29 março 2016

Resenha Crítica: "A Bigger Splash" (Mergulho Profundo)

 Durante boa parte da duração de "A Bigger Splash", a temperatura que permeia os cenários é quente, com os raios solares a serem bem sentidos, embora se aproxime uma tempestade forte, que promete afectar os elementos que se encontram na ilha de Pantelleria. Esta descrição quase que poderia servir para descrever o enredo de "A Bigger Splash", com as relações entre o quarteto de protagonistas a surgirem inicialmente marcadas por alguma tolerância, até a tempestade chegar e prometer trazer estragos. No início de "A Bigger Splash", o novo filme realizado por Luca Guadagnino, encontramos Marianne Lane (Tilda Swinton) e o seu namorado, Paul (Matthias Schoenaerts), a apanharem banhos de Sol, enquanto se encontram com os corpos desnudos, tal o calor que pontua o espaço onde desfrutam de um período de férias. Marianne é uma estrela de rock, muito ao estilo "David Bowie", em reclusão, que se encontra a recuperar de uma operação às cordas vocais, algo que a impede de comunicar com regularidade. Diga-se que esta não parece apresentar uma grande vontade em falar, com Tilda Swinton a ser capaz de se exprimir imenso através dos seus gestos e expressões, incutindo um carisma notório à personagem a quem dá vida, uma cantora que mantém uma relação com Paul, um realizador de documentários que tarda em alcançar sucesso profissional. Matthias Schoenaerts consegue incutir uma intensidade física latente a Paul, um tipo lacónico, algo letárgico, que não gosta muito de sair ou participar em eventos que contam com grandes multidões, tendo um passado conturbado, marcado por uma tentativa de suicídio e consumo excessivo de álcool. A relação entre Marianne e Paul é pontuada pela cumplicidade e desejo sexual, com estes a procurarem "lamber feridas" neste local aparentemente paradisíaco. O quotidiano de Paul e Marianne muda quando recebem uma chamada de Harry (Ralph Fiennes), a avisar que se prepara para ir ao encontro do casal, algo que promete mexer com os dois primeiros, ou o personagem interpretado por Fiennes não fosse um antigo amigo do primeiro e ex-namorado da segunda. Se a estrela de rock e Paul procuram seguir em frente com as suas vidas e ultrapassar alguns problemas de outrora, encontrando refúgio em Pantelleria, uma ilha de origem vulcânica, que tanto tem de bela como de enclausuradora e assustadora (a possível chegada do siroco, um vento que parte desde o continente Africano até este espaço, evidencia a violência que se pode abater sobre o território), já Harry é um produtor musical que parece preso ao passado, deixando a ideia que foi incapaz de mudar ou evoluir. Ralph Fiennes incute um tom electrizante a Harry, com o actor a ter o desempenho que mais se destaca, abraçando os exageros deste produtor musical e a sua enorme pancada, contribuindo para mexer e muito com a narrativa. De barba comprida, personalidade egocêntrica e uma enorme apetência para falar tudo aquilo que lhe vem à cabeça, um sucesso profissional que se parece reflectir na sua condição financeira saudável, Harry procura recuperar a atenção de Marianne e reconquistar a antiga namorada. Harry surge acompanhado de Penelope (Dakota Johnson), a sua filha, uma jovem que supostamente conta com vinte e dois anos de idade. Se em "Fifty Shades of Grey", Dakota Johnson interpretou um jovem algo ingénua, que se iniciou tardiamente a nível sexual, já em "A Bigger Splash" dá vida a uma figura feminina sedutora e misteriosa, que não parece ter problemas em exibir o seu corpo, embora esconda regularmente os seus sentimentos.

 Penelope mantém uma relação fria com o pai, uma figura que apenas conheceu numa fase tardia da sua vida, enquanto Harry parece deliciar-se devido ao facto dos elementos de fora pensarem que a primeira é a sua namorada. Harry é um tipo que gosta de se exibir, sair com regularidade, festejar, relembrar os sucessos profissionais, incluindo o seu trabalho com os The Rolling Stones, bem como com Marianne, embora esconda, durante algum tempo, a frustração de ter desperdiçado a relação que manteve com esta última. Nesse sentido, Harry surge sobretudo como uma figura intensa, que a espaços ainda parece despertar a atenção de Marianne, embora esta última ame Paul, tendo seguido em frente com a sua vida. Nos flashbacks, somos colocados diante de alguns momentos desta mulher nos concertos, com esta a esgotar espectáculos e a vender imensos discos, embora a operação pareça ter contribuído para Marianne abrandar o seu estilo de vida, enquanto procura lamber algumas feridas do passado, contando com a companhia de Paul. A química entre Matthias Schoenaerts e Tilda Swinton é convincente, com a dupla a conseguir explanar a cumplicidade entre os personagens que interpretam. Por sua vez, a dinâmica entre os personagens interpretados por Ralph Fiennes e Matthias Schoenaerts é pontuada pela tensão, com este último a tolerar inicialmente a presença do primeiro, embora, aos poucos, comece a exibir o desagrado pela presença do antigo amigo. Veja-se quando Harry procura oferecer álcool a Paul, sabendo que este último é um ex-alcoólico, ou a procura do primeiro em imiscuir-se no quotidiano dos personagens interpretados por Schoenaerts e Swinton. É neste quarteto que se centra a narrativa de "A Bigger Splash", o remake de "La Piscine", com Luca Guadagnino a manter diversos "ingredientes" do filme original, incluindo um assassinato, traços da personalidade dos quatro protagonistas, o destino de Paul, as tensões de cariz sexual, o guarda-roupa pontuado por enorme leveza, embora incuta um estilo distinto e diversas modificações, com o próprio local onde se desenrola o enredo a permitir essa mudança. É certo que voltamos a ficar diante de personagens sem grandes problemas financeiros, embora não pareçam totalmente satisfeitos com as suas vidas, mas estamos longe da villa na Côte d'Azur de "La Piscine", com a ilha de Pantelleria a trazer a espaços uma sensação de claustrofobia, sobretudo quando chega o mau tempo. A ilha surge como um cenário e personagem, com "A Bigger Splash" a colocar-nos diante das suas ruas, das suas praias, terrenos arenosos e rochas negras, bem como perante a alimentação típica e as festividades do território. Diga-se que Luca Guadagnino aproveita ainda o espaço da casa onde Marianne e Paul se encontram a desfrutar de um período de férias, uma habitação dotada de algumas comodidades, incluindo uma piscina, diversos discos de música e uma mesa de refeições no espaço exterior que promete ser palco de um momento relativamente constrangedor. Tal como no filme original, inspirado no livro "La Piscine" de Alain Page (Jean-Emmanuel Conil), também "A Bigger Splash" conta com uma piscina como um dos espaços primordiais do enredo. Não falta um momento sexual mais quente entre Marianne e Paul, ou uma competição entre este último e Harry, bem como um assassinato que promete incutir um tom negro ao enredo, com a piscina a surgir como um espaço onde decorrem diversos episódios relevantes, enquanto Luca Guadagnino, auxiliado pelo argumento de David Kajganich, consegue construir uma tensão crescente entre diversos personagens.

