo tempo para o espectador que se encontra a descobrir. Muitas das vezes temos público que gosta do evento, mas não é um espectador de cinema. Gosta do evento e descobre o cinema italiano. Não queremos fechar-nos numa programação demasiado ligada a um festival, a este mundo. Por isso procuramos ampliar o festival em cidades, em salas. É o único festival um pouco maior que está nas salas da UCI, que contam com um público mais generalista. Ao mesmo tempo temos a Cinemateca para ligar ao cinema clássico. A chave é respeitar o nosso público. No sentido de que o nosso público é bastante diversificado. Tanto temos espectadores que pretendem divertir-se e ver uma uma comédia, ou que querem ver os filmes de Dino Risi, ou as obras cinematográficas que estrearam em Locarno. São filmes diferentes, mas procuramos respeitar cada um deles e atribuir-lhes um percurso temático.


RC: Aproveito para pegar na deixa do percurso temático. A secção Competitiva é composta por seis longas-metragens, com quatro delas a abordarem temáticas ligadas aos adolescentes ou aos jovens adultos, algo notório no "Un bacio", "Fiore", "Piuma" e "La ragazza del mondo". Esta semelhança temática foi algo propositado para colocar os filmes a "dialogarem" entre si ou foi algo que se formou durante a selecção dos filmes?

SS: Foi algo que se formou. Percebemos depois que os filmes, vistos de seguida, poderiam funcionar como um bom apanhado sobre a forma como o cinema italiano retrata um período ou momento utópico como é a passagem da idade juvenil para a idade adulta. Os seis filmes contam com uma vertente temática que se liga. Não só temática mas também a nível do mood, que é muito nostálgico, claro e preciso sobre o desenvolvimento inerente a esta idade. O "Un bacio" conta com personagens que têm de enfrentar o mundo dos adultos, que é muitas das vezes mais feio e duro do que o seu. O "Piuma" também é um filme desse género. O "La ragazza del mondo" aborda essas temáticas mencionadas, ainda que inseridas no contexto religioso, em particular, na comunidade das Testemunhas de Jeová: a saída de uma comunidade protectora e a entrada no mundo dos adultos. No "La pelle dell'orso", uma caça ao urso protagonizada por um pai e o seu filho surge quase como uma passagem de uma geração à outra.
 Tirámos da competição os filmes que tivessem uma vertente demasiado comercial ou popular. Também tirámos os filmes que pudessem ter uma linguagem mais alternativa e inserimos os mesmos na secção Altre Visione. Tirando o "Orecchie", que conta com alguma atenção mais formal, quase todas as obras cinematográficas da secção competitiva respeitam a narratividade como um elemento bastante típico do cinema italiano. Todos contam com histórias bem contadas sobre uma idade determinante.

03 abril 2017

Resenha Crítica: "Fai bei sogni" (Sonhos Cor-de-Rosa)

 Numa fase relativamente adiantada do enredo de "Fai bei sogni", encontramos Massimo (Valerio Mastandrea), em idade adulta, a aceitar o convite de Elisa (Bérénice Bejo), uma médica que ganha algum relevo na vida do jornalista, para dançar. Até então Massimo procurara manter uma postura discreta, contida e distanciada, pouco dada a demonstrações de afecto ou à formação de laços, tendo em vista a evitar voltar a sentir a dor de uma perda, algo quebrado, ainda que de forma inicialmente relutante, na festa do sexagésimo aniversário de casamento dos avós de Elisa. É um momento de extroversão dos sentimentos que se encontravam aprisionados no interior de feridas mal saradas que teimavam em consumir a mente do protagonista, com este episódio, ritmado pela canção "Surfin' Bird", a marcar uma ruptura de Massimo em relação ao passado e a permitir que Valerio Mastandrea brilhe em bom nível. Valerio Mastandrea deixa transparecer a carga libertadora que envolve esta dança, com o actor a convencer quer neste momento efusivo e delirante, quer quando imprime uma postura mais séria e contida ao protagonista. Note-se a eficácia com que Valerio Mastandrea exprime os sentimentos de Massimo com poucas falas, ou transmite as tormentas que apoquentam este jornalista que se encontra demasiado preso às dores do passado. Essa reticência de Massimo em dançar, também demonstrada quando o protagonista está a trabalhar como repórter de guerra em Sarajevo, remete exactamente para um episódio relevante da infância deste indivíduo, quando tinha nove anos de idade (interpretado por Nicolò Cabras), nomeadamente, a ocasião em que dança com a mãe (Barbara Rochi). É um momento pontuado por alguma candura e inocência, que decorre no início do filme e simboliza um dos últimos pedaços de alegria entre mãe e filho. A ligação forte que existe entre Massimo e a mãe é estabelecida de forma certeira por Marco Bellocchio, o realizador desta obra cinematográfica, com Barbara Rochi e Nicolò Cabras a revelarem uma dinâmica convincente, algo que é fulcral para "Fai bei sogni" funcionar. Note-se que os trechos que remetem para a infância e adolescência do protagonista são essenciais (embora não estejam livres de uma ou outra situação redundante) para atribuírem peso aos comportamentos do personagem principal quando a narrativa deambula pela década de 90, ou seja, durante a idade adulta do jornalista, para além de permitirem dar a conhecer as inquietações deste indivíduo. 

01 abril 2017

Resenha Crítica: "Un bacio" (Um Beijo)

 Num determinado momento de "Un bacio" encontramos Renato (Thomas Trabacchi), o pai adoptivo de Lorenzo (Rimau Ritzberger Grillo), a salientar: "O meu filho não deve ser tolerado, ele deve ser aceite como é". É um momento forte de "Un bacio", que reforça paradigmaticamente uma das mensagens centrais do filme: a necessidade de compreendermos e aceitarmos as diferenças e semelhanças daqueles que nos rodeiam, independentemente da orientação sexual, género, ou raça. Essas diferenças e semelhanças são abordadas tendo Blu (Valentina Romani), Lorenzo e Antonio (Leonardo Pazzagli) como figuras centrais, ou os três adolescentes não fossem os protagonistas da terceira longa-metragem realizada por Ivan Cotroneo. Valentina Romani, Rimau Ritzberger Grillo e Leonardo Pazzagli contam com interpretações de bom nível, sobretudo os dois primeiros, com as dinâmicas convincentes entre os integrantes do elenco principal a marcarem "Un bacio" pela positiva. Valentina Romani transmite a mescla de insegurança e força interior de Blu, uma adolescente solitária, que tem na escrita uma forma de se evadir dos aborrecimentos quotidianos e dialogar consigo própria. Veja-se os vários momentos em que encontramos Blu a falar em off, enquanto escreve sobre o seu dia a dia para nunca mais se esquecer da época problemática em que tinha dezasseis anos de idade. Diga-se que a adolescente atravessa uma fase relativamente complicada quer por estar num período da sua vida em que tudo é vivido e sentido com mais intensidade, quer por contar com alguns problemas em casa, quer por ser regularmente insultada e colocada de lado pelos colegas de escola. Os insultos remetem para o facto de quase toda a escola secundária saber que Blu fez sexo em grupo com Giò, o namorado, bem como com alguns amigos deste indivíduo, uma situação que despertou uma série de rumores, com poucos elementos a parecerem interessados em saber toda a verdade. Os contornos deste episódio apenas são esclarecidos no último terço de "Un bacio", quando percebemos que o relacionamento à distância de Blu e Giò conta com uma perigosa carga venenosa. Este relacionamento permite que "Un bacio" aborde temáticas como abusos no interior de um namoro, enquanto Ivan Cotroneo exibe a necessidade premente destes actos serem denunciados e dos jovens contarem com o apoio dos familiares, com o realizador e argumentista a inserir uma série de temas relevantes no interior da narrativa do filme. Não faltam temáticas relacionadas com as descobertas inerentes à transição para a idade adulta, a homofobia, a adopção, a formação da identidade, os relacionamentos entre pais e filhos, o suicídio, o papel dos professores na educação dos alunos, o bullying, envolvimentos amorosos marcados por abusos, a crueldade nas redes sociais, entre outras, sempre tendo Blu, Lorenzo e Antonio como elementos centrais.

