31 julho 2016

Resenha Crítica: "Una vita tranquilla" (2010)

 Com uma interpretação de grande nível de Toni Servillo, uma realização segura de Claudio Cupellini e uma utilização assertiva da banda sonora ao serviço do enredo, "Una vita tranquilla" deambula entre os elementos dos filmes sobre a máfia e o drama familiar, enquanto nos coloca diante de um antigo membro da Camorra que se prepara para enfrentar os fantasmas do passado. Será possível escapar ao passado? Existe uma segunda oportunidade para um antigo assassino? Rosario Russo (Toni Servillo), o protagonista de "Una vita tranquilla", bem tenta fugir ao passado, embora seja atormentado pelo mesmo quando menos espera. Outrora conhecido como um mafioso chamado Antonio de Martino, o protagonista de "Una vita tranquilla" decidiu abandonar o espaço napolitano onde habitava, bem como a sua família, com quase tudo e todos a pensarem que o criminoso foi eliminado. Com uma nova identidade, Rosario conseguiu manter-se temporariamente afastado desse passado, tendo entretanto formado família e iniciado um negócio no sector hoteleiro na Alemanha. Diga-se que a morte continua a marcar o quotidiano de Rosario, embora num âmbito distinto, algo notório quando o encontramos a caçar um javali, ou a colocar pregos de cobre nas árvores que se encontram nas imediações do seu Hotel Restaurante. Rodeado por um espaço florestal, o Hotel Restaurante de Rosario encontra-se situado na cidade de Wiesbaden, com o protagonista a viver no local onde labora, contando com a companhia da esposa e do filho, bem como de uma série de funcionários. Este é o local onde o protagonista conseguiu refazer a sua vida, ou melhor, reformular a sua existência, embora seja praticamente impossível escapar ao passado, algo que Rosario vai perceber ao longo de "Una vita tranquilla". Toni Servillo consegue transmitir o peso dos segredos que Rosario guarda no interior da sua alma, com o actor a explorar quer o lado mais leve do antigo mafioso, quer a sua faceta mais pragmática, embora o quotidiano do protagonista sofra uma mudança notória a partir do momento em que Diego (Marco D'Amore) e Edoardo (Francesco Di Leva), dois jovens italianos, aparecem no Hotel Restaurante. Diego apresenta-se como um amigo de Rosario, com este último a ficar francamente abalado com a presença do primeiro. O momento é marcante e bem arquitectado, com Claudio Cupellini a deixar que Toni Servillo exponha o abalo sentido por Rosario, enquanto o actor demonstra mais uma vez que é exímio a atribuir uma dimensão extra aos momentos que protagoniza. O rosto do personagem interpretado por Toni Servillo transmite que este foi surpreendido pela chegada de Diego e Edoardo, a banda sonora muda de tom e contribui para adensar a sensação de que o protagonista se encontra com o batimento cardíaco acelerado, enquanto que a presença da dupla, no lado de fora do Hotel Restaurante, exacerba o mistério em relação aos pensamentos de Rosario e aos objectivos destes elementos. Os dois jovens italianos apareceram quando Rosario se encontrava a dividir as porções das refeições para uma série de clientes, após ter sido recebido em clima de festa, com o protagonista a contar com um espaço respeitável, embora o dia-a-dia do antigo mafioso se prepare para conhecer uma série de alterações a partir do momento em que Diego decide contactá-lo.

 Diego e Edoardo deslocaram-se para este território tendo em vista a eliminarem um indivíduo, com o primeiro a não escapar ao mundo do progenitor, ou seja, trabalhar para a máfia, em particular, para o pai do segundo. O personagem interpretado por Marco D'Amore é filho de Rosario, com este último a procurar recuperar o tempo perdido, embora desconheça inicialmente a personalidade do rebento e o facto deste se ter envolvido no interior do mundo do crime. Rosario formou família na Alemanha, sendo casado com Renate (Juliane Köhler), de quem tem um filho, o jovem Mathias (Leonardo Sprengler), embora a relação do casal pareça ter conhecido alguns problemas no passado. Esses problemas tornam-se particularmente evidentes quando Renate efectua um comentário relacionado com uma antiga amante de Rosario, com este último a estar longe de ser o marido e o pai ideal, embora se esforce para evitar repetir os erros de outrora. Claudio Cupellini é eficaz a explanar a situação intrincada em que se encontra o protagonista, com Rosario a procurar que Renate e Mathias não descubram informações relacionadas com o seu passado, enquanto tenta reacender os laços familiares com Diego, com o personagem interpretado por Toni Servillo a deparar-se com uma série de acontecimentos difíceis de gerir. Num determinado momento de "Una vita tranquilla", encontramos Rosario, Diego, Renate e Mathias num canil, com este último a procurar adoptar um cão. Claudio Cupellini e Gergely Pohárnok (director de fotografia que voltaria a colaborar com o cineasta em "Alaska") colocam o espectador diante de um plano que expressa paradigmaticamente a divisão entre a nova e a antiga família de Rosario, com o protagonista e Diego a encontrarem-se de um lado dos abrigos dos cães, enquanto Mathias e Renate estão do lado oposto. A oposição entre o presente e o passado é expressa de forma simples e concisa, com Rosario a perceber gradualmente que não pode apagar os actos de outrora, sobretudo quando a presença de Diego e Edoardo se faz sentir. Francesco Di Leva incute um tom extrovertido e mulherengo a Edoardo, um mafioso violento e abrutalhado que procura cumprir a sua missão e conquistar Doris (Alice Dwyer), uma das empregadas de Rosario. A dinâmica entre Doris e Edoardo permite que Claudio Cupellini a espaços incuta um tom mais leve ao filme, bem como as discussões entre Rosario e Claudio (Maurizio Donadoni), um dos funcionários do protagonista. Se a relação entre Doris e Edoardo permite atribuir algum humor à trama, já a dinâmica entre Rosario e Diego é bem mais complexa. Marco D'Amore consegue introduzir um tom misterioso a Diego, com os actos deste personagem a surpreenderem, sobretudo no último terço, quando parece relativamente óbvio que o protagonista não pode escapar ao passado. Diego demonstra por diversas vezes que não se esqueceu do facto de ter sido abandonado pelo pai, com os personagens interpretados por Marco D'Amore e Toni Servillo a contarem com uma dinâmica pontuada pelos receios de parte a parte, algo abordado de forma relativamente simples e eficaz ao longo de "Una vita tranquilla". Rosario ainda tenta ajudar o filho, embora não queira deitar a sua nova vida a perder ou colocar Mathias e Renate em perigo, com tudo a extremar-se no último terço. Diego e Edoardo surgem como os representantes do passado que chegam para atormentar o presente de Rosario, com o protagonista a procurar esconder que o primeiro é seu filho, embora esse desiderato seja praticamente impossível de alcançar.

 Toni Servillo é uma das pedras de toque do filme, com o actor a conseguir explanar as contradições e os dilemas do personagem que interpreta, um indivíduo na casa dos cinquenta e poucos anos de idade, que se procura redimir dos erros do passado embora esteja longe de conseguir cumprir esse desiderato de forma imaculada. Rosario passa boa parte do seu tempo na cozinha quer a confeccionar as refeições, quer a organizar as tarefas dos cozinheiros, mantendo uma relação laboral complicada com Claudio, um dos seus empregados mais fieis e amigo de longa data, com a dupla a protagonizar uma série de discussões. Se Rosario gosta de controlar tudo o que ocorre na cozinha, já a esposa apresenta um zelo latente como chefe de sala, com Renate a surgir como uma peça fundamental do Hotel Restaurante. Renate desconhece que Rosario cometeu uma série de crimes, bem como o facto deste último contar com outro filho, com o protagonista a procurar afastar a esposa de possíveis problemas, embora a relação do casal pudesse ser mais desenvolvida ao longo de "Una vita tranquilla", bem como a personagem interpretada por Juliane Köhler. O pouco desenvolvimento da relação entre Renate e Rosario é um dos pontos fracos do filme, com "Una vita tranquilla" a ser bem mais eficaz a abordar os dilemas morais e sentimentais do protagonista, bem como a dinâmica intrincada entre o antigo mafioso e Diego. Rosario encontra-se habituado ao estilo de vida na Alemanha, embora os actos que cometeu em Itália prometam trazer-lhe uma série de problemas, com os pecados do passado a parecerem persegui-lo para a vida e a deixarem marca na sua alma e no seu destino. A juntar a tudo isto, Rosario tem ainda de proteger a família que formou na Alemanha, com Diego e Edoardo a surgirem como duas fontes de perigo para a estabilidade do núcleo familiar do protagonista, sobretudo quando alguns segredos são revelados. "Una vita tranquilla" mistura elementos de drama familiar com ingredientes de filmes sobre a máfia, com Claudio Cupellini a tanto avançar pelos lugares-comuns e por caminhos relativamente previsíveis como a surpreender o espectador e a deixá-lo diante da crueza que rodeia o mundo do qual o protagonista chegou a fazer parte. Claudio Cupellini controla os ritmos do enredo e das revelações com alguma eficácia, com o mistério e a violência a pontuarem diversos momentos de "Una vita tranquilla", uma obra cinematográfica onde Toni Servillo exibe mais uma vez que é um actor brilhante. Com uma banda sonora que se destaca pela positiva, um conjunto de planos bem elaborados (a maioria de longa duração), um aproveitamento exímio do espaço hoteleiro que pertence ao protagonista, um elenco secundário competente, "Una vita tranquilla" brinda-nos com um Toni Servillo de grande nível, enquanto somos colocados diante dos dilemas do personagem que este interpreta e das consequências dos actos que Rosario cometeu no passado.
 
Título original: "Una vita tranquilla".
Realizador: Claudio Cupellini.
Argumento: Claudio Cupellini, Filippo Gravino, Guido Iuculano.
Elenco: Toni Servillo, Marco D'Amore, Francesco Di Leva, Juliane Köhler, Alice Dwyer, Leonardo Sprengler, Maurizio Donadoni.

29 julho 2016

Trailer de "Hacksaw Ridge", um filme realizado por Mel Gibson

 Foi divulgado um trailer de "Hacksaw Ridge", um filme inspirado na história verídica de Desmond T. Doss. O filme é realizado por Mel Gibson ("Braveheart"), através do argumento de Robert Schenkkan, Andrew Knight e Randall Wallace. "Hacksaw Ridge" conta no elenco com Andrew Garfield, Vince Vaughn, Sam Worthington, Teresa Palmer, Hugo Weaving, Luke Bracey, Richard Roxburgh, entre outros.

 Doss foi seleccionado para o exército em 1942. Este recusou-se a carregar ou utilizar armas devido às suas crenças religiosas. Doss passou para a divisão de medicina no teatro de Guerra do Pacífico. Este tornou-se numa lenda ao salvar setenta e cinco homens durante a Batalha de Okinawa. O enredo de "Hacksaw Ridge" começa por acompanhar os soldados durante o campo de treino no Sul da Califórnia, onde aprendem as habilidades básicas de sobrevivência em tempos de Guerra, até serem enviados para o Japão onde participam na Batalha de Okinawa.

