30 junho 2016

Seis críticas mais lidas - Primeiro semestre de 2016

1º - Resenha Crítica: "L'attesa" (A Espera)














2º -  Resenha Crítica: "Maresia" (2015)














3º - Resenha Crítica: "Batman v Superman: Dawn of Justice"














4º - Resenha Crítica: "Eye in the Sky" (2015)














5º - Resenha Crítica: "Mustang" (2015)














6º -  Resenha Crítica: "Steve Jobs" (2015)












Resenha Crítica: "8½" (1963)

 Quando conhecemos Guido Anselmi (Marcello Mastroianni), o protagonista de "8½", o quotidiano deste realizador de cinema encontra-se num estado caótico. Não faltam episódios do passado que são recordados no presente, sonhos, devaneios, ilusões, situações rocambolescas, pressões externas e internas, crises existenciais, bloqueios criativos, relacionamentos conturbados, com Guido Anselmi a parecer incapaz de encontrar inspiração e tranquilidade para desenvolver a sua nova obra cinematográfica. Guido é um realizador famoso, que se encontra instalado temporariamente numa estação termal, tendo em vista a efectuar tratamento para o corpo e para a alma, enquanto procura superar o bloqueio criativo que afecta a sua mente, algo que impede o desenvolvimento da sua nova obra cinematográfica. Aos quarenta e três anos de idade, Guido procura desenvolver um filme "sincero", inspirado em diversos episódios da sua vida, com Federico Fellini a parecer criar "8½" com base nas suas experiências pessoais e no seu trabalho como realizador e argumentista. Como superar um bloqueio criativo? Fellini lança a pergunta ao espectador, embora não tente responder paradigmaticamente à mesma, ou Guido não parecesse incapaz de ultrapassar esta fase complicada. Guido pretende realizar um filme que seja simultaneamente simples e sincero, com o cineasta a procurar seguir as suas ideias e incutir o seu cunho autoral, embora tarde em encontrar um rumo para a seu nova obra cinematográfica, algo que preocupa tudo e todos. Diga-se que, com o avançar de "8½" parece relativamente certo que Guido não sabe aquilo que pretende para o seu novo filme, com o protagonista a perder-se no interior das suas ideias e memórias, embora já conte com uma série de actores e actrizes contratados para participarem na obra cinematográfica, bem como um cenário construído a partir do zero, em particular, uma nave espacial (a ideia inicial passava por incutir elementos de ficção-científica ao filme, embora essa situação pareça ter sido totalmente descartada, apesar do realizador tardar em revelar a decisão ao produtor). A pressão exercida sobre Guido contribui para adensar as dificuldades sentidas pelo realizador, com o protagonista a parecer incapaz de tomar opções quer para o seu filme, quer para a sua vida pessoal, encontrando-se num labirinto difícil de sair, com Federico Fellini a explorar esta situação de forma criativa e exuberante. O produtor e financiador do filme (Guido Alberti) desespera e impacienta-se perante a falta de certezas, com Guido a não revelar aquilo que pretende efectuar para a sua nova obra cinematográfica, uma situação que seria praticamente impossível de acontecer nos dias de hoje. Guido representa um autor em crise, um artista que procura incutir sinceridade ao enredo da sua nova obra cinematográfica e transmitir esse sentimento para os seus espectadores, embora as suas inquietações e dúvidas pareçam incapacitá-lo de cumprir esse desiderato. O personagem interpretado por Marcello Mastroianni exaspera produtores, actores, actrizes, empresários, entre outros elementos que se encontram a trabalhar no desenvolvimento da obra cinematográfica, tais como Daumier (Jean Rougeul), um escritor e crítico de cinema que foi contratado pelo primeiro para efectuar anotações no argumento do filme que se encontra a ser desenvolvido por Guido.

Daumier personifica não só aqueles que criticam os trabalhos de Guido, mas também os críticos das obras cinematográficas de Federico Fellini, com o personagem interpretado por Jean Rougeul a surgir como uma figura arrogante e recheada de "certezas absolutas", embora tenha pouco sentido prático. Veja-se quando encontramos Daumier a questionar a estrutura narrativa caótica que Guido idealizou para o filme, bem como a puerilidade dos símbolos inseridos na história, tais como a presença de uma jovem misteriosa que surge nas proximidades de uma fonte (um símbolo de pureza que o protagonista procura encontrar, ainda que de forma Quixotesca). Guido aparece quase como um alter-ego de Federico Fellini, com este último a realizar uma obra cinematográfica onde aborda uma série de questões associadas aos seus filmes, ao processo de criação artística e ao trabalho do realizador. Não faltam as dificuldade inerentes à procura de expressar algo pessoal numa obra cinematográfica, as pressões no interior do set de filmagens, a tentativa de efectuar um filme relevante, os problemas pessoais que influenciam e muito no trabalho, entre outros exemplos, embora, ao contrário do protagonista, Federico Fellini apresente uma criatividade intensa e fervilhante. O final de "8½" demonstra paradigmaticamente essa criatividade e saudável loucura de Fellini, bem como a sua capacidade de nos surpreender, com o cineasta a criar uma obra cinematográfica brilhante, pronta a desafiar a nossa capacidade de interpretação e a estimular o debate. É muito mais do que um filme sobre um cineasta que tarda em tomar opções para a sua nova obra cinematográfica e para a sua vida, com Federico Fellini a abordar questões ligadas à psicologia, à religião, à arte, às relações matrimoniais, ao desejo, enquanto evita dar mais do mesmo ao espectador, com "8½" a surgir como uma experiência que nos marca de forma indelével. No entanto, regressemos a Guido, um cineasta atormentado, que parece incapaz de "cortar o nó górdio", com Federico Fellini a permitir que Marcello Mastroianni componha mais um personagem marcante. De cabelo grisalho, muitas das vezes de óculos escuros, Marcello Mastroianni consegue transmitir as incertezas, o cansaço e o estranho sentido de humor de Guido, com o actor a incutir carisma e dimensão a este cineasta que parece questionar tudo aquilo que alcançou (a fazer recordar Marcello, o personagem principal de "La dolce vita", quando aborda o rumo da sua carreira). Guido é um mulherengo que desperta facilmente a atenção das mulheres, embora nem sempre consiga demonstrar o afecto que nutre pelas figuras que marcam e marcaram a sua vida, algo paradigmaticamente representado na relação complicada entre o protagonista e Luisa (Anouk Aimée), a sua esposa. Num determinado momento do filme, Luisa expressa de forma bem viva que se encontra desgastada com os avanços e recuos da relação, com Guido a evidenciar constantemente o desejo de "começar tudo de novo", embora tarde em conseguir cumprir essa promessa. O matrimónio de Luisa e Guido está em risco de desabar por completo, com o protagonista a parecer incapaz de estar em paz consigo próprio, descurando pelo caminho aqueles que o rodeiam, algo latente nas relações com as figuras femininas. Veja-se o modo como Guido recebe Carla (Sandra Milo), a sua amante, com o protagonista a desejar esta mulher, embora descure constantemente a presença da mesma.

Carla é uma mulher casada, que gosta de cantar, conta com uma personalidade extrovertida, aprecia dar nas vistas, veste-se quase sempre como se fosse desfilar numa passagem de modelos, tendo decidido visitar Guido, embora este não apresente grande disponibilidade para estar junto desta figura feminina. O affair entre Guido e Carla está longe de atravessar uma fase fulgurante, tal como o casamento de Guido e Luisa. A relação entre Guido e Luisa traz à memória a crise no interior do casamento de Giovanni (Marcello Mastroianni) e Lidia (Jeanne Moreau), os protagonistas de "La Notte", um filme realizado por Michelangelo Antonioni. "La Notte" partilha diversas temáticas e elementos que constam nas obras cinematográficas de Michelangelo Antonioni como "L'Avventura", "L'eclisse" e "Il deserto rosso" que, em certa medida, podem ser encontrados em "8½". Não falta a alienação do ser humano diante do Mundo que o rodeia, a vacuidade da sociedade burguesa, o casal que atravessa uma crise, os planos de longa duração, os silêncios que tanto conseguem exprimir, um aproveitamento notável dos cenários exteriores e interiores, a atenção à arquitectura local, o sentimento de vazio que permeia a mente e o corpo do protagonista, a entrada em cena de figuras que nos surpreendem pela sua importância na narrativa, entre outros elementos. Guido permite que Federico Fellini volte a abordar o sentimento de alienação no espaço urbano, a mudança de valores na sociedade italiana após o chamado "milagre económico", algo possível de encontrar em "La Dolce Vita", com o cineasta a brindar o espectador com um enredo estimulante, inebriante e envolvente. A entrada e saída de personagens sucede-se em grande ritmo, com quase tudo e todos a ganharem alguma relevância, embora Guido seja o elemento essencial e fulcral da narrativa. O protagonista decidiu adiar o início das filmagens do seu novo filme, embora os quinze dias que pediu pareçam poucos, com Guido a ter de lidar com os seus receios, sonhos, devaneios, paixões e angústias. Os sonhos, as ilusões e os devaneios invadem a mente de Guido Anselmi. Um desses sonhos recorrentes incluem a presença de Claudia (Claudia Cardinale), uma mulher que aparece na mente de Guido, que este considera perfeita para o seu filme, surgindo como a jovem misteriosa mencionada por Daumier. Claudia Cardinale incute algum mistério a esta personagem de enorme beleza, que chega a aparecer na forma de uma actriz que dialoga com Guido, com Federico Fellini a jogar com as barreiras da narrativa, com os sonhos e as ilusões dos personagens a confundirem-se com aquilo que acontece na "realidade". O quotidiano de Guido é pontuado pelo contacto regular com um número alargado de personagens, algo inerente ao facto de quase toda a equipa do realizador se ter deslocado para as imediações do espaço onde este se encontra instalado, enquanto Federico Fellini explora esta situação para criar uma miríade de episódios memoráveis. O espaço das termas é marcado por um jardim de dimensões enormes, recheado de bancos, arvoredos, freiras que servem água benta, uma fonte e um conjunto alargado de pacientes. É no espaço das termas que Guido encontra Mario Mezzabotta (Mario Pisu), um amigo de longa data, que se encontra acompanhado de Gloria Morin (Barbara Steele), a namorada, uma estudante de filosofia e aspirante a actriz que apenas parece estar envolvida com este último devido ao dinheiro.