26 março 2017

10ª Festa do Cinema Italiano - Breve texto sobre a programação

 Um dos festivais de cinema mais entusiasmantes do nosso país, a Festa do Cinema Italiano (agora sem o acompanhamento do 8½) chega aos dez anos de vida com um fulgor invejável e uma programação digna de merecer os mais variados elogios e despertar uma imensa curiosidade. Inseridos em secções já conhecidas pelos fiéis seguidores da Festa do Cinema Italiano, tais como, Panorama (as obras cinematográficas mais recentes), Competitiva (primeiras ou segundas longas-metragens de cineastas que se encontram a despontar), Altre Visioni (trabalhos mais experimentais), Amarcord (retrospectivas e homenagens), Il corto (as curtas-metragens), entre outras, os filmes que compõem a programação deste certame primam pela diversidade, qualidade e capacidade de trazer uma amostra significativa das produções cinematográficas italianas mais recentes. Se anteriormente a Festa do Cinema Italiano começava em Lisboa e, posteriormente, seguia para outras cidades portuguesas, brasileiras, angolanas e moçambicanas, já em 2017 os organizadores optaram por uma estrutura mais ambiciosa, com o certame a estrear em cinco espaços urbanos em simultâneo: Lisboa (de 5 a 13 de Abril), Porto, Coimbra, Almada e Setúbal. "Fai bei sogni", a nova longa-metragem realizada pelo mestre Marco Bellocchio, abre o certame em quatro cidades (a excepção é Setúbal), naquela que é uma iniciativa de louvar, com o filme a obter um boost relevante antes de chegar ao circuito comercial português (é distribuído pela Alambique Filmes). Intitulado em Portugal de "Sonhos Cor-de-Rosa", "Fai bei sogni" integra a secção Panorama, onde também consta o filme de encerramento, nomeadamente, o muito recomendável "In guerra per amore", a segunda longa-metragem realizada por Pierfrancesco Diliberto, mais conhecido como Pif, um velho conhecido do certame, ou "La mafia uccide solo d'Estate" não tivesse vencido o prémio do Júri na sétima edição. A menção a estas duas obras cinematográficas deixa desde já perceber a diversidade e a qualidade da programação: abre com um drama sensível e envolvente; termina com uma comédia que remete para os mais nobres exemplares da commedia all'italiana (não falta o humor a partir da tragédia, os comentários de foro político e social, entre outros exemplos). "In guerra per amore" e "Fai bei sogni" são dois dos grandes destaques da Panorama, uma das secções mais promissoras da décima edição da Festa do Cinema Italiano, com a abundância de qualidade deste segmento do certame a dificultar e muito a tarefa de realçar algumas das suas principais obras cinematográficas. 

21 março 2017

Resenha Crítica: "Le cose belle" (2013)

 "Em Nápoles os miúdos não dizem: 'Olá, como estás? Como está a tua família?!!!' Em Nápoles dizem: 'Oh, estamo-nos a cagar para a tua família!' Coisas assim.". É com estas palavras que Enzo Della Volpe descreve o território de Nápoles, um espaço pontuado por uma série de características muito próprias. Enzo é um dos elementos que se encontram em destaque ao longo de "Le cose belle", bem como Adele Serra, Fabio Rippa e Silvana Sorbetti, com o documentário realizado por Agostino Ferrente e Giovanni Piperno a abordar o quotidiano destas figuras quer em 1999, quer em 2013, com a cidade de Nápoles a surgir como o grande ponto de ligação e protagonista desta obra cinematográfica que descai para as fronteiras da docuficção. É um trabalho exemplar, por vezes cortante e doloroso, pronto a expor que os sonhos destes jovens nem sempre se concretizaram e a colocar o passado e o presente em diálogo. Alguns sonhos foram simplesmente agrilhoados ou desfeitos pelo destino, outros por uma série de opções pouco felizes, ou pela incapacidade dos protagonistas em desatarem o nó górdio colocado pela má sorte, com "Le cose belle" a contrastar a esperança, as expectativas e a ingenuidade de Adele, Fabio, Silvana e Enzo em 1999, quando estavam em plena adolescência, com a letargia e desesperança que consomem estas figuras em 2013. Agostino Ferrente e Giovanni Piperno contextualizam eficazmente quer o meio familiar destes jovens, quer as características muito próprias do território que os rodeia. Os sentimentos e as palavras são expostos de forma bem viva, praticamente sem qualquer travão, as detenções e os actos violentos são encarados como algo banal, enquanto que a cidade de Nápoles parece conter uma mescla de crueza e beleza que tanto compele os seus habitantes a sonharem como a enfrentarem o sabor amargo das desilusões inerentes à incapacidade de concretizarem os seus desejos. Diga-se que "Le cose belle" nem sempre é um filme fácil de acompanhar, ou o documentário não tivesse o condão de nos compelir a pensar sobre os nossos sonhos de outrora ao mesmo tempo que nos estimula a reflectir sobre aquilo que concretizámos ou não conseguimos alcançar ao longo da vida, enquanto somos colocados diante do diálogo entre o passado e o presente do quarteto de protagonistas. Adele, Fabio, Silvana e Enzo despertam facilmente a nossa curiosidade, mesmo quando percebemos que as suas vidas embateram numa encruzilhada demasiado difícil de sair. Uns perderam familiares, ou praticamente deixaram de falar com os mesmos, outros tiveram filhos e são obrigados a assumir responsabilidades para as quais não parecem preparados, ou contam com empregos que não satisfazem as suas almas, ou caíram num estado letárgico que consome o corpo e a mente.