"Hacksaw Ridge" estreia a 4 de Novembro de 2016 nos EUA.


28 julho 2016

Novo trailer de "War Dogs" (Os Traficantes)

 Já se encontra online um novo trailer de "War Dogs" (em Portugal - "Os Traficantes"), um filme realizado por Todd Phillips ("The Hangover"), através do argumento do próprio, Stephen Chin e Jason Smilovic. O argumento é baseado no artigo “Arms and the Dudes”, de Guy Lawson (publicado na Rolling Stone). "War Dogs" conta no elenco com Jonah Hill, Miles Teller, Bradley Cooper, Ana de Armas, entre outros.

Sinopse: “Os Traficantes” conta-nos a história de dois jovens amigos (Hill e Teller) que vivem em Miami, durante o período da Guerra no Iraque, e que exploram uma iniciativa do Governo, pouco conhecida, que possibilita a pequenos negócios uma participação em contratos militares dos EUA. Iniciando-se devagar, em pequenos trabalhos, começam a ganhar muito dinheiro e a viver à grande, mas tudo se altera quando, ao ter mais olhos que barriga, os dois amigos aceitam uma missão de 300 milhões de dólares para armar o exército afegão – um contrato que irá colocá-los na mira de uma rede de gente duvidosa, onde se encontra o próprio Governo dos EUA.

"War Dogs" estreia a 19 de Agosto de 2016 nos EUA. "Os Traficantes" estreia em Portugal a 18 de Agosto de 2016.



Trailer e poster de "The Great Wall"

 Foi divulgado o primeiro trailer e o primeiro poster de "The Great Wall", o novo filme de Zhang Yimou. Poster via IMP Awards.

 O filme é realizado por Zhang Yimou, através do argumento de Tony Gilroy, Carlo Bernard e Doug Miro. "The Great Wall" conta no elenco com Matt Damon, Pedro Pascal, Willem Dafoe, Andy Lau, Jing Tian, Zhang Hanyu, Eddie Peng, Lu Han, Lin Gengxin, Zheng Kai, Chen Xuedong, Huang Xuan, Wang Junkai, Yu Xintian e Liu Qiong, entre outros.

O enredo de "The Great Wall" acompanha uma equipa de elite que tem de defender a humanidade numa das estruturas mais conhecidas do Mundo.

"The Great Wall" estreia a 17 de Fevereiro de 2017 nos EUA.


27 julho 2016

Resenha Crítica: "A ciascuno il suo" (1967)

 A verdade interessa a poucos personagens de "A ciascuno il suo", que o diga Paolo Laurana (Gian Maria Volontè), o protagonista desta recomendável obra cinematográfica realizada por Elio Petri. Laurana é um professor que procura descobrir quem assassinou Arturo Manno (Luigi Pistilli) e Antonio Roscio (Franco Tranchina), dois dos seus amigos, um desiderato que promete trazer-lhe alguns dissabores. Diga-se que Paolo Laurana descobre da pior maneira que habita num espaço marcado pela corrupção, onde o estatuto social parece contar imenso e as ligações entre os diferentes círculos de poder acontecem de forma promiscua. No início do filme, Manno é apresentado como um farmacêutico que se encontra a ser alvo de ameaças anónimas, sendo conhecido pela personalidade mulherenga, bem como por trair a esposa (Anna Rivero) por diversas vezes, inclusive com Rosina (Luciana Scalise), uma jovem adolescente. Por sua vez, Roscio é um médico casado com Luisa (Irene Papas), uma mulher misteriosa, de enorme beleza e presença, sobrinha do Arcipreste (Carmelo Olivero). Manno e Roscio foram assassinados quando se encontravam a caçar, algo que gera uma enorme comoção no interior deste pequeno espaço situado na Sicília, um território pontuado por gentes com códigos de honra muito próprios e um grupo poderoso que parece inicialmente pouco preocupado com o facto do pai e os dois irmãos de Rosina terem sido detidos, ainda que não existam provas, ou indicadores paradigmáticos, de que o trio cometeu o duplo homicídio. Os familiares de Rosina são considerados os principais suspeitos do assassinato de Manno e Roscio, embora Paolo Laurana duvide desta possibilidade. O personagem interpretado por Gian Maria Volontè conseguiu ler as cartas que continham ameaças dirigidas a Arturo Manno, tendo percebido que as palavras de uma missiva foram recortadas do "Osservatore Romano", um jornal de circulação restrita. Diga-se que a juntar a essa pouca circulação da publicação, o pai e os irmãos de Rosina são analfabetos, ou seja, é praticamente impossível que tenham sido estes elementos a enviarem as cartas, ou a cometerem o assassinato, algo que aguça a curiosidade de Laurana em relação a todo este caso. Quase todos pensam que o alvo dos assassinos era Arturo Manno, ou este não tivesse recebido diversas ameaças de morte, sendo conhecido pelos diversos casos que manteve com mulheres comprometidas. Em contrapartida, Antonio Roscio é considerado um pai de família exemplar, pelo menos até Laurana descobrir que algo não bate certo em relação a todo este caso. Laurana demonstra o seu descontentamento devido ao facto do pai e dos irmãos de Rosina terem sido detidos sem provas, algo que remete para o abuso de poder por parte das autoridades, bem como para a pretensão dos responsáveis deste espaço citadino em fecharem rapidamente o caso, mesmo que isso implique prender inocentes. A temática dos abusos de poder por parte das autoridades é algo que atravessa obras cinematográficas de Elio Petri como "L'assassino" e "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", com "A ciascuno il suo" a mesclar elementos de filmes de investigação criminal e de gangsters, com Gian Maria Volontè a ter a oportunidade de sobressair como um professor de valores morais elevados, aparentemente pouco dado a grandes amizades, antigo membro do Partido Comunista, que procura aferir a verdade sobre o duplo homicídio. Outro dos elementos do elenco que se encontra em destaque é Gabriele Ferzetti, com o actor a dar vida a Rosello, um advogado que é primo de Luisa. Rosello procura defender os elementos que foram detidos e ajudar Laurana na investigação, embora o protagonista comece a perceber, ainda que gradualmente, que praticamente não pode confiar em ninguém.

 Paolo Laurana é um professor relativamente solitário, que vive com a mãe e a avó, surgindo como um intelectual algo inconsciente em relação à sociedade que o rodeia, tendo no seu quarto, um local recheado de livros e posters, um espaço para se abstrair de tudo e todos. Se Volontè incute um estilo determinado e algo naïf a Laurana, um professor que não conhece quase nada sobre os podres da cidade onde habita, já Ferzetti surge como um advogado confiante e bem falante, que conta com ambições políticas e apresenta um poder notório no interior deste pequeno espaço urbano. No entanto, a determinação de Laurana e a sua enorme curiosidade conduzem a que o protagonista consiga reunir algumas pistas que começam a incomodar uma série de figuras poderosas. O protagonista descobre que o carteiro enviou exemplares do "Osservatore Romano" para duas pessoas: o pároco de Sant'Amo (Mario Scaccia) e o Arcipreste, embora não consiga retirar informações relevantes destes dois indivíduos, apesar deste último não ter problemas em condenar a conduta que Manno tinha em vida. A banda sonora de Luis Enríquez Bacalov é essencial para adensar a atmosfera de perigo, receio e ironia que a espaços envolve a narrativa, sobretudo a partir do momento em que Laurana descobre que Antonio Roscio contactou um deputado da extrema esquerda, tendo em vista a colocar a hipótese de divulgar informações confidenciais sobre um elemento poderoso que se encontrava a ameaçá-lo. Roscio guardou a informação num local secreto, algo que conduz o protagonista a procurar os documentos na casa de Luisa, bem como na habitação do pai do falecido. O progenitor de Antonio é um antigo oftalmologista que perdeu a visão, sendo interpretado por Salvo Randone, um colaborador habitual de Elio Petri, com o actor a ter um papel secundário com algum relevo. Por sua vez, Gian Maria Volontè tem em "A ciascuno il suo" a primeira participação num filme de Elio Petri, um cineasta com quem colaboraria no marcante "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", entre outros filmes, com ambos a serem dois artistas de esquerda, politicamente engajados, algo que evidenciam em "A ciascuno il suo". Volontè é o motor de "A ciascuno il suo", com o actor a prender a nossa atenção em relação aos próximos passos de Laurana, um indivíduo bem intencionado mas aparentemente inconsciente das redes de poder e influências que envolvem esta pequena cidade siciliana. A investigação iniciada por Laurana adquire contornos deveras perigosos, com Elio Petri a expor a mesma com algum acerto, enquanto o protagonista exibe pelo caminho que se sente atraído por Luisa, embora esta espécie de tentativa de romance nem sempre funcione no interior da narrativa, com o interesse do primeiro a parecer relativamente forçado, ou introduzido de forma demasiado brusca. Luisa e Laurana ainda chegam a efectuar uma espécie de parceria num determinado momento da narrativa, embora esta figura feminina também conte com diversos segredos, com Paolo Laurana a envolver-se no interior de um caso intrincado e problemático. Diga-se que é raro encontrar um personagem em "A ciascuno il suo" que não conte com segredos ou esqueletos no armário, algo que Paolo Laurana vai perceber da pior forma, com este a entender tardiamente que está a lidar com uma perigosa teia que se estende por diversos sectores da sociedade. Elio Petri consegue manter o mistério e as dúvidas em relação aos personagens em quem devemos ou não confiar, embora transmita diversos sinais para o espectador, enquanto mantém a intriga e brinda-nos com um final recheado de ironia e acidez. Laurana parece querer perturbar uma estranha ordem dominada pela corrupção, enquanto Elio Petri insere uma série de reviravoltas que permitem dar a conhecer facetas distintas de alguns personagens. O caso de Luisa é paradigmático dessa situação, com esta a não ser tão frágil e inocente como indica, bem pelo contrário, tal como Rosello está longe de ser um exemplo moral. Diga-se que Rosello é um dos representantes desta sociedade corrupta, pronta a manter as aparências, tendo uma série de ligações a indivíduos poderosos, com o próprio a contar com um estatuto elevado no interior deste espaço da Sicília.