 A chegada de Harry é o ponto de charneira de "A Bigger Splash". O produtor musical não tem problemas em trazer estranhas para a casa de Marianne e Paul, em particular, Sylvie (Lily McMenamy) e Mireille (Aurore Clément), embora estas últimas praticamente não sejam aproveitadas ao longo do enredo, servindo sobretudo para expor a incapacidade de Harry em respeitar o espaço alheio. A relação entre Harry e Paul torna-se gradualmente tensa, com o primeiro a não esconder o interesse em Marianne, enquanto o segundo parece ter cada vez menos paciência para aturar o antigo amigo, para além de se envolver com a filha deste, uma jovem sedutora, que não tem problemas em insinuar-se e expor alguma da sua sensualidade. Veja-se quando Penelope decide atirar moedas para o fundo da piscina e apanhá-las, ou decide fazer o pino neste espaço, tendo em vista a despertar a atenção de Paul, quando Marianne não se encontra presente. Não faltam tensões de cariz sexual entre alguns personagens. Marianne e Harry chegam praticamente a consumar algo mais, após diversos episódios de maior intimidade, que vão desde um espectáculo de karaoke à confecção de um jantar. O momento no bar, onde Harry canta, Marianne dança, as luzes azuis tomam conta do cenário, permite explanar que ainda existe algo a ligar os dois personagens, com esta última a soltar-se um pouco mais, enquanto o espaço nocturno enche-se de clientes, prontos a assistirem a esta cena enérgica entre a estrela de rock e o produtor musical. A certa altura do filme, Penelope salienta que Marianne é demasiado "domesticada" para quem é uma estrela de rock, algo que ofende a segunda, embora Harry pareça tentar soltar o lado mais selvagem que a cantora apresentara noutros tempos. Por sua vez, a dinâmica entre Paul e Penelope é relativamente convincente, com Dakota Johnson a cumprir no papel de jovem sedutora, que não tem problemas em expor o lado negro do progenitor e esconder uma série de sentimentos, embora o argumento nem sempre ajude o trabalho da actriz, com uma reviravolta no último terço, em relação à idade da personagem, a não convencer e a trazer poucos efeitos práticos para o enredo. Se Dakota Johnson cumpre como Penelope, já Tilda Swinton consegue transmitir imenso como Marianne, praticamente sem falar, com a personagem a quem dá vida a deparar-se com o regresso de Harry, uma figura nostálgica, que não tem problemas em dançar (Ralph Fiennes tem alguns momentos de dança memoráveis) e cantar, embora pareça demasiado preso ao passado. As tensões são expostas de forma gradual, com "A Bigger Splash" a associar as mesmas às personalidades dos personagens e às características do território, um espaço de enorme beleza, embora capaz de transmitir uma sensação de claustrofobia. Luca Guadagnino aproveita alguns eventos locais, bem como os cenários desta ilha ao serviço do enredo, algo latente em episódios como um momento mais íntimo entre Penelope e Paul, junto a um lago, após uma longa caminhada. Tal como "La Piscine", também "A Bigger Splash" não exibe totalmente aquilo que acontece entre Penelope e Paul, embora a possibilidade destes dois se terem envolvido enfureça Harry. Diga-se que a relação entre Penelope e Marianne também é relativamente complicada, com a primeira a não parecer apreciar particularmente a presença da segunda, algo que fica latente no último terço de "A Bigger Splash".

 O argumento incute ainda elementos relacionados com a chegada de migrantes, uma temática extremamente actual, enfiada a martelo para expor como estes são muitas das vezes escorraçados ou encarados praticamente como intrusos, enquanto figuras como os protagonistas, apesar de se encontrarem temporariamente no território, são vistas com alguma bonomia, incluindo quando ocorre uma morte suspeita. Existe uma tentativa de Guadagnino em efectuar uma crítica à nossa sociedade, sobretudo na forma como os migrantes são encarados, embora pareça demasiado escancarada e enfiada a martelo para provocar o efeito pretendido. Se a crítica social é esbatida e pouco aprofundada, já a capacidade de Guadagnino e David Kajganich concederem pertinência ao remake parece notória, com a dupla a manter um pouco da essência do filme original, embora não deixe de introduzir diversas alterações que concedem um tom muito próprio a "A Bigger Splash". Veja-se as diferenças entre os locais onde decorre a narrativa, bem como a distinção a nível da banda sonora, com o rock and roll a fazer parte da mesma em "A Bigger Splash", incluindo músicas dos The Rolling Stones. Diga-se que as menções aos The Rolling Stones, por parte de Harry, remetem para uma certa nostalgia, algo ainda visível no facto dos elementos mais velhos ouvirem música em discos de vinil, enquanto Penelope prefere o seu ipod. Esta é uma jovem que utiliza quase sempre roupas leves, tal como boa parte dos personagens, com o guarda-roupa a exacerbar a temperatura quente do território, pelo menos até ocorrer uma tempestade numa fase mais avançada da narrativa. Diga-se que Guadagnino não tem problemas em expor e explorar os corpos dos protagonistas, com estes a parecerem estar bastante à vontade com as suas fisionomias, embora as férias em Pantelleria prometam ser desastrosas. Os festejos efusivos de Harry quando reencontra Marianne e Paul preparam-se para serem trocados por sentimentos mais contraditórios, com "A Bigger Splash" a conjurar gradualmente o caos, até apresentar o mesmo com gosto e energia, enquanto os personagens principais vão ser obrigados a lidar com algumas das consequências dos seus actos. O desejo e os instintos mais primitivos parecem a espaços guiar Harry, Paul, Marianne e Penelope, algo que promete conduzir a algumas tensões, momentos de sedução, alguns trechos de humor e sentimentos mais exacerbados. Luca Guadagnino explora assertivamente as dinâmicas entre Matthias Schoenaerts, Tilda Swinton, Ralph Fiennes e Dakota Johnson, com o cineasta a incutir alguns elementos de thriller, romance, drama e erotismo a uma obra cinematográfica pontuada por uma cinematografia competente, um elenco talentoso e uma banda sonora envolvente, onde os sentimentos se encontram à flor da pele e as tensões são mais do que muitas.

Título original: "A Bigger Splash".
Título em Portugal: "Mergulho Profundo".
Realizador: Luca Guadagnino.
Argumento: David Kajganich.
Elenco: Tilda Swinton, Matthias Schoenaerts, Ralph Fiennes, Dakota Johnson.

28 março 2016

Resenha Crítica: "Eye in the Sky" (2015)

 Intenso, inquietante e perturbador, "Eye in the Sky" obriga-nos a "entrar" no interior das salas, gabinetes e escritórios dos militares e políticos, bem como no campo de guerra, enquanto aborda temáticas relacionadas com o recurso aos drones nos conflitos bélicos e no combate contra o terrorismo. Os danos colaterais e a legitimidade destas acções também são temáticas abordadas e exploradas ao longo de "Eye in the Sky", com Gavin Hood a realizar uma obra cinematográfica que procura questionar o espectador e envolvê-lo no interior dos episódios vividos pelos personagens. Não existem soluções fáceis na guerra, nem "Eye in the Sky" procura exibir o contrário, com Gavin Hood a efectuar uma obra cinematográfica relevante, pronta a estimular o debate sobre as temáticas que aborda e a frustrar-nos com a certeza de que não existem opções completamente perfeitas. Veja-se quando os personagens principais são colocados diante do dilema de salvarem cerca de oitenta vidas ao eliminarem um grupo de terroristas, ou pouparem uma jovem que se encontra a vender pão nas imediações do esconderijo dos criminosos. A probabilidade da jovem ser atingida pela explosão provocada pelo lançamento de um míssil, através de um drone, é bastante elevada, algo que promete levantar uma série de questões éticas, morais, políticas e militares. Tudo é exposto de forma intensa, com Gavin Hood a transmitir que as opções têm de ser analisadas de forma rápida e colocadas em prática antes que os alvos fujam, com o enredo a desenrolar-se em volta de uma operação militar conjunta que envolve forças dos EUA, Inglaterra e Quénia. Nesse sentido, somos apresentados aos diferentes palcos e aos elementos que tomam as opções e cumprem as ordens ao longo do filme, com a missão inicial a centrar-se na captura de Susan Danford, uma cidadã britânica, agora conhecida como Ayesha Al-Hady (Lex King), bem como do esposo desta, Abdullah Al-Hady (Dek Hassan), dois criminosos conhecidos e relevantes, que pertencem à Al-Shabaab, uma organização terrorista. A operação encontra-se a ser liderada pela Coronel Powell (Helen Mirren), uma mulher obstinada, que procura capturar estes elementos a todo o custo. Este grupo protagonizou uma série de atentados e eliminara recentemente um agente ao serviço de Inglaterra e do Quénia, com Powell a encontrar-se a trabalhar do lado inglês. A presença do casal Al-Hady em Nairóbi, no Quénia, é vista como uma oportunidade para que estas forças militares conjuntas capturem os terroristas. Powell é auxiliada por alguns militares que procuram aconselhá-la quer a nível legal, quer a nível dos danos colaterais da operação, enquanto esta contacta com diversas redes de comando, em particular com a COBRA (Cabinet Office Briefing Rooms), uma unidade que inclui a presença de elementos como o Tenente-Coronel Frank Benson (Alan Rickman), Brian Woodale (Jeremy Northam), Angela Northman (Monica Dolan), entre outros.