15 março 2017

Resenha Crítica: "Ieri, oggi, domani" (Ontem, Hoje e Amanhã)

 Dotado de uma série de características das comédias à italiana, tais como a capacidade de mesclar o humor e a tragédia, a abordagem de temáticas de cariz social, os sentimentos expostos de forma exacerbada, os personagens que evidenciam um enorme desejo sexual, "Ieri, oggi, domani" consegue transmitir algumas das particularidades de Nápoles, Milão e Roma, com estas cidades a assumirem muitas das vezes um papel de relevo ao longo desta obra cinematográfica composta por três episódios realizados por Vittorio De Sica. A unir os três episódios encontram-se Marcello Mastroianni e Sophia Loren, cada um a interpretar um personagem distinto em cada capítulo de "Ieri, oggi, domani", com a dupla a exibir uma dinâmica sublime e uma versatilidade indelével quer quando forma um casal que concebe filhos a um ritmo desgastante, quer como dois amantes, quer como uma prostituta e um cliente muito peculiar. Marcello Mastroianni e Sophia Loren enchem o ecrã de carisma e talento, naquela que é a primeira colaboração da dupla com Vittorio De Sica (a actriz já tinha trabalhado com o cineasta em filmes como "L'oro di Napoli" e "La ciociara"), uma parceria que se repetiria em "Matrimonio all'italiana" e "I girasoli". As características dos personagens que Sophia Loren e Marcello Mastroianni interpretam são distintas, bem como os atributos de cada território onde se desenrola o enredo do filme. Veja-se a representação do território de Nápoles em "Adelina", o primeiro episódio de "Ieri, oggi, domani", com Vittorio De Sica a transmitir a atmosfera deste espaço de forma bem viva e contagiante. Não falta a exposição das bancas de rua onde são vendidos produtos tão distintos como frutas ou cigarros contrabandeados, a exibição do mercado negro e dos edifícios e das cerimónias locais, com este espaço de Nápoles, em particular, o bairro de Forcella, a contar com um relevância indelével no interior da narrativa do primeiro episódio de "Ieri, oggi, domani". Diga-se que "Adelina" traz um pouco à memória "L'oro di Napoli", uma longa-metragem realizada por Vittorio De Sica, lançada originalmente em 1954, que efectua um retrato vivaz da cidade de Nápoles e das suas gentes. Tal como nos seis episódios de "L'oro di Napoli", "Adelina" transmite as especificidades e contradições deste território, quase como se estivéssemos perante um espaço à parte, onde tudo é sentido e vivido de forma diferente e especial, com mais intensidade e emoção, enquanto ficamos diante dos napolitanos, bem como das ruas, estradas, lojas, igrejas e edifícios deste local.

12 março 2017

FESTin 2017 - Entrevista a Erico Rassi sobre "Comeback"

 Erico Rassi tem em "Comeback" um disparo certeiro na estreia como realizador de longas-metragens, com o cineasta a surgir como um nome a ter em grande atenção com este western canarinho pontuado por sentimentos contidos e emoções prontas a serem extravasadas. O Rick's Cinema aproveitou a presença de Erico Rassi na oitava edição do FESTin para entrevistar o cineasta sobre "Comeback", uma obra cinematográfica que nos coloca diante de Amador, um assassino que foi praticamente obrigado a retirar-se do ofício que preenche a sua alma. O comeback do título nasce da vontade do protagonista em saciar o monstro que o começa a devorar por dentro, ou não estivéssemos diante de um pistoleiro na fase crepuscular da sua vida que lida mal com o esquecimento e a insignificância. A interpretar Amador está Nelson Xavier, um actor que atribui ritmos muito próprios ao protagonista, bem como uma aura de experiência, impassibilidade e orgulho, com "Comeback" a efectuar um interessante estudo de personagem. Nesse sentido, seria praticamente impossível entrevistar Erico Rassi e não abordar a importância de Nelson Xavier na criação deste personagem: "O Nelson Xavier é essencial. Sem ele seria outro filme. Ele tem um olhar muito agudo sobre o Brasil. O Nelson encara o Brasil como um país precário, que ainda não consegue cuidar da população de um modo correcto e acaba por trazer isso para a composição dos personagens. Uma coisa que eu sinto que o Nelson Xavier compôs, apesar de não termos conversado especificamente sobre isso, é que ele trouxe essa precariedade de uma pessoa mais velha que vive num país como o Brasil.". Já o processo que conduziu à entrada de Nelson Xavier no elenco do filme foi comentado da seguinte forma: "O casting foi um pouco complicado. Nós não temos muitos actores mais velhos lá no Brasil. Enviámos o argumento para o Nelson, ainda que sem muitas expectativas. Sabíamos das nossas dificuldades. É o nosso primeiro filme e o Nelson Xavier não nos conhecia. Então mandámos o argumento para o Nelson ler e esperámos para ver o que é que aconteceria. Dois dias depois, o Nelson ligou a dizer que aceitava participar do filme. Essencialmente por causa de ter gostado do argumento. É muito difícil contar com o Nelson Xavier ao longo de quarenta dias no interior de Goiás. Ele mudou as datas de alguns trabalhos, deu prioridade ao nosso filme e dispôs-se a filmar durante esse período todo.".

10 março 2017

Resenha Crítica: "Quase Memória" (2016)