O argumento, escrito por Elio Petri, Ugo Pirro, Jean Curtelin, procura incutir alguma complexidade a toda esta teia narrativa, tendo sido baseado na obra literária "A ciascuno il suo" de Leonardo Sciascia. O enredo é pontuado pela determinação de Laurana e pela procura daqueles que o rodeiam em evitarem que este continue a "chafurdar" em informação considerada incómoda, com o protagonista a investigar um caso que se revela deveras complexo e perigoso. A utilização dos zooms permite a espaços adensar a carga dramática em volta dos acontecimentos, com Elio Petri a usar imenso este recurso, bem como os close-ups nos momentos mais intensos. Veja-se quando Laurana e Luisa encontram-se no interior do carro desta última, com a viúva a ler uma parte do diário do falecido esposo. A banda sonora, as expressões dos actores, os close-ups adensam a carga quase melodramática do episódio, com Elio Petri a não ter problemas em exagerar um momento que talvez pedisse um pouco mais de contenção. Diga-se que não faltam exemplos para os close-ups e para os zooms em momentos de maior tensão, algo notório quando Laurana recebe uma carta anónima para se deslocar ao tribunal de Palermo, tendo em vista a deparar-se com uma surpresa. Veja-se ainda quando Laurana se desloca até à casa de Rosina, tendo em vista a falar com a jovem, com o trabalho de câmara a permitir incrementar a tensão em volta deste momento e adensar as dúvidas sobre o silêncio daqueles que poderiam falar às autoridades e contribuírem para que o progenitor e os irmãos da jovem fossem ilibados. O silêncio parece ser de ouro para diversos personagens, sobretudo para se protegerem uns aos outros ou evitarem represálias dos mais poderosos. Todos parecem estar conscientes que falar demais, ou questionar aquilo que é dito pelos mais poderosos, pode ser perigoso, com excepção de Laurana, ou o protagonista não surgisse como o intelectual alienado do espaço que o rodeia, algo que talvez explique o interesse que demonstra por Luisa. A certa altura, Laurana começa a descobrir cada vez mais informações, algo que coloca a sua vida em perigo. Este percebe isso, embora não tenha a perfeita consciência do "polvo" que o rodeia, enquanto Elio Petri joga com as nossas expectativas. O cineasta lança as peças, mexe com as mesmas de forma eficaz e aproveita para criar alguns momentos marcantes. O final é impossível de esquecer, simultaneamente negro e mordaz, tal como uma explosão que dinamita as hipóteses da verdade surgir ao de cima, com Elio Petri a colocar-nos diante de um meio onde a corrupção moral permeia boa parte dos personagens. Diga-se que existe ainda uma espécie de comentário sobre o protagonista, um intelectual de esquerda que parece incapaz de compreender a realidade que o rodeia, algo que pode ser encarado como uma crítica à inacção deste grupo. Esta inacção é particularmente notória na representação do deputado com quem Laurana dialoga, um elemento da extrema esquerda que tenta não se envolver no caso quando deveria surgir como um agente de mudança, com Elio Petri a não ter problemas em efectuar comentários do foro político e social. Ficamos entre o filme de máfia e investigação criminal, com Gian Maria Volontè e Gabriele Ferzetti a surgirem como os elementos do elenco em maior destaque, enquanto Elio Petri aproveita para efectuar alguns comentários do foro político e social, contando com o apoio de um argumento sólido e uma banda sonora pronta a adensar as emoções.

Título original: "A ciascuno il suo".
Título em Portugal: "Crimes à moda antiga".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Elio Petri, Ugo Pirro e Jean Curtelin.
Elenco: Gian Maria Volontè, Irene Papas, Gabriele Ferzetti, Salvo Randone, Luigi Pistilli, Luciana Scalise.

Vale a pena ouvir este Q&A conduzido por Alan O'Leary e Nico Marzano: https://www.ica.org.uk/whats-on/elio-petri-we-still-kill-old-way-qa

25 julho 2016

Resenha Crítica: "Deadpool" (2016)

 Simultaneamente irreverente (qual é o anti-herói que guarda armas no interior de uma mala da Hello Kitty?) e convencional (é mais uma história de origem), "Deadpool" tanto utiliza as convenções dos filmes de super-heróis como ironiza e subverte as mesmas. Diga-se que "Deadpool" não tem problemas em ironizar com essas convenções, bem como com outros filmes de super-heróis, algo latente quando encontramos o personagem do título a efectuar piadas sobre as linhas temporais da saga cinematográfica de "X-Men", ou a satirizar "Green Lantern", um dos grandes fracassos da carreira de Ryan Reynolds, ou a expor os problemas a nível de orçamento da obra cinematográfica realizada por Tim Miller. Wade Wilson, mais conhecido como Deadpool, é um anti-herói falador, fã dos "Wham!", extrovertido e violento, sempre pronto a fazer piadas e desenhos manhosos, a utilizar palavrões e a quebrar a quarta parede, com Ryan Reynolds a aproveitar este personagem peculiar para brilhar e expor o seu talento para a comédia. Reynolds não tem problemas em satirizar alguns fracassos que têm marcado a sua carreira (como "Green Lantern"), bem como em escarnecer da sua própria persona, ou de Hugh Jackman (ou de Wolverine), com o actor a parecer divertir-se imenso e a divertir-nos pelo caminho como Deadpool, enquanto aproveita o argumento que tem à disposição. É a redenção de Reynolds, após uma série de fracassos a nível comercial e diversas tentativas para tirar "Deadpool" do papel, com o actor a dominar os timings nos momentos de humor, enquanto Tim Miller aproveita o talento do intérprete ao serviço da narrativa. Miller consegue mesclar o tom delirante que pontua "Deadpool" com alguns elementos mais convencionais, embora, em alguns momentos, pareça que o cineasta nos está a oferecer mais do mesmo. Veja-se o último terço do filme, com "Deadpool" a mesclar a irreverência e saudável parvoíce do protagonista com situações convencionais e cenas de acção completamente genéricas, ou o longo flashback que nos dá a conhecer como o anti-herói adquiriu os seus superpoderes e a capacidade de regeneração semelhante a Wolverine (ambos fizeram parte do projecto Weapon X). No início do filme, encontramos Deadpool em busca de Ajax (Ed Skrein), um dos responsáveis pelo "tratamento" do protagonista, e dos elementos que trabalham para o antagonista, com o personagem interpretado por Ryan Reynolds a exibir quer a sua capacidade para o combate, quer a sua personalidade sardónica, enquanto explica por diversas vezes que não é um super-herói. Deadpool não tem problemas em eliminar os inimigos, em cortar cabeças ou outras partes do corpo dos adversários, em disparar asneiras ou lançar piadas politicamente incorrectas, com o argumento de Rhett Reese e Paul Wernick a procurar aproveitar ao máximo as características peculiares deste personagem criado por Rob Liefeld e Fabian Nicieza. Os momentos de violência iniciais, protagonizados pelo personagem interpretado por Ryan Reynolds e os colaboradores de Ajax, são intercalados por alguns flashbacks, com Tim Miller a iniciar a narrativa a meio dos acontecimentos, até recuar para expor diversos elementos sobre o passado do protagonista. Os flashbacks nem sempre são utilizados na justa medida, com Tim Miller a quebrar em alguns momentos a fluidez da narrativa, enquanto usa e abusa da informação redundante, algo que a espaços contribui para atribuir um tom convencional a um filme que pretende ser irreverente (parte do contexto da "origem" dos poderes de Deadpool é um exemplo paradigmático dessas convenções). É certo que alguns momentos dos flashbacks funcionam e são necessários, sobretudo a exposição da relação entre Wade Wilson e Vanessa (Morena Baccarin), com Ryan Reynolds e Morena Baccarin a contarem com uma química latente, algo demonstrado ao longo do filme.

 Morena Baccarin incute um tom provocador e sarcástico a Vanessa, com a personalidade desta mulher a combinar praticamente na perfeição com o estilo sardónico de Wade. Esta química é particularmente notória quando Wade e Vanessa iniciam um jogo onde abordam quem teve uma infância pior, enquanto Tim Miller dá uma ajuda ao efectuar uma longa sequência de sexo entre o casal que permite dar a conhecer a passagem do tempo, com as datas especiais a serem comemoradas de forma muito peculiar. As mentes saudavelmente perturbadas de Wade e Vanessa parecem conjugar-se na perfeição, com ambos a contarem com um passado nem sempre recomendável (ele como mercenário, ela como prostituta), uma enorme dose de loucura e uma relação aparentemente perfeita. A felicidade de Wade e Vanessa não dura muito tempo, com a notícia de que o primeiro sofre de cancro e se encontra em estado terminal a mudar por completo o quotidiano do casal, com o protagonista a decidir recorrer a um projecto misterioso. Wade é contactado por um estranho com diversas semelhanças a Mister Smith de "The Matrix", algo que permite mais uma miríade de piadas, com o primeiro a ser inserido no interior de um projecto secreto do Governo que supostamente permitiria que o protagonista conseguisse uma cura para o cancro e adquirisse superpoderes. O mercenário percebe rapidamente que o projecto no qual foi envolvido está longe de ser algo legal ou do Governo, com o protagonista a ser constantemente torturado por Ajax, o médico responsável pelo "tratamento", com quem forma uma peculiar relação de inimizade. Wade fica completamente desfigurado, apesar de adquirir superpoderes e uma capacidade de regeneração surpreendente (que permite mais alguns momentos de humor), com o protagonista a perceber que fez parte de uma experiência que não visa criar super-heróis, mas sim mercenários que são obrigados a cometerem crimes. Sem outras opções, Wade consegue concretizar um plano de fuga, com o protagonista a procurar vingar-se a todo o custo de Ajax, começando uma perseguição a todos aqueles que se encontram ligados a este último. Outrora um elemento das forças especiais e, posteriormente, um mercenário a soldo, Wade Wilson tenta que Vanessa não o veja desfigurado, tendo em Weasel (T.J. Miller), o dono do Sister Margaret, um bar que é descrito pelo protagonista como "um centro de emprego para mercenários", um dos seus poucos amigos. Weasel descobre que Wade está vivo, procurando oferecer algum apoio ao amigo, enquanto este último cria um fato especial (vermelho, já que as vestimentas brancas sujam-se facilmente de sangue) e parte em busca dos elementos responsáveis pelo facto de ter ficado desfigurado. O protagonista pretende recuperar o aspecto físico de outrora, pensando que Ajax tem os conhecimentos necessários para esse feito, embora este último procure apenas eliminar o anti-herói, algo que promete um confronto violento e esperado quer pelo primeiro, quer pelo antagonista, quer pelo espectador. Se Ryan Reynolds tem espaço para sobressair, já Ed Skrein aparece com um antagonista completamente convencional e unidimensional, com o actor a interpretar um vilão que pouco ou nada evolui ao longo da narrativa. Diga-se que Ajax encontra-se quase sempre acompanhado por Angel Dust (Gina Carano), a sua ajudante, uma figura lacónica que também conta com superpoderes, embora esta personagem raramente seja aproveitada ao longo da narrativa.