Barbara Steele interpreta uma das várias personagens de "8½" que contam com uma série de dilemas, contradições e problemas existenciais, com a actriz a ter espaço para sobressair, seja numa situação mais melindrosa onde proíbe que um amigo de Guido leia os seus pensamentos, ou num sonho extravagante do protagonista. Por sua vez, Anouk Aimée incute um tom desencantado a Luisa, uma mulher elegante, que sabe na perfeição quando o esposo está a mentir, ou o casamento de ambos não atravessasse uma crise indelével. Essa situação é paradigmaticamente demonstrada numa discussão entre Guido e Luisa, com esta última a perceber que o primeiro se encontra envolvido com Carla, ou quando a personagem interpretada por Anouk Aimée salienta que já não dançavam há cerca de um ano. Quem começa a perder gradualmente a confiança em Guido é o produtor e financiador interpretado por Guido Alberti, com o actor a conseguir exibir os nervos deste indivíduo que teme estar a investir dinheiro num caso perdido, ou melhor, num filme que ainda nem se encontra no papel. Essas dúvidas em relação ao argumento e ao conteúdo do mesmo também afectam Madeleine (Madeleine LeBeau), uma actriz francesa que não aprecia o facto de não saber como se deve preparar para compor a personagem que vai interpretar. As dúvidas e peripécias que envolvem o desenvolvimento da nova obra cinematográfica de Guido são mais do que muitas, com as memórias do passado a afectarem o realizador, surgindo regularmente na mente do mesmo, com o protagonista a procurar inserir essas recordações no interior do argumento que está a escrever. Veja-se que Guido contou com educação católica, algo que procura transportar para o protagonista do seu filme, com esta influência religiosa a afectar quer o personagem que o cineasta pretende desenvolver, quer o realizador. Federico Fellini aborda as temáticas associadas à religião com algum humor à mistura, com essa mordacidade a ser visível num diálogo mantido entre o protagonista e um representante da Igreja, com a mente do cineasta a começar a divagar quando observa uma mulher que o conduz a relembrar alguns episódios da infância, em particular, quando este e os amigos pagavam a Saraghina (Eddra Gale) para dançar a rumba. Saraghina é uma prostituta de cabelos desgrenhados, que dança de forma desajeitada e provoca um efeito indelével nos jovens, com o protagonista a ter sido apanhado em flagrante pelos responsáveis da escola religiosa onde estudava, tendo sido castigado devido a esse acto. A intenção de Guido colocar elementos de teor religioso no filme é censurada pelo crítico, que não tem problemas em salientar "Se quiser realmente problematizar sobre o catolicismo em Itália, meu caro amigo, acredite, é necessário em primeiro lugar um nível cultural muito mais elevado e uma lógica de lucidez inexorável. Perdoe-me, mas a sua tenra ignorância é totalmente negativa". Os comentários do crítico de cinema permitem desde logo discernir que este considera que é intelectualmente superior ao cineasta, enquanto expõe sem contemplações que Guido está a deixar o filme seguir um rumo demasiado pessoal, algo que pode ser prejudicial para o desenvolvimento da obra cinematográfica.

Os temas que Guido pondera colocar no filme acabam quase sempre por remeter para a sua vida pessoal (tal como Fellini efectua com "8½"), com esta situação a contribuir para o avivar de episódios que este protagonizou no passado, ou o nascimento de sonhos que muito dizem sobre a sua conduta ao longo da sua existência. Os sonhos de Guido são expostos de forma recorrente, com Federico Fellini a utilizar os mesmos para dar a conhecer um pouco mais sobre o protagonista, desenvolver o personagem e expor a sua personalidade (a relação afastada dos pais, o desejo de quebrar as regras religiosas, o sentimento de culpa, os relacionamentos problemáticos com as figuras femininas e a visão peculiar que Guido tem das mulheres). Veja-se quando Guido sonha que conversa quer com o pai, quer com a mãe, até Luisa aparecer no sonho, parecendo certo que o personagem interpretado por Marcello Mastroianni descurou a presença de quase todos aqueles que o rodearam. A presença no espaço das termas não parece trazer paz ao protagonista, com tudo e todos a aproximarem-se do mesmo, sejam elementos reais ou fruto da sua imaginação, enquanto Federico Fellini desenvolve alguns momentos inesquecíveis. A banda sonora de Nino Rota ajuda e muito o trabalho de Federico Fellini, bem como o trabalho de Gianni Di Venanzo na cinematografia. Veja-se quando Luisa se depara com a presença de Carla nas proximidades de um espaço semelhante a uma esplanada, com a banda sonora a contribuir inicialmente para o tom fervilhante do momento, bem como os close-ups nos rostos das actrizes, até tudo acalmar um pouco quando as duas personagens dialogam. Temos ainda os diversos momentos de dança, sejam bailes ou situações completamente delirantes, com Federico Fellini a aproveitar o bloqueio criativo de Guido para abordar esta problemática de forma criativa, desafiadora, estimulante, recheada de metáforas e simbolismos. Fellini aproveita ainda para abordar diversas temáticas e problemáticas relacionadas com o trabalho do realizador, tais como as expectativas daqueles que rodeiam os cineastas, a relação com os jornalistas, as decisões que têm de ser tomadas, a dificuldade em deixar cair algumas subtramas que pareciam relevantes, as crises criativas, entre outras. Aos poucos, "8½" dá-nos a conhecer Guido, aqueles que o rodeiam, os espaços por onde este circula e as pessoas que o marcaram, enquanto nos brinda com alguns planos e momentos magníficos. Veja-se quando Guido finalmente fala com Claudia, com o momento a tanto ter de mágico e cândido como de cru e realista. Guido parece incapaz de tomar decisões, sejam estas simples ou complicadas, com o medo de errar a consumir a alma e a mente deste realizador atormentado, algo que afecta o desenvolvimento do seu novo trabalho, uma situação exposta de forma criativa, complexa, exuberante e estimulante por Federico Fellini em "8½", uma obra-prima que merece ser vista, revista, apreciada e reverenciada.

Título original: "8½".
Título em Portugal: "Fellini 8½".
Realizador: Federico Fellini.
Argumento: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli, Brunello Rondi.
Elenco: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Sandra Milo, Claudia Cardinale, Barbara Steele, Guido Alberti, Jean Rougeul, Eddra Gale, Mario Pisu.

Texto escrito no âmbito da cobertura da Nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano.

26 junho 2016

Resenha Crítica: "Public Enemies" (Inimigos Públicos)

  Tendo como pano de fundo os EUA durante a Grande Depressão, "Public Enemies" marca o regresso de Michael Mann aos filmes de gangsters, com o cineasta a apresentar uma versão romanceada, cheia de estilo e liberdades históricas de John Dillinger, bem como da procura do FBI em capturar este indivíduo perigoso e carismático. Johnny Depp interpreta Dillinger como se este fosse um anti-herói, um gangster simultaneamente violento e romântico, capaz de assaltar bancos e encetar as fugas mais intrincadas da prisão, mas fiel àqueles que lhe são próximos e apaixonado por Billie Frechette (Marion Cotillard). Este Dillinger que nos é apresentado em "Public Enemies" surge como um criminoso carismático, inteligente e hábil na arte do disparo, que gosta de vestir as melhores roupas e conduzir carros caros, com Johnny Depp a elevar e muito o personagem. No início de "Public Enemies" somos colocados diante de algumas cenas intensas que envolvem a fuga de Dillinger de uma prisão situada em Indiana, com o protagonista a fugir ao lado de alguns homens da sua confiança, tais como Red Hamilton (Jason Clarke) e Homer Van Meter (Stephen Dorff), enquanto Michael Mann deixa o espectador diante de uma evasão violenta, que permite expor o carácter implacável destes indivíduos. Diga-se que Michael Mann não poupa na exibição da violência, ou Dillinger e companhia não se envolvessem em diversos assaltos a bancos, enquanto granjeiam uma estranha popularidade junto da opinião pública. Um dos elementos que procuram travar o protagonista é Melvin Purvis (Christian Bale), um agente do FBI que foi promovido por J. Edgar Hoover (Billy Crudup) para liderar a caça ao "inimigo público número um" dos EUA, que é como quem diz, John Dillinger. Michael Mann procura a espaços efectuar algo como em "Heat", ou seja, colocar o espectador diante de ambos os lados da contenda, embora Purvis nunca obtenha a mesma relevância de Dillinger no seio da narrativa. Se Dillinger é um gangster recheado de contradições e humanidade, já Purvis aparece como um indivíduo idealista que representa uma das "novas caras" do FBI, com Michael Mann a procurar exibir as mudanças nesta instituição que se encontra em plena modernização. O primeiro contacto que temos com Purvis acontece quando este elimina Charles Floyd (Channing Tatum), um gangster procurado, com a popularidade do agente a subir devido a este feito, inclusive junto da imprensa, algo que é utilizado por J. Edgar Hoover para obter as verbas necessárias para a modernização do FBI. Os agentes começam a utilizar armas mais poderosas e carros mais potentes, dispondo de recursos que prometem contribuir e muito para dificultar a vida aos criminosos, com Melvin Purvis a recorrer a alguns destes elementos, enquanto "Public Enemies" exibe estas alterações no interior do FBI. Diga-se que "Public Enemies" também demonstra que o mundo do crime conheceu uma série de mudanças, algo que se torna notório quando Dillinger começa a tornar-se "incómodo" no interior do "sindicato", uma situação que a espaços promete facilitar a vida a Purvis.

 O assassinato de Floyd serve desde logo para transmitir a eficácia de Purvis, com Michael Mann a exibir rapidamente os traços fundamentais das personalidades dos personagens que povoam a narrativa. Billy Crudup incute um estilo dissimulado e frio a Hoover, enquanto Bale exibe que Purvis pretende travar os criminosos, embora não pareça totalmente à vontade para aplicar métodos como tortura para conseguir obter informações junto daqueles que são próximos a Dillinger (a tortura como um meio de obter informação continua uma temática bastante actual). Veja-se quando Frechette é brutalmente espancada, com o agente responsável pelo acto hediondo a parecer pouco preocupado com os direitos desta mulher, ou com o facto de estar a ferir brutalmente uma figura feminina. O quotidiano de Dillinger é pontuado pela violência, mas também por alguns momentos de acalmia, com este a procurar esconder-se das autoridades, enquanto tenta manter o romance com Frechette. Tal como em "Heat" e "The Insider", Michael Mann procura atribuir alguma atenção à vida pessoal do protagonista, algo latente no romance entre Dillinger e Frechette, uma dupla que se conhece no interior de uma superfície que funciona quer como bar, quer como restaurante. O bar é apresentado como um cenário onde os criminosos se reúnem e efectuam negócios, com as tonalidades vermelhas e a luz ambiente a contribuírem para Michael Mann criar uma atmosfera propícia ao estranho romantismo que envolve o primeiro encontro entre os personagens interpretados por Johnny Depp e Marion Cotillard. Ambos são misteriosos e apresentam um desejo indelével de mudar de vida, com Cotillard a expressar quer a sensualidade, quer a fragilidade, quer a força interior de Billie. A química entre Depp e Cotillard é convincente, com ambos a exporem os "ingredientes" que contribuem para o nascimento da atracção entre Dillinger e Frechette. Esta trabalha a arrumar os casacos e os chapéus num espaço onde os clientes pouco se importam com a sua presença, enquanto Dillinger exibe uma frontalidade desarmante quando está na presença desta mulher, algo que permite dar conhecer uma faceta distinta deste gangster que parece acreditar em demasia nas suas capacidades e qualidades. Essa confiança conduz Dillinger a descurar imensas vezes os planos a longo prazo, ou a capacidade de Purvis, embora o protagonista até pense em participar num último grande assalto tendo em vista a fugir para bem longe com a amada. Johnny Depp transforma Dillinger numa figura que é capaz de despertar a simpatia do espectador e criar empatia, embora o protagonista seja um criminoso procurado e perigoso, algo latente quando o encontramos de metralhadora em punho a aterrorizar os bancos ou a lutar pela sua vida e daqueles que lhe são próximos. Veja-se quando John Dillinger é encurralado pelos agentes de Purvis quando se encontrava num esconderijo situado em Little Bohemia, acompanhado por Red, Baby Face Nelson (Stephen Graham) e os homens deste último, com as luzes das metralhadoras e o som dos disparos a serem sentidos, bem como as consequências de uma das várias cenas de acção frenéticas, violentas e intensas que Michael Mann orquestra de forma exímia ao longo de "Public Enemies". O espaço do abrigo ganha características claustrofóbicas, o trabalho de Dante Spinotti na cinematografia (um dos colaboradores habituais de Mann) adensa a violência do momento, enquanto quase tudo parece funcionar neste trecho onde estilo e substância se reúnem.

