30 abril 2016

Sobre a edição de 2016 do FESTin

 Estamos na "época alta" dos festivais e mostras de cinema. Não falta oferta, algo que dificulta cada vez mais a escolha dos eventos a seguir de perto, ou a cobrir de forma exaustiva. Este ano as minhas escolhas recaíram no 8 1/2 Festa do Cinema Italiano e no FESTin (Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa). O IndieLisboa ficou de lado devido a várias razões que não estão ligadas ao festival (nem vou expor neste texto). Se a cobertura da edição de 2016 do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano foi abordada num breve balanço, já a decisão de cobrir o FESTin é uma das várias temáticas deste texto. Diga-se que os motivos para cobrir o FESTin são relativamente óbvios, ou este festival não surgisse como um veículo privilegiado para ver filmes oriundos do Brasil (e não só, mas já lá vamos) numa sala de cinema, algo que é bastante raro. Lembram-se de "O Lobo Atrás da Porta" ter estreado em circuito comercial? A distribuidora e a imprensa profissional concederam pouca atenção ao filme, com "O Lobo Atrás da Porta" a ter estreado em Portugal a 29 de Outubro de 2015, de forma praticamente silenciosa, quase sem se dar por isso. O tratamento dado a "O Lobo Atrás da Porta" não é único ou exclusivo de uma distribuidora e remete para algo notório quando observamos as estreias em circuito comercial em Portugal, ou seja, o cinema brasileiro é praticamente ignorado. Nesse sentido, a escolha de cobrir o FESTin torna-se relativamente fácil de efectuar, ou este não surgisse como um certame que permite dar a conhecer um pouco das vastas e diversificadas produções cinematográficas brasileiras, respeitando e valorizando as mesmas, algo que atribui uma relevância indelével ao festival. É certo que a programação do FESTin conta com filmes de diversos países de língua portuguesa, mas o seu grande chamariz centra-se nas obras cinematográficas oriundas do Brasil. Diga-se que o FESTin é um festival pelo qual tenho um especial apreço. É o certame que já me "deu" filmes como "Elena" (se ainda não viram o filme, parem de ler este texto e vejam a magnífica obra de arte realizada por Petra Costa), "A Despedida", "A Memória que me Contam", "A Vizinhança do Tigre", "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa", entre outros exemplos que me marcaram pela positiva. Também já me deu desilusões como "Pecado Fatal", ou "Jogo de Xadrez" mas, no cômputo geral, as experiências da cobertura das edições de 2014 e 2015 foram bastante positivas. Nesse sentido, espero muito do FESTin em 2016, ou seja, uma amostra de obras cinematográficas que reflictam algum do bom cinema que está a ser feito pelo Brasil. É óbvio que também vou deparar-me com desilusões, mas isso faz parte da cobertura de um festival, em particular, a formação de novos amores e ódios. A própria secção competitiva de longas-metragens revela exactamente essa procura de exibir uma amostragem mais lata daquilo que é produzido no Brasil. Não faltam filmes para toda a família ("A Família Dionti"), mais comerciais ("Mundo Cão", realizado por Marcos Jorge e protagonizado por elementos como Lázaro Ramos, Babu Santana, Milhem Cortaz e Adriana Esteves), premiados em festivais ("A História da Eternidade" - provavelmente um dos grandes filmes desta edição; "Ausência"; "Fome"), entre outros.

 A competição de longas-metragens marca o regresso de um filme de Caio Soh ao FESTin, com o cineasta a trazer "Por Trás do Céu", com esta secção a contar ainda com "Amores Urbanos" (realizado por Vera Egito), "Histórias de Alice" (uma co-produção entre Portugal e o Brasil que conta no elenco com Ana Moreira e Filipe Duarte), "Maresia", "Cartas de Amor São Ridículas" (o filme de abertura) e "Zenaida" (o único representante de Cabo Verde nesta secção competitiva). Ou seja, temos onze obras cinematográficas relativamente diversificadas, com "A História da Eternidade" a parecer surgir como um dos grandes destaques, com Camilo Cavalcante a contar com uma estreia em grande na realização de longas-metragens (os elogios da crítica têm sido merecidos). O meu maior problema passa por conseguir ver e escrever sobre todos os filmes que coloquei na minha lista. Mais uma vez, sei que vou deparar-me com algumas desilusões, mas as surpresas positivas de cobrir o FESTin têm compensado as primeiras. Algo que desperta a minha atenção nesta edição é a sua nova secção, em particular, a FESTin Arte (que apenas peca por escassa). Todos os festivais precisam de se reformular e criar novos estímulos para o público, algo que não é diferente no FESTin, uma situação que se torna notória quando observarmos a secção FESTin Arte'16. É a estreia de uma secção que é descrita da seguinte forma: "A vocação experimental dos festivais é formalmente enquadrada por uma das novidades desta 7ª edição do FESTin, a inauguração da secção FESTin ARTE. É nela que surgem selecionadas propostas particularmente estimulantes para todos aqueles que procuram obras diferentes das convencionais. Somada à uma obra exclusiva desta secção, são apresentados também dois projetos das competições de longas de ficção e documentário". A obra exclusiva desta secção é "Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois", o filme que conclui a "trilogia da morte" de Petrus Cariry (o realizador). Os outros dois intrusos, ou seja, aqueles que também fazem parte de secções competitivas são "Fome", uma obra cinematográfica realizada por Cristiano Burlan, para além de "O Touro", um documentário realizado por Larissa Figueiredo que promete ser uma das propostas mais estimulantes do festival. Estreado no Festival de Roterdão, "O Touro" promete desafiar as barreiras do documentário e da ficção, um pouco como "A Vizinhança do Tigre" efectuou na edição de 2015 do certame, algo notório na sinopse disponibilizada pelo FESTin: "A história do rei Dom Sebastião não acabou com o seu desaparecimento em Marrocos. O seu espírito tornou-se líder de um exército que foi dar à Ilha de Lençóis, litoral norte do Brasil, onde se tornou figura central da mitologia da comunidade. É isso que vai lá descobrir a atriz portuguesa Joana de Verona, numa convivência aprazível e cheia de surpresas com os habitantes da localidade". "O Touro" faz parte da secção competitiva de documentários, uma das mais promissoras do certame, que conta com obras cinematográficas como "Olhar de Nise", "A Loucura Entre Nós", "Central", "Deportados" (o único documentário de Cabo Verde a constar nesta secção) e "Do Outro Lado do Atlântico". Outra das obras cinematográficas da Competição de Documentários que despertou a minha atenção foi "Olhar de Nise", um documentário realizado por Jorge Oliveira e Pedro Zoca. A sinopse é a seguinte: "Em 1946, ao sair da prisão política, a jovem psiquiatra Nise da Silveira volta ao Hospital Psiquiátrico no subúrbio do Rio de Janeiro, recusa-se a usar o choque eléctrico e adopta a arte terapêutica para tratar dos seus pacientes. Nos ateliers de pintura surgem talentosos artistas que surpreendem o mundo das artes. As pinturas encantam C.G. Jung e dão origem ao Museu das Imagens do Inconsciente que hoje possui mais de 350 mil obras".

 A programação do FESTin não se fica por aqui. Veja-se a Mostra Brasileira de Longas, uma secção que conta com o filme de encerramento do FESTin 2016, em particular, "Jonas" (não é um filme biográfico sobre o ponta de lança do Benfica), uma obra cinematográfica realizada por Lô Politi. Esta secção conta ainda com "Beatriz" (co-produção entre Portugal e o Brasil, que conta no elenco com Marjorie Estiano, Sérgio Guizé e Beatriz Batarda), "A Floresta que se Move" (protagonizado por Gabriel Braga Nunes, Ana Paula Arósio e Nelson Xavier), "A Grande Vitória" (também composto por um elenco recheado de caras conhecidas, tais como Caio Castro, Sabrina Sato, Tato Gabus Mendes). Se a competição de longas-metragens e documentários contou apenas com dois filmes oriundos dos PALOP, já a Homenagem à CPLP, promete apresentar obras cinematográficas de países como Moçambique ("Maputo"), Angola ("Crianças Acusadas de Feitiçaria"), Guiné-Bissau ("África Abençoada"), São Tomé e Príncipe ("Manuel"), com algumas fitas a surgirem em co-produção com Portugal. Diga-se que "Beatriz" também faz parte desta secção, que é descrita da seguinte maneira: "O 20º aniversário da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é lembrado nesta mostra que se divide entre filmes de ficção, documentários e uma mostra infantojuvenil, trazendo produções oriundas do Brasil, Portugal, Angola, Moçambique e São Tome e Príncipe como forma de retratar a rica diversidade cultural encontrada nesses países que têm em comum a língua portuguesa". A programação do FESTin conta ainda com outras secções e actividades paralelas (veja-se as célebres Mesas-Redondas), algo que pode ser consultado no site do Festival. A sétima edição do FESTin vai decorrer entre os dias 4 e 11 de Maio de 2016. O filme de abertura é "Cartas de Amor São Ridículas", que vai ser exibido às 21h, no dia 4 de Maio, na Sala Manoel de Oliveira, do Cinema São Jorge, com o FESTin a abrir com uma "(...) história de cinco noivas à espera de casamento cujos encontros e desencontros são marcados pela poesia de Fernando Pessoa – que inspira o título com um dos seus mais famosos poemas". Se "Cartas de Amor São Ridículas" abre a edição de 2016 do Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, já "Jonas" fecha o certame (11 de Maio). "Jonas" marca a estreia de Lô Politi na realização de longas-metragens. O filme conta com a seguinte sinopse: "Jonas (Jesuíta Barbosa) é um rapaz pobre que vive de pequenos trabalhos esporádicos e que reencontra, depois de 20 anos, Branca (Laura Neiva), uma menina rica pela qual nutre uma paixão que vem desde a infância. Depois de um acontecimento trágico e fortuito, no entanto, a história toma um rumo vertiginoso onde drama, policial e aventura misturam-se nesta proposta cheia de energia". Ao todo, a edição de 2016 do FESTin conta com a presença de setenta e quatro filmes (entre longas e curtas-metragens), que vão ser exibidos entre os dias 4 e 11 de Maio, com estes dias a prometerem trazer diversas descobertas cinematográficas que, muito provavelmente, serão praticamente impossíveis de visionar em circuito comercial (em Portugal).

29 abril 2016

Resenha Crítica: "Olmo e a Gaivota" (Olmo & the Seagull)

 "Olmo e a Gaivota" entra de mansinho, quase sorrateiramente, até agarrar o espectador e fazer com que este se torne cúmplice da sua dupla de protagonistas. É uma obra cinematográfica onde a ficção e a realidade se diluem, ou a genuinidade e a encenação se reúnem, sempre com enorme classe e engenho, enquanto Petra Costa e Lea Glob, a dupla de realizadoras, jogam com o espectador e mostram que estão no cinema para deixarem a sua marca. O que é realidade em "Olmo e a Gaivota"? O que é ficção? A ficção contamina o real ou, simplesmente, acontece o contrário? O que é genuíno? O que é manipulado? Sabemos que Olivia Corsini e Serge Nicolai, a dupla de protagonistas, são reais, bem como a gravidez da primeira, embora tudo o resto possa ser, ou não, questionado, com Petra Costa e Lea Glob a criarem algo que tanto tem de estimulante como de envolvente. Petra Costa e Lea Glob conseguem pegar numa situação particular, nomeadamente, a gravidez da protagonista, tendo em vista a abordarem a gestação de forma mais lata e alcançarem quer o público feminino, quer o masculino. Diga-se que "Olmo e a Gaivota" é muito mais do que um filme sobre uma mulher que tem de lidar com uma gravidez inesperada. É um documentário híbrido que nos coloca não só perante a mente de uma figura feminina que se encontra num período delicado da sua vida, mas também diante do relacionamento entre um casal, para além de nos exibir as dúvidas que assolam a protagonista. Esta é Olivia Corsini, uma actriz italiana, de trinta e quatro anos de idade, que conta com uma larga experiência no teatro, diversos sonhos por realizar e uma energia aparentemente inesgotável. Olivia namora com Serge Nicolai, um actor francês, com quem se encontra a trabalhar numa encenação da peça "A Gaivota", de Tchekov. Serge e Olivia conheceram-se no Théâtre du Soleil, com o teatro a ter um papel relevante no quotidiano deste casal de intérpretes, algo que é explanado ao longo de "Olmo e a Gaivota". A certa altura de "Olmo e a Gaivota", Olivia chega mesmo a questionar se a relação com Serge teria perdurado ao longo do tempo se estes tivessem permanecido sempre "eles próprios" ao invés de interpretarem personagens ficcionais em diversas peças, com o namoro a parecer ter conhecido um tempero distinto consoante cada espectáculo teatral que protagonizaram. No fundo, aquilo que Olivia parece realçar é a importância da sua profissão para o seu modo de viver, ao mesmo tempo que evidencia alguma insegurança, ou este comentário não surgisse na fase em que a protagonista já se encontra grávida. Teatro, vida, encenação, emoção, problemas existenciais e filosóficos, realidade, ficção e poesia juntam-se em "Olmo e a Gaivota", enquanto Olivia e Serge se dão a conhecer ao espectador. Estes expõem parte das suas vidas, ou exibem uma encenação do seu quotidiano, enquanto "Olmo e a Gaivota" vagueia entre as barreiras da ficção e da realidade. É um exercício criativo bastante interessante, que não retira força às temáticas abordadas, bem pelo contrário, com Petra Costa e Lea Glob a conseguirem que o espectador seja arrastado para o interior da narrativa e dos fragmentos do quotidiano da dupla de protagonistas. A partir do momento em que Olivia e Serge aparecem no ecrã, as suas histórias passam a ser partilhadas com o espectador, num período específico da vida da primeira, ou seja, a sua gravidez, enquanto ficamos perante dois personagens que são sempre interessantes de acompanhar.