 Já imaginaram ter um encontro com o vosso "eu" mais jovem ou com o vosso "eu" mais velho? Carlos, o personagem principal de "Quase Memória", protagoniza um estranho encontro que decorre no âmago da sua mente, ou das suas memórias, ou da realidade peculiar que é criada no interior do enredo desta longa-metragem realizada por Ruy Guerra, um cineasta icónico do chamado Cinema Novo. Carlos, em idade mais avançada (interpretado por Tony Ramos), é colocado diante do seu "eu" mais jovem (interpretado por Charles Fricks), ou vice-versa, com o presente e o passado do protagonista a serem dispostos em diálogo, enquanto ficamos perante um estudo sobre a memória que joga com as regras e as barreiras cinematográficas. Nem sempre tudo resulta, com os trechos de algumas memórias a contarem com um tom demasiado artificial e pitoresco, algo que lhes retira uma certa força e contrasta com o forte impacto provocado pelo encontro entre Carlos Velho e Carlos Novo (vamos tratar os personagens com estes nomes para facilitar o ritmo do texto), embora exista algum sumo a ser espremido de "Quase Memória". A começar pela forma relativamente eficaz como são abordadas as questões relacionadas com as percepções que temos da memória, algo visível desde o primeiro terço de "Quase Memória", quando encontramos Carlos Velho e Carlos Novo a demonstrarem que guardam uma recordação distinta em relação a um episódio que envolve o pai de ambos. Diga-se que este episódio remete ainda para outra situação, nomeadamente, para o facto do personagem interpretado por Tony Ramos ter perdido praticamente o contacto com as suas recordações. Carlos Novo fica preocupado com o estado em que vai ficar no futuro, enquanto recupera, em conjunto com o seu "eu" mais velho, algumas memórias relacionadas com o progenitor. Ernesto (João Miguel), o pai de Carlos, surge como uma figura central do enredo quer por supostamente ter enviado um estranho envelope aos personagens interpretados por Tony Ramos e Charles Fricks, quer pelo facto desta missiva contribuir para que os protagonistas recordem o progenitor, um jornalista que faleceu há cinco anos. O envelope aparece misteriosamente no interior da sala de Carlos e contribui para um ressurgir de memórias que pareciam encobertas por esse grande nevoeiro que é a passagem do tempo. Diga-se que esse nevoeiro é exposto desde o prólogo do filme, quando Ruy Guerra larga o espectador no meio de um pântano dotado de cores frias e imensa névoa, algo que transmite a incerteza em volta das memórias das duas vertentes do protagonista, com Carlos Novo e Carlos Velho a serem colocados perante uma série de situações de outrora, bem como com a contingência de perceberem que nem sempre conviveram pacificamente com estas recordações.

08 março 2017

Entrevista a Daniela Love sobre "A Floresta das Almas Perdidas"

 As longas-metragens de terror portuguesas, ou propositadamente de terror, escasseiam, com "A Floresta das Almas Perdidas" a surgir como um exemplar raro no panorama cinematográfico nacional. O filme teve a sua estreia na edição de 2017 do Fantasporto, tendo posteriormente sido exibido no FESTin. Foi exactamente no âmbito do FESTin que aproveitámos para entrevistar Daniela Love, a protagonista de "A Floresta das Almas Perdidas". A escassez de longas-metragens de terror nacionais foi um tema abordado, nomeadamente, as razões para não se arriscar no desenvolvimento de filmes do género. Embora tenha procurado evitar abordar questões relacionadas com o mercado, Daniela Love salientou que "se se fizessem mais filmes de terror, se calhar haveria mais pessoas a vê-los. E, se houvesse mais pessoas a vê-los haveriam mais filmes de terror". Nesse sentido, "A Floresta das Almas Perdidas" pode servir como um exemplo de que as longas-metragens de terror nacionais são rentáveis, embora este género continue a surgir em bom ritmo no formato de curtas-metragens. Daniela Love já participou em diversas curtas-metragens, inclusive de terror, tais como "M is For Mail", onde interpretava uma personagem que contribuía para acelerar a morte alheia, um pouco à imagem daquilo que acontece com Carolina, a protagonista de "A Floresta das Almas Perdidas", embora as duas figuras femininas contem com características bem distintas. Diga-se que Carolina é uma personagem que tem um grande impacto ao longo de "A Floresta das Almas Perdidas", sobretudo a partir do momento em que o enredo assume uma faceta slasher, algo que nos conduziu a questionar a actriz sobre os desafios que encontrou a interpretar a protagonista desta recomendável longa-metragem. De acordo com Daniela Love, "antes da faceta slasher dela, o meu principal desafio foi entender a Carolina e as suas motivações. É uma miúda hipster e inconsequente, que se aproveita da fragilidade das outras pessoas. Se pensarmos muito bem, ela não tem um trauma que levou àquilo. Ela basicamente é assim porque pode ser assim. Foi isso que me levou algum tempo a perceber. A parte slasher, em que ela começa efectivamente a matar pessoas, foi a que gostei mais e a que tive mais facilidade em trabalhar."

FESTin 2017 - Entrevista a Hugo Prata sobre "Elis"

 O Rick's Cinema aproveitou a presença de Hugo Prata no FESTin para efectuar algumas perguntas ao realizador de "Elis", uma obra cinematográfica de pendor biográfico sobre Elis Regina. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos como a selecção das canções que integram o filme, a preparação de Andreia Horta para o papel, as dinâmicas entre os elementos do elenco, a necessidade de colocar o público brasileiro a contactar com as suas origens, o grande fulgor do cinema canarinho, entre outros assuntos. Vale a pena salientar que "Elis" é o filme de encerramento da edição de 2017 do FESTin, um certame que continua a trazer para Portugal alguns bons exemplares do cinema brasileiro. P.S: O poster do filme vai ser substituído brevemente por uma fotografia do realizador.

Rick's Cinema: O FESTin tem procurado valorizar o cinema em língua portuguesa e trazer para Portugal alguns bons exemplares do cinema brasileiro. Já conhecia o festival? Quais são as primeiras impressões que tem retirado do festival?

Hugo Prata: Fiquei muito honrado quando recebi o convite da Adriana Niemeyer. Ouço falar sempre muito bem do festival. É uma honra ser convidado para ter o filme de encerramento. Vamos encerrar o festival a 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher, acho que é uma homenagem à altura da Elis Regina.

RC: Num determinado momento de "Elis", encontramos a personagem interpretada por Andreia Horta a criticar a política das editoras e a salientar que "(...)  quando você vai tentar novos compositores, as gravadoras não deixam, não querem experimentar (...). O Hugo Prata tem em "Elis" a sua primeira longa-metragem como realizador. Embora o filme aborde épocas diferentes e meios distintos, também sentiu essas dificuldades para conseguir realizar a sua primeira longa-metragem?

HP: Sim e não. É um facto que é muito difícil conseguir financiar qualquer longa-metragem tanto no Brasil como em Portugal ou até nos EUA. É uma pipa de massa. Nesse aspecto é sempre muito difícil. É o meu primeiro filme, é verdade, então as pessoas em geral não conheciam o meu trabalho em longas-metragens, mas ao mesmo tempo tinha a Elis Regina como um nome muito conhecido, muito carismático no Brasil. Diria que foi um processo difícil, mas normal.


RC: A Elis Regina é um ícone da música brasileira, um furacão que continua a mexer com as emoções de imensas pessoas, apesar da sua morte bastante precoce. O que o atraiu na figura de Elis Regina para realizar uma longa-metragem sobre este ícone da música brasileira?

HP: As suas características enquanto personagem: a sua força, o seu arco dramático, o seu carisma, aquilo que ela representava, o temperamento difícil (a alcunha de "Pimentinha"), ser controversa. Isso é sempre muito rico numa personagem. Ela lutou muito em anos nos quais era preciso muita força, eram os anos de ditadura no Brasil. Esse aspecto emocional e a vertente musical interessaram-me muito. Ela traz uma bagagem cultural muito forte no Brasil, tem músicas muito importantes para o período.