 "Public Enemies" transporta-nos para uma era distinta dos EUA, sempre com algumas liberdades históricas à mistura, enquanto Michael Mann apresenta uma visão simultaneamente romântica e crua do gangster que se encontra no centro de boa parte da narrativa. Michael Mann e a sua equipa exibem todo um cuidado a nível dos cenários, guarda-roupa e referências populares, tendo em vista a criarem um ambiente que se assemelhe ao território dos EUA em plenos anos 30, embora o cineasta raramente consiga expor assertivamente o contexto de crise económica e social que envolveu o país durante o período representado (algo que contribuiu para a popularidade de gangsters como Dillinger). Diga-se que o cineasta denota também algumas dificuldades em desenvolver e explorar figuras históricas como Baby Face Nelson, Alvin Karpis (Giovanni Ribisi), entre outras, algo que conduz à parca relevância de diversos personagens secundários. Jason Clarke é uma das raras excepções, com o actor a sobressair como Red, um indivíduo leal a Dillinger, que aparece ao seu lado em diversos episódios de relevo e permite exibir um lado mais "humano" do protagonista. Entre os assaltos de Dillinger e o seu grupo, a relação entre o gangster e Billie Frechette, as tentativas de Purvis e os seus homens para capturarem o "inimigo número um dos EUA", "Public Enemies" expõe os dois lados da contenda, com os objectivos de ambos a serem bem distintos, uma situação que vai trazer consequências violentas e desastrosas quer para os representantes da lei, quer para os criminosos. "Public Enemies" não poupa na brutalidade, algo latente numa perseguição que os elementos do FBI efectuam a um espaço onde Dillinger se encontra supostamente escondido, bem como na segunda fuga deste gangster da prisão. A segunda vez em que encontramos Dillinger na prisão é marcada quer pela troca de diálogos entre o gangster e Purvis (um magnífico momento de cinema protagonizado por Depp e Bale), quer pelas tonalidades frias do local (bom aproveitamento da iluminação e das cores). Esta situação é sobretudo visível quando Dillinger é transferido para o interior de uma prisão no Estado do Indiana, com o espaço prisional a encontrar-se eivado de tonalidades frias e marcado por uma atmosfera inquietante, sobretudo quando o gangster consegue encetar a fuga. Depp convence quer quando Dillinger exibe a sua faceta mais brutal, quer nos episódios onde o gangster demonstra a sua lealdade para com aqueles que lhe são próximos, algo latente quando não procura deixar Red para trás, ou tenta reencontrar Frechette a todo o custo. Diga-se que não faltam assaltos a bancos, fugas violentas, imensas mortes e a noção de que o estilo de vida de Dillinger é recheado de riscos, com o trabalho de Dante Spinotti a incrementar diversos episódios. Veja-se a fuga da prisão de Indiana, com tudo a ser arquitectado e exposto de forma a transmitir a ferocidade e violência que envolveu este momento. O argumento foi inspirado no livro "Public Enemies: America's Greatest Crime Wave and the Birth of the FBI, 1933–34", escrito por Bryan Burrough, com "Public Enemies" a situar-nos desde o início no tempo da narrativa, ou seja, "(...) no quarto ano da Grande Depressão", com John Dillinger a surgir como uma das figuras centrais desta "idade de ouro dos assaltos a bancos". Intenso e violento, pontuado por algumas doses de romantismo, uma banda sonora que se parece adequar a cada momento, uma interpretação de grande nível de Johnny Depp e uma fotografia elegante, "Public Enemies" surge como mais um dos bons exemplares dos filmes de gangsters oriundos dos EUA, com Michael Mann a não desiludir e a proporcionar um espectáculo cinematográfico que fica na memória.

Título original: "Public Enemies".
Título em Portugal: "Inimigos Públicos".
Realizador: Michael Mann.
Argumento: Michael Mann, Ronan Bennett, Ann Biderman.
Elenco: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup, Jason Clarke, Giovanni Ribisi.

23 junho 2016

Resenha Crítica: "The Big Lebowski" (O Grande Lebowski)

 Jeff Lebowski (Jeff Bridges), mais conhecido como The Dude, é um tipo pachorrento e preguiçoso, que gosta de beber as suas cervejas, fumar os seus charros e participar em torneios de bowling, com Jeff Bridges a incutir um estilo descontraído e carismático a este indivíduo peculiar. The Dude é o protagonista de "The Big Lebowski", uma das obras cinematográficas mais icónicas dos irmãos Coen, com os cineastas a voltarem a colocar o espectador diante de um suposto rapto, uma série de acontecimentos rocambolescos, muito humor negro, alguma violência e figuras sui generis, enquanto se divertem a jogar com as nossas expectativas em relação à narrativa. O enredo conta com diversos traços de "Fargo" (o rapto, o humor negro, a violência, alguns personagens movidos pelo dinheiro, as figuras peculiares), bem como de alguns filmes noir, com o protagonista a envolver-se numa série de problemas e situações intrincadas a partir do momento em que aceita entregar uma mala que supostamente continha uma verba para pagar um resgate. Diga-se que o início de "The Big Lebowski" é desde logo marcado por um mal-entendido, com dois criminosos a entrarem na casa de The Dude, prontos a espancá-lo e a destruírem os seus bens, pensando que o protagonista é Jeffrey Lebowski (David Huddleston), um suposto milionário, paraplégico, que se encontra casado com Bunny (Tara Reid), uma antiga actriz de filmes pornográficos. Bunny contraiu uma série de dívidas junto de Jackie Treehorn (Ben Gazzara), um produtor de filmes pornográficos que decidiu enviar dois capangas a casa de Lebowski, com a dupla a procurar recuperar o dinheiro em falta. Após perceberem que cometerem um erro, os dois criminosos decidem abandonar a habitação do protagonista, ainda que de mãos a abanar, embora um dos elementos faça questão de urinar no tapete da sala. Lebowski fica irritado com a situação, algo que comenta com Donny (Steve Buscemi) e Walter Sobchak (John Goodman), os seus dois melhores amigos e companheiros nos torneios de bowling. Donny é um indivíduo relativamente tímido, que chega quase sempre a meio das conversas e é constantemente censurado ou silenciado por Walter, com Steve Buscemi a repetir a parceria com os irmãos Coen, após terem colaborado no memorável "Fargo" (no caso de "Fargo", o personagem interpretado por Buscemi falava pelos cotovelos). Walter é um veterano da Guerra do Vietname, com John Goodman a ter a interpretação que mais se destaca a par de Jeff Bridges. Quase sempre de calções, com uma impulsividade latente, um estilo quezilento e um gosto notório pela utilização de armas, Walter é um dos vários personagens peculiares que povoam a narrativa de "The Big Lebowski", com John Goodman a conseguir que este indivíduo nunca resvale para a mera caricatura. Walter tanto é capaz de destruir um carro, ou atirar com um idoso para fora de uma cadeira de rodas, ou arrancar uma orelha a um gangster, como demonstra alguma sensibilidade quando transporta consigo o cão da ex-mulher ou procura não evidenciar os seus sentimentos em relação à morte de um personagem relevante.

 Lebowski por vezes quase que se passa de vez com Walter, embora acabe por recorrer de forma amiúde ao amigo, com quem partilha o gosto pelo bowling e a apetência por se envolver em problemas. Revoltado pelo facto de terem urinado no seu tapete, Lebowski decide dirigir-se a casa do seu homónimo, uma mansão onde se depara com o personagem interpretado por David Huddleston, um tipo relativamente repelente e pouco cordial, que conta quase sempre com a companhia de Brandt (Philip Seymour Hoffman), o seu assistente. Brandt é uma figura calma, que se deixa enganar com facilidade, algo notório quando o protagonista consegue ludibriá-lo e levar um tapete da casa do suposto milionário. Antes de sair da casa do personagem interpretado por David Huddleston, o protagonista depara-se ainda com Bunny. Os diálogos desta surpreendem The Dude e envergonham Brandt, com os irmãos Coen a não pouparem o espectador a algumas surpresas, algo latente a partir do momento em que Bunny é raptada, com Lebowski a acabar por se envolver numa miríade de situações rocambolescas. Lebowski apenas se deslocara à casa do seu homónimo para procurar uma compensação pelos estragos provocados no seu tapete, mas acaba por se envolver numa investigação com peripécias que não andam assim tão longe dos episódios vividos por diversos detectives dos filmes noir. A narrativa é convulsa, tal como em diversos filmes noir, com The Dude a protagonizar uma série de episódios que tanto têm de perigosos como de caricatos, enquanto se depara com uma miríade de figuras pontuadas por personalidades estranhas, com o argumento dos irmãos Coen a permitir que elementos secundários como Julianne Moore, John Turturro, Ben Gazzara, entre outros, tenham espaço para sobressair. Julianne Moore dá vida a Maude, a filha de Jeffrey Lebowski, uma artista feminista de personalidade dominadora, que apresenta um enorme à vontade a abordar assuntos de cariz sexual. Esta procura recuperar o tapete que The Dude retirou da casa do personagem interpretado por David Huddleston, mas também a verba despendida pelo seu progenitor para pagar o regaste de Bunny, com o protagonista a perceber que o rapto envolve uma série de mentiras. The Dude tem ainda que lidar com um grupo de alemães niilistas (interpretados por Peter Stormare, Torsten Voges e Flea), que supostamente raptaram Bunny, para além de ser confrontado por Jackie Treehorn. A juntar a tudo isto, The Dude procura ainda vencer um torneio de bowling, contando com Jesus Quintana (John Turturro) como um dos adversários. Quintana é um tipo excêntrico, tarado, acusado de actos criminosos, que provoca The Dude, Walter e Donny de forma amiúde, com John Turturro a parecer divertir-se imenso a dar vida a esta figura caricatural. Os irmãos Coen aproveitam paradigmaticamente esta miríade de personagens, bem como outras figuras que entram e saem da narrativa, enquanto nos colocam diante de um conjunto de situações completamente delirantes que vão desde o acto mais cómico ao mais violento. A partir do momento em que o carro de The Dude é assaltado, após Walter se ter envolvido no episódio do pagamento do resgate, o enredo ganha características ainda mais frenéticas e delirantes. A verba para o pagamento do resgate encontrava-se no interior do carro de The Dude, algo que conduz o personagem interpretado por Jeff Bridges a procurar descobrir o veículo e o paradeiro do dinheiro, enquanto tem de lidar com vários dos personagens mencionados.