No início de "Olmo e a Gaivota", ficamos diante dos ensaios de "A Gaivota", no interior da companhia de teatro onde Olivia e Serge trabalham. Este local tem uma importância especial para Olivia. É no teatro onde esta se pode "transformar" e ser o centro das atenções, algo que promete mudar por completo quando Olivia descobrir que está grávida. O momento em que Olivia descobre estar grávida é pontuado por algum humor. Olivia encontra-se no interior da casa de banho, a efectuar o teste de gravidez, enquanto Serge está fora desta divisória, com ambos a apresentarem alguma curiosidade em relação ao resultado. Esta divisão, propositada, ou não, permite discernir desde logo que estes dois personagens vão avaliar e viver a gravidez de forma distinta, ou Olivia não se sentisse muitas das vezes solitária e inquieta, sobretudo no período inicial da gestação. Quando é revelado que a peça vai estrear em Nova Iorque, onde a companhia vai ficar durante alguns meses, até passar para Montreal, Olivia não tem escolha a não ser revelar que está grávida, algo que apanha os seus colegas de surpresa. Olivia não quer perder o direito de trabalhar e exercer a arte que ama, embora não pareça ter outra escolha. Um problema de saúde, em particular um hematoma no útero, obriga Olivia a ficar praticamente confinada ao espaço da sua casa, tendo em vista a repousar e evitar a possibilidade de sofrer um aborto espontâneo, algo que parece aumentar as dúvidas e inseguranças da actriz, enquanto "Olmo e a Gaivota" explora algumas temáticas e possibilidades relacionadas com a gravidez a partir de uma perspectiva feminina. Olivia é uma figura feminina complexa, que se depara com uma série de alterações nas suas rotinas a partir do momento em que descobre estar grávida, com "Olmo e a Gaivota" a colocar-nos diante das dúvidas, inquietações, alegrias, tristezas e transformações corporais desta mulher, bem como a forma como a protagonista encara todas estas mudanças, ou seja, a sua jornada física e psicológica. Não é uma super-heroína que se encontra a aprender a utilizar as suas habilidades, mas sim uma mulher que engravida, com esta jornada de Olivia a prometer ser mais intrincada do que se tivesse de lidar com super-poderes, ou enfrentar um antagonista com um plano pueril para dominar o planeta. Petra Costa e Lea Glob concedem uma especial importância ao modo como Olivia encara o seu corpo, algo que permite realçar as mudanças que ocorrem no físico desta mulher (o comprometimento de Olivia Corsini é louvável), enquanto esta se questiona sobre tudo aquilo que está a viver. As formas corporais alteram-se por completo, o tédio inerente ao facto de passar os dias em casa é mais do que muito, uma situação que se adensa pelo facto de Serge, a gaivota, continuar em movimento, ou melhor, a trabalhar. Este é um actor de personalidade afável, de barba por fazer, que ama Olivia (a relação entre ambos é essencial para o espectador criar um elo de ligação com o filme), embora a espaços não pareça saber que está a entrar em "terreno minado". Veja-se quando salienta as qualidades de Camille, a colega que substituiu Olivia como Arkadina na peça "A Gaivota", com a esposa a apresentar alguma inquietação em relação à possibilidade da substituta interpretar melhor a personagem.

O facto de Serge continuar a trabalhar e passar os dias praticamente fora de casa, aliado à noção de que a gravidez e a maternidade vão afectar a carreira profissional, surgem como elementos que contribuem para que a inquietação e ansiedade de Olivia aumentem. Tudo é uma novidade para Olivia, com "Olmo e a Gaivota" a expor-nos não só às transformações do corpo da actriz, mas também ao modo como esta encara a gravidez, com a protagonista a começar a tratar a gestação de forma mais objectiva e menos abstracta. Veja-se que inicialmente ficamos diante da inquietação desta em relação às mudanças de rotinas, às alterações do seu corpo, aos receios em relação à possibilidade da sua liberdade poder vir a ser coartada por um "extraterrestre" que a comanda a partir do ventre, entre outros exemplos. Com o desenrolar do enredo, começamos a observar Serge e Olivia a falarem sobre o nome do bebé (o Olmo), a pensarem na educação do rebento, a organizarem festas para darem a conhecer a gravidez aos amigos, ou seja, somos conduzidos a entrar no processo de maturação deste casal. Inicialmente pouco preparados, Serge e Olivia passam a ter de lidar com a gravidez desta última, com o cerne de "Olmo e a Gaivota" a estar na perspectiva feminina. A gravidez é algo que Olivia parece encarar como incontrolável, até começar a aprender a conviver consigo mesma e com a gestação, ao mesmo tempo que se depara com uma série de receios e ansiedades. As experiências do passado são recordadas no presente, enquanto a narração de Olivia, muitas das vezes em off, permite criar uma certa relação de cumplicidade entre o espectador e a actriz, quase como se nos tornássemos confidentes invisíveis desta mulher. Veja-se quando esta fala em italiano sobre as mudanças do seu corpo, em particular ter perdido um dente (a espaços parece que não é inocente o facto desta falar na língua do seu país natal em situações de maior fragilidade ou mais íntimas), ou aborda as suas ansiedades e aquilo que teme, ou temia. A relação com Serge também é avaliada por Olivia, embora não seja colocada em causa, com "Olmo e a Gaivota" a deixar-nos diante de alguns momentos que parecem demasiado "reais" para terem sido encenados, com Petra Costa e Lea Glob a pegarem num casal real e a transportarem-no para a ficção. Num determinado momento de "Olmo e a Gaivota", encontramos Olivia a colocar a hipótese de Serge poder vir a conhecer uma actriz mais jovem e interessar-se pela mesma, uma possibilidade que parece atormentar a primeira, embora esta não deixe de salientar que espera contactar com actores mais novos. Esta troca de diálogos, sobre a possibilidade de Serge conhecer actrizes mais jovens, evidencia paradigmaticamente algumas das inquietações que Olivia sente em relação à passagem do tempo e ao avançar da idade. As rugas começam a aparecer, o corpo está em mudança, enquanto as personagens que Olivia interpretou parecem ter deixado marcas na actriz. Esta é obrigada a superar os desafios colocados pela gravidez e pela sua mente, enquanto levanta uma série de questões relacionadas com o seu futuro quer a nível pessoal, quer do ponto de vista laboral. Nesse sentido, ficamos diante do modo como uma actriz encara a sua arte, bem como as suas tormentas, enquanto Olivia interpreta uma versão de si própria, embora também possa ser Arkadina ou Nina, duas personagens de "A Gaivota". A carreira profissional de Olivia promete conhecer um hiato, mesmo após a gravidez, algo inerente aos cuidados relacionados com o crescimento do rebento, uma situação que não acontece com Serge, pelo menos à mesma escala, algo que este não parece compreender totalmente, pelo menos a nível inicial, quando realça as qualidades da substituta da primeira.

Por muito que o homem "viva a gravidez", nunca poderá senti-la da mesma forma que uma mulher, com "Olmo e a Gaivota" a procurar expor e dar a conhecer a perspectiva feminina. Olivia é o cerne de "Olmo e a Gaivota" e do nosso olhar. A cinematografia contribui a espaços para essa sensação de proximidade, com o quotidiano de Olivia e Serge, no interior da casa, a ser exposto de forma amiúde, com a câmara a estar bem próxima de ambos. Os close-ups são mais do que muitos, com o rosto de Olivia Corsini a tomar muitas das vezes conta do ecrã, tal como os seus anseios, alegrias e tristezas. O espaço do teatro e da habitação ganham especial relevância ao longo do filme, bem como o território do jardim nas imediações da casa de Olivia, com uma saída a surgir como um momento libertador para esta mulher, enquanto acompanhamos a sua jornada de nove meses. "Olmo e a Gaivota" é uma produção que envolve países como Portugal, Brasil, Dinamarca, França (o enredo desenrola-se em Paris), uma conjunção feliz que resulta num filme corajoso, que pode não chegar no imediato a um público alargado, mas promete perdurar no tempo, com Lea Glob e Petra Costa a abordarem temáticas relevantes de forma criativa, complexa e sensível. O filme conta ainda com um ingrediente essencial: temos duas mulheres a abordarem temáticas ligadas às figuras femininas ao invés de contarmos mais uma vez com um homem a realizar uma obra cinematográfica sobre algo que nunca poderá interpretar e percepcionar da mesma forma que uma mulher. Diga-se que, a certa altura, a presença das realizadoras é sentida, com estas a pedirem para Olivia e Serge exporem os diálogos de modo distinto, com "Olmo e a Gaivota" a nunca esconder que é um documentário que se esgueira pela ficção e acaba por escapar a possíveis catalogações que lhe queiramos colocar. Nesse sentido, o próprio trabalho de Olivia e Serge, a interpretarem versões de si próprios, também é claramente merecedor de elogios, com estes a exporem a sua vida e a sua arte, enquanto vivem e representam. Ficamos diante do processo criativo de dois actores, que interpretam outras figuras e versões de si próprios, enquanto se expõem diante das câmaras e se dão a conhecer. Confesso que não conhecia o trabalho de Lea Glob, uma falha que vou tentar colmatar, algo que não acontece no caso de Petra Costa, uma cineasta que tem em "Elena" uma obra cinematográfica magnífica (diga-se que a cineasta repete a capacidade de pegar em situações particulares e transformá-las em algo que conquista um alcance mais lato). No caso de "Olmo e a Gaivota", o trabalho de Costa e Glob não engana, é de enorme qualidade, faltando saber se esta colaboração é para continuar nos tempos mais próximos, ou se ambas vão voltar a "caminhar a solo". No entanto, a solo, ou como dupla, o cinema só tem a ganhar se Petra Costa e Lea Glob continuarem a realizar, a desafiarem o espectador e a prenderem o mesmo com os filmes que realizam. Retrato complexo sobre uma gravidez, dotado de uma protagonista assaz interessante, que é apresentada com arte e engenho por uma dupla de realizadoras que incute um toque especial a uma obra cinematográfica que deveria ser de visualização obrigatória para quem pensa ser mãe ou pai, "Olmo e a Gaivota" esgueira-se entre a realidade e a ficção, a genuinidade e a encenação, o palco de um teatro e uma habitação, enquanto nos envolve, questiona e problematiza os temas abordados.

Título original: "Olmo & the Seagull".
Título em Portugal: "Olmo e a Gaivota".
Realizadoras: Petra Costa e Lea Glob.
Argumento: Petra Costa e Lea Glob em colaboração com Olivia Corsini e Serge Nicolaï.
Elenco: Olivia Corsini e Serge Nicolaï.