RC: Pegando na deixa da música. As músicas são uma componente muito relevante de "Elis". Qual foi o critério seguido para seleccionar as canções que integram o enredo do filme?

HP: Ah, isso foi uma das partes difíceis. As músicas tinham que entrar, levar a história para a frente e fazerem sentido no guião. Não queria que fossem apenas homenagens, algo que seria fácil, já que a Elis Regina tem muitas músicas importantes, que toda a gente iria gostar de ver. Tentámos nos cingir às canções que faziam sentido naquele momento da dramaturgia e levassem a dramaturgia para a frente. Algumas canções importantes ficaram de fora, mas é o preço a pagar na hora de fazer dramaturgia.

06 março 2017

Resenha Crítica: "Curumim" (2016)

 Realizado com mestria, inteligência e sentido de ritmo por Marcos Prado, "Curumim" evita percorrer o caminho fácil de expor a história de Marco Archer, um traficante e piloto de asa delta que foi condenado à pena de morte na Indonésia, como se este fosse um anti-herói romântico ou um indivíduo completamente imoral, com o cineasta a preferir prosseguir por uma trajectória mais pertinente e complexa que passa por não julgar a figura que dá o nome ao título deste documentário. Cabe ao espectador formar uma opinião em relação a Marco Archer, mais conhecido como Curumim, uma tarefa assaz complicada, ou não estivéssemos diante de uma figura que está longe de poder ser encarada meramente a "preto e branco". A descrição efectuada por Ade Tiro, a esposa de Juri Angione, um italiano que foi amigo e colega de prisão de Marco Archer, traduz um pouco aquilo que nos é dado a conhecer sobre Curumim, nomeadamente, "Ele é muito engraçado. Tem a personalidade de uma criança. Ele nunca está triste ou feliz". Com uma personalidade bastante cinematográfica, contendo no interior do seu ser uma série de defeitos carregados e um feitio peculiar, Marco Archer é exposto com um elemento que tanto tem de infantil como de trágico e pouco razoável ao longo deste documentário que mescla entrevistas (a antigos colegas do protagonista no cárcere, a amigos, conhecidos e outras figuras), vídeos filmados "à socapa" por Curumim no interior da prisão (com este indivíduo a exibir um grande cuidado quer com a colocação da câmara, quer em expor parte do seu quotidiano no interior do instituto prisional) e material de arquivo (cartas, reportagens, fotografias), enquanto coloca o espectador diante desta estranha figura que tanto repele como desperta a atenção. É visível que existiu toda uma pesquisa sobre Curumim e o meio que rodeou este elemento no período em que esteve enclausurado na prisão de Cilacap, situada na Ilha de Java, enquanto aguardava a execução, com o documentário a evitar abordar os assuntos pela superfície. Marco Archer foi detido no aeroporto internacional de Jacarta, em 2004, devido a transportar ilegalmente 13,5 Kg de cocaína. Após uma fuga com contornos de thriller de Hollywood, exposta de forma intensa e inquietante, Marco Archer foi preso e condenado à pena de morte devido a tráfico de droga, tendo sido executado a 17 de Janeiro de 2015, com "Curumim" a abordar uma série de assuntos relacionados quer com o protagonista, quer com a pena de morte, sempre sem procurar pregar ideias ao espectador. Nesse sentido, "Curumim" tem o mérito de permitir um debate interessante sobre assuntos como a pena de morte, ou a própria incoerência e cinismo das autoridades indonésias e do sistema jurídico local, com a prisão de Cilacap a surgir como um estabelecimento onde as drogas circulam com facilidade, sendo muitas das vezes difundidas pelos próprios guardas, algo exposto ao longo do documentário.

05 março 2017

Resenha Crítica: "BR 716" (Barata Ribeiro, 716)

 Nos momentos iniciais de "BR 716", Felipe (Caio Blat), o protagonista do filme, salienta o seguinte: "(...) Tinha acabado de descobrir que existem três tipos de angústia. A que resiste ao primeiro whisky. A que resiste ao segundo whisky. E a que resiste ao terceiro whisky. Por isso foi muito difícil para mim escrever o roteiro desse filme que vocês vão assistir em seguida. Eu não lembro dos factos. Eu lembro de impressões. Eu não sei se as coisas aconteceram assim. Eu não lembro, eu estava bêbado porra. Bêbado não lembra". Está dado o mote para a atmosfera inebriante de "BR 716", uma obra cinematográfica de impressões e sensações, na qual imensas doses de álcool e tabaco são consumidas, enquanto ficamos diante de um grupo de jovens que quer viver e sentir, que ama, erra, trai e depara-se com situações inesperadas que acabam por marcar as suas vidas. Boémios, irreverentes, amantes de álcool, poesia e música, os elementos que compõem o grupo de conhecidos de Felipe protagonizam algo de muito especial e intenso, embora quase todos pareçam viver no interior de uma bolha que os impede de observar atentamente o tumulto político e social que os rodeia. Não é que estes jovens não saibam aquilo que os rodeia, embora tentem ignorar os acontecimentos, com "BR 716" a conter no seu texto e subtexto uma vertente política que é essencial para transmitir a atmosfera da época, com o enredo a desenrolar-se maioritariamente entre 1963 e 1964, ou seja, um período tumultuoso da História do Brasil que culminaria no Golpe de Estado e na instauração da Ditadura Militar (o momento em que Auro Moura de Andrade declara que a Presidência da República está vaga é simplesmente cortante). "Eles vão fechar a Câmara. Eles vão fechar o Congresso. Eles vão acabar com a liberdade de imprensa" diz Penan (Gabriel Antunes), um amigo de Felipe, num tom desencantado, enquanto visiona as notícias televisivas ("BR 716" mescla de forma competente alguns vídeos de arquivo com os trechos da obra cinematográfica). É o choque com a realidade, embora, durante boa parte do filme, Penan e os amigos pareçam encapsulados no interior de uma conjuntura distinta, com excepção dos momentos em que recebem as visitas de Silvio (Sergio Guizé), um jovem politizado, de esquerda, para quem "o povo unido jamais será vencido". Silvio é um dos vários integrantes deste grupo que tem no apartamento de Felipe a sua sede não oficial, uma situação que conduz o personagem interpretado por Caio Blat a estar quase sempre no centro dos acontecimentos, com o actor a corresponder com mais uma interpretação de grande nível. Caio Blat compõe um personagem que parece encapsular algumas das ansiedades, gostos, devaneios, sonhos e emoções dos jovens da época, enquanto o intérprete compõe uma figura que parece saído quer de um filme de François Truffaut (as traições atordoantes, as paixões que quase consomem a alma), quer de Woody Allen (o desejo, as frustrações de cariz sexual, a narração muito própria do protagonista, a música clássica), embora tenha sido inspirado, em parte, na juventude de Domingos de Oliveira, o realizador desta esfuziante obra cinematográfica.