A investigação nem sempre é fácil, sobretudo quando nos apercebemos que The Dude se encontra envolvido no interior de uma teia de mal-entendidos e mentiras, enquanto começa a descobrir mais elementos sobre os personagens que começaram a povoar o seu quotidiano. Com roupas quase sempre informais, cabelos compridos, um modo de falar muito próprio, um estilo descontraído e alucinações delirantes, The Dude surge como um personagem que desperta facilmente a atenção do espectador, algo que se deve e muito ao trabalho de Jeff Bridges e ao argumento de Joel e Ethan Coen. The Dude não é o indivíduo mais sagaz ou arguto, estando longe de surgir como um Philip Marlowe, embora Raymond Chandler, o autor que criou o célebre detective, tenha sido uma das fontes de inspiração dos irmãos Coen. Jeff Bridges apresenta ainda uma dinâmica convincente com John Goodman e Steve Buscemi, protagonizando diversos episódios marcantes que apresentam características distintas, ou Lebowski não se envolvesse em situações que tanto podem ser perigosas como cómicas e delirantes, seja quando está acompanhado pelos amigos ou quando se encontra sozinho. Veja-se quando The Dude alucina que atravessa uma pista de bowling e passa por baixo de mulheres com saias curtinhas (num número musical extravagante), ou quando é esmurrado por um dos homens de Maude e sonha estar a voar com o auxílio de uma bola de bowling, entre outros episódios, com estes delírios a apresentarem alguns toques de brilhantismo por parte dos irmãos Coen, bem como de Roger Deakins na cinematografia e de Carter Burwell na banda sonora. A narrativa tem como pano de fundo a cidade de Los Angeles em 1991, com The Dude a ter sido inspirado em algumas figuras que os irmãos Coen conhecerem, enquanto a dupla nos apresenta a uma miríade de personagens oriundos de grupos sociais distintos. A variedade a nível de personagens é latente, com os irmãos Coen a não terem problemas em explorar mais uma vez uma parte da História e da sociedade dos EUA, ainda que num jeito muito próprio, algo que é transversal a diversas obras cinematográficas que realizaram, tais como "Fargo", "No Country for Old Men", "Inside Llewyn Davis", "Hail, Caesar!", entre outras. No caso de "The Big Lebowski", ficamos diante do território de Los Angeles e das suas gentes, algo exposto não só através dos cenários e dos personagens, mas também pelo narrador (Sam Elliott) de serviço, com a presença deste último a ser sentida quer quando apresenta uma postura sardónica, quer quando surge diante do espectador a conversar com o protagonista ou a efectuar comentários sobre o enredo. Tudo começa quando confundem Jeff Lebowski com o seu homónimo, com o protagonista a acabar por se envolver numa série de peripécias, enquanto os irmãos Coen aproveitam para exibir que contam com um enorme talento para a escrita de argumentos e para a realização, com a dupla a elaborar uma obra cinematográfica dotada de alguns momentos marcantes e delirantes, onde existe espaço para diversos elementos do elenco sobressaírem e surpreenderem.

Título original: "The Big Lebowski".
Título em Portugal: "O Grande Lebowski".
Realizadores: Joel Coen e Ethan Coen.
Argumento: Ethan Coen e Joel Coen.
Elenco: Jeff Bridges, John Goodman, Julianne Moore, Steve Buscemi, David Huddleston, John Turturro.

22 junho 2016

8 ½ Festa do Cinema Italiano - A estreia em Almada

 A nona edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano começou em Lisboa, tendo decorrido entre os dias 30 de Março e 7 de Abril, no Cinema São Jorge, no Cinema UCI – El Corte Inglés e na Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema. Posteriormente, o festival iniciou o seu périplo, tendo marcado presença em cidades como Porto, Loulé, Guimarães, Maputo, entre outras, com a chegada a Almada a surgir como uma das novidades da edição de 2016 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Se a selecção nacional tem brindado os adeptos de futebol com exibições cinzentas, que pouco ou nada despertam o ânimo, já o 8 ½ Festa do Cinema Italiano promete trazer sensações bem mais agradáveis aos cinéfilos que se deslocarem ao Fórum Municipal Romeu Correia para visionarem alguns dos filmes que constam na programação do certame. Ao bom estilo da Squadra Azzurra, uma selecção pragmática e eficaz, o 8 ½ Festa do Cinema Italiano parece destinado a alcançar resultados de bom nível em Almada, com os responsáveis do festival a privilegiarem a qualidade em detrimento da quantidade. O 8 ½ Festa do Cinema Italiano convocou os seguintes filmes para entrarem em acção na passagem do certame por Almada:  "" (Federico Fellini); "Anime Nere" (Francesco Munzi); "Suburra" (Stefano Sollima); "Le cose belle" (Agostino Ferrente e Giovanni Piperno); "Lo Chiamavano Jeeg Robot" (Gabriele Mainetti).

 A lista de convocados é bastante heterogénea, com o 8 ½ Festa do Cinema Italiano a trazer alguns dos bons exemplares cinematográficos que têm vindo a ser exibidos no festival, ou não estivessem presentes filmes premiados quer pelo público, quer pelo júri do certame. Veja-se os casos de "Lo Chiamavano Jeeg Robot" (vencedor do Prémio do Júri e Prémio do Público Canais TV Cine & Séries na edição de 2016 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano); "Anime Nere" (Prémio do Júri na edição de 2015); "Le cose belle" (Menção especial do Júri e Prémio do Público Canais TV Cine & Séries na oitava edição do Festival). No entanto, o grande destaque vai para a exibição da cópia restaurada de "", uma das obras-primas de Federico Fellini, um filme que merece ser visto, revisto e reverenciado. É o "veterano" da lista de convocados do 8 ½ Festa do Cinema Italiano para Almada, embora prometa deixar a sua marca de forma indelével. Por último, mas não menos importante, o 8 ½ Festa do Cinema Italiano traz ainda "Suburra", um obra cinematográfica que confirma os bons apontamentos que Stefano Sollima tinha deixado em "A.C.A.B.". Resta agora os adeptos comparecerem no Fórum Municipal Romeu Correia para verem os convocados em acção .

Vale a pena recordar que cobri a edição de 2016 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano em Lisboa, algo que pode ser consultado no texto: "Breve balanço da cobertura da edição de 2016 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano". Consta que também estarei presente em Almada (vou escrever textos sobre 8 ½; "Anime Nere" e "Le cose belle"). No caso de Almada, o 8 ½ Festa do Cinema Italiano decorre entre os dias 29 de Junho e 2 de Julho no Fórum Municipal Romeu Correia (Auditório Fernando Lopes Graça).

O 8 ½ Festa do Cinema Italiano é um festival de cinema organizado pela Associação Il Sorpasso, com o apoio da Embaixada de Itália e do Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, e conta com o patrocínio principal da FIAT e outros patrocinadores como a Generali, Viagens El Corte Inglês, MSC Cruzeiros, Garofalo, Aperol Spritz e TNT.


Programação (Almada):


29 Junho- 21h30: Sessão de Abertura: Oito e Meio, de Federico Fellini, 138'.


Trailer:





30 Junho - 21h30: Almas Negras, de Francesco Munzi, 103'.


Trailer:






01 Julho - 21h30: Suburra, de Stefano Sollima, 130'.


Trailer:





02 Julho - 17h00: Le Cose Belle, de Agostino Ferrente, Giovanni Piperno, 80'. 21h30: Lo Chiamavano Jeeg Robot, de Gabriele Mainetti, 112'.


Trailers:





21 junho 2016

Resenha Crítica: "The Diary of a Teenage Girl" (O Diário de Uma Rapariga Adolescente)

 Perto do final de "The Diary of a Teenage Girl", Minnie Goetze (Bel Powley), a protagonista do filme, uma adolescente com quinze anos de idade, salienta o seguinte: "I always thought I wanted to be exactly like my mom. But she thinks she needs a man to be happy. I don't". Este comentário demonstra o amadurecimento da protagonista, algo inerente aos episódios que a adolescente protagonizou ao longo do filme, com "The Diary of a Teenage Girl" a surpreender pela maturidade, complexidade e criatividade com que desenvolve as suas temáticas. "The Diary of a Teenage Girl" aborda o quotidiano de uma adolescente que se encontra a descobrir o seu corpo, a iniciar a sua vida sexual, a afirmar a sua personalidade e a enfrentar dúvidas que a inquietam, até perceber algo óbvio, ou seja, não precisa da companhia de um homem para ser feliz. A mensagem de pendor feminista é óbvia e merecedora de elogios, sobretudo pela sinceridade com que é transmitida, com "The Diary of a Teenage Girl" a abordar temáticas complexas, polémicas e pertinentes, sempre de forma bastante aberta e humana. Ao longo do filme, acompanhamos Minnie a envolver-se numa miríade de relações sexuais, a experimentar drogas, a desenhar, a falar de forma minuciosa para o seu gravador, com este aparelho a surgir praticamente como um diário desta adolescente que se inicia sexualmente com Monroe (Alexander Skarsgård), o namorado da sua mãe. Minnie vive com Charlotte, a sua mãe, bem como com Gretel, a irmã mais nova, com a casa a receber regularmente a visita de Monroe. Charlotte trabalha numa biblioteca, passa boa parte do seu tempo livre a organizar festas, a beber e a consumir droga, com Kristen Wiig a transmitir a irresponsabilidade da personagem que interpreta, bem como as fragilidades desta mulher que parece tardar em conseguir assumir uma postura mais madura. O quotidiano de Minnie muda quando Charlotte resolve que não pretende sair à noite, deixando a filha mais velha acompanhar Monroe a um bar. Conversa puxa conversa, a cerveja parece demasiado agradável para ser bebida de forma ponderada, o espaço do bar conta com uma atmosfera propício ao engate, enquanto uma série de brincadeiras acabam por conduzir Monroe a dizer que Minnie lhe provocou tesão. Esta também não se fica atrás e pede para que Monroe faça sexo consigo. Ainda se beijam, mas a relação sexual surge mais tarde, com Minnie a perder a virgindade com Monroe. O desejo tolda o bom senso destes personagens, com Minnie a sentir-se finalmente desejada, enquanto Monroe parece incapaz de travar os seus ímpetos. A personagem interpretada por Bel Powley é uma adolescente insegura, com uns olhos azuis marcantes, que se considera gorda (a sua relação com o corpo é algo problemática), apresenta uma imaginação e criatividade fora do comum, pretendendo ser uma artista, embora tarde em encontrar um rumo para a sua existência.