20 abril 2016

Resenha Crítica: "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)"

 Com uma série de ingredientes típicos das comédias à italiana, tais como encontrar o humor em situações trágicas, os sentimentos expostos de forma exacerbada, irreverência, desejo de cariz sexual e até algumas pequenas porções de comentário político e social, "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)" coloca-nos diante da reconstituição dos episódios que antecederam um assassinato, enquanto nos apresenta a um trio de protagonistas deveras peculiar. Parte da narrativa é exposta em flashback, com alguns dos elementos que participam na reconstituição dos episódios, vivos ou mortos, a dirigirem-se em voice over para os seus interlocutores, ou para os espectadores, para além de quebrarem regularmente a "quarta parede". Diga-se que não faltam momentos de personagens a dirigirem-se para a câmara, ou a exporem as suas versões dos acontecimentos, enquanto os episódios do passado são reconstituídos no presente, sempre com alguma mordacidade, humor e tragédia. Uma das figuras fulcrais desta reconstituição é Oreste Nardi (Marcello Mastroianni), um indivíduo que trabalha na construção civil, comunista convicto, que a certa altura comete um acto violento, algo que descobrimos parcialmente no início de "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)", com Ettore Scola a não ter problemas em utilizar as situações trágicas ao serviço do humor. O argumento ficou a cargo de Ettore Scola, bem como da dupla Age & Scarpelli, com o trio a contar com uma experiência notória na escrita de filmes deste subgénero, tendo em "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)" mais um exemplar digno de merecer alguma atenção. Não faltam momentos românticos em autênticas lixeiras, personagens depauperados, traições, praias poluídas, tentativas de suicídio, uma morte, alguma violência e sentimentos expostos de forma bem viva, enquanto Ettore Scola cria mais um bom exemplar das comédias à italiana, contando com um elenco competente, ou Marcello Mastroianni, Monica Vitti e Giancarlo Giannini não elevassem e muito os personagens que interpretam. De roupas simples, cabelo desgrenhado, unhas degradadas devido ao trabalho nas obras, um feitio peculiar, Oreste tem em Marcello Mastroianni um intérprete à altura, com o actor a exibir mais uma vez a sua capacidade para o humor, protagonizando alguns momentos dignos de atenção, sobretudo quando está ao lado de Monica Vitti, recuperando uma parceria que já resultara, ainda que em moldes distintos, em "La Notte".

Marcello Mastroianni tanto é capaz de interpretar o protagonista galanteador e sedutor como consegue convencer a dar vida a um maltrapilho, algo que já tinha demonstrado em obras como "I soliti ignoti". No caso de "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)", Marcello Mastroianni consegue expressar quer o lado mais ingénuo e psicologicamente frágil, quer a faceta mais intensa e rude de Oreste, bem como os valores algo conservadores deste personagem que apresenta uma enorme prontidão para expor as suas opiniões políticas, mesmo quando não é questionado sobre o assunto. Veja-se a cena na qual relata um encontro na praia com Adelaide Ciafrocchi (Monica Vitti), expondo de forma bem viva o desagrado pelo facto deste local se encontrar recheado de lixo, com Ettore Scola a não poupar em planos mais abertos nos quais podemos ficar com a noção das poucas condições destes espaços de Roma por onde circulam os personagens. Diga-se que este é um dos diversos momentos em que Ettore Scola incute alguma irreverência a "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)", ou não ficássemos diante dos personagens interpretados por Marcello Mastroianni e e Monica Vitti na praia, num episódio aparentemente feliz entre a dupla, enquanto Oreste relata no presente, aquilo que aconteceu no passado, até parar o seu discurso para se unir a Adelaide, com os dois tempos da narrativa a colidirem de forma deveras inspirada. O momento na praia, descrito anteriormente, é marcado por algum humor e pela subversão de alguns clichés das comédias românticas, embora "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)" seja muitas das vezes pontuado pela tragédia, com o seu final a não deixar margem para dúvidas, com Ettore Scola a respeitar, em parte, os princípios deste subgénero muito italiano. Veja-se o final de "La grande guerra" de Mario Monicelli, ou de "I soliti ignoti" do mesmo cineasta, ou "Divorzio all'italiana" de Pietro Germi, entre tantos outros exemplos. No caso de "I soliti ignoti" e "Divorzio all'italiana", ambos os cineastas optaram pelo falso final feliz, enquanto que em "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)", Ettore Scola não deixa margem para dúvidas em relação ao estado caótico da mente do protagonista. Oreste e Adelaide entraram pela primeira vez em contacto numa Festa de l'Unità, um evento marcado por alguma diversão, mas também pelo seu pendor político. Adelaide e Oreste acabam por iniciar uma relação, algo que promete diversos problemas quer a nível inicial (devido ao protagonista ser casado), quer quando a dupla conhece Nello Serafini (Giancarlo Giannini), um pizzeiro, quer no final, quando o desastre acontece. Oreste é casado com uma mulher (Josefina Serratosa) robusta, que se queixa da falta de atenção do esposo, com esta a surgir como uma das diversas personagens que se dirigem para a câmara e "desabafam" com o espectador. Josefina Serratosa tem um momento para sobressair quando a personagem que interpreta resolve entrar em contacto com Adelaide, protagonizando um episódio mais violento. Adelaide é uma florista que procura aprender inglês (algo que resulta num gag recorrente no qual a personagem repete "what a lovely day today"), contando com uma situação financeira pouco famosa e uma enorme facilidade para se apaixonar.

Monica Vitti é exímia a conseguir transmitir os estados de espírito mais dicotómicos, algo que não é diferente neste filme, com a actriz a tanto exibir a alegria de Adelaide como a tristeza, ou a confusão, entre outros sentimentos que assolam a alma desta figura feminina que desperta a atenção dos homens. A relação entre Oreste e Adelaide é marcada por uma candura inicial, acompanhada por uma série de episódios que utilizam, subvertem e satirizam os clichés das comédias românticas, com a banda sonora a contribuir para adensar esta situação. O ritmo da música a espaços ganha contornos mais exagerados nas situações românticas entre Adelaide e Oreste, seja quando estes se encontram a correr na praia, ou num piquenique na lixeira. O espaço da cidade de Roma é exposto com alguma crueza e mordacidade, com Ettore Scola a estar longe de nos apresentar um local pronto a figurar nos cartões postais, mas sim um território marcado pelo lixo, gentes depauperadas, prostituição e uma atmosfera política fervilhante. Veja-se quando Oreste, antes de beijar Adelaide, pede para esta votar no Partido Comunista, algo que subverte por completo aquilo que esperamos num momento mais romântico, enquanto Marcello Mastroianni e Monica Vitti se parecem divertir imenso nestes trechos. Tudo muda quando Adelaide e Oreste vão a uma pizzaria, com a primeira a receber uma pizza em formato de coração. Quem envia a pizza é Nello, com Giancarlo Giannini a incutir um estilo engatatão a este pizzeiro que se envolve com Adelaide, após formar amizade com esta e Oreste. Adelaide, Nello e Oreste formam um triângulo amoroso que protagoniza alguns momentos intensos ao longo do filme, enquanto Ettore Scola não parece ter problemas em puxar pelos limites dos protagonistas. Os personagens interpretados por Marcello Mastroianni, Monica Vitti e Giancarlo Giannini contam com uma situação financeira pouco aprazível, algo comum a diversos elementos que povoam a narrativa do filme, com excepção de Amleto di Meo (Hercules Cortes), um dos pretendentes da segunda, um indivíduo robusto e algo abrutalhado, que não tem problemas em humilhar os seus subordinados. Diga-se que o filme conta com alguns personagens secundários que a espaços se conseguem destacar, entre as quais, Silvana (Marisa Merlini), a irmã de Adelaide, uma prostituta bastante religiosa, ou Ughetto (Manuel Zarzo), um amigo de Oreste que apresenta uma faceta lacónica, limitando-se muitas das vezes a ouvir o protagonista. No entanto, o maior destaque centra-se em Oreste, Nello e Adelaide, com o trio a não ter problemas em expor a sua opinião, ou versão, sobre os episódios que precederam um assassinato (uma situação que proporciona testemunhos divergentes, com a memória de alguns elementos a parecer demasiado selectiva). No hospital, a presença regular de Adelaide é encarada quase como uma piada por parte dos médicos e enfermeiros, com Ettore Scola a não ter problemas em pegar numa situação trágica e transformá-la num momento de humor: uma consulta no psicanalista ganha contornos caricatos quando o médico abandona a sala e deixa a paciente a falar sozinha; uma tentativa de suicídio pode transformar-se rapidamente num trecho simultaneamente romântico e peculiar, entre outras situações.

 A influência neorrealista também parece estar presente em "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)", com Ettore Scola a apresentar um lado menos positivo da cidade de Roma, ou das suas margens, enquanto nos coloca diante de personagens que não contam com grandes possibilidades financeiras, ou enormes expectativas para o futuro. O lixo aparece muitas das vezes a contaminar os cenários, enquanto uma mosca teima em surgir diante de Oreste e Adelaide, quase como um sinal premonitório de que a relação não vai terminar da melhor forma. A presença da mosca surge como um gag recorrente (a própria câmara de filmar, a espaços, transmite a sensação de acompanhar os movimentos deste insecto díptero), com Ettore Scola a conseguir gerir habilmente as diferentes facetas desta obra cinematográfica, com "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)" a deambular entre a comédia, a tragédia, o drama, a sátira social, enquanto aborda, ainda que levemente, o contexto político e económico de Itália. Pelo meio, não faltam diversas situações peculiares entre o trio de protagonistas, com Adelaide a viver relações distintas com os seus "dois amores" (a certa altura ainda tentam uma relação a três, mas como é esperado, a mesma não resulta). Oreste é mais maduro, mas nem por isso menos impulsivo e ingénuo. Nello é mais jovem, oriundo da região da Toscana, igualmente impulsivo e pronto a demonstrar os seus sentimentos. Monica Vitti brilha quer ao lado de Marcello Mastroianni (os close-ups favorecem imenso a expressividade e carisma do actor), quer quando se encontra na companhia de Giancarlo Giannini, com Ettore Scola a saber aproveitar as dinâmicas entre os elementos do elenco principal. Tudo começa com a reconstrução dos eventos que conduziram a um homicídio, tendo em vista a aferir a culpabilidade de um personagem, com o espectador a tornar-se testemunha e cúmplice destes episódios, enquanto é colocado diante de um conjunto de situações e figuras que facilmente captam a atenção. Com interpretações dignas de atenção por parte de Marcello Mastroianni, Monica Vitti e Giancarlo Giannini, uma representação mordaz da cidade de Roma, uma atenção notória à situação política e social de Itália, "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)" surge como mais um dos bons exemplares das comédias à italiana.

Título original: "Dramma della gelosia (tutti i particolari in cronaca)".
Título em Portugal: "Ciúme, ciúmes e ciumentos"
Realizador: Ettore Scola.
Argumento: Age & Scarpelli e Ettore Scola.
Elenco: Marcello Mastroianni, Monica Vitti, Giancarlo Giannini, Hércules Cortés.
Data de estreia em Itália: 30 de Abril de 1970.