03 março 2017

Resenha Crítica: "Comeback" (2016)

 A música toca, cheia de ritmos melancólicos, pronta a exacerbar a nostalgia de Amador (Nelson Xavier) em relação a um passado que conserva no interior da alma e de um álbum de recortes, embora os tempos sejam outros. É um presente onde o passado já não parece ter lugar, no qual a modernidade começa a consumir um território ainda preso aos tempos de outrora, seja na alma das suas gentes ou dos edifícios, ou das ruas. Por vezes parece quase que estamos diante do embate entre o Novo e o Velho Oeste que encontramos em "The Man Who Shot Liberty Valence", onde os cactos são domesticados em vasos e os cowboys como Tom Doniphon parecem começar a perder o lugar. Diga-se que Amador também aparenta concordar com a velha máxima de tornar as lendas em factos, com o seu álbum a conter uma mescla de verdades e mentiras sobre o passado, com Erico Rassi a realizar uma espécie de western dos tempos modernos que nos traz para o interior do quotidiano de um assassino que foi praticamente obrigado a retirar-se do ofício que preenche a sua alma. Amador procura não ser domesticado como o cacto, que é como quem diz, passar o resto da sua vida a frequentar bailes deprimentes destinados a idosos, apesar do tempo em que era temido parecer fazer parte do passado. O tempo de "Comeback" é outro, embora não seja assim tão diferente em relação ao passado, com Erico Rassi a colocar o espectador diante de um bairro da periferia de Anápolis, marcado pela introdução de slot machines, apesar da concorrência das jukeboxes, com Amador, o protagonista do filme, um antigo assassino a soldo, a ter de vender as primeiras a diversos bares e cafés a mando de José Marins (Gê Martu), mais conhecido como Tio, um criminoso que domina o bairro. Se existe algum bar ou café que não tenha uma slot machine, o Tio logo pede a Amador para convencer os proprietários a aceitarem a instalação destes aparelhos que fomentam o jogo ilegal. Os assassinatos a soldo deixaram de ser o crime da moda, com o jogo ilegal a surgir como uma forma de José Marins comandar o território, pese o desprezo que Amador nutre em relação ao seu superior. Um dos poucos elementos com quem Amador mantém uma relação de amizade é Davi (Everaldo Pontes), um antigo colega do protagonista, que se encontra internado em estado praticamente terminal, com o primeiro a visitar regularmente o segundo. O passado e o presente unem-se quando Amador é contactado pelo neto de Davi (Marcos de Andrade), um jovem algo inexperiente que procura aprender com o antigo pistoleiro. É uma relação quase de mestre e discípulo, embora o primeiro tarde em evidenciar as qualidades pelas quais ficou conhecido, enquanto o segundo nutre uma mescla de respeito e dúvida no que diz respeito a este criminoso experiente e, aparentemente, obsoleto. Nelson Xavier transmite a frieza e humanidade de Amador, bem como a experiência deste indivíduo que apenas parece estar bem a cumprir as funções de matador, ou a permanecer obscuro no interior de locais pouco iluminados. Note-se quando Amador dialoga sobre os seus feitos, tais como uma chacina que obrigou a uma mudança de atitude por parte de José Marins em relação aos assassinatos, com o tom de voz de Nelson Xavier a trazer ao de cima toda a frieza deste indivíduo que encara os homicídios com mais calma do que alguém que se encontra a barrar manteiga numa fatia de pão.

02 março 2017

Resenha Crítica: "Big Jato"

 Como um torpedo que atinge o espectador com uma explosão de prosa e poesia, violência e lirismo, intensidade e letargia, sonhos por cumprir e expectativas fossilizadas, música e silêncios, momentos pontuados pela subtileza ou pelo descomedimento, imagens oníricas e trechos marcados pela crueza, "Big Jato", a quarta longa-metragem realizada por Cláudio Assis, envolve-se pelas entranhas do sertão nordestino, enquanto nos apresenta a uma série de personagens que captam o nosso interesse, em especial o jovem Francisco (Rafael Nicácio), mais conhecido como Xico, um adolescente de quinze anos de idade que sonha ser poeta. Inspirado no livro homónimo, da autoria de Xico Sá, no qual o escritor e cronista "(...) cria, a partir de suas memórias, um retrato afetivo de uma juventude passada no Cariri", "Big Jato" é um retrato simultaneamente cru e sensível de um território nordestino que parece prender aqueles que se encontram no seu interior, com a saída deste local a ser encarada mais como um acto de coragem do que de acobardamento. A questão passa não só pela luta hercúlea contra as adversidades inerentes às características fechadas e desérticas de Peixe de Pedra, uma pequena cidade ficcional (real no contexto da narrativa), mas também pela sensação de que este território é pouco propício à abertura de horizontes quer pelas particularidades intrínsecas a este local, quer pela mentalidade pouco aberta dos seus habitantes. Veja-se o caso de Francisco (Matheus Nachtergaele), o pai de Xico, um indivíduo conservador, incapaz de aceitar a paixão do protagonista pela poesia. O quotidiano de Francisco divide-se entre trabalhos pouco gratificantes e mal pagos a limpar as fossas dos espaços que ainda não contam com saneamento básico e noites regadas a cachaça. Diga-se que a noite está longe de ser uma boa conselheira de Francisco, um indivíduo de bigode saliente, cabelo desgrenhado e gestos rudes, que se desloca regularmente no interior do Big Jato, um camião-pipa que é utilizado para limpar as fossas. É um trabalho que está longe de ser agradável quer pelo preconceito em volta do mesmo, quer pelos problemas de saúde que pode despertar, embora Francisco esteja longe de se envergonhar da profissão que lhe permite fugir à miséria. Este encontra-se muitas das vezes acompanhado por Xico, o único rebento que se parece interessar por esta actividade, com a dupla a envolver-se por espaços pontuados pelo cheiro a esterco e condições pouco recomendáveis.