 Angela opõe-se à ideia de avançar para um ataque que pode contribuir para a morte de inocentes, enquanto Brian Woodale procura ponderar as diversas consequências desta opção mais "musculada", com o gabinete a contar com um conjunto de figuras que apresentam posições dicotómicas em relação a todo este caso. Nos EUA, um dos intervenientes principais é Steve Watts (Aaron Paul), um piloto de drones que tem a missão de disparar num momento crucial, contando ao seu lado com Carrie Gershon (Phoebe Fox), uma novata. No Quénia, Jama Farah (Barkhad Abdi) trabalha como agente secreto, conseguindo envolver-se nos locais mais perigosos, incluindo num bairro controlado pela Al-Shabaab. Estes personagens, situados em diferentes partes do Mundo, encontram-se ligados por uma missão em comum, que acaba por sair do controlo quando Ayesha e Abdullah abandonam o local onde se encontravam instalados. O casal dirige-se para uma casa onde constam mais elementos extremistas, incluindo Rasheed Hamud (Roberto Meyer), um negociador de armas, com o grupo a ser observado de perto por uma câmara de vigilância, em formato de escaravelho, utilizada por Farah. Quando Powell descobre que o grupo de terroristas se encontra a planear um atentado, a operação de captura logo se transforma num mandato de assassinato. Esta operação levanta uma miríade de dúvidas legais, éticas e morais, com tudo a piorar quando Alia (Aisha Takow), uma jovem muçulmana, filha de pais moderados, procura vender pão em frente à casa que se prepara para ser alvo do ataque militar, ou seja, numa zona de risco. Não vão faltar discussões sobre a melhor opção a tomar, enquanto "Eye in the Sky" exibe paradigmaticamente que os danos colaterais e as contingências da guerra não podem ser encarados de forma meramente estatística, embora os protagonistas e o espectador fiquem diante da terrível dúvida: salvar uma vida ou muitas vidas? Aos poucos, ficamos diante de um emaranhado de políticos, militares e burocratas dos EUA, Inglaterra e Quénia, com as opiniões a dividirem-se, incluindo a do espectador, ou pelo menos a deste que escreve esta espécie de resenha. A banda sonora atinge níveis palpitantes, enquanto a cinematografia contribui para transmitir a sensação de que nos encontramos a visionar os acontecimentos em simultâneo com os intervenientes, com Gavin Hood a optar por exibir diversas imagens em movimento como se estivessem a ser captadas por um drone ou por câmaras de segurança. Veja-se quando encontramos o grupo terrorista reunido, a preparar os coletes e as armas no interior da habitação, ou a jovem Alia a vender pão, enquanto o relógio joga contra a sua vida, com o próprio trabalho de montagem a contribuir para que o espectador seja praticamente preso pelos colarinhos e fique inquieto à espera dos próximos passos dos personagens.

 "Eye in the Sky" não obriga (felizmente) o espectador a aturar discursos patrióticos, com Gavin Hood a exibir que estamos diante de um grupo de militares e políticos que procuram tomar uma opção complicada. Nenhuma opção é boa: ou deixam escapar terroristas e permitem que estes cometam um atentado, ou explodem com a habitação e correm o risco de eliminar uma jovem inocente. Esta é uma dúvida que atravessa boa parte da narrativa de "Eye in the Sky", com Gavin Hood a incutir características de thriller a um filme capaz de mexer com as emoções do espectador. No final, ficamos arrasados. As emoções sentidas e as dúvidas foram mais do que muitas. Não temos a certeza de que os protagonistas tomaram a melhor decisão, nem alguns dos intervenientes parecem ter ficado à vontade com a mesma. Parece mais do que óbvio que o recurso aos drones está longe de tornar os conflitos "limpos", uma temática abordada com relativo sucesso em "Good Kill", embora neste último caso, Andrew Niccol procurasse explorar o desgaste dos elementos que trabalham a pilotar estes aparelhos. Gavin Hood procura levantar questões sobre estas operações, enquanto manipula as nossas emoções e estimula o debate em relação às temáticas abordadas. É certo que os elementos do grupo terrorista não passam de meras ameaças que nunca ganham uma dimensão humana, ou complexidade, embora a intenção de Gavin Hood não pareça ser essa. Diga-se que o cineasta consegue explorar o talento de alguns elementos do elenco principal. Veja-se os casos dos seguintes actores e actrizes: Helen Mirren como Powell, uma militar disposta a quase tudo para conseguir cumprir os seus intentos, decidida e capaz de sugerir a um subordinado que altere as estatísticas oficiais sobre a zona de risco; Aaron Paul como um piloto de drones que parece algo incomodado com a missão; Alan Rickman como um Tenente-Coronel que procura efectuar a ponte entre os militares e os representantes políticos, com o actor a incutir algum carisma ao personagem que interpreta. Temos ainda exemplos como Jeremy Northam como Brian Woodale, um burocrata que procura analisar as consequências das suas decisões não só a nível militar, mas também no plano político (ou seja, a forma como a opinião pública vai encarar o acto a ser tomado), ou Monica Dolan como a questionadora Angela. A maioria destes personagens encontra-se nos gabinetes ou numa sala de operações militares, enquanto Jama Farah está no terreno. Barkhad Abdi convence como um agente secreto que se arrisca por terrenos perigosos, algo que a espaços conduz Farah a protagonizar fugas intensas, enquanto tenta cumprir as ordens e salvar a vida da jovem Alia. Este território do Quénia surge representado como um espaço recheado de perigos, pontuado por habitações marcadas por poucas condições, milícias extremistas e população empobrecida. Veja-se a necessidade de Alia ter de trabalhar a vender pão para ajudar os pais, ou as diversas crianças que laboram nas ruas, com Gavin Hood a exibir que nem todos os muçulmanos são terroristas (algo que parece complicado de explicar a algumas pessoas), bem pelo contrário (diga-se que o cineasta nunca apresenta uma visão "a preto e branco" da "realidade" que aborda).

 Alia é uma rapariga frágil e inocente, que desperta uma enorme simpatia, algo que dificulta ainda mais o pensamento de que a opção mais pragmática, ou seja, aquela que permite salvar mais vidas, pode colocar em causa a existência desta jovem. Os pais desta rapariga são elementos ponderados e educados, enquanto Alia apresenta um enorme desconhecimento em relação ao facto da sua vida estar em jogo. Farah ainda procura retirar a jovem do local, embora uma série de acontecimentos pareça dificultar esta tarefa, algo que deixa tudo e todos diante de um dilema moral. Não existem soluções totalmente pragmáticas, com esta guerra contra o terrorismo a parecer trazer consigo uma carga negativa impossível de escamotear. É certo que o ataque permite eliminar terroristas mas, ao matarem inocentes, será que estes elementos não estão a instigar o ódio contra os representantes do Ocidente? O terrorismo tem de ser combatido mas, ao eliminar-se inocentes, considerando as suas mortes como "danos colaterais", não se estará a cometer actos criminosos? As questões são mais do que muitas e as respostas complicadas, embora pareça certo que esta guerra com recurso aos drones está longe de ser "limpa", bem como os actos e as ideias de diversos personagens (sobretudo Powell, alguns representantes dos EUA e, obviamente, os terroristas). Gavin Hood não tem problemas em questionar o espectador e inquietá-lo, ao longo de uma obra cinematográfica que procura apresentar, ainda que de forma ficcional, como decorre uma operação política e militar conjunta. Veja-se que estamos diante de uma operação que reúne elementos do Quénia, Inglaterra e Estados Unidos da América, com a acção militar a ocorrer na primeira Nação mencionada. A juntar a tudo isto, dois terroristas contam com nacionalidade inglesa, outro dos EUA, enquanto ainda se encontra presente pelo menos um elemento do Quénia, algo que exige todo um enorme jogo diplomático, político e militar, com o argumento de Guy Hibbert a revelar-se de grande nível ao contribuir para elevar a complexidade desta obra cinematográfica. "Eye in the Sky" consegue conjugar com sucesso as diversas reuniões em gabinetes, pontuados por ecrãs que permitem que os intervenientes dialoguem entre si e consigam visionar aquilo que acontece na área de acção do Quénia onde se preparam para intervir, com as cenas que decorrem no território. Não faltam ainda alguns momentos de humor, seja devido a uma intoxicação alimentar do Ministro dos Negócios Estrangeiros inglês, ou à procura do personagem interpretado por Alan Rickman em comprar uma boneca, embora estas situações raramente tirem impacto aos trechos mais tensos. Pertinente e inquietante, "Eye in the Sky" procura questionar o espectador, enervá-lo e expor uma série de temáticas associadas à guerra contra o terrorismo e à utilização de drones, com Gavin Hood a surpreender pela complexidade incutida a um thriller que não procura respostas fáceis, ou esconder os seus propósitos.