18 abril 2016

Resenha Crítica: "Signore & signori" (1966)

 Comédia à italiana com uma estrutura tripartida, composta por três histórias interligadas por diversos personagens em comum, "Signore & signori" é mais um exemplar do género que surpreende pela positiva, com Pietro Germi, o realizador, a explorar o elenco alargado que tem à disposição, enquanto satiriza diversos elementos associados aos costumes de alguns sectores da sociedade do seu tempo. Não faltam traições, sentimentos expostos de forma bem viva, discussões, momentos rocambolescos e muito humor ao longo desta obra cinematográfica que conta com diversos elementos de sátira e tragicomédia. Diga-se que muitas destas comédias à italiana conseguem encontrar o humor em situações trágicas, algo que não é diferente em "Signore & signori". Veja-se desde logo no primeiro capítulo do filme, quando encontramos a suposta impotência de um personagem a surgir como alvo de troça por parte daqueles que o rodeiam. O personagem em questão é Toni Gasparini (Alberto Lionello), um engatatão que revela ser impotente a Giacinto Castellan (Gigi Ballista), um médico e amigo pessoal, com este último a espalhar a notícia no interior de uma festa. O evento festivo conta com diversos personagens que vão marcar os três capítulos de "Signore & signori", com Pietro Germi a utilizar esta estrutura narrativa para desenvolver as particularidades dos diversos elementos que povoam o enredo, enquanto extrai interpretações seguras do elenco. Os sentimentos são expostos de forma muitas das vezes enérgica, as expressões exibidas com exagero, as relações conturbadas e as traições parecem fazer parte da ordem do dia das figuras que povoam a narrativa de "Signore & signori". Veja-se que Giacinto não tem problemas em deixar Noemi Castellan (Beba Loncar), a sua esposa, dançar e passar algum tempo com Gasparini, pensando que o personagem interpretado por Alberto Lionello é impotente, com este último a aproveitar para se envolver com a mulher do amigo. A falsa impotência de Gasparini é revelada por Scarabello (Gustavo D'Arpe), um indivíduo conhecido por ser chato e falar pelos cotovelos, mesmo quando não pedem a sua opinião, com tudo e todos a procurarem que este não se dirija para a festa. O momento em que Giacinto descobre a traição é bem arquitectado por Pietro Germi, com uns simples suspensórios fora do sítio a fazerem com que a mentira de Gasparini seja descoberta pelo amigo. Diga-se que Gasparini e Castellan preparam-se para colocar a cabeça em água às respectivas esposas ao procurarem seduzir Alda Cristofoletto (Patrizia Valturri), uma jovem que posteriormente descobrem ser... menor de idade. Diversos homens deste espaço citadino de características praticamente rurais procuram seduzir a adolescente, algo que proporciona uma série de momentos de humor no terceiro capítulo do filme, com os personagens a fazerem figuras ridículas para despertarem a atenção de Alda, até serem colocados perante a chegada de Bepi Cristofoletto, o pai da jovem, que traz a "bomba": Alda é menor. Veja-se quando encontramos Lino Benedetti (Franco Fabrizi), o dono de uma sapataria, a colocar a placa de "volto já", após convidar a jovem a entrar neste estabelecimento, ou os telefonemas trocados entre as figuras masculinas que descrevem Alda como "Branca como o leite, dura como o mármore", com Pietro Germi a explorar estas situações ao serviço do humor.

Gasparini, Lino, Castellan, Giovanni Soligo (Quinto Parmeggiani) e Franco Zaccaria (Giulio Questi) encontram-se entre as figuras masculinas que procuram seduzir Alda, algo que promete trazer uma série de problemas para estes homens, sobretudo quando o caso chega aos ouvidos das suas esposas e das autoridades. Bepi não tem problemas em denunciar o caso, com estes indivíduos a ficarem diante da ira deste camponês que pretende levá-los a tribunal, algo que gera o pânico junto das figuras masculinas que procuraram seduzir a jovem. Este capítulo permite que Pietro Germi aborde temáticas como a relação entre o ser e o parecer, a promiscuidade entre o poder político e religioso, a influência que algumas figuras mais poderosas apresentam junto da sociedade e até da imprensa, com tudo a ser exposto com algum humor e um tom crítico à mistura. O caso adivinha-se complicado para estes indivíduos que se julgam acima da lei, embora a conclusão do capítulo exiba que o dinheiro resolve imensos problemas, bem como uma esposa disponível para dar o corpo ao manifesto. A figura feminina em questão é Ippolita Gasparini (Olga Villi), a esposa de Toni, com esta a surpreender-nos no último capítulo do enredo. Esta é uma mulher religiosa, que se encontra muitas das vezes acompanhada por Don Schiavon (Virgilio Scapin), um elemento que pertence à Igreja local. As esposas deste indivíduos encontram-se muitas das vezes em destaque. Veja-se o caso de Betty Soligo (Gia Sandri), a esposa de Giovanni Soligo, uma mulher que conta com uma personalidade explosiva e apresenta uma enorme facilidade para tirar a roupa quando se encontra furiosa. Betty e Giovanni mantêm uma relação conturbada, com ambos a trocarem regularmente agressões e diálogos acalorados. Temos ainda Giorgia Casellato (Moira Orfei), uma mulher casada que é olhada de soslaio pelas restantes figuras femininas devido a manter uma relação extraconjugal com Franco Zaccaria. Outra das figuras femininas de relevo é Gilda Bisigato (Nora Ricci), uma mulher pronta a gritar e discutir, sobretudo a partir do momento em que descobre que o esposo se encontra envolvido com Milena Zulian (Virna Lisi), a operadora de caixa do café frequentado por Osvaldo Bisigato (Gastone Moschin). Este é casado com Gilda, de quem tem dois filhos, parecendo já não ter paciência para a esposa, um sentimento que é recíproco, com a relação entre estes dois a parecer estar praticamente nas últimas, embora não se possam divorciar devido ao facto da lei não permitir. Diga-se que "Signore & signori", tal como em "Divorzio all'italiana" e "Sedotta e abbandonata", aproveita para satirizar diversos elementos da sociedade italiana, incluindo algumas das suas leis retrógadas, a procura de manter as aparências, os boatos, os estranhos códigos de honra, sempre com alguns exageros à mistura, enquanto Pietro Germi aborda situações relacionadas com alguns personagens que se encontram a viver em plena época do "milagre económico italiano". "Signore & signori" é o terceiro capítulo de uma trilogia informal composta ainda por "Divorzio all'italiana" e "Sedotta e abbandonata", com os filmes mencionados a contarem com territórios praticamente provincianos como pano de fundo, para além das temáticas e elementos mencionados.

O filme a ser comentado neste texto foi filmado em Treviso, com os cenários externos a contarem com alguma relevância, embora Pietro Germi intitule este espaço citadino com o nome de "Rezega", um local ficcional onde quase tudo e todos se conhecem, algo que permite traçar um retrato mordaz sobre estas gentes que representam alguns sectores desta sociedade italiana. Veja-se a presença de diversos personagens na esplanada do café, a comentarem sobre vários assuntos, inclusive sobre aqueles que passam no meio da rua, algo que se aplica no segundo capítulo. É neste capítulo que Gastone Moschin tem a oportunidade de sobressair como um bancário que se apaixona por Milena, uma mulher de enorme beleza e um passado pontuado por diversos rumores. Moschin apresenta um timing relativamente certeiro para o humor, com os momentos em que Osvaldo Bisigato tapa os ouvidos para não ouvir a esposa a serem hilariantes. A relação entre Osvaldo e Gilda é pontuada por fortes discussões e poucos momentos de desejo de cariz sexual, algo que não acontece quando o primeiro se encontra com Milena. Diga-se que a espaços, "Signore & signori" quase que se envolve pelos meandros das comédias românticas, ao mesmo tempo que satiriza as convenções destes filmes, algo latente nos poucos momentos idílicos entre Milena e Osvaldo. Bisigato é censurado pela Igreja e pelas autoridades, com tudo e todos a procurarem que volte para a esposa, apesar deste amar outra mulher. A igreja exerce uma influência relevante na vida destes indivíduos, enquanto as autoridades surgem muitas das vezes representadas por Mancuso (Aldo Puglisi), um indivíduo que procura cumprir o seu ofício com algum rigor. A seriedade de Mancuso é contrastada pela personalidade expansiva de elementos como Giacinto Castellan, um médico que aprecia bons momentos de diversão, embora acabe por ser surpreendido em algumas situações, com Gigi Ballista a surgir como um dos vários integrantes do elenco que se destacam. As gargalhadas de Ballista são bem sonoras, com o actor a incutir um estilo bastante descontraído a este médico que a espaços é obrigado a utilizar o seu lado mais agressivo, que o diga Gasparini. "Signore & signori" permite efectuar um sátira desta sociedade italiana na qual as aparências e os falsos valores morais escondem uma série de "esqueletos no armário", enquanto o elenco principal convence e protagoniza alguns momentos de humor que variam entre o exagerado e o inteligente. Pietro Germi aproveita os integrantes do elenco principal, enquanto explora o argumento recheado de falas e situações inspiradas, criando mais uma comédia à italiana bem construída e cheia de ritmo, pronta a satirizar diversos elementos da sociedade do seu tempo e a despertar o sorriso do espectador.

Título original: "Signore & signori".
Título em Portugal:"Senhoras e Cavalheiros".
Realizador: Pietro Germi.
Argumento: Age & Scarpelli, Luciano Vincenzoni e Pietro Germi.
Elenco: Virna Lisi, Gastone Moschin, Nora Ricci, Alberto Lionello, Olga Villi, Beba Loncar, Franco Fabrizi: Nora Ricci, Gigi Ballista: Gia Sandri, Quinto Parmeggiani, Moira Orfei, Aldo Puglisi.

14 abril 2016

Breve balanço da cobertura da edição de 2016 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano

 Este ano disse que não voltaria a cobrir festivais. Ponderei se deveria terminar de vez com o blog, ou dar uma pausa de longa duração, algo que cheguei a comentar com algumas pessoas. A certa altura, disse a mim mesmo que deveria cobrir o 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Comecei com a publicação de uma série de textos sobre filmes italianos, até tomar a decisão de enviar um mail a confirmar que iria à conferência de imprensa do Festival, bem como ao visionamento de "Suburra" e à antestreia de "Maraviglioso Boccaccio". A ideia inicial passava por cobrir alguns filmes em estreia, bem como algumas obras cinematográficas da secção Amarcord. Nada de entrevistas, ou pelo menos, era o que eu pensava. No final, deixei-me levar pelo entusiasmo e acabei com cinco entrevistas conduzidas, transcritas e publicadas, bem como com onze críticas publicadas (doze filmes vistos, embora não tenha escrito sobre "Lo chiamavano Jeeg Robot" devido a questões de ordem pessoal). Alguns filme foram vistos durante o festival, outros em visionamento, outros online (a maioria legalmente, pois eu precisava de ver os filmes para preparar as entrevistas com alguma antecedência), embora poucos tenham despertado o efeito de "L'attesa", o filme que marca a estreia de Piero Messina na realização de longas-metragens. É um filme que me encantou e marcou de forma indelével, que exibiu de forma paradigmática a relevância dos festivais de cinema para contactar com obras cinematográficas que, noutra ocasião, poderia ignorar. Diga-se que a programação desta edição do festival primou pela qualidade, ou pelo menos, pelas surpresas agradáveis, algo latente em casos como "L'attesa", "Alaska", "Non essere cattivo", "Suburra", entre outros.

Ao ritmo de Missing dos The XX, ou de Untitled dos Interpol, entre outras músicas, fui preparando entrevistas, desafiando as minhas expectativas e contando com ajudas preciosas. A Sofia Santos a rever a entrevista à Greta Scarano, o José Carlos Maltez a preencher os trechos que se perderam na tradução na entrevista ao Piero Messina, a Vanessa Rosa a editar a minha entrevista ao Claudio Cupellini. No final, fiz mais do que esperava, embora tenha ficado desiludido por não ter conseguido ver mais filmes. Nem tudo me satisfez (o formato da entrevista a Luca Marinelli comprova isso), mas as entrevistas ao Piero Messina e ao Claudio Cupellini foram das experiências mais agradáveis que tive nos últimos tempos (neste espaço). Boa parte do mérito de ter conseguido cobrir o 8 ½ Festa do Cinema Italiano também é de quem se encontra na assessoria do Festival. Desde a confiança depositada na marcação das entrevistas (estar numa fila para entrevistar o Piero Messina, onde os meios que se encontravam eram o DN, o JN e o... Rick's Cinema diz imenso do excelente tratamento dado aos bloggers), passando por deixarem que os tempos das mesmas se estendessem (em alguns casos), até à presença de tradutora, tudo decorreu de forma exemplar por parte de quem organiza. Foram sete ou oito dias sem treinar, mas que me deram um prazer imenso, algo que espero repetir na cobertura do Festin. Pelo meio algum pânico e receio, algumas decisões difíceis que tiveram de ser tomadas, embora todos os textos estejam (finalmente) publicados. O tempo agora é de ver alguns filmes e séries, colocar a leitura em dia, ou seja, o blog vai abrandar imenso o ritmo, até ao Festin. Obrigado a quem acompanhou a cobertura, um obrigado ainda maior a quem me ajudou em alguns textos específicos sem pedir nada em troca, bem como aos elementos do Festival. Ficou a faltar mais feedback da parte de quem lê (para o bem e para o mal), mas a experiência de mais uma cobertura foi extremamente gratificante.