Aos poucos, Minnie começa a ganhar alguma confiança em si própria e algum amor próprio, apesar de contar com uma série de dúvidas que apoquentam a sua mente. Será que se tornou uma ninfomaníaca? Será que Monroe a ama? Estará a ser enganada? Será que está a confundir os conceitos de desejo e amor? É exequível avançar com uma carreira a desenhar livros de banda-desenhada? As respostas surgem com o desenrolar da narrativa, com Marielle Heller a dar espaço para Bel Powley compor uma personagem que vive uma miríade de experiências que lhe permitem ganhar alguma maturidade. Minnie é uma jovem relativamente solitária, que não forma grandes amizades e gosta de faltar às aulas, tendo em Kimmi Minter (Madeleine Waters) uma das suas poucas amigas. Kimmi e Minnie vivem uma série de experiências marcantes que vão desde saídas a clubes nocturnos, passando por um episódio onde fingem que são prostitutas, até a um ménage à trois com Monroe. As duas amigas nem sempre se orgulham dos seus feitos, mas parte da aprendizagem e do processo de amadurecimento de Minnie passa por cometer erros e aprender com os mesmos. Veja-se a relação intrincada que Minnie inicia com Monroe, com a primeira a amar o segundo, enquanto este último apresenta uma atitude muito mais vaga. Bel Powley consegue transmitir as incertezas, a curiosidade e o amadurecimento de Minnie Goetze, uma jovem que se encontra a descobrir o poder e o prazer do sexo e a lidar com uma série de dúvidas, enquanto revela uma curiosidade típica da adolescência. "A Royal Night Out" demonstrou algum do talento de Bel Powley, enquanto "The Diary of a Teenage Girl" deixa a certeza que a actriz merece toda a nossa atenção, bem como a realizadora Marielle Heller. Estreante na realização de longas-metragens, Marielle Heller surpreende pela segurança, criatividade e audácia com que aborda temáticas complexas e extremamente pertinentes, com a cineasta a conseguir incutir um tom bastante feminino ao filme, enquanto nos transporta para San Francisco, em 1976, o ano em que decorre o enredo. O guarda-roupa (não faltam calças à boca de sino e sapatos típicos da época), as músicas, os bares e a decoração da casa de Minnie remetem para esta época, com Marielle Heller e a sua equipa a fazerem maravilhas com um orçamento a rondar os dois milhões de dólares. A cineasta consegue explorar temáticas universais sobre as adolescentes a partir de um contexto específico, sempre com alguma dose de polémica à mistura, ou "The Diary of a Teenage Girl" não abordasse uma relação entre uma adolescente e um indivíduo com cerca de trinta e poucos anos de idade. Marielle Heller tem o cuidado de não abordar esta questão de forma sensacionalista, embora também não fuja às questões difíceis. Bel Powley consegue transmitir o desejo sentido por Minnie e o gosto que a protagonista começa a sentir por fazer sexo, enquanto Alexander Skarsgård evidencia a incapacidade de Monroe em conseguir optar por uma atitude pragmática. Monroe é um indivíduo mais alto do que Minnie, com um bigode saliente, que ambiciona deixar de trabalhar relativamente cedo, enquanto tenta manter uma relação com Charlotte e a protagonista, ou seja, está a meter-se num "caldinho" que promete trazer problemas.

Alexander Skarsgård incute algum mistério aos objectivos deste indivíduo que se envolve com uma menor, com Monroe a tanto parecer apenas desejar Minnie como indica sentir algo mais pela adolescente. Nesse sentido, "The Diary of a Teenage Girl" aborda ainda a dificuldade de se conseguir controlar os sentimentos amorosos e/ou o desejo (com o desejo a não invalidar o amor), algo notório em personagens como Minnie e Monroe. Esta parece gostar de ter uma vida sexual activa, pelo menos a nível inicial, algo que assusta Ricky (Austin Lyon), um dos seus colegas de escola, um adolescente que fica surpreendido com a capacidade de Minnie conseguir "controlar as operações". Minnie envolve-se ainda com Tabatha (Margarita Levieva), para além de experimentar uma série de drogas, enquanto se procura encontrar, até chegar à conclusão citada no início do texto. O quarto de Minnie diz muito da personalidade desta jovem e do cuidado colocado no design de produção, com esta divisória da casa da protagonista a permitir explanar o estado caótico da mente da adolescente, mas também as características e os gostos desta figura feminina. As paredes do quarto encontram-se preenchidas por desenhos e posters, o restante espaço parece relativamente desorganizado, apesar do fiel companheiro da protagonista ser bem visível, ou seja, o gravador. As gravações de Minnie permitem que esta seja praticamente a narradora de serviço, com o espectador a ser "obrigado" a ouvir aquilo que a protagonista coloca nas suas cassetes. Diga-se que esta também não prima pelo tom discreto a gravar os episódios no seu "diário", uma situação que percebemos de forma paradigmática quando Minnie fala sobre a sua vida sexual quando se encontra no interior do autocarro. É uma situação nova para Minnie, com esta a sentir o prazer do sexo, os efeitos de ser desejada e as "dores de crescimento", parecendo inicialmente incapaz de lidar de forma pragmática com uma nova realidade, sobretudo quando anteriormente pensava que não despertava o interesse dos elementos masculinos. A certa altura do filme, encontramos Minnie a observar o seu corpo, enquanto se encontra nua, em frente ao espelho. Minnie pensa que a sua fisionomia não é agradável ao olhar daqueles que a rodeiam, algo que não se verifica, enquanto observamos o processo de crescimento desta jovem que sonha fazer carreira a escrever e desenhar livros de banda-desenhada, tal como Aline Kominsky, uma profissional da área que a protagonista encara como um modelo a seguir. O quotidiano de Minnie é ainda marcado pela faceta disfuncional da sua família, com esta a não parecer contar com uma figura mais experiente com quem consiga desabafar sobre as suas dúvidas e problemas (a mãe é uma irresponsável e o interesse de Monroe é sobretudo de cariz sexual). A relação entre Minnie e a mãe é pontuada por uma abertura fora do comum, embora isso não signifique que sejam bastante íntimas, enquanto a irmã é demasiado nova para partilhar confidências com a protagonista. Pascal MacCorkill (Christopher Meloni), o padrasto de Minnie, um indivíduo que foi casado durante muito tempo com Charlotte, ainda contacta com a jovem e procura ajudá-la nas despesas com os estudos, procurando incentivá-la para ir viver consigo para Nova Iorque, algo que esta recusa.

A relação amorosa que se forma entre Minnie e Monroe parece trazer mais confiança a esta jovem, mas também mais problemas. Minnie sabe que se pode magoar a si própria, bem como à sua mãe, enquanto tarda em conseguir perceber os sentimentos verdadeiros de Monroe, algo que nem o próprio parece saber. Este tem uma faceta de sacana, ou não se envolvesse com a filha da namorada, embora também não desperte a nossa total antipatia, parecendo uma figura que ficou parada no tempo, que aos poucos começa a desenvolver sentimentos mais fortes por uma jovem. Por sua vez, Minnie tem todo um futuro pela frente, com os episódios que vive ao longo de "The Diary of a Teenage Girl" a surgirem como uma fonte de aprendizagem relevante. Os desenhos efectuados por Minnie reflectem parte dessa jornada emocional da protagonista, uma jovem que protagoniza uma série de episódios que vão desde situações mais sérias até a alguns momentos cómicos (Marielle Heller não descura o humor). Minnie é o nosso ponto de contacto em "The Diary of a Teenage Girl", com Marielle Heller a colocar o espectador diante de uma personagem que se procura encontrar a si própria, uma tarefa que se revela deveras complicada. Nem sempre é fácil perceber aquilo que percorre a mente de Minnie. Diga-se que nem a própria Minnie deve saber totalmente, ou não estivesse em plena adolescência. A ideia de um indivíduo mais velho interessar-se por si é algo que parece deixar Minnie agradada, enquanto a adolescente desperta o desejo do namorado da progenitora de forma indelével, com toda esta situação complexa a conduzir a uma relação de cariz sexual. Inicialmente parece que o desejo predomina em relação ao amor, embora Minnie e Monroe surjam como personagens capazes de nos surpreender, que apresentam uma evolução notória ao longo do filme, sobretudo a primeira. As experiências que Minnie decide protagonizar são mais do que muitas. Veja-se quando finge que é uma prostituta, contando com a companhia de Kimmie, com ambas a fazerem sexo por dinheiro, ou a experiência sexual que Minnie inicia com Tabatha. O argumento de Marielle Heller, inspirado na graphic novel "The Diary of a Teenage Girl: An Account in Words and Pictures", apresenta a subtileza e a irreverência suficiente para desenvolver estas temáticas, enquanto a cineasta não tem problemas em expor diversos episódios da narrativa de forma criativa e dinâmica, procurando deixar bem claro que não pretendeu realizar uma "dramédia" convencional. Veja-se quando encontramos os desenhos de Minnie a "ganharem vida", ou a adolescente a levitar quando ingere ácidos, com o corpo da personagem interpretada por Bel Powley a encontrar-se coberto de penas pintadas como se estivéssemos num misto de desenho animado e filme em live-action, ou a protagonista a imaginar que se encontra a dialogar com uma versão em animação 2D de Aline Kominsky. Com uma interpretação notável de Bel Powley, uma actriz que promete alcançar uma carreira de sucesso, "The Diary of a Teenage Girl" aborda eficazmente temáticas como a sexualidade na adolescência, a miríade de experiências que se vive neste período complexo da nossa existência, sempre tendo em atenção que o enredo tem os anos 70 como pano de fundo, com Marielle Heller a surpreender-nos com uma primeira longa-metragem de excelente nível.

Título original: "The Diary of a Teenage Girl".
Título em Portugal: "O Diário de Uma Rapariga Adolescente".
Realizador: Marielle Heller.
Argumento: Marielle Heller.
Elenco: Bel Powley, Alexander Skarsgård, Kristen Wiig, Madeleine Waters, Christopher Meloni, Margarita Levieva, Austin Lyon.