01 março 2017

Resenha Crítica: "Animal Político" (2016)

 Absurdo, irreverente e saudavelmente alucinado, "Animal Político" tem o condão de nos surpreender com um enredo que tanto tem de cómico como de trágico e ensandecido. Não falta uma vaca com problemas existenciais, um robô chamado "ice-borg" que se define como "o melhor mecanismo de busca espiritual do deserto", um monólito idêntico àquele que encontramos em "2001: A Space Odyssey", bem como um delirante episódio que invade a narrativa e permite expor paradigmaticamente que "Animal Político", a estreia de Tião na realização de longas-metragens, gosta de desafiar as expectativas e a tolerância do espectador. Primeiro a proposta de Tião estranha-se, depois começa a entranhar-se, mesmo quando temos a noção de que a crise existencial da protagonista ganha mais interesse não tanto devido à densidade psicológica do argumento, mas sim pelo facto destes problemas estarem a ser sentidos por uma vaca. A alienação em relação ao espaço que nos rodeia, a necessidade de nos encontrarmos com nós próprios, a solidão e as diatribes de uma crise existencial surgem como temáticas e elementos abordados em "Animal Político", quase sempre a partir da perspectiva de uma vaca, embora estas problemáticas contem com um pendor universal que remete e muito para o nosso quotidiano. Nesse sentido, a proposta de "Animal Político" passa por fazer com que o espectador reflicta sobre algumas questões relacionadas com a realidade que o rodeia, ainda que a partir da perspectiva de uma vaca que começa a enfrentar problemas de ordem existencial. É em plena noite de Natal que a protagonista começa a ser consumida por um sentimento de vazio e de deslocamento, algo que a apoquenta, sobretudo por considerar, pelo menos a nível inicial, que tem tudo aquilo que é necessário para ser feliz. Esta vive com uma família, composta por um casal de humanos e uma rapariga, gosta de fazer compras em centros comerciais, frequenta regularmente o ginásio e aprecia ir ao cabeleireiro, com "Animal Político" a contar com alguns trechos onde absurdo toma conta do enredo, ou não estivéssemos a observar uma vaca a envolver-se por locais pouco habituais para a sua espécie. Tião não poupa no humor e nas situações a roçarem o absurdo, enquanto coloca a protagonista a entrar no interior de uma peculiar jornada de descoberta. Antes de tomar a decisão de partir para um território desértico, a protagonista ainda decide alterar os hábitos alimentares e praticar yoga, bem como visitar galerias de arte, estudar e experimentar substâncias estupefacientes, embora nenhuma destas acções resulte, pelo que a quadrúpede opta por medidas drásticas. Perante esta conjuntura, a protagonista decide viajar até uma zona desértica e afastar-se temporariamente da humanidade, com o trabalho de Marcelo Lordello e Gustavo Zahn na cinematografia a realçar as tonalidades mais acastanhadas da zona desértica, bem como a imensidão destes cenários de grandes dimensões.

28 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "O Outro Lado do Paraíso"

 Num determinado momento de "O Outro Lado do Paraíso", Fernando (Davi Galdeano), o protagonista e narrador desta delicada obra cinematográfica realizada por André Ristum, salienta o seguinte: "O sentido da vida pode não ser alcançar um sonho, mas apenas lutar por ele com todas as forças. E é essa busca incessante que nos alimenta, enquanto nos dura a vida". O comentário traduz praticamente na perfeição a mensagem de "O Outro Lado do Paraíso" e aquilo que move alguns dos personagens. Um desses personagens é Antonio Trindade (Eduardo Moscovis), o progenitor de Fernando, um indivíduo idealista e sonhador, que almeja não só conseguir dar uma vida melhor à sua esposa e aos seus três filhos, mas também encontrar um local quase perfeito para habitar com o seu núcleo familiar. Esse desejo parece concretizar-se quando, após receber um sinal quase bíblico, Antonio decide sair do interior de Minas para Brasília, um destino que parecia ser praticamente perfeito para construir o sonho de Evilath (não faltam referências bíblicas ao longo do filme, tais como a luta utópica por encontrar o país de Evilath e a figura de uma cobra que aparece em dois momentos fulcrais da vida de Antonio), ou o enredo não tivesse os primórdios da década de 60 como pano de fundo, ou seja, poucos anos depois da fundação desta cidade que ainda está a dar os seus primeiros passos. O contexto histórico fervilhante, tão propício a sonhos como a desilusões, pronto a despertar sentimentos exacerbados e uma multitude de sentimentos, raramente é esquecido ao longo do filme, bem como as referências religiosas e políticas, com André Ristum a deixar bem explícito que as contingências deste período mexeram e muito com o quotidiano da família de Fernando. Diga-se que André Ristum efectua um trabalho competente quer na procura de transmitir a atmosfera da época, quer na exposição dos acontecimentos históricos (sempre com algumas liberdades à mistura), com o realizador a utilizar assertivamente elementos como os jornais, a televisão e a rádio para exibir episódios que ocorreram no seio deste período de tempo conturbado da História do Brasil. Estes elementos surgem como um meio ágil e prático de fornecer informação sobre o contexto histórico, com André Ristum a recorrer muitas das vezes a materiais de arquivo, algo que permite evitar diálogos excessivamente expositivos sobre esta conjuntura política intensa. Estamos na antevéspera do Golpe de Estado de 1964, no Brasil, que culminou na destituição de João Goulart (Jango), o Presidente democraticamente eleito (entrou no cargo após a renúncia de Jânio Quadros, algo exposto em formato de animação nos créditos iniciais do filme), com "O Outro Lado do Paraíso" a transmitir as paixões e ódios despertadas por esta figura quase lendária da política brasileira, bem como o fervilhar de emoções que pontuou este período.

27 fevereiro 2017

Entrevista a José Pedro Lopes sobre "A Floresta das Almas Perdidas"

 Pontuado por uma realização segura de José Pedro Lopes e um desempenho digno de atenção por parte de Daniela Love, "A Floresta das Almas Perdidas" mescla assertivamente elementos de terror (inclusive conta com uma faceta slasher), drama familiar e até humor negro, tendo tudo para ganhar o estatuto de filme de culto. "A Floresta das Almas Perdidas", um exemplo raro de uma longa-metragem de terror "made in Portugal", teve a sua estreia na edição de 2017 do Fantasporto e prepara-se para ser exibido pela primeira vez em Lisboa na oitava edição do FESTin. O Rick's Cinema aproveitou o facto de "A Floresta das Almas Perdidas" estar quase a chegar ao FESTin (dia 5 de Março, às 17h30, no Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira) para entrevistar online José Pedro Lopes. O realizador demonstrou uma enorme disponibilidade para responder às questões, algo que podem comprovar já de seguida. 


Rick's Cinema - Uma das informações que encontramos no site da Anexo 82 é que os elementos da produtora resolvem os problemas como o Macgyver ("Resolvemos problemas como o Macgyver"). Produzir, realizar e escrever o argumento de uma longa-metragem independente de terror, ainda por cima em Portugal, envolve ter o talento, a criatividade e a capacidade de improviso de Macgyver?

José Pedro Lopes: Sim, mas com uma grande diferença em relação ao Macgyver que é que não conseguíamos fazer o filme sozinhos. Contamos com muitos apoios na sua produção de gente que trabalhou connosco, ou nos apoiou logisticamente, e inclusive um apoio financeiro da Fundação GDA. "A Floresta das Almas Perdidas" é uma produção pequena, e foi preciso planear tudo muito bem para conseguirmos fazer os 25 dias de rodagem (que se espalharam ao longo de dois anos) e que envolviam ir filmar a locais muito complicados como o cimo do Caramulo ou o Lago Glaciar de Sanabria.