Título original: "Eye in the Sky".
Título em Portugal: "Operação Eye in the Sky".
Realizador: Gavin Hood.
Argumento: Guy Hibbert.
Elenco: Helen Mirren, Aaron Paul, Alan Rickman, Barkhad Abdi, Jeremy Northam, Phoebe Fox.

24 março 2016

Resenha Crítica: "Il racconto dei racconti" (O Conto dos Contos)

 Matteo Garrone não tem problemas em desafiar as expectativas em relação ao rumo da sua carreira profissional. Em "Gomorra" transportou o espectador para o interior da máfia italiana, enquanto que em "Reality" procurou abordar temáticas relacionadas com a busca pela fama rápida e a febre dos reality shows. "Il racconto dei racconti" deixa transparecer a procura do cineasta em não se acomodar, em tentar novos desafios e criar algo que deixe marca e permita expor alguma da sua versatilidade. Matteo Garrone tem em "Il racconto dei racconti" a sua primeira longa-metragem falada em inglês, com esta obra cinematográfica a surgir como uma proposta ambiciosa, estimulante e envolvente, dotada de elevados valores de produção, um elenco talentoso e uma narrativa pontuada por três histórias livremente inspiradas em contos do livro "Lo cunto de li cunti" de Giambattista Basile. Estas histórias são expostas praticamente em "mini-episódios", que se completam com o desenrolar da narrativa e conseguem provocar uma miríade de sensações. Matteo Garrone mescla a fantasia com a crueza, o lirismo com o grotesco, desafia as catalogações fáceis e joga com as convenções dos contos de encantar, com as três histórias a encontrarem-se maioritariamente unidas graças a algumas temáticas transversais entre os diversos trechos. Veja-se o egoísmo de alguns personagens, ou o desejo de serem amados por aqueles que os rodeiam, bem como as obsessões que apresentam, ou a procura destas figuras em manterem as aparências, entre outras temáticas. O guarda-roupa, a decoração dos cenários e a cinematografia são primorosos, permitindo elevar a narrativa, enquanto "Il racconto dei racconti" deambula entre estes contos sobre três reinos dominados por regentes distintos. A primeira história tem como pano de fundo o reino de Selvascura, um território regido pelo Rei (John C. Reilly) e a Rainha de Longtrellis (Salma Hayek). Os personagens interpretados por John C. Reilly e Salma Hayek procuram conceber um herdeiro, embora esta última tarde em engravidar, uma situação que a parece afectar do ponto de vista psicológico. É então que surge um Necromante (Franco Pistoni), uma figura soturna, de vestes e comportamentos discretos, que se apresta a arranjar uma solução para resolver o problema do casal, apesar de salientar os riscos desta opção. O plano passa por eliminar um monstro marinho, tirar o coração do mesmo e fazer com que este órgão seja cozinhado por uma virgem. A caça ao monstro é exposta num misto entre a fantasia e o terror, com o Rei a morrer, enquanto a Rainha de Longtrellis apenas parece preocupada com o coração da criatura, tendo em vista a engravidar. Salma Hayek é um dos destaques deste elenco heterogéneo, com a actriz a conceder um tom aparentemente frio e egocêntrico a esta Rainha que procura ter um filho a todo o custo, mesmo que isso implique avançar para uma via bizarra que promete trazer custos elevados para todos os envolvidos.

 A cena em que a Rainha come o coração do monstro é uma das mais marcantes do filme, com a câmara a aproximar-se gradualmente da personagem interpretada por Salma Hayek, enquanto esta figura feminina, de vestes negras, sobressai diante do cenário recheado de paredes brancas, devorando o alimento de forma voraz, quase animalesca, com a sua boca e as suas mãos a encontrarem-se cobertas de sangue. Matteo Garrone arquitecta um momento poderosíssimo, simultaneamente grotesco, inquietante e mordaz, enquanto Salma Hayek alinha no jogo e cria uma personagem trágica, que se deixa dominar pelos desejos e anseios, com a procura incessante em ser mãe e a atitude possessiva em relação ao rebento a prometerem conduzi-la à desgraça. A obsessão da Rainha de Longtrellis em relação ao filho é desde logo visível no funeral do esposo, com a personagem interpretada por Salma Hayek a prestar imensa atenção ao rebento, exibindo-se pouco preocupada com a cerimónia fúnebre, um evento que marca a chegada de uma miríade de indivíduos, incluindo os regentes dos dois outros reinos onde se desenrola a narrativa, nomeadamente, o Rei de Strongcliff (Vincent Cassel) e o Rei de Highhills (Toby Jones). Quem também engravida, ainda que a cozinhar o coração do monstro é a empregada virgem (Laura Pizzirani), com esta a dar à luz o jovem Jonah (Jonah Lees), algo que promete afectar e muito a Rainha de Longtrellis. A narrativa avança dezasseis anos, com Jonah a tornar-se no melhor amigo de Elias (Christian Lees), o filho da Rainha, com os dois jovens a criarem fortes laços de amizade, algo que conduz a personagem interpretada por Salma Hayek a procurar eliminar o primeiro, o único elemento com quem o rebento parece conseguir formar laços de proximidade. Existe uma atitude possessiva e emocionalmente desequilibrada por parte da Rainha, com Matteo Garrone a explorar estes laços familiares venenosos, enquanto Christian Lees transmite a postura fria de Elias em relação à progenitora. Garrone exibe os laços de amizade entre Elias e Jonah com um misto de realismo e fantasia, com uma árvore a permitir que o primeiro saiba informações sobre o segundo, enquanto "Il racconto dei racconti" procura que nunca nos esqueçamos que estamos diante de um universo narrativo inspirado num conjunto de fábulas. A certa altura de "Il racconto dei racconti", encontramos a Rainha de Longtrellis num labirinto, em busca do filho, algo que parece surgir como uma metáfora para a vida desta mulher, sobretudo quando procura separar Elias de Jonah. A vida da personagem interpretada por Salma Hayek parece ter seguido um rumo labiríntico, com as decisões desta mulher a revelarem-se muitas das vezes desacertadas e propiciadores de adensarem os problemas que procura resolver. A relação problemática entre pais e filhos e as divergências entre elementos de diferentes gerações é algo que também marca o segundo segmento, com o personagem interpretado por Toby Jones a surgir como uma figura patética que pouco parece ligar a Violet (Bebe Cave), a sua filha. Diga-se que Matteo Garrone subverte por completo os contos que encontramos muitas das vezes adaptados de forma adocicada em diversos filmes da Walt Disney, algo latente quando a jovem princesa procura contrair matrimónio com o "príncipe encantado", embora seja obrigada a casar com um ogre (Guillaume Delaunay - longe de ser o simpático Shrek, um personagem da Dreamworks).