Os textos publicados são os seguintes:

Sobre a programação: Nona edição do 8½ Festa do Cinema Italiano - Breve texto sobre a programação

Entrevistas (ordem de publicação):

- Entrevista a Greta Scarano sobre "Suburra"
- Entrevista a Piero Messina sobre "L'attesa" (A Espera)
- Entrevista a Claudio Santamaria sobre "Lo chiamavano Jeeg Robot"
- Entrevista a Luca Marinelli sobre "Lo chiamavano Jeeg Robot" e "Non essere cattivo"
- Entrevista a Claudio Cupellini sobre "Alaska"

Críticas (ordem de publicação):

- Resenha Crítica: "Il racconto dei racconti" (O Conto dos Contos)
- Resenha Crítica: "A Bigger Splash" (Mergulho Profundo)
- Resenha Crítica: "Suburra" (2015)
- Resenha Crítica: "Asino Vola" (Donkey Flies)
- Resenha Crítica: "L'attesa" (A Espera)
- Resenha Crítica: "Nessuno si salva da solo"
- Resenha Crítica: "Latin Lover" (2015)
- Resenha Crítica: "Alaska" (2015)
- Resenha Crítica: "Non essere cattivo" (2015)
- Resenha Crítica: "Sangue del mio sangue" (2015)
- Resenha Crítica: "Per amor vostro" (Anna)

Entrevista a Claudio Cupellini sobre "Alaska"

 Claudio Cupellini esteve em Portugal para apresentar "Alaska" na edição de 2016 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Na entrevista foram abordados temas como a relação entre a dupla de protagonistas, as filmagens de uma cena específica que despertou a atenção deste blogger, bem como a influência de François Truffaut no trabalho do realizador, entre outros assuntos. Entrevista conduzida e transcrita por Aníbal Santiago. Edição e ajuda na transcrição: Vanessa Rosa.


Rick's Cinema: Nos momentos iniciais do filme, o Fausto demonstra alguma felicidade por ver o Sol, enquanto a Nadine aproveita este comentário para questionar se o personagem interpretado pelo Elio Germano é italiano. O "Alaska" foi filmado quer em França, quer em Itália. Que elementos dos dois países e das suas culturas é que procurou transportar para o interior do filme?

Claudio Cupellini: Eu não realizei um filme que tentasse abordar os estereótipos de ser italiano ou francês. Existe apenas uma fala que aborda essa situação, que é uma piada sobre o Sol. Em Itália nós falamos sempre sobre o Sol, porque, como sabes, a Itália é o país do Sol. É apenas uma pequena piada para começar uma ligação entre os dois personagens. No início, a Nadine é algo hostil enquanto o Fausto está fascinado em relação a esta jovem e tenta ser agradável. Não queria centrar os meus esforços na tentativa de contar o que é ser italiano ou francês. Eu preocupo-me com a verdade dos sentimentos. Na minha opinião, é algo mais profundo do que isso, eu queria uma história que, por exemplo, pudesse ser sobre uma rapariga portuguesa e um rapaz inglês, ou seja, que fosse universal.


RC: Ainda sem sair de França. O Claudio Cupellini numa entrevista ao Devenir Realisateur salientou que o François Truffaut foi uma das suas influências. O que podemos encontrar dessas influências de François Truffaut em "Alaska"?

CC: Eu digo sempre isso porque, para mim, o François Truffaut é como se fosse uma estrela polar. O primeiro filme que assisti com alguma curiosidade de ver algo diferente, em relação àquilo que tinha visto anteriormente, foi "L'Argent de poche", do François Truffaut. Eu tinha dezasseis anos. A partir daí, procurei ver todos os filmes realizados pelo François Truffaut. Senti algo nos seus filmes que mexia comigo, com todos a apresentarem histórias maravilhosas nas quais o amor nunca é abordado de forma comum. Todos os filmes que ele realizou, que abordam histórias de amor, contam sempre com algo de extremo. Por exemplo, num dos seus últimos filmes, "La fêmme d'a Côté" é dito "Nem contigo, nem sem ti". Em certa medida, é assim que eu quero filmar este tipo de histórias de amor. Eu sinto o mesmo quando escrevo e realizo. Eu quero contar histórias como as de François Truffaut, onde o amor é algo que te pode dar vida ou morte, é sempre algo extremo. Por exemplo, existe uma homenagem a Truffaut em "Alaska", em particular uma cena de "La fêmme d'a Côté", onde os protagonistas se encontram no parque de estacionamento do supermercado. Eu cresci com estas influências e penso que é visível. As relações obsessivas também são abordadas em "Alaska". O "La sirène du Mississipi" foi outro filme que serviu de inspiração. É uma história onde os protagonistas precisam um do outro, mas a personagem interpretada pela Catherine Deneuve rouba o dinheiro do Louis Mahé (Jean-Paul Belmondo) e eles se encontram, separam-se e voltam novamente a encontrar-se.




RC: A banda sonora parece muitas das vezes essencial para adensar os sentimentos que nos são transmitidos em diversos momentos de "Alaska". Veja-se quando os protagonistas estão em fuga, no elevador, com a música a apresentar ritmos mais tensos e inquietantes, ou quando Fausto escreve a Nadine e é transmitida toda uma sensação de melancolia e esperança, ou os trechos no Alaska, o clube nocturno. Qual foi o seu papel na escolha da banda sonora do filme?

AS: Quando escrevo, trago sempre alguma música comigo, tendo em vista a inspirar-me em relação ao filme. Algumas vezes ouço as músicas e penso que podem ser adequadas para o filme. Nunca sabes ao certo aquilo que vai acontecer. Estava completamente seguro de que iria utilizar uma música do Elvis Presley numa cena da prisão, mas quando estava a editar, percebi que não estava a resultar. No caso do suicídio do Sandro, percebi que a música das The Supremes seria perfeita, porque existe este contraste entre esta canção pop, que diz "my world is empty without you", que é sobre aquilo que o Sandro se encontra a sentir, mas ao mesmo tempo é uma canção alegre, com uma pequena dose de melancolia, que é colocada num momento em que alguém se está a suicidar. Adoro este tipo de contraste.
 Então, quando estava a editar e a construir o alinhamento musical, eu tive a ajuda do meu editor, que conhece muito bem as músicas, os estados de espírito e as cenas. Ele sabia que aquela música dos Interpol, que utilizo na prisão, seria perfeita para contar aquilo que acontece. De novo, existia uma frase na música que nos fez pensar que estávamos a fazer a escolha certa: "Surprise, sometimes, will come around". A surpresa acontece porque a Nadine regressa. Quando estava a filmar as cenas no Alaska, eu não queria ouvir as canções que colocam habitualmente nas cenas de discoteca dos filmes, onde tens aquela música barata onde ouves apenas "tumps, tumps, tumps". Eu queria algo mais inquietante e perturbador, como se fosse a música punk colocada no interior da disco music. É algo agressivo, porque a cena no interior da discoteca também é muito agressiva. Depois fizemos o trabalho normal com o músico que se encontra encarregue da banda sonora, com este a ajudar a realçar os sentimentos. Esse é o trabalho que procuro fazer.


RC: O título de "Alaska" remete para o clube nocturno de Fausto, mas também para um território associado ao frio. Existe no título uma mescla de procurar expor quer um dos símbolos da ambição de Fausto, quer as dificuldades que estes personagens encontram para se imporem?

CC: Essa é uma boa opinião sobre o título, mas nós pensámos em algo bem mais simples do que isso. Estávamos a pensar na corrida ao ouro no Século XIX, onde tínhamos aquelas pessoas desesperadas, numa terra hostil, a procurarem encontrar ouro, a lutarem contra lobos, ursos e outras pessoas que se encontravam prontas para te matar pelo mesmo ouro. Em certa medida, é uma pequena metáfora para o que está a acontecer ao Fausto e a Nadine e para o mundo onde vivem, que é cheio de obstáculos, enquanto estes se encontram desesperados para conseguirem ser bem sucedidos.




RC: A Nadine e o Fausto parecem estar constantemente em desequilibro. Procurou desenvolver as dinâmicas destes personagens a partir dessa procura, por vezes falhada, de Fausto e Nadine tentarem encontrar um equilíbrio entre as ambições profissionais de cada um e a relação amorosa? Esse desequilíbrio constante faz parte do processo de maturação dos dois personagens?

CC: Sim, quando eu estava a escrever a história, pensei sempre que, quando um ascende, o outro tem de descer. É como se fosse um romance de transição para a idade adulta, no qual ambos os personagens precisam de crescer. Os personagens fazem sempre algo errado porque faz parte do crescimento. Pensei nisso, mas também tentei descrever como o Fausto ascende algumas vezes, enquanto a Nadine desce. Quando Fausto está na prisão, a Nadine encontra-se a subir na carreira. Acontece o mesmo no plano emocional. Quando um elemento procura o outro, ou este não se encontra preparado, ou não pretende estar junto do mesmo. O Fausto tenta permanecer junto de Nadine, após sair da prisão, enquanto esta não pretende estar inicialmente junto deste e acaba por traí-lo. Eles reencontram-se na discoteca e é o Fausto que não quer reiniciar a relação com Nadine. No final, o Fausto sente que necessita de Nadine e não de Francesca. Vagarosamente, estes chegam a uma situação em comum, ainda que nas cenas finais, quando percebem aquilo que é importante para as suas vidas, ou seja, ambos precisam um do outro.


RC: O Elio Germano e a Astrid Bergès-Frisbey conseguem que acreditemos nestes personagens e nos seu sentimentos. O trabalho de ambos corresponde àquilo que idealizou quando pensou inicialmente nos personagens?

CC: Sim. Eles são os actores ideais para estes papéis. Eu escrevi o argumento a pensar no Elio Germano como Fausto e não desisti até encontrar a actriz ideal para interpretar Nadine. Ainda fiz diversos ensaios e castings em França. Encontrei duas ou três actrizes que poderiam adequar-se à personagem, mas não estava totalmente satisfeito. Perto do final, encontrei a Astrid Bergès-Frisbey e percebi imediatamente que existia uma chama. Precisava de uma química imediata na cena em que vemos o Fausto e Nadine a falarem pela primeira vez. Eu tento sempre seguir esta lição, que também vem de François Truffaut: "Não é o personagem que vai ao encontro do actor, mas é o actor que tem de servir este personagem e é então que o personagem se torna outra coisa.". Por vezes, durante as filmagens, os personagens ganham contornos distintos graças ao trabalho dos actores.


RC: A relação entre Nadine e Fausto é bastante intensa. Ambos são personagens solitários, que cometem erros, são colocados perante tentações, dúvidas, por vezes magoam-se psicologicamente, mas também parece existir uma ligação muito forte entre os dois. A espaços quase que nos sentimos dois intrusos que se envolvem no meio da vida dos dois. Para si, quais são as razões para estes personagens agarrarem por completo o espectador?

CC: Eles são muito frágeis e cometem muitos erros. Eles tentam encontrar e alcançar a felicidade, mas fazem aquilo que fazemos muitas das vezes ao longo da vida, ou seja, cometem uma série de erros. Este foi o ponto principal para mim quando estava a escrever o argumento e a realizar o filme. Na maior parte das vezes a escrever, porque inspirei-me imenso naquilo que aconteceu comigo e às pessoas que me rodeiam. Estas são experiências que vivi e que vi os outros a viverem.




RC: O personagem interpretado por Elio Germano tem alguns momentos intensos como Fausto. Uma dessas situações acontece quando Nadine se reúne com Fausto num bar, após este ter saído da prisão, onde esta não parece estar certa em relação aos sentimentos que nutre pelo protagonista. O personagem interpretado por Elio Germano quer que esta agarre a sua mão e beijá-la, mas esta praticamente não sabe o que fazer. Como decorreu a preparação desta cena?