 Gina Carano conta com uma personagem completamente unidimensional, com os vilões a não serem o ponto forte do filme, bem pelo contrário, sobretudo devido a nunca os encararmos como verdadeiras ameaças a Deadpool. Já Vanessa, Colossus (Stefan Kapičić), Negasonic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand), Weasel, Blind Al (Leslie Uggams - uma senhora cega que divide o apartamento com Deadpool e é viciada em cocaína) e Dopinder (Karan Soni como um taxista que nunca é pago pelo protagonista, com o anti-herói a pagar em high fives) conseguem ter alguns momentos de destaque, sobretudo a primeira, enquanto Stan Lee tem uma das melhores participações especiais em filmes baseados em super-heróis da Marvel. O facto dos direitos deste personagem da Marvel estarem na posse da 20th Century Fox, bem como de o filme contar com um orçamento menor do que habitual para as obras cinematográficas do género, pode ajudar a explicar a irreverência e o tom que escapa à fórmula "pão com manteiga" que tem marcado diversas películas do género, com "Deadpool" a surgir como uma agradável surpresa. Diga-se que essas limitações a nível do orçamento são utilizadas ao serviço do humor, algo latente quando Deadpool demonstra a sua estranheza por Negasonic e Colossus serem os únicos membros dos X-Men que aparecem, com o protagonista a comentar: "Quase parece que a produção não pode pagar a mais X-Men". A relação entre Deadpool e estes dois membros dos X-Men proporciona alguns momentos de humor, com o choque a nível de personalidades entre o primeiro e Colossus a ser notório. Veja-se quando Colossus apresenta um discurso moralista junto de Deadpool até este último disparar sobre um inimigo só para que o membro dos X-Men não continue a falar, ou quando o personagem interpretado por Ryan Reynolds resolve esmurrar as partes baixas do primeiro, um mutante com corpo de aço. Já o visual de Negasonic é alvo de diversas piadas por parte de Deadpool, bem como os comportamentos desta adolescente que é constantemente comparada a Sinéad O'Connor, embora os poderes da jovem e de Colossus sejam uma ajuda relevante para o protagonista no último terço do filme. Não poderia faltar o confronto entre Ajax e Deadpool, bem como o facto do primeiro colocar Vanessa em perigo, algo que obriga o protagonista a voltar a contactar com a amada, com o último terço a ser pontuado por imensas cenas de acção, algum humor e romance (ou algo que se pareça a romance). Diga-se que "Deadpool" não poupa nas cenas de acção, com algumas a resultarem, enquanto outras surgem como disparos ao lado, sobretudo quando o CGI não convence. Tim Miller aposta imenso na técnica bullet time, enquanto nos deixa diante de tiroteios, lutas corpo a corpo e coloca-nos diante de um anti-herói delirante, que tem a sua primeira oportunidade para sobressair a sério no cinema (esqueçamos temporariamente "X-Men Origins: Wolverine"). A interacção entre Deadpool e os vários personagens que o rodeiam é essencial para o filme funcionar, com o mercenário a apresentar uma mente saudavelmente doente, enquanto nos diverte imenso pelo caminho com as suas falas e gestos politicamente incorrectos. Não faltam piadas de cariz sexual, diversas referências que remetem para a cultura pop (desde "Star Wars" a "The Lord of the Rings", passando pelos filmes de super-heróis e "Taken", até "Closer" e "Voltron"), com "Deadpool" a não poupar nada nem ninguém, com o humor a ser um dos pontos altos do filme. Pontuado por diversos momentos marcados pela estupidez, embora não seja totalmente desprovido de inteligência, "Deadpool" sabe perfeitamente aquilo que está a fazer, ou seja, tentar divertir o espectador, enquanto oferece algo que varia entre o convencional e o irreverente, com Tim Miller a realizar uma obra cinematográfica que, apesar das suas fragilidades, supera possíveis desconfianças iniciais e desperta imensos risos, surgindo como uma lufada de ar fresco no panorama dos filmes do género.

Título original: "Deadpool".
Realizador: Tim Miller.
Argumento: Rhett Reese e Paul Wernick.
Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed Skrein, Gina Carano, T.J. Miller, Leslie Uggams, Brianna Hildebrand.

Trailer de "Deadpool":

24 julho 2016

Novo trailer de "Doctor Strange"

 Foi divulgado um novo trailer de "Doctor Strange". O trailer foi lançado no âmbito da divulgação do filme na San Diego Comic-Con 2016.

"Doctor Strange" é realizado por Scott Derrickson, através do argumento de Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer, Jon Spaihts e C. Robert Cargill. O filme conta no elenco como Benedict Cumberbatch, Tilda Swinton, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, entre outros. Cumberbatch vai interpretar o protagonista, enquanto Swinton vai dar vida à sua mentora. Ejiofor vai interpretar o Baron Mordo.

"Doctor Strange" é um personagem da Marvel criado por Stan Lee e Steve Ditko. O personagem do título é um cirurgião arrogante que perdeu a capacidade de utilizar as mãos num acidente de carro, algo que o conduz a partir em busca de uma cura. Este encontra a redenção ao tornar-se no maior mago do universo da Marvel.

"Doctor Strange" estreia a 4 de Novembro de 2016 nos EUA.



23 julho 2016

"Fantastic Beasts and Where to Find Them" - Comic-Con Trailer

 A Warner Bros. continua a lançar online os trailers exibidos originalmente na Comic-Con e nós agradecemos (ou, pelo menos, este blogger). Foi divulgado um novo trailer da adaptação cinematográfica de "Fantastic Beasts and Where to Find Them". O trailer pode ser visto no final do post.

 O filme é realizado por David Yates, através do argumento de J.K. Rowling. "Fantastic Beasts and Where to Find Them" conta no elenco com Eddie Redmayne como Newt Scamander; Katherine Waterston como Tina; Alison Sudol como a irmã de Tina; Dan Fogler como Jacob; Ezra Miller como Credence; Samantha Morton como Mary Lou; Jenn Murray como Chastity; Faith Wood-Blagrove como Modesty; Colin Farrell como Graves.

O livro escrito por J.K. Rowling cataloga setenta e cinco espécies de criaturas mágicas que se encontram distribuídas pelos cinco continentes. O filme centra-se em Newt Scamander, o autor ficcional do livro, com os eventos a ocorrerem cerca de setenta anos antes do início da jornada de Harry Potter.
 
 "Fantastic Beasts and Where to Find Them" estreia a 18 de Novembro de 2016 nos EUA.

Trailer de "King Arthur: Legend of the Sword". Rei Artur "à la Guy Ritchie"

 Já se encontra online o primeiro trailer de "King Arthur: Legend of the Sword". O trailer foi divulgado no âmbito da edição de 2016 da San Diego Comic-Con.
 
"King Arthur: Legend of the Sword" é realizado por Guy Ritchie ("The Man From U.N.C.L.E."), através do argumento do próprio, Lionel Wigram e Joby Harold. O filme conta no elenco com Charlie Hunnam, Jude Law, Annabelle Wallis, Djimon Hounsou, Eric Bana, Astrid Bergès-Frisbey, Katie McGrath, entre outros.

 O argumento do filme é baseado nas lendas do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Vale a pena recordar que o estúdio pretende utilizar este filme para iniciar uma nova franquia.

 "King Arthur: Legend of the Sword" estreia a 24 de Março de 2017 nos EUA.

"Kong: Skull Island" - Comic-Con Trailer

 Dia em grande a nível de lançamento de trailers, com a Warner Bros. a revelar-se particularmente activa. Desta vez foi "Kong: Skull Island" a ganhar um trailer, com o vídeo promocional a exibir um pouco o famoso King Kong. O trailer foi divulgado inicialmente na edição de 2016 da San Diego Comic-Con.
 
O filme é realizado por Jordan Vogt-Roberts ("The Kings of Summer"), através do argumento de Derek Connolly ("Jurassic World"), Max Borenstein ("Godzilla"), John Gatins ("Flight") e Dan Gilroy ("Nightcrawler"). "Kong: Skull Island" conta no elenco com J.K. Simmons, Tom Hiddleston, Brie Larson, Tom Wilkinson, John Goodman, Samuel L. Jackson, Corey Hawkins, entre outros.

 "Kong: Skull Island" acompanha uma equipa de exploradores que se envolve na mítica ilha do título. O filme estreia a 10 de Março de 2017 nos EUA.

"Suicide Squad" - Comic-Con Trailer

 Foi divulgado um novo trailer de "Suicide Squad". O vídeo promocional foi lançado originalmente na edição de 2016 da San Diego Comic-Con.

O filme é realizado por David Ayer, através do argumento do próprio. "Suicide Squad" conta no elenco com Will Smith, Margot Robbie, Jared Leto, Jai Courtney, Cara Delevingne, Joel Kinnaman, Common, Viola Davis, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Scott Eastwood, entre outros.

Sinopse: Reunir uma equipa com os mais perigosos, até agora encarcerados, Super Vilões do mundo, armá-los com o mais poderoso arsenal à disposição do governo e enviá-los numa missão para derrotar uma enigmática e invencível entidade: eis a missão que a agente Amanda Waller determinou só poder ser levada a cabo por um grupo secreto e variado de indivíduos desprezíveis, com pouco ou nada a perder – o Esquadrão Suicida. No entanto, assim que os seus membros percebam que não foram escolhidos pela possibilidade do sucesso mas antes pela sua fácil culpabilidade se falharem a missão, irá o Esquadrão tentar chegar ao fim ou será cada um por si?

"Suicide Squad" estreia a 5 de Agosto de 2016 nos EUA.



Batman, Flash, Aquaman, Cyborg, Wonder Woman e companhia no primeiro trailer de "Justice League"

A Warner Bros. continua a lançar online algum do material promocional que tem sido divulgado na edição de 2016 da San Diego Comic-Con. Nesse sentido, o estúdio decidiu lançar o primeiro trailer de "Justice League" (e abrir o apetite dos fãs dos filmes do género). O trailer procura apresentar alguns dos integrantes do grupo do título, tais como Batman, Wonder Woman, Flash, Aquaman, Cyborg, entre outros. Diga-se que o vídeo promocional procura ainda exibir de forma clara que "Justice League" vai contar com um tom mais leve do que "Batman V Superman: Dawn of Justice". O filme é realizado por Zack Snyder, através do argumento de Chris Terrio. "Justice League" conta no elenco com Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Jason Momoa, Ezra Miller, Ray Fisher, Amy Adams, J. K. Simmons, Jeremy Irons, Amber Heard, Willem Dafoe, entre outros. O filme estreia a 17 de Novembro de 2017 nos EUA.



"Wonder Woman" - Comic-Con Trailer

A Warner Bros. Pictures divulgou o primeiro trailer de "Wonder Woman". O trailer foi lançado na edição de 2016 da San Diego Comic-Con. "Wonder Woman" é realizado por Patty Jenkins, através do argumento de Allan Heinberg e Geoff Johns. O filme conta no elenco com Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Connie Nielsen, David Thewlis, Elena Anaya, entre outros. "Wonder Woman" estreia a 2 de Junho de 2017 nos EUA.

22 julho 2016

Awaken the King - Divulgado um poster de "Kong: Skull Island"

 Belo dia para quem gosta de posters, ou anda sedento de novidades em relação a algumas obras cinematográficas. Desta vez foi "Kong: Skull Island" que ganhou um novo poster. Via Kong: Skull Island.