 O personagem interpretado por Toby Jones decidiu abrir um concurso público, tendo em vista a encontrar um noivo para Violet, com todos os habitantes a poderem participar no mesmo, algo que irrita a jovem. Aquele que adivinhasse a espécie animal à qual pertencia a pele em exposição, conquistaria o direito a casar com Violet, com esta decisão a revelar-se desastrosa para a jovem. O único a adivinhar é o ogre, uma figura deformada e agressiva, com a jovem a procurar livrar-se a todo o custo deste indivíduo, enquanto o Rei descura por completo o seu rebento. Diga-se que o Rei parece apenas nutrir afecto pelo seu animal de estimação, uma pulga gigante grotesca, que procura treinar e educar. Vale a pena salientar que Matteo Garrone abraça o grotesco e o mau gosto propositadamente, algo notório nas criaturas ou gestos dos personagens, com o cineasta a colocar o espectador diante do lado negro dos contos que estão longe de serem histórias de encantar. O personagem interpretado por Toby Jones surge como uma figura patética, que se procura impor junto daqueles que o rodeiam, embora apenas pareça ganhar o respeito da pulga que colecciona. O actor tem uma interpretação sólida, enquanto Bebe Cave, uma intérprete mais desconhecida, surpreende pela maneira orgânica como expõe quer o lado frágil, quer feroz desta jovem princesa. Violet é uma representante do cuidado colocado no guarda-roupa e nos penteados destas personagens, com Bebe Cave a utilizar o cabelo com cachos e vestidos que adensam inicialmente a sua fragilidade. O terceiro reino é Governado pelo Rei de Strongcliff, um indivíduo mulherengo, que não tem problemas em envolver-se num ménage à trois antes de uma cerimónia fúnebre ou cortejar uma estranha que apresenta uma bela voz. Este pensa que a voz pertence a uma jovem, um engano que promete mexer com a vida de duas mulheres, em particular, Dora (Hayley Carmichael) e Imma (Shirley Henderson), duas irmãs com uma idade algo avançada, de pele engelhada e cabelos brancos, ou seja, que não correspondem aos "ideais de beleza" pretendidos pelo Rei. Diga-se que esta é uma oportunidade para o filme efectuar um comentário sobre a obsessão pelas aparências, algo exibido de forma dramática, arrepiante e sangrenta (o filme não poupa nas doses de sangue) na figura de Imma. Dora e Imma tomam medidas desesperadas para apresentarem um aspecto mais jovem, algo que remete para uma temática completamente contemporânea, com "Il racconto dei racconti" a efectuar uma sátira às plásticas, tratamentos da pele, entre outras medidas que visam uma suposta conservação da juventude. Esta é uma das várias temáticas do filme que se encontra claramente com um pé na realidade e outro na fantasia, com Matteo Garrone a abordar questões como as divergências entre pais e filhos, ou entre diferentes gerações; a procura de manter as aparências; a obsessão maternal, entre outros assuntos que entroncam com problemáticas contemporâneas reais.

 A figura feminina que desperta a atenção do Rei é Dora, com esta a procurar traçar um plano para o primeiro não perceber a sua idade, embora acabe por ser defenestrada. Por sorte, ou azar, Dora permanece com vida, sendo temporariamente transformada numa jovem (Stacy Martin) que desperta a atenção do personagem interpretado por Vincent Cassel. O castelo do Rei de Strongcliff encontra-se decorado com alguns luxos, algo revelador do elevado estatuto social e financeiro do monarca, mas também do cuidado colocado por Alessia Anfuso na decoração dos cenários. Veja-se os lençóis vermelhos do quarto do personagem interpretado por Vincent Cassel, algo que remete para a personalidade intensa desta figura galanteadora que avalia as mulheres de acordo com o seu aspecto físico. Matteo Garrone reuniu uma equipa competente: o elenco é capaz de elevar a narrativa e entrar no "espírito" da mesma; a banda sonora de Alexandre Desplat é assertiva; o guarda-roupa a cargo de Massimo Cantini Parrini é um dos pontos altos do filme, com as vestimentas a apresentarem um estilo barroco. O cuidado é ainda visível nas escolhas dos cenários, com Matteo Garrone a filmar fora dos estúdios, uma situação salientada pelo cineasta no press kit: "These are buildings and panoramas which appear to be the fruit of the most fervent imagination, but which really exist, and bear within them the signs of the period and the weirdness of those who designed them, or else the unpredictable work of nature with its materials, rocks, water, plants. Besides some wonderful chateaus, I’m thinking of the Alcantara gorge, the Vie Cave, and the Bosco del Sasseto, which looks like a pre-Raphaelite set". Existe uma procura de manter um tom propositadamente fantasioso, mesclado com algum realismo, com Matteo Garrone a transportar-nos para um universo narrativo onde não faltam monstros marinhos, ogres, castelos, muito sangue, alguma violência e sentimentos expostos de forma bem viva. O argumento desta obra com um pendor gótico é eficaz, conseguindo aproveitar estas histórias distintas, pontuadas por uma miríade de personagens que protagonizam uma série de episódios que ficam na memória. Com um universo narrativo que deambula entre a fantasia e a realidade, bons valores de produção, um elenco talentoso e uma cinematografia merecedora dos mais variados elogios, "Il racconto dei racconti" surge como uma aposta ganha de Matteo Garrone, com o realizador a elaborar uma obra cinematográfica estimulante e visualmente poderosa.

Título original: "Il racconto dei racconti".
Título em Portugal: "O Conto dos Contos".
Realizador: Matteo Garrone.
Argumento: Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone, Massimo Gaudioso.
Elenco: Salma Hayek, Vincent Cassel, Toby Jones, John C. Reilly, Hayley Carmichael, Bebe Cave.

22 março 2016

Resenha Crítica: "Batman v Superman: Dawn of Justice"

 É praticamente impossível dissociar que "Batman v Superman: Dawn of Justice" surge como uma ponte para um universo cinematográfico expandido da DC Comics, um pouco à imagem daquilo que acontece com os diversos filmes da Marvel. A promessa passa por cada cineasta poder incutir o seu estilo nos filmes, algo que parece notório ao encontrarmos figuras tão distintas como David Ayer, James Wan, Zack Snyder e companhia no cargo de realizadores destas obras cinematográficas. Nesse sentido, aquilo que a Warner Bros. e a DC Comics prometem é uma maior liberdade criativa em relação à "mão controladora" de Kevin Feige na Marvel, embora os filmes de "The Flash", "Aquaman", "Cyborg", "Suicide Squad" e companhia façam parte de uma realidade mais lata. Tal como em "Man of Steel", também "Batman v Superman: Dawn of Justice" tem o cunho pessoal de Zack Snyder. Para o bem e para o mal, "Batman v Superman: Dawn of Justice" não engana que é um filme de Zack Snyder. Estilizado, recheado de cenas de acção (por vezes excessivas e cansativas), visualmente apelativo, pontuado por uma banda sonora pronta a incutir um tom operático ao enredo, "Batman v Superman: Dawn of Justice" tem os seus melhores momentos quando deixa os personagens a dialogar e dá tempo para a narrativa "respirar". Mérito para o argumento de Chris Terrio e David Goyer e para um elenco bastante coeso e competente, sobressaindo nomes como Ben Affleck (soberbo como Batman, provavelmente a maior surpresa ou confirmação), Jesse Eisenberg (é simplesmente delicioso observar o actor a lançar as falas de forma rápida e mordaz, incutindo um tom psicótico a dissimulado a Lex Luthor), Henry Cavill (mais à vontade como Superman, uma figura que procura proteger a Humanidade), Gal Gadot (a entrada da Wonder Woman em cena é uma lufada de ar fresco e deixa água na boca para o filme a solo), Scoot McNairy (como um indivíduo que é afectado pelos episódios que ocorreram no conflito entre o protagonista e Zod em "Man of Steel"), Jeremy Irons (o seu Alfred surge como uma figura paternal junto de Bruce Wayne, pronta a contrastar com a seriedade que este último apresenta em alguns momentos), entre outros. Nesse sentido, é frustrante notar que Zack Snyder prefere a espaços apostar em longas cenas de acção, muitas delas filmadas num estilo confuso e destrambelhado, que deixariam Michael Bay orgulhoso (embora as lutas "mano a mano" convençam, incluindo aquela que é prometida no título), ao invés de procurar explorar ainda mais as dinâmicas entre os personagens interpretados por este elenco de primeira.