19 junho 2016

Resenha Crítica: "Out of Sight" (Romance Perigoso)

 A química entre George Clooney e Jennifer Lopez contribui e muito para elevar "Out of Sight", bem como a realização de Steven Soderberg, com o cineasta a mesclar assertivamente elementos de comédia, acção, investigação, romance e filmes de assalto no interior desta adaptação cinematográfica do livro homónimo da autoria de Elmore Leonard. George Clooney interpreta Jack Foley, um assaltante de bancos que é conhecido pela eficácia no cumprimento do seu ofício, embora já tenha sido detido por três vezes, com o actor a incutir estilo, carisma e confiança a este criminoso que não gosta de utilizar armas, efectua uma fuga disparatada da prisão e parece disposto a um tudo ou nada para conquistar Karen Sisco (Jennifer Lopez), uma agente federal. O risco é grande, Jack sabe disso, mas a verdade é que a atracção parece ser recíproca. Jennifer Lopez compõe uma personagem que tanto é capaz de assumir posições de força como exibe alguma fragilidade, com a actriz a saber jogar com as suas qualidades e limitações como intérprete. Não é que Jennifer Lopez seja uma actriz de enorme talento, mas a química que apresenta com George Clooney funciona praticamente na perfeição, algo notório nas diversas trocas de diálogos entre Jack e Karen, com a dupla a esbanjar charme e carisma. Clooney tira da cartola o seu melhor "estilo Cary Grant", transformando um assaltante num figura com quem simpatizamos e desejamos que consiga fugir às autoridades, enquanto Jennifer Lopez revela-se à altura do desafio, surgindo como uma agente federal ambiciosa e curiosa, que se procura impor num meio dominado por homens. Karen e Jack parecem sentir alguma atracção pelo perigo, com ambos a correrem riscos, embora num determinado momento sejam obrigados a tomarem opções importantes que podem influenciar ou não aquilo que pretendem para o futuro. No início do filme, encontramos Jack a procurar assaltar um banco, um objectivo que praticamente consegue cumprir, pelo menos até perceber que o carro não arranca, com este erro a permitir que a polícia consiga detê-lo. O assalto permite expor paradigmaticamente o carisma e o estilo que Clooney incute a Jack, com o protagonista a fingir que tem um parceiro armado, enquanto a empregada que se encontra no balcão vai na conversa e entrega o dinheiro ao criminoso. Diga-se que o sucesso de Jack quer no cumprimento das suas funções de assaltante, quer como galanteador, não se deve à sua força bruta mas sim à sua lábia, algo notório quando consegue fugir na prisão e acaba por se envolver numa situação rocambolesca, com Steven Soderbergh a parecer fazer o possível e o impossível para reforçar que estamos diante de um criminoso que conta com alguns valores e princípios morais. Jack não gosta de utilizar armas, preocupa-se com o destino de uma desconhecida num determinado momento da narrativa, não comete abusos sobre as mulheres, embora a espaços não tenha problemas em enganar um ou outro criminoso para conseguir os seus intentos. Veja-se quando Jack engana alguns presidiários, tendo em vista a fugir da prisão, contando com o apoio de Buddy Bragg (Ving Rhames), um amigo de longa data que se encontra no espaço exterior do Instituto Prisional de Glades (Ving Rhames e George Clooney contribuem para que o espectador acredite na amizade mantida pelos personagens que interpretam).

 Karen também está nas imediações da prisão, com a agente federal a procurar travar a fuga dos presidiários, embora acabe por ser capturada por Jack e Buddy. A representante das autoridades está longe de correr perigo de vida, com o personagem interpretado por George Clooney a procurar conquistar esta agente federal que conta com uma personalidade muito própria e uma sensualidade indelével. Jack e Karen ficam instalados temporariamente na bagageira do carro da segunda, enquanto Buddy conduz o veículo, com esta conjuntura a contribuir para um momento memorável de "Out of Sight". A química entre Clooney e Lopez começa desde logo a funcionar, bem como o argumento de Scott Frank, com Jack e Karen a dialogarem sobre uma série de assuntos que fogem por completo àquilo que poderíamos esperar numa situação do género. As tonalidades vermelhas, bem quentes, adensam a estranha intimidade que se forma entre a dupla de protagonistas, apesar de Jack e Karen representarem lados opostos da lei. Os diálogos trocados pelos protagonistas, quando se encontram na bagageira, contam com um tom mordaz e surgem recheados de referências cinéfilas, com Karen e Jack a falarem sobre "Bonnie & Clyde", "Three Days of the Condor" e "Network", algo completamente inesperado mas que diz muito do tom de "Out of Sight", com Steven Soderbergh a saber misturar os elementos mais sérios com as situações mais leves e românticas. Os momentos protagonizados por George Clooney e Jennifer Lopez na bagageira do carro são fulcrais para Steven Soderbergh estabelecer a química e a dinâmica entre Jack e Karen, enquanto o actor e a actriz conseguem que a troca de diálogos entre os protagonistas se torne deliciosamente credível. Buddy demonstra algum receio em relação aos sentimentos que Jack desenvolve por Karen, com Ving Rhames a interpretar um criminoso religioso, bastante cuidadoso e ponderado, que parece a voz da razão do primeiro. Quem também se encontra à espera de Jack é Glenn (Steve Zahn), um tipo completamente destrambelhado, que pretende assaltar Richard Ripley (Albert Brooks), um indivíduo conhecido como "Dick o Extorquidor" devido aos negócios obscuros em Wall Street, que esconde diamantes brutos, avaliados em cerca de cinco milhões de euros, no interior de uma das suas casas. Glenn descobriu essa informação quando se encontrou detido na penitenciária federal de Lompoc, tendo coincidido neste espaço com Richard, bem como com Jack e Buddy. Escusado será dizer que Jack, Buddy e Glenn procuram assaltar a mansão de Ripley, embora o terceiro logo acabe por estragar boa parte dos planos ao envolver Maurice (Don Cheadle) no negócio, um criminoso ligado ao mundo do boxe que promete colocar a vida do primeiro em perigo. Se George Clooney consegue transformar Jack num assaltante capaz de despertar a nossa simpatia, já Don Cheadle conta com uma interpretação propositadamente exagerada, com o actor a dar vida a um gangster que representa os perigos que envolvem o protagonista. Maurice aparece quase sempre acompanhado por alguns capangas, embora pense ser mais inteligente do que aquilo que é na realidade, com Don Cheadle a surgir como um dos actores secundários que sobressaem ao longo do filme, com Steven Soderbergh a dar espaço para intérpretes como Steve Zahn, Ving Rhames, Dennis Farina, Catherine Keener (como Adele, a ex-mulher de Jack), Albert Brooks terem os seus momentos de destaque.

Os planos que Jack tinha para o assalto sofrem uma série de alterações, sobretudo quando Maurice é envolvido ao barulho, com o protagonista a ter ainda se de manter longe das autoridades, embora pretenda estar bem próximo de Karen, algo que promete provocar um estranho conflito de interesses. Nem chega a ser propriamente um jogo entre o gato e o rato, já que Karen sente uma estranha atracção por este indivíduo, com a dupla a gostar de se envolver em situações problemáticas. A anterior relação de Karen também era problemática, ou esta não se tivesse envolvido com Ray Nicolette (Michael Keaton), um polícia canastrão, alcoólico, casado, que permite a Michael Keaton ter uma participação especial de luxo. Um dos elementos que não aprecia Nicolette é Marshall Sisco (Dennis Farina), o pai da protagonista, um polícia experiente que parece compreender a filha melhor do que ninguém, algo notório quando lhe oferece uma arma como prenda de anos. Jack não consegue deixar de pensar em Karen, enquanto esta tarda em esquecer o protagonista, algo latente num sonho desta mulher. Veja-se ainda quando Jack telefona a Karen, com esta a não denunciar o fugitivo, parecendo apreciar este estranho jogo que envolve uma enorme dose de sedução e perigo. A relação da dupla de protagonistas conhece ainda um episódio marcante no interior de um hotel, quando Jack e Karen se voltam a reunir, com os dois a procurarem fingir inicialmente que são outras pessoas que acabaram de se conhecer, até concretizarem o jogo de sedução. Clooney e Lopez trocam as falas com uma naturalidade extrema, com ambos a convencerem-nos facilmente da capacidade de sedução dos personagens que interpretam, enquanto Steven Soderbergh nos brinda com alguns planos belíssimos, onde a neve surge por vezes como pano de fundo a partir do espaço da janela do hotel, a iluminação contribui para a atmosfera romântica que envolve os personagens, com tudo a parecer funcionar. O romantismo dos momentos protagonizados por Karen e Jack no hotel contrasta com os perigos que envolvem o assalto. O último terço é pontuado pela tentativa de assalto à casa de Richard, bem como pela reunião de diversos personagens em Detroit, com Steven Soderbergh a apresentar este território com tonalidades frias e esbatidas, algo que deixa antever os perigos que se aproximam e a violência que vai permear o enredo. É em Detroit que Jack, Buddy, Glenn e Maurice se reúnem, parecendo certo que os planos dos dois primeiros não coincidem com os deste último. Diga-se que Jack, Buddy, Glenn, Maurice e Richard coincidiram na penitenciária federal de Lompoc, algo exposto nos flashbacks, com Steven Soderbergh a utilizar este recurso de forma bastante assertiva quer para dinamizar a narrativa, quer para fornecer alguma informação essencial sobre os personagens. Soderbergh consegue ainda jogar com as nossas expectativas, algo latente nos momentos protagonizados por Karen e Jack na bagageira, ou quando se encontram no hotel, com o cineasta a saber quando deve "tirar um coelho da cartola", com "Out of Sight" a beneficiar da segurança do cineasta na realização. Com um ritmo assinalável, uma química latente entre George Clooney e Jennifer Lopez, um argumento coeso, uma utilização certeira dos flashbacks, "Out of Sight" mescla assertivamente elementos de romance, filme de assalto, comédia, acção e investigação policial, enquanto joga com as emoções do espectador e conquista por completo a nossa atenção.

Título original: "Out of Sight".
Título em Portugal: "Romance Perigoso".
Realizador: Steven Soderbergh.
Argumento: Scott Frank.
Elenco: George Clooney, Jennifer Lopez, Ving Rhames, Don Cheadle, Steve Zhan, Albert Brooks, Dennis Farina, Catherine Keener.