CC: Esta foi uma das primeiras cenas que trabalhámos muito bem no primeiro esboço do argumento. Mudámos poucas coisas nesta cena, enquanto escrevemos e rescrevemos a história. A Nadine foi ter com o Fausto, porque prometeu que iria estar naquele local. Mas a verdade é que estes não se conhecem. Ao mesmo tempo, o Fausto perdeu a capacidade de se relacionar com as pessoas. Eles estão desencontrados. O Fausto chega a dizer que se esqueceu de lidar com as pessoas enquanto esteve na prisão. Ele tenta agarrar a mão dela e tenta abraçá-la. Mas tudo está errado, porque é o momento errado. Foi um momento importante para exibir o quanto o Fausto mudou quando esteve na prisão e as dificuldades deste reencontro, mas também para mostrar o quão incrível é o amor destes dois personagens. Após a discussão, eles fazem amor nas escadas do prédio. Eles comportam-se sempre desta maneira.


RC: Na entrevista ao The It Factor Magazine, o Claudio Cupellini comentou sobre as dificuldades de filmar no espaço prisional. Qual a pesquisa efectuada para representar o quotidiano neste espaço prisional e para demonstrar o efeito psicológico que este local provoca em Fausto?

CC: Eu estudei imenso a forma como as prisões francesas funcionam: as suas regras, aquilo que os presos fazem, como falam quando se encontram, falei com alguns presidiários, procurei perceber como estes se sentiam. O facto de estares no interior da prisão faz com que te sintas compelido a filmar de uma certa maneira. Todos aqueles espaços estreitos, todos aqueles corredores, as grades, eles dão-te inspiração, tanto que é a única parte em que filmámos algo que não estava no argumento. Nós contámos com a presença de prisioneiros e alguns figurantes que eram antigos presidiários. Então, eu e o director de fotografia, decidimos efectuar uma cena que permitisse expor o quotidiano destes presidiários. Num dia dissemos: "Nós precisamos de filmar tudo aquilo que assistimos ao longo desta semana" e decidimos mostrar como os presidiários vivem, enquanto intercalámos com o Fausto a escrever as cartas. As pessoas a tomarem banho, a lavarem os seus sapatos, a jogarem futebol, que é um dos poucos momentos onde têm alguma felicidade, ou seja, o quotidiano dos presos. A inspiração veio de observar a realidade.




RC: O "Alaska" foi lançado em Itália e França. A crítica italiana e francesa abordaram o filme a partir de prismas distintos?

CC: Nós tivemos críticas boas em Itália e em França. Mas em França, os críticos viram algo mais político e socialmente orientado, mais do que eu pensei quando estava a desenvolver o filme, pelas cenas da prisão e pelo facto de ter personagens ricos e personagens que não têm nada. É uma parte do filme, mas não foi abordado da mesma forma em Itália.


RC: Entre "Una vita tranquilla" e "Alaska", o Claudio Cupellini realizou alguns episódios da série "Gomorra". O que o motivou a trabalhar nesta série? Sente que conseguiu incutir algum cunho pessoal nos episódios que realizou?

CC: Eu decidi realizar os episódios porque é uma oportunidade importante. As séries televisivas são cada vez mais importantes. Por vezes tens a oportunidade de realizar e fazer coisas quase como se estivesses no cinema. A qualidade de "Gomorra" é elevada, os argumentos são muito bons, muito interessantes. Também me senti fascinado por esta violência, que é verdadeira em Nápoles. Para além disso, deram-me a oportunidade de realizar três episódios sobre um jovem, cuja história é muito tocante. Eu não queria falar de novo sobre o François Truffaut, mas vou fazer. Tive a oportunidade de trabalhar com um actor não profissional, que tem quinze anos de idade. Foi muito interessante e entusiasmante contar a história sobre este jovem rapaz que é tirado da Camorra e a sua namorada é morta. Foi muito tocante.

Rick's Cinema: Obrigado por conceder esta entrevista.

Entrevista a Luca Marinelli sobre "Lo chiamavano Jeeg Robot" e "Non essere cattivo"

 Actor de talento reconhecido, que conta com um currículo cada vez mais interessante, Luca Marinelli esteve em Portugal na edição de 2016 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano, tendo em vista a apresentar 'Lo chiamavano Jeeg Robot' e 'Non essere cattivo'. O Rick's Cinema, através deste blogger, aproveitou a oportunidade para entrevistar Luca Marinelli (fotografia de © Miguel Soares), numa conversa que teve lugar no Hotel Tivoli e contou com a preciosa ajuda da tradutora do Festival (as respostas de Luca Marinelli encontram-se a bold/negrito). Vale a pena recordar que 'Lo chiamavano Jeeg Robot' e 'Non essere cattivo' são os filmes que contam com mais nomeações na 60ª edição dos prémios David di Donatello, com cada obra cinematográfica a contar com dezasseis nomeações. Luca Marinelli está nomeado para Melhor Actor ('Non essere cattivo') e Melhor Actor Secundário ('Lo chiamavano Jeeg Robot') na 60ª edição dos prémios David di Donatello. A dupla nomeação é encarada de forma bastante respeitosa por parte de Luca Marinelli, algo que o próprio salientou quando foi questionado sobre o assunto "(...) estou muito contente, para nós este prémio é como os Oscars italianos. Eu respeito muitíssimo este prémio, sobretudo tendo visto os nomes daqueles que já ganharam no passado. O facto de ter sido nomeado para dois prémios deixa-me muito contente e honrado".



 Instado a falar sobre as principais diferenças e semelhanças do trabalho que Gabriele Mainetti e Claudio Caligari efectuaram com os actores, Luca Marinelli preferiu abordar algumas das semelhanças e diferenças entre 'Lo chiamavano Jeeg Robot' e 'Non essere cattivo', tendo comentado que "Ambos os filmes são falados no dialecto de Roma e desenrolam-se na periferia desta cidade, um em Ostia ("Non essere cattivo"), outro em Tor Bella Monaca ('Lo chiamavano Jeeg Robot'). Um é inspirado na banda desenhada, o outro é um filme tipicamente caligariano, ou seja, muito real, que fala sobre uma realidade que existe. O 'Lo chiamavano Jeeg Robot' tem algo de fantástico, mas também de muito real, ou seja, esta periferia de Tor Bella Monaca. 
 Ambos os filmes apresentam argumentos cheios de coragem. O 'Lo chiamavano Jeeg Robot' quer contar algo de fantástico e acreditar nisso. O 'Non essere cattivo' tem a coragem de contar algo que as pessoas depois de verem o filme até nos agradeceram, porque sentiram que lhes dava voz, ou que representava a voz de alguém que conheceram e passou por esta experiência".

  O território onde se desenrola o enredo parece fulcral para o modo de agir e viver de diversos elementos de "Non essere cattivo" e "Lo chiamavano Jeeg Robot", algo que me conduziu a questionar Luca Marinelli se podemos efectuar essa interpretação, bem como se existiu todo um cuidado por parte quer de Claudio Caligari, quer de Gabriele Mainetti, para que os personagens parecessem figuras que habitam nestes espaços 'das margens'. A resposta do actor não tardou a chegar, com Luca Marinelli a salientar que "Existiu esse cuidado de fazer com que os personagens parecessem verdadeiros e que habitavam nestes lugares. No caso do filme do Claudio Caligari, estamos a falar de Ostia nos anos 90. Ele queria demonstrar uma maneira de aparecer fisicamente e representar este estilo e tipo de vidas. Em 'Lo chiamavano Jeeg Robot', também era importante representar os personagens como se estes habitassem em Tor Bella Monaca. Se calhar em 'Lo chiamavano Jeeg Robot', o Zingaro, o personagem que eu interpreto, é o único que quebra esta dinâmica. Até me chegou a fazer rir e ao realizador, porque é um personagem que se passeia num bairro do género, vestido de forma muito peculiar. O local onde habitam condiciona muito estes personagens, pois as periferias representam modos de vidas diferentes, que contam com outras regras, outros comportamentos e atmosferas. São lugares que condicionam o modus vivendi dos personagens".



Terminadas as comparações entre os dois filmes, o tema seguinte passou para o legado de Claudio Caligari: "Eu posso falar daquilo que o Claudio Caligari deixou em mim. Eu acho que o Claudio Caligari foi o último 'intelectual pasoliniano' verdadeiro. Um intelectual como Pasolini. O Pier Paolo Pasolini era uma das suas paixões, assim como o Martin Scorsese. Para mim, ele deixou filmes que são muito importantes para o cinema italiano, tais como 'Amore tossico' e 'L'odore della notte'. É um realizador que em três filmes, conseguiu deixar três monumentos (nota da tradução - o actor utilizou o termo monólitos, algo que foi livremente traduzido para monumentos) na História do Cinema Italiano. Ele tinha um grande amor pelo cinema e um grande amor pelo público. Fez transbordar em mim o amor por este trabalho". O foco das perguntas a Luca Marinelli continuou em 'Non essere cattivo', ou o actor não interpretasse Cesare, um dos protagonistas do filme. O Cesare é um personagem complexo, uma bomba relógio, que tanto apresenta um comportamento intempestivo, imprevisível e violento, como é capaz de cometer alguns actos mais ternos com a sobrinha. Nesse sentido, Luca Marinelli foi questionado se a complexidade de Cesare foi um dos motivos que o atraíram em relação ao personagem. Na resposta a esta questão, Luca Marinelli comentou que, "Um dos aspectos foi este que tu mencionas, o Cesare é um personagem muito complexo. Mas existem mais elementos que me atraíram neste personagem. O que mais me fascina na história e aquilo que mais me emocionou foi a amizade entre Cesare e Vittorio. O Cesare é um personagem que foi ajoelhado pela vida e simplesmente não se consegue levantar. Tem um amigo que lhe estende a mão para ajudá-lo a levantar-se, mas o Cesare simplesmente não se consegue levantar. A parte que mais me tocou foi esta história de amor entre estes dois amigos".




A dinâmica convincente entre Luca Marinelli e Alessandro Borghi foi o tema de outra das questões colocadas ao primeiro, nomeadamente, como é que se prepararam para interpretar estes personagens e trabalharam a dinâmica entre ambos para que esta transparecesse para o espectador: "Existiu uma alquimia entre mim e o Alessandro. Eu tenho a certeza de que o próprio Claudio Caligari viu imediatamente esta alquimia entre nós, algo que depois passou para o público. Nós ficámos muito amigos. Passámos muito tempo juntos durante as filmagens, saíamos, etc. O argumento estava muito bem escrito. Não se tratou apenas de ler o que estava no argumento, nós vivemos aquilo que estava no guião". Uma das tradições, ou pelo menos, algo que se está a tornar um hábito neste espaço, passa por efectuar uma pergunta com uma certa dose de risco ou idiotice para o entrevistado responder, algo que aconteceu quando procurei questionar se o Cesare poderia viver de acordo com um dos lemas de Nick Romano, um dos personagens principais de 'Knock on Any Door', de Nicholas Ray. A pergunta foi a seguinte: "A certa altura fico com a ideia de que o Cesare quase que poderia viver segundo o lema 'Live fast, die young and have a good-looking corpse'. Considera que o Cesare está consciente das possíveis consequências dos seus actos, ou pura e simplesmente é a única maneira que o personagem encontra para sobreviver e se afirmar junto daqueles que o rodeiam?" Luca Marinelli discordou e expôs a sua interpretação: "Não. Absolutamente não. Eu não creio que o Cesare viva de acordo com este lema. Os seus comportamentos são os únicos que ele conhece: o uso das drogas, os roubos, entre outros. Para ele é mais fácil roubar do que trabalhar. É mais fácil consumir drogas do que falar com um amigo. Ele não acredita na salvação através do trabalho, não consegue chegar a esta conclusão. O Cesare é demasiado desesperado. Ele no fim é morto, mas acho que é o Cesare que procura a morte".