 Zack Snyder consegue aproveitar os erros que cometeu em "Man of Steel" ao serviço da narrativa de "Batman v Superman: Dawn of Justice", embora não tenha problemas em repeti-los, com o combate que envolve a presença do Doomsday a estender-se de tal forma que o impacto do resultado final se perde, enquanto se regista mais uma comparação entre Clark Kent e Jesus Cristo. Clark surge mais uma vez como um elemento praticamente messiânico, embora cometa os seus erros, que aparece pronto a sacrificar-se pela Humanidade e a cumprir os desejos do seu pai adoptivo, encontrando-se quase sempre disponível para salvar Lois Lane. A relação entre Clark e Lois é relativamente aproveitada, sobretudo no último terço, com Amy Adams a ter espaço para sobressair, numa obra cinematográfica que é um hino à incoerência: não se esquece de desenvolver os personagens e as suas dinâmicas, mas também não poupa na pancadaria em doses esgotantes. O argumento de Chris Terrio (uma adição recomendável) e David Goyer aproveita ainda para incutir diversos elementos da realidade política e social recente, que trazem à memória episódios como o 11 de Setembro de 2001, ou outros atentados que se encontram a ocorrer pelo Mundo fora, algo latente numa explosão que acontece no Senado, com o objectivo de incriminar o Superman e levantar ainda mais dúvidas em relação a este super-herói. Os momentos que remetem para o 11 de Setembro ocorrem na perspectiva que Bruce Wayne tem dos trechos do último terço de "Man of Steel", com o personagem interpretado por Ben Affleck a procurar salvar os inocentes que se encontram em perigo devido à devastação provocada pelo embate entre os Kryptonianos. Este Batman que nos é apresentado surge como um super-herói, ou anti-herói cansado e pragmático, que já não parece acreditar na bondade da Humanidade, que fica aterrado com os episódios que visiona em Metropolis, em particular quando se depara com figuras com poderes até então inimagináveis e capazes de proporcionarem uma destruição a larga escala. Veja-se os diversos pesadelos que Bruce Wayne tem em relação a Superman, ficando particularmente na memória uma cena que ocorre num território pós-apocalíptico, onde o segundo tem uma espécie de exército que lhe presta culto, com Zack Snyder e a sua equipa a terem aqui um momento inspiradíssimo. "Batman v Superman: Dawn of Justice" volta a apresentar a morte dos progenitores de Bruce Wayne, um episódio que inicialmente parece desnecessário embora permita mais tarde efectuar uma ligação entre Martha Wayne e Martha Kent (Diane Lane), com todos os personagens, incluindo Batman, a parecerem muito ligados às memórias que guardam dos pais. Essa é uma situação que ocorre com Bruce Wayne (Ben Affleck), Clark Kent (Henry Cavill) e Lex Luthor (Jesse Eisenberg), com o trio a ser órfão de pai, uma temática explorada ao longo da narrativa, ainda que de forma distinta para cada personagem. Regressemos a Bruce Wayne. Ben Affleck consegue exibir o sentimento de impotência e raiva de Bruce Wayne quando se depara com algo que parece impossível de controlar, com o actor a transmitir o carisma e experiência deste personagem icónico. A fúria de Batman é alimentada pelo medo e desconhecimento que tem em relação a Superman, com "Batman v Superman: Dawn of Justice" a abordar, ainda que em subtexto, que alguns dos conflitos ocorrem exactamente devido a estes sentimentos.

 Se me pedissem para salientar aquilo que mais gostei em relação a "Batman v Superman: Dawn of Justice" não teria problemas em realçar: Ben Affleck como Batman. Este é um Batman soturno, adulto, cansado, que perdeu um amigo no embate entre estes seres oriundos de Krypton, que ocorrera no último terço de "Man of Steel". Diga-se que existem mais personagens que foram afectados por este episódio. Um desses elementos é Wallace Keefe (Scoot McNairy), um indivíduo que fica paraplégico num acidente provocado pela destruição que ocorreu em "Man of Steel". Quem também se encontra interessado em toda esta questão dos Kryptonianos é Lex Luthor, com o bilionário a procurar ter acesso ao corpo e nave de Zod (Michael Shannon), enquanto tenta fabricar uma arma que trave o Superman, bem como iniciar um conflito entre este último e Batman. Clark Kent prossegue a sua vida como jornalista no Daily Planet, encontrando-se a lidar com as consequências dos episódios que ocorreram em "Man of Steel". Uns encaram-no como uma bênção, outros como uma ameaça, com elementos como a Senadora Finch (Holly Hunter) a procurarem regular os actos do super-herói. Por sua vez, a relação entre Clark e Lois encontra-se mais sólida, com Amy Adams a ter um pouco mais de espaço para sobressair como a intrépida jornalista que surge como um baluarte importante da vida do primeiro. Se Bruce Wayne parece cada vez mais obcecado em relação a Superman, também Clark Kent começa a desenvolver algum interesse em relação a Batman, com as atitudes violentas deste último, em Gotham City, a não agradarem ao personagem interpretado por Henry Cavill. Enquanto isso, Lex não tem problemas em elaborar diversas armadilhas contra Superman, seja a colocar Bruce Wayne contra o Kryptoniano, ou a procurar criar incidentes que pareçam culpa deste último. Veja-se ainda na primeira metade do filme, quando Lois interroga um líder terrorista, acabando por ocorrer um tiroteio, com a jornalista a ser salva por Superman, ainda que as mortes tenham sido perpetradas por homens ao serviço de Lex Luthor, com armas fabricadas pela LexCorp, embora as culpas recaiam no super-herói. Jesse Eisenberg incute um tom dissimulado a Lex, um bilionário com um sentido de humor negro notório e uma malícia escondida num sorriso aparentemente afável. A reunião entre Lex, Clark, Bruce e Diana (Gal Gadot) ocorre num evento organizado pelo primeiro, com Zack Snyder a conseguir unir relativamente bem as peças e a explorar o trio masculino, até expor o espectador às consequências dos conflitos que se avizinham, com a Wonder Woman a também ter uma palavra a dizer. Luthor descobre Kryptonita, enquanto Bruce consegue roubar informações sobre este material rochoso que permite bloquear os poderes do Superman, com este último a preparar-se para ser colocado diante de um vigilante nocturno que pretende fazê-lo "sangrar". Se Superman surge como uma figura que procura ajudar os seres humanos, embora nem sempre seja compreendido e o embate com Zod tenha contribuído para consequências desastrosas, já Batman aparece como um elemento cansado, que ganhou um ódio crescente em relação ao primeiro.