17 junho 2016

Resenha Crítica: "The Insider" (O Informador)

 Num determinado momento de "The Insider", a sexta longa-metragem realizada por Michael Mann, Lowell Bergman (Al Pacino), um jornalista e produtor da CBS, que trabalha no programa "60 Minutes", efectua uma defesa apaixonada da sua profissão e da sua fonte, enquanto questiona os critérios dos seus superiores: "You pay me to go get guys like Wigand, to draw him out. To get him to trust us, to get him to go on television. I do. I deliver him. He sits. He talks. He violates his own fucking confidentiality agreement. And he's only the key witness in the biggest public health reform issue, maybe the biggest, most-expensive corporate-malfeasance case in U.S. history. And Jeffrey Wigand, who's out on a limb, does he go on television and tell the truth? Yes. Is it newsworthy? Yes. Are we gonna air it? Of course not. Why? Because he's not telling the truth? No. Because he is telling the truth. That's why we're not going to air it. And the more truth he tells, the worse it gets!". Al Pacino domina por completo o ecrã quando profere estas palavras, enquanto protagoniza um dos vários momentos marcantes de "The Insider", uma obra cinematográfica que aborda temáticas como as dificuldades inerentes à investigação jornalística rigorosa e competente, a necessidade de proteger as fontes, as pressões que podem existir sobre estas últimas e os jornalistas, os bastidores de um programa televisivo, entre outras. Embora apresente diversos elementos ficcionais, algo que assume no final, "The Insider" é inspirado no caso que envolveu Jeffrey Wigand, um indivíduo que trabalhou como chefe do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Brown & Williamson, uma empresa do sector tabaqueiro. Após ter sido despedido da empresa e assinado acordos de confidencialidade, Jeffrey tomou a opção corajosa de revelar que a Brown & Williamson aumentava propositadamente o efeito da nicotina nos cigarros. As revelações de Wigand, efectuadas publicamente no programa "60 Minutes", permitiram expor diversas práticas perpetradas por algumas empresas do sector tabaqueiro e mexer com diversos lobbies associados a esta área. A transmissão da entrevista concedida por Wigand ao "60 Minutes" foi antecedida de uma série peripécias intrincadas, algo que é exibido, ainda que de forma ficcional, em "The Insider". Veja-se que Jeffrey foi supostamente ameaçado de morte, o programa esteve em risco de não ser transmitido na sua totalidade, entre outros episódios que são abordados ao longo de "The Insider", com Michael Mann a permitir ainda que Al Pacino e Russel Crowe componham personagens complexos e marcantes. Al Pacino transmite a paixão, o rigor, a intensidade e a humanidade de Lowell Bergman, com Michael Mann a contribuir para mais uma interpretação de peso por parte do actor. Russell Crowe interpreta Jeffrey Wigand com enorme acerto, com o actor a conseguir expor os dilemas internos que atormentam o personagem a quem dá vida, bem como a complexidade desta figura que decide correr uma série de riscos, tendo em vista a desmascarar uma mentira.

Jeffrey Wigand está longe de ser representado como um herói perfeito, embora tenha uma coragem inolvidável e uma personalidade forte, com esta mescla de virtudes e defeitos a contribuir para atribuir densidade ao personagem, algo que é potenciado pelo talento e carisma de Crowe. Se "All the President's Men" colocava-nos diante de uma investigação jornalística intrincada, através da perspectiva dos jornalistas, já "The Insider" procura ainda realçar o papel da fonte e o seu "lado humano", enquanto deixa o espectador perante uma narrativa intensa, marcada por elementos de thriller e suspense, com o argumento a nunca descurar as dificuldades conhecidas por elementos como Wigand e Bergman. A banda sonora permite exacerbar alguns episódios que nos são apresentados, algo latente quando a canção "Sacrifice" de Pieter Bourke e Lisa Gerrard invade "The Insider" e contribui para atribuir uma força inexorável, quase épica, a uma das cenas, com Michael Mann a saber dinamizar e gerir os ritmos de uma obra cinematográfica que nos envolve e inquieta. No início de "The Insider", Michael Mann apresenta-nos Jeffrey e Lowell de forma rápida e eficaz. Lowell reúne-se com Sheikh Fadlallah, um dos "mentores espirituais" do Hezbollah. O encontro é marcado por enormes restrições, com Lowell a encontrar-se de olhos vendados, enquanto procura garantir que Fadlallah seja entrevistado por Mike Wallace (Christopher Plummer) no programa "60 Minutes". Mike é um jornalista veterano, sem papas na língua, ou problemas em fazer perguntas difíceis, com Christopher Plummer a conseguir transmitir a experiência e credibilidade deste indivíduo que conta com um currículo de respeito, embora tome algumas atitudes a pensar no seu legado. É também no início do filme que encontramos Jeffrey Wigand a ser despedido da Brown & Williamson, tendo recebido uma indemnização e assinado um acordo de confidencialidade. Jeffrey é casado com Liane (Diane Venora), com o casal a contar com duas filhas e uma relação que se prepara para conhecer um período conturbado, ou o personagem interpretado por Russell Crowe não se preparasse para tomar uma série de decisões que prometem mudar a vida de todo o seu núcleo familiar, em particular, a partir do momento em que é contactado por Bergman, tendo em vista a interpretar alguns documentos relacionados com a Philip Morris. Jeffrey rejeita inicialmente qualquer tipo de contacto com Lowell, embora acabe por ceder aos pedidos de encontro efectuados pelo jornalista, com ambos a formarem uma relação de respeito ao longo do filme, embora não deixem de protagonizar algumas discussões mais acesas, sobretudo quando existe o risco da entrevista não ser transmitida.

A interacção entre os personagens interpretados por Al Pacino e Russell Crowe é um dos pontos fortes de "The Insider", com Wigand e Lowell a surgirem como homens experientes, que procuram cuidar das suas famílias embora nunca descurem o lado profissional. Michael Mann procura conceder alguma atenção à vida pessoal dos personagens principais, algo que já tinha efectuado em "Heat", embora no caso de "The Insider" a relação entre Wigand e Liane seja mais convincente e intrincada do que o envolvimento entre Lowell e Sharon Tiller (Lindsay Crouse). Wigand e a família conhecem uma série de episódios adversos, com Michael Mann a criar toda uma atmosfera de paranóia e suspeição em volta do primeiro, com este indivíduo a ser alvo de ameaças a partir do momento em que começa a contactar com Lowell e pondera quebrar os acordos de confidencialidade que assinou antes de ser despedido. Esses perigos são particularmente notórios quando Jeffrey e a sua família recebem ameaças de morte quer no computador, quer na caixa de correio, com a banda sonora, as tonalidades frias, o trabalho de montagem e a cinematografia e contribuírem para a tensão que envolve o episódio mencionado. Não vão faltar momentos intensos ao longo de "The Insider", com a câmara de filmar a acompanhar o ritmo dos mesmos (bom trabalho de Dante Spinotti na cinematografia). Veja-se quando encontramos a entrevista concedida por Wigand a ser gravada, com o trabalho de montagem e a cinematografia a sobressaírem, bem como o trabalho dos actores. O personagem interpretado por Russell Crowe surge praticamente coberto pelas sombras, como alguém que se prepara para trazer à luz do dia alguns segredos que prometem abalar a indústria do tabaco. Por sua vez, Christopher Plummer incute toda uma seriedade e carisma a Mike Wallace, enquanto o jornalista efectua as questões. Nesses momentos da gravação da entrevista, por vezes ficamos diante de planos que focam o personagem interpretado por Al Pacino, com o actor a evidenciar a admiração que Lowell nutre pela coragem de Jeffrey, mas também a perplexidade em relação a tudo aquilo que está a ouvir e o orgulho por saber que está a contribuir para o público receber informação relevante. Michael Mann aproveita ainda para exibir os bastidores de uma entrevista televisiva, com o cineasta a aproveitar o cenário do estúdio e as suas câmaras, enquanto cria um dos momentos de maior impacto de "The Insider". A relevância daquilo que Jeffrey tem para revelar contribui e muito para as dificuldades que este personagem encontra, enquanto "The Insider" exibe quer o lado positivo, quer o lado negativo da imprensa. Veja-se quando os elementos das empresas ligadas ao sector do tabaco tentam desacreditar Jeffrey junto da opinião pública, procurando difamar o protagonista através da imprensa sensacionalista, ou menos cuidadosa a analisar as fontes. Lowell tenta proteger a sua fonte e encontrar medidas legais para "fintar" as cláusulas assinadas por Jeffrey, enquanto este último procura regressar ao mercado de trabalho, revelar alguns segredos que o atormentam e manter a relação com a sua família.

Diane Verona, tal como em "Heat", assume o papel de uma esposa que lida constantemente com as decisões complicadas do marido, com Liane a começar a ceder do ponto de vista emocional. Liane é uma das várias personagens secundárias que ganham algum destaque em "The Insider", embora não seja a única. Veja-se o caso de Ron Motley (Bruce McGill), um advogado que processou as tabaqueiras em nome do Estado do Mississippi, ao lado de elementos como Richard Scruggs (Colm Feore). Bruce McGill destaca-se sobretudo no trecho onde Motley enfrenta um advogado que representa as empresas ligadas ao sector do tabaco, com este último a procurar silenciar Wigand, quando o protagonista prestava depoimento. Não faltam ainda personagens com Thomas Sandefur (Michael Gambon), o CEO da Brown & Williamson, um indivíduo frio que procura proteger a sua empresa; Helen Caperelli (Gina Gershon), uma executiva que representa o Conselho de Administração da CBS, que tenta evitar a transmissão do programa que conta com a presença do personagem interpretado por Russell Crowe; Don Hewitt (Philip Baker Hall), o criador do "60 Minutes", um produtor que parece apresentar algum receio em relação às repercussões da entrevista a Jeffrey Wigand, entre outros. Estes personagens são apresentados com diversas liberdades criativas à mistura, entre os quais Mike Wallace, algo apontado por Roger Ebert na sua crítica a "The Insider", com Michael Mann a preferir concentrar os seus esforços em Lowell e Wigand, embora essas diferenças entre a realidade e a ficção beneficiem a fluidez narrativa e os ritmos do filme. Se diversos personagens secundários conseguem destacar-se ao longo de "The Insider", bem como os seus intérpretes, já Sharon Tiller surge representada como o estereótipo da esposa compreensiva que procura apoiar o marido em todas as ocasiões. Esse apoio é visível quando existe o perigo da entrevista não ser transmitida na sua totalidade, com a estação a temer as repercussões de hostilizar as empresas ligadas ao sector do tabaco, enquanto o personagem interpretado por Al Pacino procura fazer de tudo para que o programa seja exibido na íntegra. Al Pacino incute um estilo emotivo, teimoso e credível a Lowell, enquanto Russell Crowe consegue explanar os receios e vulnerabilidades do personagem que interpreta, com a dupla a contar com interpretações de relevo. Michael Mann surge como o grande maestro desta orquestra, com o cineasta a conduzir os ritmos da narrativa de forma sublime, enquanto incute um tom inquietante e envolvente a uma obra cinematográfica que aborda temáticas relevantes sobre o jornalismo e o trabalho dos jornalistas com as fontes.