O filme é realizado por Jordan Vogt-Roberts ("The Kings of Summer"), através do argumento de Derek Connolly ("Jurassic World"), Max Borenstein ("Godzilla"), John Gatins ("Flight") e Dan Gilroy ("Nightcrawler"). "Kong: Skull Island" conta no elenco com J.K. Simmons, Tom Hiddleston, Brie Larson, Tom Wilkinson, John Goodman, Samuel L. Jackson, Corey Hawkins, entre outros.

 "Kong: Skull Island" acompanha uma equipa de exploradores que se envolve na mítica ilha do título. O filme estreia a 10 de Março de 2017 nos EUA.

Newt Scamander a caminho da Comic-Con - Divulgado um novo poster de "Fantastic Beasts and Where to Find Them"

 Newt Scamander está a caminho da San Diego Comic-Con, ou melhor, Eddie Redmayne e companhia. Foi divulgado um novo poster da adaptação cinematográfica de "Fantastic Beasts and Where to Find Them". O poster foi elaborado especificamente para divulgar o filme na San Diego Comic-Con 2016 (e não só). Poster via Coming Soon.

 O filme é realizado por David Yates, através do argumento de J.K. Rowling. "Fantastic Beasts and Where to Find Them" conta no elenco com Eddie Redmayne como Newt Scamander; Katherine Waterston como Tina; Alison Sudol como a irmã de Tina; Dan Fogler como Jacob; Ezra Miller como Credence; Samantha Morton como Mary Lou; Jenn Murray como Chastity; Faith Wood-Blagrove como Modesty; Colin Farrell como Graves.

O livro escrito por J.K. Rowling cataloga setenta e cinco espécies de criaturas mágicas que se encontram distribuídas pelos cinco continentes. O filme centra-se em Newt Scamander, o autor ficcional do livro, com os eventos a ocorrerem cerca de setenta anos antes do início da jornada de Harry Potter.
 
 "Fantastic Beasts and Where to Find Them" estreia a 18 de Novembro de 2016 nos EUA.

Charlie Hunnam como Rei Artur no poster de "King Arthur: Legend of the Sword"

 Foi divulgado o primeiro poster de "King Arthur: Legend of the Sword". O poster centra-se no Rei Artur aka Charlie Hunnam. Poster via Coming Soon.

"King Arthur: Legend of the Sword" é realizado por Guy Ritchie ("The Man From U.N.C.L.E."), através do argumento do próprio, Lionel Wigram e Joby Harold. O filme conta no elenco com Charlie Hunnam, Jude Law, Annabelle Wallis, Djimon Hounsou, Eric Bana, Astrid Bergès-Frisbey, Katie McGrath, entre outros.

 O argumento do filme é baseado nas lendas do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Vale a pena recordar que o estúdio pretende utilizar este filme para iniciar uma nova franquia.

 "King Arthur: Legend of the Sword" estreia a 24 de Março de 2017 nos EUA.

Wonder Gadot - Novo poster de "Wonder Woman"

Gal Gadot utilizou a sua conta do Twitter para divulgar o novo poster de "Wonder Woman". O poster centra-se na personagem do título. "Wonder Woman" é realizado por Patty Jenkins, através do argumento de Allan Heinberg e Geoff Johns. O filme conta no elenco com Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Connie Nielsen, David Thewlis, Elena Anaya, entre outros. "Wonder Woman" estreia a 2 de Junho de 2017 nos EUA.

Resenha Crítica: "99 Homes" (99 Casas)

 Os momentos iniciais de "99 Homes", a quinta longa-metragem realizada por Ramin Bahrani, colocam o espectador diante de um cenário desolador, com o cineasta a provocar desde logo o choque ao exibir o corpo de um indivíduo que cometeu suicídio ao saber que chegou o dia do arresto da sua casa. Estamos no âmbito da ficção, embora "99 Homes" tenha como pano de fundo as consequências do rebentamento da bolha imobiliária nos EUA, algo que ocorreu entre 2007 e 2008 (a narrativa decorre em 2010), com o enredo a desenrolar-se primordialmente no território de Orlando, na Florida, um local bastante afectado por esta crise. Imensas casas são arrestadas, diversas famílias perdem os seus lares, alguns corretores imobiliários lucram com a situação, bem como outros elementos que gravitam à volta destes últimos, com "99 Homes" a abordar toda esta problemática sem procurar soluções fáceis ou confortáveis. O cenário inicial é desolador, com a família do falecido a encontrar-se em pânico, enquanto Richard Carver (Michael Shannon), um corretor imobiliário, procura despachar todo este imbróglio, encontrando-se acompanhado pelos representantes das autoridades. Carver demonstra uma frieza surpreendente, indo ao ponto de fazer piadas com a situação, com Michael Shannon a compor um personagem que é implacável nos negócios relacionados com as casas arrestadas, parecendo demasiado consumido pelo poder e pelos luxos proporcionados por estas negociatas, embora também conte com os seus receios e fragilidades emocionais. Diga-se que Carver joga com as condições do mercado imobiliário, bem como com as regras dos bancos e do Governo dos EUA, enquanto lucra imenso com a desgraça alheia. Para Richard, as casas não passam de "caixotes", com o empresário a apresentar um desapego latente em relação às habitações. No entanto, Ramin Bahrani faz questão de contrariar este personagem logo no início do filme, em particular, ao exibir a casa do elemento que cometeu suicídio, um espaço dotado de um conjunto de objectos com enorme valor sentimental. Os momentos iniciais são marcados por um plano de longa duração, onde podemos observar quer o corpo do falecido, quer as autoridades, quer Carver, bem como a decoração da habitação do proprietário deste espaço arrestado. A habitação conta com diversas fotografias de família, uma série de objectos pessoais e uma decoração muito própria, ou seja, reflecte o valor sentimental deste espaço para aqueles que o possuíam, com "99 Homes" a expor que muitos destes elementos não só perdem o seu lar mas também um "pedaço" das suas vidas. O trabalho exímio na decoração dos cenários permite atribuir ainda mais credibilidade ao apego que diversos personagens evidenciam em relação às suas casas, com estes espaços a contarem não só com valor material mas também com valor sentimental, algo que dificulta ainda mais a contingência de perder a habitação de forma forçada. 

 Quem também perde a sua casa é Dennis Nash (Andrew Garfield), o protagonista de "99 Homes", um trabalhador da construção civil que é despejado de forma implacável. A casa pertence a Lynn (Laura Dern), a mãe de Dennis, uma cabeleireira que utiliza a habitação como local de trabalho, embora um empréstimo bancário no valor de oitenta mil dólares, contraído pelo protagonista, coloque a propriedade em risco de ser arrestada. O sector onde Dennis trabalha está em crise, em particular, a construção civil, bem como as finanças deste pai solteiro que tem de sustentar o seu filho, o jovem Connor (Noah Lomax). Dennis habita com Connor e Lynn, com estes a serem despejados de forma desumana, após o primeiro falhar o pagamento de três prestações bancárias, algo exposto de forma crua por Ramin Bahrani. Veja-se quando encontramos Dennis e Lynn a procurarem retirar alguns bens de forma rápida, até o recheio da casa ser despejado para a parte exterior da habitação, com o desespero dos personagens interpretados por Andrew Garfield e Laura Dern a ser latente. Os movimentos de câmara adensam essa inquietação, bem como a banda sonora, o trabalho de montagem e os gestos dos actores, com Andrew Garfield a expor a revolta de Nash, enquanto Michael Shannon transmite a indiferença com que Carver encara o despejo, com o corretor imobiliário a apresentar um discurso de circunstância que é simultaneamente frio e paternalista. Perante a perda da casa, Dennis, Lynn e Connor não têm praticamente outra solução para além de irem habitar num quarto diminuto de um motel barato. O espaço do motel permite que Ramin Bahrani exponha o choque da família de Dennis em relação à nova realidade, bem como o número elevado de pessoas que foram despejadas das suas casas, com o estabelecimento a contar com uma miríade de arrendatários que perderam as suas habitações para os bancos, após terem entrado em incumprimento para com as entidades bancárias. É o oposto ao "american dream", com uma fatia importante da população a deparar-se com a perda das suas casas e do seu emprego, uma situação que conduz Dennis Nash a envolver-se numa actividade profissional improvável. Numa reviravolta inesperada, Dennis começa a trabalhar para Richard Carver, uma situação aparentemente improvável no início do filme, sobretudo devido ao facto do segundo ter contribuído para o primeiro perder a casa, embora as parcas condições financeiras do protagonista e a dificuldade em encontrar emprego ajudem a explicar esta parceria laboral improvável. A atitude trabalhadora e profissional de Dennis agrada a Richard, com o primeiro a efectuar pequenas obras até começar a trabalhar no negócio de arresto de casas e a assumir uma postura semelhante ao segundo, com "99 Homes" a entrar por um caminho surpreendente e intrincado. O dilema moral existe, algo latente quando Dennis esconde inicialmente a identidade da sua entidade empregadora e a sua profissão da mãe e do filho, embora o salário seja demasiado apelativo para que o protagonista consiga resistir à tentação de efectuar um "acordo com o Diabo". Seria possível resistir? É provável que sim, mas também seria algo improvável de acontecer, com Dennis a ser praticamente obrigado a escolher este caminho, enquanto o destino revela toda a sua ironia.