 O cinema italiano conta com as "comédias à italiana", os "giallos", os "spaghetti westerns", os "polizziotteschi", entre outros géneros e subgéneros adaptados à realidade italiana. Nesse sentido, Luca Marinelli foi questionado se 'Lo chiamavano Jeeg Robot' pode significar que vamos contar com os filmes de "super-herói à italiana". Marinelli não parece ter grandes dúvidas em relação a esta situação: "Sim, absolutamente, tanto que alguns elementos do público denominaram o filme de 'spaghetti Marvel', porque o 'Lo chiamavano Jeeg Robot' tem um pouco de tudo ali dentro. Desde elementos da comédia à italiana, até à paixão pelo spaghetti western, é um filme fortemente italiano. Estou convencido de que este pode ser o princípio de um novo género, o 'spaghetti Marvel', ou talvez o 'amatriciana Marvel'".  Quando questionado sobre as possíveis razões para 'Lo chiamavano Jeeg Robot' estar a ser recebido de forma tão calorosa quer pelo público, quer por alguns sectores da crítica, o actor comentou que: "O Gabriele Mainetti é um realizador muito competente. Ele soube trabalhar com este género e contar uma história fantástica, com um realismo muito forte. É uma história fantástica, cheia de super-poderes, mas é algo em que todos nós nos podemos rever, porque o protagonista de 'Lo chiamavano Jeeg Robot' não é uma divindade como Thor, não é um personagem de quem estamos distantes. É um super-herói um pouco semelhante ao Spider-Man. Penso que também foi por isso que o público gostou. O filme também responde a uma pergunta muito interessante: "O que é que tu farias se tivesses super-poderes".

Com os ponteiros do relógio a avançarem de forma inexorável e o tempo da entrevista a estender-se mais do que o previsto, diversas perguntas acabaram por ficar de fora, embora ainda tenha mantido a questão da "praxe", ou seja, sobre os próximos trabalhos do entrevistado, no caso, sobre 'Tutto per una ragazza" e "Lasciati andare'. Luca Marinelli abordou, ainda que brevemente, os seus próximos trabalhos: Eu diverti-me imenso em ambos os filmes. São duas comédias muito diferentes, onde eu faço pequenos papéis. Num interpreto um pai bastante jovem ('Tutto per una ragazza'), no outro um personagem algo estranho ('Lasciati andare'). Um tem o Toni Servillo ('Lasciati andare'), o outro a Jasmine Trinca ('Tutto per una ragazza'). Ambos os realizadores são muito interessantes, gostei muito de trabalhar com eles". Muito obrigado ao Luca Marinelli por ter concedido esta entrevista.

13 abril 2016

Resenha Crítica: "Per amor vostro" (Anna)

 "Per amor vostro" é o filme de Valeria Golino, ou melhor, da sua Anna, da personagem que providencia o título alternativo da nova longa-metragem de ficção realizada por Giuseppe M. Gaudino. O cineasta procura que o espectador conheça Anna, que descubra os sentimentos desta mulher, aquilo que percorre a alma e o corpo da protagonista, a sua forma de encarar o Mundo que a rodeia e a vida, as suas ilusões e devaneios, enquanto Valeria Golino eleva o filme com uma interpretação de relevo. "Per amor vostro" procura estimular os sentidos e as sensações do espectador, enquanto nos transporta para o interior da vida conturbada de Anna Ruotolo Scaglione (Valeria Golino), uma figura feminina que parece não ter ultrapassado por completo os traumas do passado e encontrado todas as forças para lidar com os problemas do presente. Não é uma figura totalmente inexperiente, mas é muitas das vezes enganada, ou deixa-se enganar, enquanto ascende profissionalmente, conhece um novo interesse amoroso e atravessa uma fase complicada a nível matrimonial. O valor da família, a religiosidade, os negócios obscuros, tudo tão associado ao território de Nápoles, o espaço citadino onde se desenrola o enredo, encontram-se presentes em "Per amor vostro", mas também os sentimentos bem vivos, ainda que aliados a alguma melancolia, letargia e surrealismo, com Giuseppe Gaudino a procurar aproveitar as especificidades deste local ao serviço do enredo. É certo que o cineasta perde-se em alguns excessos e devaneios, algo latente quando procura apresentar a protagonista como uma santa, com estas situações específicas a serem marcadas pela presença de uma legenda e uma narração em forma de canção, ou as estranhas ilusões que afectam a mente de Anna e proporcionam alguns trechos mais surreais. Giuseppe Gaudino não tem problemas em atirar-nos para fora da zona de conforto, tendo em vista a procurar incutir alguma poesia e irreverência a uma história que, no seu cerne, é completamente convencional. Anna é casada com Gigi Scaglione (Massimiliano Gallo), um agiota de gestos rudes, violento e abusivo, que agride regularmente a esposa e apresenta uma relação conflituosa com Arturo (Edoardo Crò), um dos três rebentos do casal. Arturo é irmão de Santina (Elisabetta Mirra) e Cinzia (Daria D'Isanto), com Anna a contar com uma relação relativamente próxima com o primeiro, um adolescente mudo, que gosta de imitar alguns trechos de filmes e séries que vê na televisão. A relação entre Anna e a família é deveras atribulada, com esta a procurar ajudar tudo e todos, embora nem sempre tenha quem a apoie. Os pais outrora abandonaram Anna num convento de freiras, embora esta procure ajudar os progenitores no presente, apesar destes apenas parecerem interessados no dinheiro da filha.

Se a vida pessoal de Anna parece atravessar uma fase complicada, ao ponto desta praticamente começar a ver tudo aquilo que a rodeia a preto e branco, algo revelador do seu estado de espírito, com a vivacidade e a alegria a parecerem sentimentos que raramente contaminam a protagonista, já a sua carreira profissional vai de vento em popa. Anna trabalha no ramo televisivo, a organizar e exibir os cartões com as falas que os actores e as actrizes devem proferir, bem como a escrever algumas anotações, tendo em vista a ajudar a guiar os elementos do elenco nas suas interpretações. O trabalho da protagonista é elogiado, embora esta nem sempre pareça sentir confiança, ou não estivéssemos diante de uma mulher insegura, que atrai problemas ou figuras nem sempre recomendáveis. Um dos elementos que se sente supostamente atraído pela protagonista é Michele Migliaccio (Adriano Giannini), um actor canastrão, que necessita sempre de anotações para se recordar das falas, embora seja uma estrela de grande sucesso. Adriano Giannini incute um estilo galanteador e aparentemente afável a Migliaccio, um actor que procura demonstrar que se sente interessado em Anna. Valeria Golino consegue transmitir as fragilidades emocionais da protagonista, uma figura feminina simples na sua forma de se vestir e dialogar, que nem sempre parece confiar nas suas capacidades profissionais ou contar com um amor próprio elevado (uma situação que Gaudino faz questão de repetir excessivamente ao longo do filme), enquanto a actriz tem tempo para construir uma personagem que se encontra no cerne de quase tudo aquilo que acontece ao longo de "Per amor vostro". A câmara segue-a com enorme atenção, pronta a captar as expressões da protagonista (não faltam close-ups, muitas das vezes extremos), os seus sentimentos e incutir quase a sensação de que estamos a vivenciar algo ao lado da mesma, ou a partir do prisma de Anna. A própria decisão de filmar "Per amor vostro" maioritariamente a preto e branco, remete para a procura de Gaudino em tentar que o espectador observe o enredo do mesmo modo que Anna observa o Mundo que a rodeia, algo adensado pelo trabalho de câmara. A câmara de filmar é sentida, por vezes em excesso, bem como o trabalho do realizador, que não se imiscui a dizer presente quando deve e não deve, enquanto a primeira "dança" ao ritmo de Anna, ou melhor de Gaudino. Diga-se que o cineasta não tem problemas em repetir até à exaustão que estamos diante de uma protagonista com baixa auto-estima, que se encontra a lidar com uma depressão, algo que poderia ser abordado de forma mais incisiva ao invés da opção pelo caminho redundante e pueril.

O casamento de Anna parece estar nas últimas, mantendo-se praticamente por receio e conveniência, com a protagonista a ser alvo de agressões e maus tratos por parte do marido, um elemento exposto de forma unidimensional, que parece contribuir e muito para o estado depressivo desta mulher, embora o argumento nunca atribua a densidade necessária a este personagem. Diga-se que o argumento concentra quase todas as atenções em Anna e descura muitas das vezes os restantes elementos. Veja-se a abertura de uma subtrama relacionada com o namoro de Santina, algo atirado à bruta no enredo e explorado de forma sensaborona, ou a relação entre Anna e Salvatore (Massimo De Matteo), o irmão mais velho, pouco ou nada aproveitada ao longo do filme. As fragilidades de Anna são latentes, algo que contrasta com as atitudes de Gigi. Massimiliano Gallo transforma Gigi numa figura a espaços ameaçadora e pouco confiável, que não tem problemas em partir para as agressões físicas e verbais, ou efectuar negócios ilícitos para a máfia. Diga-se que parte dos negócios de Gigi afectam figuras como Ciro (Salvatore Cantalupo), o elemento que outrora ocupara o cargo profissional que foi atribuído a Anna. Ciro é uma das várias figuras masculinas que se imiscuem no quotidiano de Anna, com Salvatore Cantalupo a exibir o desespero deste indivíduo que se endividou até à raiz dos cabelos, culpando a protagonista por ter perdido o emprego, embora este tenha sido demitido devido a contar com uma personalidade problemática. A espaços, Ciro torna-se um elemento intrusivo, embora saiba mais do que Anna pensa, sobretudo em relação a Gigi e Michele, apesar de importunar esta mulher de forma extrema, ao ponto de quase nos incomodar. Anna é o cerne do filme, com "Per amor vostro" a procurar expor o quotidiano desta figura feminina que procura conciliar o seu papel de mãe de família e a carreira profissional. Nem sempre é fácil, com esta a habitar num apartamento relativamente modesto, com o esposo e os três rebentos, embora a sua vida pessoal esteja longe de se encontrar numa fase apolínea. A casa onde esta habita conta com vista para o mar, um dos poucos espaços que Anna consegue ver a cores, ainda que de forma intermitente, com a imensidão do mesmo a parecer simbolizar uma libertação que a protagonista tarda em conseguir.

Anna parece demasiado imersa no papel de mãe, filha, esposa, profissional, para conseguir soltar a alma da letargia que contaminou a sua existência. Esta vive praticamente para os outros, ou pelo menos assim parece no início do filme, denotando alguma dificuldade em lidar com o pragmatismo do Mundo que a rodeia. É, acima de tudo, a história de Anna que nos é apresentada, uma mulher que a espaços parece demasiado ingénua, ou simplesmente procura não acreditar naquilo que se encontra mesmo à sua frente. A religião e os valores religiosos parecem fazer parte da vida de Anna desde a infância: o nome do irmão e da irmã da protagonista remetem para elementos religiosos; Anna foi, em parte, educada num convento; o próprio realizador faz questão de traçar paralelos entre a personagem interpretada por Valeria Golino e uma "santa". Giuseppe Gaudino não tem problemas em incutir ingredientes de diversos géneros e subgéneros em "Per amor vostro", com a narrativa a deambular entre o drama a descair para o melodrama, o romance, a comédia e o filme sobre a máfia. Os negócios obscuros de Gigi e as ramificações dos mesmos permitem traçar esse paralelo com as obras cinematográficas que envolvem a máfia, enquanto a vida familiar e sentimental de Anna a espaços descai para o melodrama. Temos ainda situações meio surreais, tais como as cenas em que Anna se encontra no interior do autocarro e a chuva parece permear todo o interior deste espaço, ou as vozes distorcidas que esta ouve em alguns momentos, ou as estranhas nuvens que a espaços aparecem a cobrir parte da vista que a protagonista tem a partir da janela da sua habitação. O argumento nem sempre incute a profundidade necessária às temáticas abordadas, com Giuseppe Gaudino a procurar explorar uma miríade de temas ao longo do filme, embora de forma nem sempre assertiva. Veja-se o vício de Ciro pelo jogo, ou o trabalho de Gigi como agiota, ou a relação entre Anna e os pais, entre outros exemplos de temas que poderiam ser explorados de forma mais incisiva. Também Cinzia, Arturo e Santina são expostos de forma relativamente superficial, com o argumento a dar uma "primeira demão", embora pareça por vezes esquecer-se de terminar o fresco que começou a pintar. "Per amor vostro" compensa os tropeços e redundâncias com algumas decisões inspiradas, com Giuseppe Gaudino a incutir uma estranha mescla de crueza, lirismo e melancolia ao filme, enquanto Valeria Golino brinda o espectador com uma interpretação que, por si só, vale o preço do bilhete de cinema.