Título original: "The Insider".
Título em Portugal: "O Informador".
Realizador: Michael Mann.
Argumento: Eric Roth e Michael Mann.
Elenco: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Michael Gambon, Lindsay Crouse, Philip Baker Hall, Bruce McGill, Colm Feore.

15 junho 2016

Resenha Crítica: "Breathe In" (Um Novo Fôlego)

 Como controlar o desejo pelo fruto proibido? É provável que Keith Reynolds (Guy Pearce), um dos personagens principais de "Breathe In", não consiga responder paradigmaticamente a esta questão, sobretudo quando Megan (Amy Ryan), a sua esposa, decide acolher Sophie (Felicity Jones), uma jovem de dezoito anos de idade, na habitação do casal. Sophie é uma estudante inglesa misteriosa, sensual e inteligente, que se encontra a estudar temporariamente nos EUA como aluna de intercâmbio. Junte-se um casamento a atravessar um desgaste latente e temos os condimentos para a "tempestade perfeita", com a casa de Megan e Keith a parecer um vulcão prestes a entrar em erupção. Drake Doremus, o realizador e co-argumentista, desenvolve a tensão sexual entre Keith e Sophie de forma ponderada e credível, com o cineasta a atribuir imensa atenção aos gestos e olhares dos personagens. As trocas de olhares entre Keith e Sophie deixam desde logo água no bico, com Guy Pearce e Felicity Jones a expressarem imenso através de pequenos gestos, algo aproveitado por Drake Doremus, com o cineasta a demonstrar mais uma vez que é exímio a extrair boas interpretações do elenco principal dos seus filmes (o cineasta volta a dar espaço para os intérpretes improvisarem). Veja-se a ponderação com que os close-ups são utilizados, com Drake Doremus e o seu director de fotografia a permitirem que os rostos de Felicity Jones e Guy Pearce exprimam uma multitude de sentimentos, com o cineasta a saber gerir os silêncios, os gestos e os olhares de forma exímia. Doremus deixa crescer a tensão sexual entre Keith e Sophie, com esta relação entre a dupla de protagonistas a prometer desestabilizar por completo o quotidiano de uma família que parecia unida por alicerces demasiado frágeis. Num determinado momento de "Breathe In", encontramos Keith e Megan a dialogarem no carro, enquanto Sophie se encontra no banco de trás, a escutar a conversa mantida pelo casal e a efectuar algumas questões. Keith salienta o desejo de tocar violoncelo na orquestra a tempo inteiro e deixar de dar aulas de piano no ensino secundário, enquanto Megan não tem problemas em procurar dissuadir o marido. É um momento fulcral para Drake Doremus expor que algo vai mal na relação deste casal, com o desgaste inerente a dezassete anos de matrimónio a ser notório, bem como as diferenças de objectivos entre os cônjuges. Megan gosta de coleccionar e vender frascos de biscoitos, conta com uma personalidade relativamente conservadora, procura controlar os ímpetos do esposo e não parece apreciar cometer riscos. Keith é um professor frustrado, que se deixou prender a um emprego desmotivante que permite pagar as contas da casa, embora ainda sonhe deixar tudo de lado e abraçar uma aventura. Veja-se quando encontramos Keith a observar as fotos dos tempos em que era jovem, quando tinha uma banda e mal podia pagar as contas, ou decide ouvir as canções desse grupo musical. Megan e Keith são pais de Lauren (Mackenzie Davis), uma jovem mimada, que se encontra prestes a completar dezoito anos de idade. Lauren é uma nadadora exímia, vencedora de medalhas, que gosta de nadar, embora não partilhe o interesse do pai pela música. Keith toca violoncelo na orquestra de Nova Iorque e tem um talento latente para o piano, com este a contar com uma enorme paixão pela música.  

Os Reynolds pareciam contar com um estilo de vida relativamente calmo, embora a chegada de Sophie prometa mexer e muito com o quotidiano destes elementos, que o diga Keith. A ideia de convidar Sophie partiu de Megan, embora Lauren não aprove totalmente a ideia, com as duas jovens a nunca conseguirem criar uma relação de proximidade, embora ainda tentem formar amizade. Se Felicity Jones consegue transmitir algum mistério, capacidade de sedução e segurança como Sophie, uma jovem com enorme talento para tocar piano e uma maturidade surpreendente, já Mackenzie Davis expõe o lado mimado e frágil de Lauren, uma nadadora exímia, que tarda em despertar a atenção de Aaron (Matthew Daddario), um colega de escola. Diga-se que o interesse de Aaron parece recair em Sophie, com esta jovem a atrair a atenção de quase todas as figuras masculinas. Tal como em "Like Crazy", Drake Doremus aborda as peripécias das relações amorosas e a complexidade das mesmas. É certo que falta alguma coragem a Drake Doremus para surpreender e entrar mais a fundo nas temáticas que lança para o interior da narrativa de "Breathe In", embora o cineasta e argumentista consiga gerir relativamente bem a tensão sexual que se gera entre Keith e Sophie, com a relação destes dois personagens a encontrar-se no centro do enredo. Inicialmente as conversas entre Sophie e Keith não parecem passar da mera cordialidade, embora as trocas de olhares indiquem que o professor e a estudante estão a conter um certo desejo e curiosidade. Keith atravessa uma crise típica dos quarenta e poucos anos de idade, questionando boa parte das decisões que tomou para a sua vida, enquanto Sophie surge como uma espécie de bálsamo que o desafia e seduz. Guy Pearce consegue expor a personalidade passiva, algo introvertida e aparentemente letárgica deste personagem que se expressa imenso através do seu olhar, com Keith a ter na música uma paixão, encontrando-se a ensaiar para efectuar os testes para integrar a orquestra. Escusado será dizer que Sophie estimula Keith a tentar novos desafios, bem como a seguir as suas convicções, algo latente quando comenta: "You just have to make sure that you're choosing it. I just don't wanna be living a life where I'm not choosing stuff". A relação que se forma entre Keith e Sophie é credível, embora Drake Doremus entre muitas das vezes por caminhos previsíveis, inclusive no último terço, quando os impulsos dos dois primeiros parecem ter tudo para dar em nada. Doremus falha ainda na abordagem de diversas subtramas, para além de denotar mais uma vez uma incapacidade notória em desenvolver e explorar alguns personagens secundários, algo que já tinha acontecido em "Like Crazy". Veja-se uma subtrama relacionada com Sophie, Lauren e Aaron, com a segunda a ter ciúmes da primeira, embora esta situação provoque pouco efeito no espectador, ou a incapacidade de "Breathe In" desenvolver as rotinas da protagonista na escola. Diga-se que Felicity Jones é a actriz que mais sobressai ao longo de "Breathe In", com a intérprete a incutir uma certa dose de mistério a esta figura feminina complexa que aos poucos se dá a conhecer ao espectador e àqueles que a rodeiam.

 Sophie foi praticamente educada pelos tios, com a morte do tio a contribuir para que esta tenha decidido viajar para os EUA e perdido o gosto por tocar piano. O tio de Sophie tocava piano, tendo contribuído para que a jovem procurasse seguir os seus passos, com esta a apresentar um talento notável, algo comprovado numa aula onde Keith pede para que a personagem interpretada por Felicity Jones se apresente à turma com uma demonstração ao piano. Sophie representa a mudança, a irreverência e a vontade de Keith colocar em prática os sonhos contido na sua alma, embora a estudante esteja longe de ser uma femme fatale. Megan significa a segurança, a responsabilidade e a certeza de que as opções tomadas no passado acabam por hipotecar os planos para o futuro. A certa altura de "Breathe In", Keith é praticamente obrigado a ter que se decidir entre manter a estabilidade do lar ou prosseguir com uma aventura, com Drake Doremus a semear o caos no quotidiano deste indivíduo e daqueles que o rodeiam. Tudo é exposto com alguma contenção e subtileza, com Drake Doremus a abordar a relação de Keith e Sophie com imensa inspiração, embora pudesse ter colocado um pouco mais de "pimenta" na mesma. Inicialmente tudo parece relativamente calmo, com Lauren e Megan a procurarem receber Sophie de forma cordial, embora esta situação mude com o avançar da narrativa, sobretudo quando os sentimentos de Keith e da protagonista começam a transparecer para o exterior. Megan aparece como a esposa conservadora que aos poucos começa a perceber que a sua casa é um vulcão prestes a entrar em erupção, algo notório quando observa Keith e Sophie, quando estes se encontram num baloiço. Lauren é uma jovem mimada, que não parece conviver muito bem com a entrada em cena de Sophie. É certo que Lauren procura integrar Sophie no seu círculo de amigos, ainda que a nível inicial, mas a relação entre ambas sofre rudes golpes que atomizam a possibilidade das jovens formarem amizade. O argumento nem sempre permite que Amy Ryan, Mackenzie Davis e Matthew Daddario sobressaiam, sobretudo este último que aparece com o estereótipo do adolescente idiota que finge ter ido para a cama com todas as colegas que saíram consigo. Já Mackenzie Davis interpreta uma adolescente que não parece saber lidar com as contrariedades, embora o argumento nunca consiga que Lauren atinja a mesma relevância e complexidade de Sophie. Se as temáticas relacionadas com o quotidiano de Sophie e Lauren na escola são abordadas de forma superficial, já a atenção aos pequenos gestos é exímia. Diga-se que Drake Doremus já tinha apresentado esta atenção aos pequenos gestos que ganham enorme significado em "Like Crazy". No caso de "Breathe In", é impossível esquecer quando encontramos Sophie a tocar piano ao lado de Keith, com as mãos de ambos a entrelaçarem-se, bem como os seus sentimentos, ou os personagens interpretados por Felicity Jones e Guy Pearce a baloiçarem de forma silenciosa, entre outros momentos. O momento no baloiço transmite alguma candura e melancolia, com Keith e Sophie a surgirem como personagens complexos, que guardam uma imensidão de sentimentos para expressar e a certeza de que não alcançaram tudo aquilo que pretendiam para as suas vidas. Com uma banda sonora pontuada pela delicadeza, uma atenção latente aos gestos, olhares e "pequenos pormenores", "Breathe In" confirma a habilidade de Drake Doremus para abordar temáticas relacionadas com a complexidade dos relacionamentos amorosos e dos sentimentos aparentemente incontroláveis, com o cineasta a aproveitar ainda para nos brindar com interpretações de bom nível de Guy Pearce e Felicity Jones, sobretudo desta última que entra de mansinho no enredo até provocar estrondo e aquecer a alma do filme e do espectador.

Título original: "Breathe In". 
Título em Portugal: "Um Novo Fôlego". 
Realizador: "Drake Doremus".
Argumento: Drake Doremus e Ben York Jones.
Elenco: Guy Pearce, Felicity Jones, Amy Ryan, Mackenzie Davis.