 O personagem interpretado por Andrew Garfield sofreu na pele a perda da habitação e a humilhação inerente ao processo do despejo, embora acabe por contribuir para que outros elementos se deparem com situações do género. Dennis não apresenta uma adaptação imediata à profissão, algo visível no desconforto que denota quando tem de efectuar o primeiro despejo, com o rosto de Andrew Garfield a explanar esse sentimento. O protagonista encara este ofício como um meio para conseguir uma condição financeira relativamente segura, pensando inicialmente em comprar a casa que perdeu, embora, aos poucos, os comportamentos de Dennis pareçam demasiado influenciados pela frieza do meio do qual começa a fazer parte. Dennis parece ficar gradualmente mais à vontade com a nova profissão, conseguindo aproveitar-se de algumas vantagens da mesma, até constatar que este ofício acarreta uma miríade de perigos e exige um controlo emocional acima da média, com o protagonista a nem sempre conseguir manter o sangue frio, algo latente no último terço de "99 Homes". Nash fica numa espécie de zona cinzenta, enquanto forma uma estranha relação de respeito, ou de mestre e pupilo, com Carver, algo que é bem aproveitado por Ramin Bahrani. Carver alcançou uma fortuna considerável ao envolver-se no negócio das casas arrestadas, assumindo quase sempre uma postura mais fria e ponderada do que Nash, com o personagem interpretado por Michael Shannon a parecer não olhar a meios para atingir os fins. Michael Shannon é fundamental para Carver funcionar no interior da narrativa, bem como a sensibilidade de Ramin Bahrani a abordar as temáticas, com o corretor imobiliário e Nash a não serem representados como figuras unidimensionais, bem pelo contrário. Shannon desarma-nos por completo quando Carver exibe uma postura afável junto das filhas, com o actor a transmitir quer o lado implacável e imoral do corretor imobiliário, quer a faceta protectora quando se encontra junto das petizes. Diga-se que Nash também apresenta um enorme zelo em relação ao filho, embora nem sempre pareça compreender que o jovem ainda não tem maturidade para perceber todas as transformações que ocorrem no seu quotidiano. Os personagens interpretados por Andrew Garfield e Michael Shannon pertencem a grupos sociais distintos, embora o primeiro comece a galgar terreno quando assume praticamente a função de "pupilo" do segundo, apesar de não ter a frieza do corretor imobiliário. Nash e Carver apresentam inicialmente diversas diferenças, algo latente na forma de se vestirem (Nash utiliza roupas mais simples, enquanto Carver aparece quase sempre com vestimentas mais fomais), de fumarem (o personagem interpretado por Andrew Garfield fuma tabaco, enquanto o corretor imobiliário anda quase sempre acompanhado de cigarros electrónicos) e dialogarem (o antigo trabalhador da construção civil apresenta um estilo mais simples, algo que diverge da faceta sardónica e ríspida do personagem interpretado por Michael Shannon), entre outros exemplos, embora o primeiro comece a inserir-se, ainda que de forma gradual, no mundo do segundo. Andrew Garfield e Michael Shannon contribuem e muito para elevar os diálogos entre Nash e Carver, embora fique particularmente na memória uma troca de palavras sincera quando ambos se encontram relativamente embriagados, após uma festa organizada pelo corretor imobiliário. Tanto Nash como Carver exibem os seus receios em relação à profissão que praticam, com o segundo a estar habituado às ameaças à sua integridade física, enquanto o primeiro encara esta situação como uma desagradável surpresa que parece trazê-lo de volta para a realidade. No entanto, se Carver não parece ter um travão nas suas ambições, procurando aproveitar-se de todas as brechas legais, já Nash começa a demonstrar que não está disposto a tudo para enriquecer, sobretudo a partir do momento em que Lynn e Connor descobrem a sua profissão. Laura Dern interpreta o barómetro moral do protagonista, uma mulher de personalidade forte, que cuida do neto com apreço, com a actriz a conseguir sobressair como esta personagem secundária que a espaços ganha alguma relevância. Connor é uma das maiores preocupações do protagonista, algo que ajuda e muito a explicar algumas das decisões de Dennis, embora este último nem sempre pareça compreender os seus familiares.

 A certa altura de "99 Homes", Ramin Bahrani deixa-nos diante de um plano de Dennis Nash a observar a piscina da sua nova casa, após descobrir que a mãe e o filho decidiram abandonar este local. É uma imagem fortíssima, com a solidão de Dennis a ser representada de forma paradigmática, bem como o facto deste perceber a desilusão que provocou junto daqueles que o amam. A habitação que Nash adquiriu, após desistir da ideia de comprar a casa que perdera, é mais um exemplo da forma paradigmática como Ramin Bahrani volta a utilizar os cenários ao serviço do enredo, com este espaço a surgir como o símbolo do descontrolo do protagonista, com o seu novo lar a assemelhar-se bastante ao espaço habitacional de Richard Carver (algo que não parece ser obra do acaso). A própria exposição dos cenários exteriores permite exacerbar o número elevado de casas que se encontram prestes a ser arrestadas, enquanto "99 Homes" nos deixa diante de uma miríade de figuras que perdem as habitações. Nash esteve do lado de quem perdeu a casa e ironicamente começa a ganhar a vida a contribuir para que outros elementos sejam despejados e expulsos das suas habitações, uma ironia que este certamente preferia ter evitado, embora seja impossível de condenar. Este percebe que o sistema que o rodeia é corrupto, algo que o conduziu a perder a casa, ao não contar com apoio legal, embora acabe por contribuir para mais situações do género. O que faríamos na mesma situação do protagonista? É muito provável que optássemos pela mesma solução de Nash, com "99 Homes" a colocar-nos diante de um indivíduo que acima de tudo precisa de pagar as suas contas. "99 Homes" aborda ainda temáticas como a incapacidade do Governo em proteger os cidadãos que se encontram em situações mais frágeis, a facilidade com que se concediam empréstimos bancários, bem como o desemprego, as desigualdades sociais e a necessidade de diversos elementos terem de mudar de rumo a nível profissional, entre outras. Carver lucrou imenso com a crise, embora não tenha pejo em colocar o dedo na ferida em relação a alguns problemas que contribuíram para toda esta situação: "Putting people in homes, speculating on property, that was my job. Now, in 2006 Robert and Julia Tanner borrowed $30,000 to put an enclosed patio on their home that they had somehow managed to live without for 25 years. Why don't you ask them about that when they're spitting in your face while you walk 'em to the kerb? Why don't you ask the bank what they were thinking giving them an adjustable-rate mortgage? Then you can go to the government and ask why they lifted every regulation and sat there like a retarded stepchild. You, Tanner, the banks, Washington, every other homeowner and investor from here to China turned my life into evictions (...)". Estas palavras exibem paradigmaticamente aquilo que o empresário pensa, mas também a situação complexa que rodeia estes personagens, com Ramin Bahrani a não optar por soluções fáceis, enquanto expõe a corrupção moral que pontua alguns sectores da nossa sociedade.

"99 Homes" não esconde que é uma obra cinematográfica de forte pendor social, com Ramin Bahrani a envolver-se pelo interior de uma realidade incómoda e cruel, enquanto procura colocar o espectador a pensar sobre as temáticas abordadas e alertar o mesmo para algo que se encontra a acontecer. Diga-se que o contexto que envolve a narrativa é inspirado em factos reais, ou a crise financeira e do mercado imobiliário não tivesse contribuído para a perda de um número elevado de lares, com Ramin Bahrani a expor esta situação sem grandes contemplações. Bahrani concede ainda uma atenção indelével ao desenvolvimento dos personagens, com Andrew Garfield a beneficiar e muito do bom argumento que tem à sua disposição, enquanto assistimos à entrada de Nash num mundo de que certamente não pretenderia fazer parte, embora o dinheiro fale mais alto, pelo menos a nível inicial. Nash é um indivíduo simples, que parece contar com uma relação relativamente próxima com a mãe e o filho, embora, aos poucos, comece a lidar com toda uma realidade marcada pela frieza, algo que afecta os seus gestos, com Andrew Garfield a ter espaço para compor um personagem complexo, enquanto brinda o espectador com uma interpretação de bom nível. Pontuado por interpretações de bom nível de Michael Shannon e Andrew Garfield, um desenvolvimento eficaz das temáticas abordadas, uma utilização assertiva do trabalho de câmara para adensar a inquietação em volta de alguns acontecimentos, "99 Homes" surge como um drama competente, dotado de uma atmosfera próxima de um thriller e uma realização bastante segura de Ramin Bahrani, com o cineasta a envolver-se no interior das consequências da crise do mercado imobiliário e financeiro dos EUA, enquanto coloca o espectador e o protagonista diante de uma miríade de dilemas morais.

Título original: "99 Homes".
Título em Portugal: "99 Casas".
Realizador: Ramin Bahrani.
Argumento: Ramin Bahrani e Amir Naderi.
Elenco: Andrew Garfield, Michael Shannon, Laura Dern, Connor Nash.

21 julho 2016

"Snowden" - Divulgado o trailer lançado na San Diego Comic-Con 2016

 Foi divulgado um novo trailer de "Snowden", um filme biográfico sobre Edward Snowden. O trailer foi exibido originalmente na edição de 2016 da San Diego Comic-Con.

O filme é realizado por Oliver Stone, através do argumento do próprio e Kieran Fitzgerald. O argumento do filme biográfico foi baseado nos livros “Os ficheiros Snowden: a história secreta do homem mais procurado do mundo” de Luke Harding e “Time of the Octopus” de Anatoly Kucherena. "Snowden" conta no elenco com Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Scott Eastwood, Ben Schnetzer, Nicolas Cage, Melissa Leo, Zachary Quinto, Tom Wilkinson, Rhys Ifans, entre outros.

Sinopse de "Snowden": Quando Edward J. Snowden desvendou o programa secreto de vigilância mundial da NSA (Agência de Segurança Nacional Americana), simultaneamente abriu os olhos do mundo e fechou as portas do seu próprio futuro - desistindo da sua carreira, da sua namorada de longa data, e da sua terra natal. O que levou Edward Snowden a perpetrar a maior divulgação de documentos classificados na história mundial?

"Snowden" estreia a 16 de Setembro de 2016 nos EUA. O filme estreia em Portugal a 22 de Setembro de 2016.

Resenha Crítica: "Mediterranea" (2015)

 Estreia de Jonas Carpignano na realização de longas-metragens, "Mediterranea" surge como um drama relevante sobre os migrantes que atravessam o deserto do Sáara e o Mar Mediterrâneo para chegarem a Itália, com o cineasta a abordar a temática com uma mescla de optimismo e pessimismo, enquanto desfere alguns murros no estômago do espectador e dos personagens. A temática dos imigrantes clandestinos que se deslocam para alguns países da Europa em busca de melhores condições de vida continua na ordem do dia e a despertar as opiniões mais díspares (algumas a roçar a xenofobia), com Jonas Carpignano a realizar uma obra cinematográfica que deveria ser de visualização obrigatória quer para os cidadãos que recebem migrantes no seu país, quer para os elementos que partem em busca de uma aventura que pode correr muito mal. É, também, um retrato sobre a intolerância, com "Mediterranea" a abordar o racismo de alguns elementos em relação aos migrantes, bem como as dificuldades que os imigrantes ilegais encontram para se conseguirem integrar no interior da sociedade da qual sonharam fazer parte. Diga-se que não é preciso visionarmos "Mediterranea" para nos apercebermos da intolerância em relação aos migrantes e aos homens e mulheres de religião muçulmana, com as redes sociais a serem um "antro" de tesourinhos deprimentes, bem como a aderência despertada por candidatos políticos como Donald Trump ou Marine Le Pen. No caso de "Mediterranea", Jonas Carpignano utiliza a ficção para abordar algumas problemáticas inerentes à imigração ilegal e aos refugiados, com o cineasta a explorar temáticas como as dificuldades de integração, a xenofobia, a procura de encontrar melhores condições de vida, as situações extremas com que os migrantes são confrontados, sempre sem esquecer de expor que estamos diante de uma sociedade supostamente globalizada, com as redes sociais, a música e os aparelhos electrónicos a terem um papel importante no quotidiano dos dois protagonistas, uma situação que contribui para que a dupla forme uma ideia errada da Europa e da vida em Itália. "Mediterranea" deixa-nos diante de Ayiva (Koudous Seihon) e Abas (Alassane Sy), dois amigos de longa data, que partem do Burkina Faso em direcção a Itália, tendo em vista a lutarem por melhores condições de vida. A jornada que antecede a chegada de Ayiva e Abas a Itália é atribulada, com estes a contarem com a companhia de diversos migrantes, enquanto atravessam países, caminham pelo deserto, são assaltados, lidam com mentiras e mortes inesperadas, com a entrada na Europa a estar longe de ser pontuada pela felicidade. A morte é o destino de imensos migrantes ilegais, com "Mediterranea" a não esconder essa realidade, algo que conduz Ayiva a tentar evitar que a irmã e a filha se desloquem para Itália em condições precárias. Carpignano expõe de forma precisa e concisa algumas das dificuldades que os protagonistas enfrentam até chegarem ao destino pretendido, bem como a crueza que envolve toda esta jornada, embora o cineasta pareça estar sempre mais interessado em abordar o choque que a dupla sente ao deparar-se com uma realidade hostil em Itália. Ayiva e Abas conseguem um visto de três meses, com ambos a terem de conseguir um contrato de trabalho antes desse prazo terminar, uma tarefa que parece deveras difícil de concretizar. As dificuldades sentidas por estes dois migrantes são mais do que muitas, com Ayiva a ter de optar por alguns actos que certamente não o deixarão orgulhoso, tais como roubar uma mala para tentar vender um mp3 e ficar com a roupa que se encontra no interior da mesma, enquanto Abas assume uma postura mais orgulhosa e hostil.