RC: O José Pedro Lopes já realizou e produziu diversas curtas-metragens, algumas no registo do terror. É mais fácil produzir e realizar um filme de terror em Portugal ou conseguir convencer o público a assistir ao mesmo, ou encontrar meios de distribuição e exibição? 

JPL: Creio que Portugal não aposta no cinema de género.
  Há muita gente que gosta e o faz (basta ver todas as curtas fantásticas de género que surgem no Fantas e no Motelx todos os anos). Mas financiar um filme neste registo é muito difícil. E distribuí-lo também, porque o público de cinema é escasso e é bastante céptico face a cinema nacional e ao de género.
  No Fantas este ano tens uma retrospectiva de cinema de género argentino, e podes encontrar muitos filmes de género na América Latina, uns com mais sucesso que outros, e alguns a chegarem até às portas de Hollywood. Mas na América Latina há abertura a financiar cinema de género e a apoia-la. Muitos vem do fórum Blood Window da Ventana Sur. Outros são financiados por institutos de cinema. No Reino Unido ou no Canadá, mesmo na Europa de Leste, todos os anos filmes apoiados financeiramente por institutos são de género.
 O cinema português tem muitos filmes bons, e imensa gente com talento. Aliás, viu-se isso na Berlinale. Inclusive a querer fazer fantástico. Mas o cinema de género e de terror, em Portugal, não tem a oportunidade que merece.


RC: No "É a Vida Alvim", o José Pedro Lopes salientou que na Ásia os cineastas não são tão presos a realizar o filme num único registo. Podemos dizer que essa mistura de registos do cinema asiático foi uma das inspirações para "A Floresta das Almas Perdidas", onde encontramos uma mescla de terror, drama e salpicos de humor negro?

JPL: Definitivamente. "A Floresta" começa como sendo uma história de amizade, com algumas discussões bem portuguesas e divertidas. Mas é uma história sobe perda, e sobre uma família destruída. Mas tudo isto é abruptamente assombrado por elementos de terror que tomam controlo do filme. E é um filme com uma mensagem, sobre a sociedade actual. Parece um absurdo quando escrito mas quem vê o filme fica surpreendido pela extensa agenda narrativa e temática que tem.
 É sem dúvida uma mescla. Muito terror, e muito muito drama, mas também bastante humor lusitano.

Entrevista a Roni Nunes sobre a oitava edição do FESTin

 Lá diz o ditado popular, "a curiosidade matou o gato". No meu caso, a curiosidade sobre a oitava edição do FESTin conduziu-me a enviar treze questões a Roni Nunes, um dos programadores do certame. Ganha o blog com a disponibilidade do Roni Nunes para responder a esta imensidão de questões (a ideia inicial era fazer algo como "oito perguntas sobre a oitava edição do FESTin", mas, para não variar, falhei o objectivo), bem como aqueles que estiverem interessados em ler um pouco mais sobre este recomendável evento que dignifica e valoriza o cinema em língua portuguesa (vale a pena realçar que esta edição conta com exemplares bem interessantes do cinema brasileiro como "Comeback", "BR716", "Big Jato" e "Curumim", bem como obras cinematográficas nacionais como "A Floresta das Almas Perdidas" que pode, com o tempo, ganhar o estatuto de "filme de culto"). Ao longo da entrevista, Roni Nunes aborda questões relacionadas com a selecção das obras cinematográficas, a parceria com o FILMin, a retrospectiva dedicada a Margarida Gil, o novo formato da FESTinha, entre outros assuntos. Vale ainda a pena salientar que a oitava edição do FESTin começa a 1 de Março e decorre até ao dia 8 de Março.


Rick's Cinema - O ano passado salientaste que "trazer propostas ousadas é um dever de um bom festival". A ousadia foi um dos motes para a selecção dos filmes que se encontram presentes na competição de longas-metragens? Quais foram as principais linhas definidoras para a selecção dos filmes da competição de longas-metragens? 

 Roni Nunes: A competição do FESTin tem feito uma percetível viragem no sentido de se tornar mais autoral, ousada e experimental – sem que o festival como um todo, no entanto, abra mão de outras das suas características, como a mostra de cinema mais acessível e o seu vínculo social. A ideia não é trazer filmes para nichos, mas sim obras que comuniquem com o público – mesmo tendo preocupações estilísticas e uma estética apurada.


RC: Fiquei com a sensação que a Competição de Longas-Metragens procura acima de tudo desafiar e estimular o espectador ao invés de se limitar a ir ao encontro do mesmo com conteúdos que são tão fáceis de digerir como de esquecer. Foi com esse intuito, para além das qualidades que observaram nos filmes, que seleccionaram obras como "BR 716", "Big Jato", "Comeback", "Animal Político", "Quase Memória"? 

RN: Posso afirmar sem grande modéstia que a competição do FESTin este ano, como também já o foi a do ano passado, é a melhor mostra de cinema brasileiro de Portugal. Como disse, ao mesmo tempo são trabalhos bastante acessíveis – como “BR 716”, “Big Jato” ou “Comeback”.


RC: A competição de longas-metragens mescla cineastas experientes como Domingos de Oliveira, Ruy Guerra e Cláudio Assis com estreantes na realização de longas-metragens, tais como Erico Rassi, Tião e José Pedro Lopes. Esta mescla de experiência e "sangue novo" foi algo propositado na elaboração da programação? O que nos podes dizer sobre as longas-metragens dos cineastas mencionados?

RN: Mesmo entre os primeiros que citas há uma diferença de gerações. O Ruy Guerra é um ícone do Cinema Novo, o Cláudio Assis é um génio do século XXI. Não foi algo pensado conscientemente, mas ainda bem que notou isso. É uma prova da vitalidade destas cinematografias. Em relação aos filmes, “Quase Memória” é uma meditação algo nostálgica sobre o passado, com um vai-e-vem na história bastante original – enquanto “BR 716” também vai ao passado mas, neste caso, através de uma leitura a “nouvelle vague” dos anos 60, as suas grandes esperanças e desilusões. Cláudio Assis e Tião são de Pernambuco, um dos grandes impulsionadores do cinema brasileiro do século XXI. Ambos são provocadores e filosóficos – com “Animal Político” recorrendo ao surrealismo e “Big Jato” ao artifício de dois irmãos, ambos vividos pelo magnífico Matheus Natchergaele, para fazer os seus “statements”. Érico Rassi vem das curtas-metragens e o seu primeiro filme é bastante seguro e tem outro intérprete genial, Nélson Xavier, enquanto a obra de José Pedro Lopes segue uma tendência muito contemporânea – a fusão de terror com arthouse.