 O embate entre Superman e Batman é um dos pontos altos do filme, com Zack Snyder a ter aqui um dos combates coreografados com mais inspiração. O problema é a entrada em cena de Doomsday, um personagem em CGI, completamente artificial, que permite o envolvimento da Wonder Woman, mas exibe mais uma vez a incapacidade de Snyder em controlar o ritmo e duração das cenas de pancadaria. A confusão é imensa, por vezes a fazer recordar o estilo incoerente de Michael Bay, com os efeitos em CGI a estarem longe de parecerem incutidos de forma assertiva. É certo que é entusiasmante ver a Wonder Woman a juntar-se ao grupo e andar à pancada, com Gal Gadot a apresentar uma dinâmica convincente com Ben Affleck e Henry Cavill, embora Snyder nem sempre consiga parar no momento certo. Diga-se que Zack Snyder não tem problemas em abraçar os excessos, algo que a espaços contribui para o filme derrapar em terrenos movediços. A música toca incessantemente (a espaços quase que apetece clamar por um pouco de silêncio). As explosões e cenas de acção são mais do que muitas (por vezes, menos é mais, algo que Snyder não parece compreender). No entanto, "Batman v Superman: Dawn of Justice" também conta com diversos elementos que funcionam, incluindo a forma orgânica como Zack Snyder explora a rivalidade entre Batman e Superman, bem como a posterior aliança entre estes dois, ou a abordagem assertiva das consequências inerentes aos episódios que ocorreram em "Man of Steel". A destruição não é esquecida, algo que torna ainda mais inaudito verificar que Zack Snyder não tem problemas em praticamente repetir a mesma façanha, ainda que numa zona supostamente abandonada de Gotham. Snyder consegue ainda incutir de forma orgânica os cameos de Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Ray Fisher), com o cineasta a deixar um aperitivo para o filme da "Liga da Justiça" e para as obras cinematográficas a solo dos personagens mencionados. A própria aproximação entre Gotham City e Metropolis permite agilizar a narrativa e apresentar duas cidades distintas, com a primeira a surgir como um espaço dominado pelo crime, enquanto a segunda encontra-se a lidar com a presença do Superman. O Daily Planet surge como um dos espaços icónicos de Metropolis, com Clark e Lois a trabalharem sob as ordens de Perry White (Laurence Fishburne), com este último a apresentar uma visão pragmática do jornalismo. Diga-se que o quotidiano de Clark no Daily Planet nem sempre é explorado, com Zack Snyder a abordar esta faceta da vida do protagonista praticamente ao de leve. Para o bem e para o mal, estamos numa época onde proliferam os filmes e as séries de super-heróis. Uns merecem todos os elogios como "Deadpool", outros falham por completo como é possível verificar em "X-Men Origins: Wolverine", ou até nos dois filmes de "Thor". A decisão da Warner Bros. reunir Batman e Superman, no grande ecrã, soa inicialmente a uma fuga para a frente. No entanto, o resultado final de "Batman v Superman: Dawn of Justice" comprova que a decisão da Warner Bros. foi acertada, com Zack Snyder a conseguir reunir de forma orgânica a história de dois personagens distintos, que habitam em espaços urbanos de características dicotómicas.

 O realizador consegue desenvolver as motivações de Batman, Superman e Luthor, embora este último seja sempre uma caixinha de surpresas, enquanto os personagens interpretados por Ben Affleck e Henry Cavill parecem "condenados" a formar uma parceria. Os cenários por onde estes personagens circulam são relativamente bem aproveitados. Veja-se o esconderijo de Batman, onde este opera ao lado de Alfred, ou a Lexcorp, a empresa de Lex Luthor, dois espaços recheados de tecnologia moderna. Lex encontra-se imensamente interessado em travar Superman, uma figura que encara praticamente como uma divindade, desenvolvendo uma obsessão em relação ao super-herói. Jesse Eisenberg consegue transmitir os desequilíbrios emocionais deste personagem que congemina um plano complexo, prometendo causar uma enorme onda de destruição. Primeiro ao querer colocar Batman e Superman em confronto. Batman procura treinar o seu físico (Ben Affleck surge imponente como Bruce Wayne/Batman), fabricar uma armadura especial e armas com Kryptonita, enquanto Zack Snyder parece divertir-se com as maquinetas que o vigilante tem à sua disposição. Já Superman é uma figura aparentemente invencível que, ao ser colocado diante de Kryptonita, acaba por contactar de perto com os receios e medos sentidos pelos mortais. Lex chama ainda para a contenda a figura de Doomsday, algo que promete muita pancadaria e destruição. A espaços ainda existe algum humor, sobretudo na forma como Diana (ou Wonder Woman) é incluída na narrativa, com esta e Bruce Wayne a protagonizarem um peculiar jogo de sedução, tendo em vista a procurarem levar a melhor em relação ao roubo da informação que Lex Luthor conta ao seu dispor. Com um elenco coeso, um argumento que exibe um peso notório quando Zack Snyder dá tempo para a narrativa "respirar", "Batman v Superman: Dawn of Justice" a espaços perde-se diante dos devaneios do cineasta, com este a parecer delirar com as cenas de acção de longa duração, algo que nem sempre resulta, embora o resultado final seja bem superior a "Man of Steel".

Título original: "Batman v Superman: Dawn of Justice".
Título em Portugal: "Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça".
Título no Brasil: "Batman vs Superman: A Origem da Justiça".
Realizador: Zack Snyder.
Argumento: Chris Terrio e David S. Goyer.
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Jeremy Irons, Gal Gadot, Diane Lane, Laurence Fishburne.

21 março 2016

Resenha Crítica: "L'assassino" (1961)

 "L'assassino" ziguezagueia entra o presente e o passado, enquanto coloca o espectador perante um interessante estudo de personagem e uma investigação intrincada, naquela que é a primeira longa-metragem realizada por Elio Petri, com o cineasta a incutir um tom negro a esta obra cinematográfica que conta com mais uma interpretação de grande nível de Marcello Mastroianni. O elemento central da narrativa é Alfredo Martelli (Marcello Mastroianni), um vendedor de antiguidades mulherengo e egocêntrico, que se encontra a ser investigado devido ao assassinato de Adalgisa De Matteis (Micheline Presle), uma mulher com quem manteve um caso amoroso e partilhou um negócio. Alfredo habita num apartamento situado no interior da cidade de Roma, com este espaço citadino a ser bem visível através da janela da habitação, sobretudo quando o protagonista se encontra a dialogar com os elementos da polícia que se deslocaram à sua casa. Diga-se que alguns espaços desta cidade são relativamente bem aproveitados ao longo do filme (incluindo o Museo Delle Navi Romane), algo incrementado pelo recomendável trabalho de Carlo di Palma na cinematografia. Os cenários interiores também contam com alguma relevância, algo notório nas celas onde o protagonista é obrigado a passar a noite, dois espaços frios, dotados de paredes cinzentas marcadas pela passagem do tempo, com estes cenários a contrastarem com a habitação de Alfredo. No início de "L'assassino", encontramos Alfredo a relaxar, tratar do cabelo de maneira bastante peculiar e falar ao telefone com Nicoletta Nogaro (Cristina Gaioni), a sua noiva. Tudo muda quando Alfredo é confrontado com a chegada das autoridades, que procuram transportá-lo até à esquadra local. Alfredo não sabe inicialmente o motivo da detenção, um desconhecimento que é partilhado pelo espectador, uma situação que atribui algum mistério a estes momentos iniciais de "L'assassino". Veja-se o nervosismo de Alfredo na sala de espera da esquadra, com Elio Petri a deixar o espectador na dúvida se o protagonista não sabe mesmo nada sobre os motivos pelos quais foi detido, ou se apenas está nervoso devido a toda esta situação pouco agradável. Petri aproveita ainda para expor e criticar os abusos praticados por alguns elementos das autoridades, com Alfredo a ser transportado para a esquadra, tendo em vista a ser interrogado, sem a exibição de um mandato, para além de ser tratado de forma pouco recomendável. É então que entra em cena o Comissário Palumbo (Salvo Randone), um indivíduo bem falante que procura saber uma quantidade assinalável de informações sobre o protagonista, até revelar que Alfredo é o principal suspeito do assassinato de Adalgisa De Matteis. Palumbo parece acreditar que o protagonista é culpado, enquanto este último avalia diversos episódios da sua vida e Elio Petri aproveita para nos apresentar a uma investigação kafkiana e efectuar um comentário sobre a sociedade do seu tempo. A partir daqui nasce a dúvida se Alfredo é ou não o assassino, com o protagonista a jurar a sua inocência, embora Elio Petri faça questão de explorar o lado negro deste vendedor de antiguidades, com o discurso do mesmo a nem sempre condizer com os seus actos, bem pelo contrário.