 Ayiva é pai de uma jovem de sete anos de idade, que se encontra a viver com a irmã do primeiro no Burkina Faso, com o pouco que o protagonista ganha em Itália a ser essencial para a família. Abas é um indivíduo relativamente mulherengo e arrogante, que apresenta um conjunto de atitudes mais ariscas do que Ayiva quando é confrontado com abusos de poder. A cumplicidade entre Ayiva e Abas é latente, com Koudous Seihon e Alassane Sy a transmitirem que existe uma amizade forte a ligar a dupla de protagonistas, apesar destes migrantes contarem com diferenças notórias a nível de personalidade. Em Itália, Ayiva e Abas contactam com uma série de conhecidos, embora fiquem praticamente a viver no meio da rua, até conseguirem encontrar trabalho, nomeadamente, a recolherem laranjas e a carregarem caixas. As condições de trabalho são miseráveis, com Ayiva e Abas a encontrarem-se a laborar de forma ilegal, bem como outros migrantes, apesar do primeiro cair nas boas graças de Rocco (Davide Schipilliti), o seu chefe, devido a estar sempre disponível para trabalhar. Ayiva chega a contactar com a família de Rocco e sonha conseguir um contrato de trabalho, mas o seu optimismo é constantemente rechaçado pela realidade. Rocco parece demonstrar uma certa abertura para com Ayiva, embora, num momento fulcral para o segundo, exponha que existem diferenças profundas a separá-los. O personagem interpretado por Davide Schipilliti parece contar com ligações com a máfia (algo que não é muito abordado, embora fique subentendido numa festa que organiza), com o crime a fazer parte do seu quotidiano, ou não explorasse regularmente os trabalhadores ilegais, apesar de a espaços apresentar uma ou outra amostra de humanidade. Diga-se que o crime é algo que parece marcar o território de Rosarno, uma comuna italiana da região da Calábria, com Abas e Ayiva a habitarem e trabalharem neste local. Veja-se o caso do jovem Pio (Pio Amato), um gangster em miniatura, que conta com cerca de dez anos de idade. Pio Amato é um dos vários elementos que se destacam no elenco de "Mediterranea", com o jovem a incutir um tom rebelde e decidido a este vendedor de produtos roubados. Quando encontramos Pio a fumar, ou a roubar bebidas alcoólicas, ou a vender produtos roubados, ou a dialogar como se fosse um adulto, percebemos que a crueza é algo impregnado neste território, com os próprios jovens a terem de gerar anticorpos para se safarem no interior desta região da periferia que está longe de ser aprazível. Essas dificuldades podem ajudar a explicar a rejeição de alguns elementos em relação aos migrantes, embora a situação seja bem mais complexa. O caso de Rocco é paradigmático dessa situação intrincada, com este personagem a representar os elementos que lucram com o facto de contarem com migrantes ilegais como trabalhadores, preferindo abusar do esforço dos mesmos ao invés de tentar legalizá-los. Temos ainda elementos que pura e simplesmente são xenófobos ou racistas, com Jonas Carpignano a procurar despertar a atenção para uma série de problemáticas que merecem ser alvo de reflexão e debate por parte do espectador. No território de Rosarno, Ayiva e Abas encontram alguns elementos conhecidos, tais como Mades (Adam Gnegne), um amigo de ambos, embora a vida deste indivíduo esteja longe de ser tão aprazível como este exibira no Facebook.

 As redes sociais contam com um papel relevante no interior da narrativa de "Mediterranea", com Jonas Carpignano a exibir que estas permitem transmitir ideias enganadoras, algo latente quando encontramos Ayiva a dialogar com a irmã e a filha, com este a procurar esconder as agruras pelas quais passou quando percebe que o dinheiro que enviou contribuiu e muito para o bem estar de ambas. É um dos momentos mais poderosos e comoventes de "Mediterranea", com Koudous Seihon a transmitir a alegria de Ayiva por conseguir dialogar com a filha, mas também a tristeza por não estar junto desta, enquanto exibe a incapacidade deste migrante em desabafar sobre as agruras com que se deparou em Itália. A certa altura, Zeina, a filha de Ayiva, começa a dançar ao som de "We Found Love" de Rihanna, utilizando o mp3 oferecido pelo pai. As lágrimas começam a descer pelo rosto de Ayiva, com este a desligar temporariamente a câmara do computador, enquanto Jonas Carpignano efectua um contraste entre o ritmo festivo da canção "We Found Love" e a tristeza do protagonista, com o cineasta a utilizar mais uma vez uma música popular ao serviço do enredo. Veja-se quando encontramos uma migrante a dançar ao som de "S&M" de Rihanna, ou a canção "Got to Love You" de Sean Paul e Alexis Jordan a invadir o ecrã, com Jonas Carpignano a saber utilizar a banda sonora ao serviço da narrativa, com as músicas a contrastarem muitas das vezes com a conclusão dos episódios que as acompanham. As músicas de Rihanna servem ainda para Carpignano expor o entusiasmo que a cantora desperta ao redor do Mundo, com o cineasta a abordar como a cultura pop influencia a população mundial, uma situação que parece ter contribuído para Ayiva e Abas criarem uma ideia completamente errada da Europa. Essa situação é visível quando a dupla sai com Mades e os amigos deste último e se deparam com um carro a avançar em alta velocidade, com os condutores a fazerem questão de voltar atrás para tentarem atropelá-los. O olhar de Ayiva transmite uma certa apreensão (Koudous Seihon não precisa de muitas palavras para exibir os sentimentos do personagem que interpreta), com este e Abas a conhecerem um dos primeiros dissabores no território, com "Mediterranea" a fazer questão de contrastar as pequenas conquistas dos protagonistas com os enormes revezes que conhecem ao longo do filme. Num determinado momento de "Mediterranea", encontramos Ayiva, Abas, Mades e um grupo de amigos a divertirem-se. Não falta uma migrante a dançar e a salientar que Rihanna é a sua irmã, muita música, diversão e consumo de álcool. O local onde estes homens e mulheres encontram-se reunidos é praticamente uma espelunca, mas aquilo que importa é que se encontram felizes. No entanto, tudo termina rapidamente quando as mulheres são chamadas para um "serviço", ou seja, prostituírem-se, com este a ser o destino mais provável para algumas migrantes ilegais. É mais um momento onde Carpignano mostra quer a camaradagem entre alguns migrantes, ou seja, algo positivo, quer as agruras que estes conhecem no território, com o cineasta a não efectuar um retrato unidimensional do quotidiano destes personagens em Rosarno.

 A escolha do território de Rosarno como cenário primordial da narrativa não parece ter sido efectuada ao acaso, com este espaço a conhecer uma entrada numerosa de migrantes, mas também episódios violentos, algo retratado em "Mediterranea". Veja-se os confrontos no último terço, ou as notícias de que alguns negros foram assassinados, uma situação que gradualmente gera revoltas impossíveis de controlar, com Jonas Carpignano a abordar uma série de temáticas que estão longe de poderem ser analisadas de forma linear, sobretudo quando nos questionamos sobre como reagiríamos numa situação similar àquela que é encontrada pelos protagonistas. Em "La Loi du Marché", o personagem interpretado por Vincent Lindon procura manter a dignidade e a compostura mesmo quando é confrontado com situações-limite. No caso de "Mediterranea", Ayiva procura manter algum optimismo e sobreviver num meio hostil onde a intolerância e a violência acabam por influenciar os comportamentos de tudo e todos. Diga-se que Rosarno conta com um historial de episódios de intolerância para com os migrantes, bem como de confrontos, com "Mediterranea" a abordar um protesto mais musculado por parte dos imigrantes clandestinos, após terem sido despejados e agredidos. A violência do protesto é exposta, com este acto a surgir como uma resposta a uma série de agressões e humilhações, embora Jonas Carpignano não aborde eficientemente as consequências políticas destas revoltas. Os excessos a nível dos movimentos de câmara nas cenas que envolvem o protesto também estão longe de ser os mais inspirados ou eficazes, com o trabalho de Wyatt Garfield na cinematografia a não primar pela subtileza. Carpignano e Garfield ficam a meio caminho entre a tentativa de atribuir um tom quase documental e "realista" a "Mediterranea" e trazer as atenções para o seu trabalho, com a câmara de filmar a parecer completamente descontrolada nos momentos dos protestos. No entanto, Jonas Carpignano é bem mais eficaz a expor uma situação que deveria ser relativamente fácil de perceber, ou seja, uma parte significativa destes migrantes procuram acima de tudo encontrar melhores condições de vida em relação ao meio onde habitavam, algo representado nos personagens interpretados por Koudous Seihon e Alassane Sy. "Mediterranea" beneficia ainda de contar com um elenco competente, composto maioritariamente por actores e actrizes não profissionais ou estreantes nestas lides, embora Koudous Seihon e Pio Amato já tivessem colaborado com Carpignano na curta-metragem "A Ciambra", com o cineasta a conseguir extrair boas interpretações por parte destes elementos, algo que permite elevar o enredo do filme. Koudous Seihon e Alassane Sy são os intérpretes que mais sobressaem, embora Pio Amato, Ousman Sabre (como o tio de Ayiva, o elemento que pagou parte da viagem do protagonista e de Abas para Itália) e Zakaria Kbiri (como Mehdi, um vendedor marroquino que ferve em pouca água) também se consigam destacar ao longo de "Mediterranea", um drama relevante, pontuado por temáticas que merecem reflexão, uma banda sonora poderosa e um argumento competente, com Jonas Carpignano a convencer na sua estreia na realização de longas-metragens.

Título original: "Mediterranea".
Título em Portugal: "Mediterreânea".
Realizador: Jonas Carpignano.
Argumento: Jonas Carpignano.
Elenco: Alassane Sy, Koudous Seihon, Pio Amato, Zakaria Kbiri, Ousman Sabre, Davide Schipilliti.