Título original: "Per amor vostro".
Título em Portugal: "Anna".
Realizador: Giuseppe M. Gaudino.
Argumento: Giuseppe M. Gaudino, Isabella Sandri e Lina Sarti.
Elenco: Valeria Golino, Massimiliano Gallo, Adriano Giannini, Elisabetta Mirra, Edoardo Crò, Daria D'Isanto, Salvatore Cantalupo.

12 abril 2016

Entrevista a Claudio Santamaria sobre "Lo chiamavano Jeeg Robot"

 Sucesso junto do público e de alguns sectores da crítica em Itália, "Lo chiamavano Jeeg Robot" foi exibido pela primeira vez em Portugal na edição de 2016 do 8 ½ Festa do Cinema Italiano. "Lo chiamavano Jeeg Robot" venceu o Prémio do Público Canais TV Cine & Séries e o Prémio 8 ½ Festa do Cinema Italiano para Melhor Filme, algo revelador da boa aceitação que o filme teve no Festival. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar Claudio Santamaria, o intérprete de Enzo Ceccotti, o protagonista de "Lo chiamavano Jeeg Robot". Na entrevista, falámos sobre os "super-heróis à italiana", o trabalho de Claudio Santamaria com Gabriele Mainetti (realizador), bem como com Ilenia Pastorelli, a campanha de marketing de "Lo chiamavano Jeeg Robot", entre outros assuntos. Fotografia retirada da página do Facebook do 8 ½ Festa do Cinema Italiano (autoria de © Ben Do Rosario - fotos/pictures).


Rick's Cinema: O Claudio Santamaria é um espectador de filmes de super-heróis?

Claudio Santamaria: Sim, gosto desde jovem. Para mim, os super-heróis são como "a procura de Deus", de uma divindade que te salva. Quando era pequeno gostava muito do Homem-Aranha e do Super-Homem, mas este último é demasiado burguês, poderia ser o que queria mas estava mais preocupado com a Lois Lane, como se fosse um Deus. Também gosto dos X-Men.


RC: O cinema italiano conta com as "comédias à italiana", os "giallos", os "spaghetti westerns", os "os polizziotteschi", entre outros géneros e subgéneros adaptados à realidade italiana. "Lo chiamavano Jeeg Robot" pode significar que vamos contar com os filmes de "super-herói à italiana"?

CS: Actualmente, em Itália, não se fazem filmes de género, parece que estás a "insultar Deus". Parece que não é possível fazer filmes de género. Em Itália são feitas comédias, ou filmes de autor, daqueles que apenas quatro pessoas compreendem. Não é que apenas se faça isso, por vezes existem obras cinematográficas como "Suburra", que são filmes de género.
 O Gabriele Mainetti demorou cinco anos para conseguir fazer o "Lo chiamavano Jeeg Robot". Ninguém queria produzir o filme. Agora que o filme estreou nas salas de cinema, todos os produtores querem trabalhar com o realizador. Mas é algo muito novo em Itália. Ninguém fez um filme como esse. Muitas críticas dizem: "cinema italiano: ano zero", porque é um género novo. Totalmente novo.




RC: O filme tem sido bem recebido pelo público e por alguns sectores da crítica, mesmo tendo a concorrência de colossos como "Batman v Superman: Dawn of Justice". Quais são as características de "Lo chiamavano Jeeg Robot" que considera terem contribuído para agradar quer ao público, quer a alguns sectores da crítica? 

CS: O "Lo chiamavano Jeeg Robot" é um filme de entretenimento, mas também tem muito nível. É feito na extrema periferia, da cidade, quase como se fosse uma mescla entre os super-heróis da Marvel com Pier Paolo Pasolini. O filme sabe apresentar a periferia de uma maneira que Pasolini sabia fazer, ou Claudio Caligari, o realizador de "Amore tossico" e "Non essere cattivo".
 As pessoas que vêem o filme dizem "finalmente, nós também temos super-heróis". O "Lo chiamavano Jeeg Robot" não procura imitar os filmes de super-heróis americanos, é um filme italiano. Também tem elementos das "comédias à italiana", algo que os americanos não sabem fazer, que é pegar numa situação dramática e de repente sai algo de ridículo. Tem os dois lados da vida humana. O filme conta com humor, um lado dramático, uma história de amor, com todos estes elementos a serem muito bem mesclados.


RC: Uma das componentes relevantes é a cidade de Roma e a sua periferia, com a maioria dos personagens a morarem nas margens. Considera que este espaço urbano é fundamental para os comportamentos de personagens como o Enzo e até o Zingaro?

CS: Sim, absolutamente. Todos os sentimentos são extremos. Este bairro é Tor Bella Monaca, mas poderia ser qualquer periferia do Mundo. No caso do Enzo, a vida tirou-lhe todos os afectos, tudo aquilo que ele tinha. A família, os amigos, o amor, tudo. A vida é mais dura do que no centro da cidade. Os meninos têm de construir uma armadura desde crianças, têm que começar a falar com voz grossa. A história de amor entre Enzo e Alessia também é mais forte. O grupo do Zingaro também é um fenómeno que pode acontecer na periferia.
 O mais interessante é dar super-poderes a um homem que não tem esperança, que não tem nada, que não tem jeito para socializar, um indivíduo que se importa acima de tudo consigo próprio. Essa é a pergunta interessante do filme: "o que um homem egoísta pode fazer com esse poder?" Para mim, esta é uma metáfora sobre os políticos: "quem tem o poder, também tem um dever". Em Itália parece que é um privilégio. O Enzo pensa "agora vou procurar alcançar tudo aquilo que a vida não me deu". É através da relação com Alessia, que o Enzo percebe que ter esse poder, também é ter um dever.





RC: Inicialmente, Enzo está longe de ser o típico super-herói, surgindo como um criminoso misantropo que vive numa casa marcada por uma enorme desorganização e uma miríade de pornografia, algo que é utilizado para expor um pouco da personalidade do protagonista. As características simultaneamente negras e humanas de Enzo surgiram como elementos que o atraíram para aceitar interpretar o personagem? 

CS: Tudo me atraiu. Quando li o argumento, liguei para o realizador e disse: "esse filme é genial, temos de fazer este filme". O Gabriele Mainetti disse que eu tinha de participar num casting, acabando posteriormente por me seleccionar para interpretar o personagem. Foi um trabalho muito interessante e completo como actor. O Gabriele disse que eu tinha a transparência emotiva do Enzo, mas tinha que construir uma "couraça", um personagem com um corpo grande, quase como se fosse um urso. É um personagem que tem um corpo bastante presente. Ele fez-me treinar com pesos. Trabalhámos muito o jeito de falar dos personagens, porque na periferia, como é o caso de Tor Bella Monaca, tu não dizes "podes sair daqui por favor", mas sim "vai embora". Não têm um jeito burguês de falar, apresentam uma maneira distinta de dialogar. Trabalhei muito sobre a história de Enzo e da sua família para criar essa falta de amor e afecto, algo que foi muito interessante. As cenas de acção com cabos também foram muito interessantes.


RC: Já trabalhou com realizadores como Bernardo Bertolucci, Nanni Moretti, Gabriele Muccino, Luca Guadagnino, Martin Campbell. Em “Lo chiamavano Jeeg Robot” trabalha pela primeira vez com Gabriele Mainetti, um estreante na realização de longas-metragens. Como foi a vossa colaboração/relação profissional?

CS: Eu fiz muitas primeiras obras. Se o filme é bom, não me importa se é realizado por um mestre ou um estreante. Conheço o Gabriele Mainetti há quase vinte anos. Conhecemo-nos na escola de teatro. Ele queria aprender a dirigir os actores. Trabalhámos juntos no teatro, como actores. Vi as curtas-metragens que o Gabriele Mainetti realizou e sempre gostei do jeito dele filmar, ele é muito capaz. Estudou realização nos EUA, bem como fotografia, estudou como actor, o Gabriele conhece todos os aspectos de um filme. Depois do casting, começámos a trabalhar juntos neste personagem, bem como com o Luca Marinelli e a Ilenia Pastorelli. Fizemos muitas improvisações, chegámos a trocar dez chamadas telefónicas por dia. Temos uma relação de amizade muito forte. Sempre gostei do seu trabalho.
  O Gabriele é muito atento ao trabalho dos actores. Ele favorece sempre o trabalho dos actores ao invés da câmara. O Gabriele sabe que para conseguires envolver o espectador, tens de conseguir que este gere empatia com o personagem. Para mim, o sucesso do filme é esse. Nos EUA, abres um armário e tens um super-herói lá dentro, no teu quarto, é normal. Em Itália não é normal. Para fazeres que o público acredite nesses super-poderes, tens que agarrá-lo do ponto de vista emocional. Tens que construir personagens reais e colocá-los num mundo irreal. Apenas podes criar um mundo irreal se tiveres personagens reais, que contam com relações reais.




RC: A relação entre Enzo e Alessia é no mínimo peculiar, com esta a pensar que o Enzo é Hiroshi Shiba. O Claudio Santamaria apresenta um tom sempre mais sério, enquanto Ilenia Pastorelli interpreta uma personagem que apresenta um tom mais naïf, que parece ter criado toda uma realidade alternativa para se proteger. Como foi trabalhar com a Ilenia Pastorelli e criar uma dinâmica convincente entre dois personagens tão distintos?

CS: No começo foi difícil. Ela chega do "Grande Fratello" ("Big Brother" em Itália). O Gabriele Mainetti fez audições a várias actrizes de Roma. Um dos argumentistas escreveu as falas da Alessia a ver o "Grande Fratello", tendo a Ilenia como inspiração. Ele disse ao Gabriele: "Porque é que não vês esta mulher?". E o Gabriele respondeu: "Não, não, não, eu tenho dois actores, quero trabalhar com actores, não pretendo trabalhar com não actores". A Ilenia fez o casting. Quando ela saiu, o casting director começou a sorrir para o Gabriele. O realizador disse: "não rias assim para mim, não olhes assim para mim, fuck you" (risos). Depois de outra audição, o Gabriele decidiu contratá-la. Ela trabalhou com um amigo nosso, que estudou connosco há muitos anos, que ajudou a prepará-la para o filme. Nós tivemos muitos ensaios, fizemos improvisações, leituras, trabalhámos muito. Ela teve de ser ajudada. Ela tem um grande talento para transmitir emoções. A Ilenia nasceu em Tor Bella Monaca, então a maneira como ela fala é perfeita para a personagem. Ela não teve que trabalhar nesse quesito. A Ilenia teve que trabalhar no campo das emoções, algo que é muito difícil. No final, ela conseguiu construir uma personagem verdadeira. É fácil ler umas falas e dizer as mesmas de um modo natural, mas não é isso que faz de ti um actor, a Ilenia fez algo mais para expressar os seus sentimentos interiores e criar uma personagem que é quase como uma criança num corpo de adulto.


RC: O filme tem contado com uma campanha de marketing bastante inspirada no Twitter.  Qual tem sido a importância das redes sociais para chegarem ao público? 

CM: Tem sido enorme. Este filme conseguiu captar todo o tipo de público. Desde os jovens com catorze anos até aos espectadores com sessenta e cinco anos. Do intelectual ao não intelectual. Muita gente não vê televisão, então as redes sociais permitem chegar a um público underground. O "Lo chiamavano Jeeg Robot" é um filme um pouco underground. É um tipo de filme que fazíamos em Itália nos anos 70, que agora se encontra praticamente "adormecido".


RC: O Claudio Santamaria dobrou a voz de Batman na trilogia de Christopher Nolan, bem como em "The Lego Movie". Como foi a experiência de dobrar a voz de Batman? Já se estava a preparar para interpretar um super-herói?
 
CS: Foi muito divertido, sobretudo quando ele faz aquela voz. Mas, foi ainda mais divertido dobrar o "The Lego Movie", onde o Batman é um imbecil. Foram experiências diferentes, são filmes muito diferentes. Talvez tenha sido um pressentimento para aquilo que aconteceria posteriormente. 

RC: Muito obrigado ao Claudio Santamaria por ter concedido esta entrevista.