Trailer de "Mediterranea":

19 julho 2016

Resenha Crítica: "Demolition" (2015)

 Quem me conhece sabe que gosto de correr no parque cerca de três vezes por semana. O tempo nem sempre permite, ou a vontade, mas é uma forma deveras eficaz de combater o tédio ou o stress, ou pensar na escrita de textos como este. Quando a vontade é muita, ou o desejo de regressar cedo a casa é pouco, decido dar mais umas voltas no parque, apenas para ver se aguento o esforço acrescido. "Demolition", a nona longa-metragem realizada por Jean-Marc Vallée, trouxe-me à memória as célebres últimas voltas no parque, em particular, quando me digladio comigo próprio para concluir os meus objectivos com sucesso. A partir de um determinado momento, a meta que estabeleci em relação a "Demolition" passou por aguentar visionar o filme até ao final, algo que consegui concluir com sucesso, embora Jean-Marc Vallée bem se tenha esforçado para sabotar a minha tarefa. É certo que não saí tão desgastado como numa corrida, embora tenha ficado bem mais frustrado, com "Demolition" a surgir como um desastre em toda a linha. Temáticas como o luto, a depressão, a definição da orientação sexual, as relações familiares, são abordadas de forma estéril, pueril e sem a mínima densidade psicológica, com o argumento de Bryan Sipe a apresentar uma inépcia latente que apenas não ganha proporções mais desastrosas devido aos desempenhos de Jake Gyllenhaal e Naomi Watts, com a dupla a conceder alguma dignidade ao filme. As próprias opções de Jean-Marc Vallée estão longe de ser as mais inspiradas, com o cineasta a usar e abusar da narração em off, até este recurso se tornar cansativo e repetitivo, enquanto somos conduzidos de forma patética e destrambelhada ao desfecho esperado e açucarado. Quando encontramos o protagonista a pegar num martelo, tendo em vista a destruir a sua habitação, percebemos de forma paradigmática que apenas um actor de grande talento seria capaz de conseguir que esse momento não adquirisse um tom estapafúrdio. Jake Gyllenhaal quase que efectua esse milagre, mas não evita que muitas das situações de "Demolition" sejam simplesmente risíveis. A destruição remete para o facto do protagonista de "Demolition" levar demasiado a sério a mensagem de que por vezes é necessário destruir aquilo que nos prende ao passado para reconstruir a nossa existência, naquela que é mais uma das metáforas encaradas de forma literal pelo personagem principal e pelo filme. Jake Gyllenhaal interpreta Davis Mitchell, um banqueiro de investimento que trabalha na empresa de Phil (Chris Cooper), o seu sogro. No início de "Demolition", encontramos Davis a dialogar com a esposa (Heather Lind) no interior de um automóvel, com o casal a demonstrar que a relação já conheceu melhores dias. Tudo piora quando um carro atinge acidentalmente o bólide conduzido por Julia, a esposa de Davis, com esta a falecer, enquanto o protagonista apenas sofre uns arranhões. Phil fica devastado, enquanto Davis assume um conjunto de atitudes bizarras, parecendo inicialmente letárgico, bem como em negação, até decidir começar a "partir a loiça toda". Após receber a notícia de que a esposa faleceu, Davis tenta adquirir um pacote de M&M's numa máquina de vendas que se encontra no interior de uma das alas do hospital, embora não consiga obter o produto alimentar devido a uma anomalia do aparelho. A máquina fica com o dinheiro, o pacote de M&M's permanece no aparelho, enquanto o protagonista fica de bolsos a abanar.

 Davis decide escrever uma carta de reclamação e enviá-la para a empresa responsável pela gestão das máquinas. A missiva contém diversos pormenores relacionados com a vida de Davis, com o protagonista a parecer utilizar a mesma para desabafar, algo que se torna ainda mais notório quando decide enviar mais cartas para a Champion, a empresa que gere as máquinas de vendas do hospital. É através destas cartas, cujo conteúdo é exposto com recurso à narração em off, que descobrimos diversos elementos sobre o passado e o presente de Davis, com as missivas a exporem que a mente do protagonista encontra-se num estado caótico, enquanto parecem dar um estranho sentido à vida deste banqueiro. As cartas, ou melhor, os desabafos de Davis, mexem com os sentimentos de Karen Moreno (Naomi Watts), a representante do serviço de apoio ao cliente da Champion, com esta mulher a decidir entrar em contacto com o protagonista. Karen é uma mãe solteira que tem uma relação complicada com o filho (sim, "Demolition" utiliza uma miríade de lugares-comuns), o jovem Chris (Judah Lewis), um adolescente de quinze anos de idade que apresenta diversos sinais de rebeldia (eu avisei sobre os lugares-comuns). A personagem interpretada por Naomi Watts começa a dialogar por telefone com Davis, até se reunir com o mesmo, apesar de se encontrar envolvida com Carl (C.J. Wilson), o seu chefe, um indivíduo que não parece compreender totalmente esta mulher (ok, desisto de apontar os lugares-comuns de "Demolition", caso contrário o texto não avança). Por sua vez, Davis não conta com grandes amizades, ou pessoas de fora com quem desabafar, com Karen e Chris a trazerem algo novo à sua existência desprovida de algum sentido. "Demolition" não merecia Gyllenhaal e Watts, mas a verdade é que tem a dupla ao seu dispor, com o actor e a actriz a entregarem-se aos personagens que interpretam e a concederem alguma dimensão a situações que são abordadas de forma completamente pueril. Veja-se o possível envolvimento amoroso entre Davis e Karen, com Jean-Marc Vallée a não saber aproveitar as possibilidades inerentes à dinâmica convincente entre Jake Gyllenhaal e Naomi Watts. Diga-se que, tal como Davis, Vallée é muito mais rápido a destruir do que a construir algo útil, com o primeiro a decidir desconstruir objectos e partir casas para começar a descobrir mais sobre si próprio e os seus sentimentos, enquanto o segundo parece contar com um prazer especial em arrasar com a nossa boa vontade em relação a "Demolition". As atitudes erráticas de Davis são mais do que muitas, algo que o conduz a entrar em choque com o sogro, com este último a procurar abrir uma fundação em nome da filha para financiar bolsas de estudo para alguns estudantes. Chris Cooper transmite a dor do personagem que interpreta, embora o sogro do protagonista raramente evolua desde os momentos iniciais, com os seus comportamentos a serem praticamente os mesmos ao longo de "Demolition". Por sua vez, a esposa de Phil é chutada para um canto completamente secundário, com excepção de um momento onde efectua uma revelação relevante, embora Polly Draper nunca tenha espaço para criar uma personagem com dimensão (a revelação surge como mais um momento digno de uma telenovela mexicana dobrada em português do Brasil). Diga-se que C.J. Wilson também não tem espaço para compor um personagem com dimensão, com a relação entre Karen e Carl a ser completamente descurada. Já a relação entre Karen e Davis assume contornos peculiares, com este a procurar expor os seus sentimentos em relação à falecida, enquanto a primeira assume uma série de fragilidades emocionais, com as personalidades de ambos a parecerem completar-se. Naomi Watts consegue que acreditemos na personagem que interpreta, uma mãe solteira que é viciada em cannabis, com Karen a parecer incapaz de cuidar do filho, enquanto este último exibe uma personalidade difícil e um enorme apreço pela utilização da palavra "fuck". Diga-se que Davis forma uma relação de amizade com Chris, com ambos a protagonizarem episódios como disparos com armas, destruição de casas, enquanto o jovem exibe pelo caminho as suas dúvidas sobre a sua orientação sexual.

 A temática da homossexualidade de Chris é abordada sem a mínima complexidade ou profundidade, com Jean-Marc Valée e Bryan Sipe a revelarem ainda uma incapacidade gritante para inserirem o tema de forma orgânica no interior da narrativa. Diga-se que pouco ou nada é abordado de forma subtil ao longo de "Demolition", parecendo que Vallée e Sipe decidiram recorrer a todos os lugares-comuns possíveis, impossíveis e estapafúrdios para abordarem as temáticas e exacerbarem o melodrama. Veja-se o momento no carrossel, que ocorre no último terço de "Demolition", com este trecho a ser simplesmente ofensivo e escancaradamente manipulador, enquanto revela mais uma vez a incoerência dos envolvidos em relação ao tom do filme. O problema não reside na mescla de ingredientes de diversos géneros cinematográficos, mas sim na incompetência apresentada por Jean-Marc Vallée, com o cineasta a não conseguir utilizar estes elementos de forma orgânica ou minimamente coerente. Mesmo as cartas escritas por Davis acabam por se tornar num recurso preguiçoso para Vallée apresentar o protagonista e o estado de espírito do mesmo, com o realizador a usar e abusar da utilização da narração em off. Salvam-se Jake Gyllenhaal e Naomi Watts, bem como o trabalho efectuado na decoração das casas de Karen e Davis. A casa de Davis é moderna, apresenta largas dimensões e transmite uma frieza latente. A habitação de Karen é mais desorganizada e diminuta, embora transmita mais calor humano do que a casa de Davis. As dicotomias entre as habitações exacerbam o estilo de vida distinto de Davis e Karen, com esta última a ter um papel fundamental na vida do primeiro ao escutar o mesmo quando o banqueiro de investimento mais precisa. A relação entre Davis e Karen poderia e deveria ter sido mais aproveitada, bem como a amizade que se forma entre o primeiro e Chris, embora "Demolition" prefira utilizar boa parte das suas fichas a repetir que o protagonista precisa destruir para reconstruir, apesar dos métodos utilizados pelo personagem principal sejam acima de tudo ridículos. Davis parte casas, dança no meio da rua, é afastado do emprego, leva pancada, discute com o sogro, desmonta objectos, assume atitudes erráticas, coloca em causa os sentimentos que nutria pela esposa, ensina Chris a utilizar a palavra "fuck" de forma adequada, enquanto Jake Gyllenhaal procura dar alguma dignidade a este personagem. O humor é utilizado de forma estapafúrdia, os momentos melodramáticos são inseridos a martelo (a cena do protagonista no cemitério, o carrossel, os post-its deixados pela falecida), as recordações que Davis tem da esposa pouco ou nada acrescentam, com "Demolition" a conseguir ainda o "feito" de abordar temáticas relevantes com uma leveza e puerilidade surpreendentes. Veja-se o caso da descoberta que Chris efectua em relação à sua orientação sexual, ou a depressão de Davis e a incapacidade inicial do protagonista em demonstrar os seus sentimentos, ou a forma como o personagem interpretado por Judah Lewis parece encarar o protagonista como uma figura quase paternal, entre outros exemplos. Perto do final do filme, Chris escreve uma carta a Davis, onde consta o seguinte: "(...) P.S. Go fuck yourself". No final do filme fiquei na dúvida se esta não seria a grande mensagem de Jean-Marc Vallée para o espectador que aguentou ver "Demolition" até ao final.

Título original: "Demolition".
Título em Portugal: "Demolição".
Realizador: Jean-Marc Vallée.
Argumento: Bryan Sipe.
Elenco: Jake Gyllenhaal, Naomi Watts, Chris Cooper, Judah Lewis.