 Elio Petri utiliza os flashbacks com uma eficácia notável, tendo em vista a explanar a personalidade de Alfredo, uma figura complexa que se encontra longe de ser recomendável. Os flashbacks permitem expor a faceta implacável do protagonista quer nos negócios, quer na vida pessoal, com Alfredo a não olhar a meios para atingir os seus objectivos. Veja-se logo no primeiro flashback, quando Alfredo salienta que é um homem sério e Elio Petri faz questão de desmentir o seu protagonista, com o cineasta a incutir alguns trechos de humor negro a esta obra cinematográfica, enquanto nos oferece diferentes perspectivas sobre este vendedor de antiguidades. Alfredo não tem problemas em trair um amigo e envolver-se com a esposa deste, tal como exibe uma enorme desfaçatez ao iniciar uma relação mais por interesse monetário do que por amor ou desejo. É certo que no último terço parece existir uma pequena réstia de esperança em relação a uma possível mudança de Alfredo, embora Elio Petri não tarde a escorraçar essa ideia, com o protagonista a expor o seu lado deliciosamente negro. Marcello Mastroianni consegue explorar quer o lado negro e confiante deste indivíduo, quer a sua faceta mais inquieta e insegura, elevando uma figura que tinha tudo para repelir o espectador, embora desperte todo o interesse e atenção. Mérito para Marcello Mastroianni, mas também para Elio Petri e os argumentistas, com os esforços combinados destes elementos a permitirem compor um protagonista intrigante que é eficazmente "dissecado" ao longo do enredo. O interrogatório efectuado por Palumbo permite exacerbar essas dúvidas em relação a Alfredo. Salvo Randone conta com uma interpretação segura, com o actor a transmitir a personalidade questionadora do comissário, uma figura que procura estudar o protagonista e perceber se este é mesmo culpado. Veja-se os momentos que Marcello Mastroianni e Salvo Randone partilham na sala onde o personagem interpretado pelo primeiro é interrogado, com o comissário a assumir uma série de posturas distintas para tentar quebrar as defesas do protagonista, esperando que este revele alguma informação relevante para o caso, ou melhor, que assuma a autoria do assassinato. Palumbo aquece as mãos no aquecedor, senta-se, levanta-se, fica em silêncio, fala incessantemente, enquanto Salvo Randone sobressai pela naturalidade que incute aos gestos do personagem que interpreta. Alfredo é colocado à prova, com as autoridades a procurarem que este ceda e expresse a verdade ou, pelo menos, aquilo que pretendem, enquanto ficamos diante desta investigação complexa. A busca pelo autor do assassinato e a procura do protagonista em provar a sua inocência ocupa uma parte relevante da narrativa, bem como a tentativa de destrinçar a personalidade de Alfredo e os episódios relevantes da sua vida. Aos poucos, as memórias do passado parecem tomar conta da mente do protagonista, enquanto a sua faceta aparentemente respeitável é colocada em causa, com Elio Petri a parecer aproveitar para efectuar uma crítica aos valores superficiais de uma sociedade muitas das vezes marcada por aparências. Alfredo veste-se bem, é um galanteador e negociador nato, embora os seus valores estejam muitas das vezes distantes de serem os mais recomendáveis, com o argumento a explorar uma miríade de episódios que envolvem este indivíduo.

 As figuras femininas conhecem quase todas a faceta menos positiva do protagonista. Adalgisa envolve-se com o protagonista e investe num negócio com o mesmo, até ser parcialmente descartada por este quando Nicoletta entra em cena. Esta é uma jovem bela e financeiramente abastada, que é facilmente seduzida por Alfredo, um indivíduo mulherengo e pragmático em diversas situações que toma. A outra figura feminina a ser alvo do cinismo do protagonista é a mãe do próprio, uma mulher idosa que se procura reunir com o filho, embora este não demonstre grande interesse na situação. Os flashbacks permitem ainda que o espectador fique a conhecer um pouco da falecida, bem como de Nicoletta. Micheline Presle transmite a experiência e a personalidade muito própria da personagem que interpreta, uma figura feminina que se envolve com o protagonista, um homem mais novo que parece utilizar as mulheres como uma forma de ascender socialmente. Esta decidiu restaurar um espaço hoteleiro chamado de Sangri-la, apresentando alguma independência, embora não esteja livre de "amolecer" diante do protagonista. Diga-se que Adalgisa e Alfredo encontraram-se no dia anterior ao assassinato desta mulher, algo que levanta ainda mais suspeitas sobre este indivíduo que se encontra envolvido com Nicoletta embora não se furte a umas escapadinhas com a primeira, uma mulher casada com um antigo amigo do personagem interpretado por Marcello Mastroianni. Já Nicoletta é uma mulher mais jovem e ingénua, com Cristina Gaione a exibir isso mesmo, sobretudo no primeiro encontro entre a primeira e Alfredo. Outra figura feminina que se depara com o lado imoral do protagonista é Rosetta (Giovanna Gagliardo), uma empregada do hotel que é contactada por Alfredo para tratar do problema do dedo junto de um amigo deste, embora o médico e o vendedor de antiguidades apenas queiram ver a rapariga sem roupa. O médico e Alfredo são dois exemplos paradigmáticos das figuras imorais que envolvem o enredo de "L'assassino", com Elio Petri a atirar o espectador para o interior de um universo narrativo de características negras, pontuado por personagens muitas das vezes desprovidos de valores ou prontos a enganar aqueles que os rodeiam. Alfredo é o paradigma dessa imoralidade, surgindo como um indivíduo egocêntrico e impertinente, que pensa acima de tudo em si próprio, embora tenha consciência que errou bastante ao longo da sua existência, algo latente quando começa a questionar e a relembrar alguns dos seus actos.

 A investigação avança ainda para espaços como o Sangri-La, um hotel situado perto do mar, onde são interrogados elementos como o antigo dono do local e um empregado, com Alfredo a parecer o único que não tem um álibi forte que o defenda, embora também não existam provas cabais para incriminá-lo. O Sangri-La surge como outro dos locais fulcrais desta narrativa ziguezagueante, com as memórias do passado a serem colocadas em paralelo com episódios do presente, com as primeiras a espaços a contaminarem estes últimos. Elio Petri exibe que, acima de tudo, Alfredo está agrilhoado aos valores consumistas e egocêntricos associados ao seu novo estatuto social, existindo uma crítica a toda esta superficialidade que rodeia o estilo de vida do protagonista, um representante das mudanças que ocorreram em Itália durante o início da década de 60. Alfredo é um indivíduo que ascendeu socialmente graças aos seus negócios e envolvimentos amorosos, embora esteja longe de se encontrar numa situação financeira completamente desafogada. O artigo interessantíssimo de Larry Portis expõe o caso do protagonista no prisma certo: "It is also about the mental formation of a working-class person on the make, someone who attempts to present himself as someone else, someone belonging to another social class". Diga-se que alguns representantes das autoridades também estão longe de serem apresentados como as figuras mais simpáticas ou cumpridoras da lei, tal como a imprensa, algo que permite a Elio Petri efectuar diversos comentários sobre a sociedade do seu tempo (uma situação comum a diversos trabalhos do cineasta), incluindo sobre o poder do rumor. A representação de autoridades que não cumprem as leis e a espaços assumem uma postura autoritária quase que remete para um dos filmes mais conhecidos de Petri, em particular "Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto", no qual o personagem interpretado por Gian Maria Volontè, um inspector, assassina Augusta Terzi (Florinda Balkan), uma mulher com quem mantinha um caso. Com uma utilização eficaz e pertinente dos flashbacks, uma narrativa pontuada por figuras imorais e um protagonista que permite a Marcello Mastroianni exprimir o seu talento para a interpretação, um trabalho de montagem assertivo e uma cinematografia cuidada, "L'assassino" marca uma estreia bastante interessante de Elio Petri na realização de longas-metragens.

Título original: "L'assassino".
Título em Portugal: "O assassino".
Realizador: Elio Petri.
Argumento: Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa, Tonino Guerra, Elio Petri.
Elenco: Marcello Mastroianni, Salvo Randone, Cristina Gaioni, Micheline Presle.

18 março 2016

Resenha Crítica: "L'Ombre des femmes" (À Sombra das Mulheres)

 "L'Ombre des femmes" poderia contar com o subtítulo: o amor e os relacionamentos amorosos de acordo com Philippe Garrel. Este é um cineasta com uma visão muito própria do amor e dos sentimentos nem sempre fáceis de explicar ou compreender, algo latente em diversos trabalhos que marcaram a sua vasta carreira, tais como "Sauvage Innocence", "Les Amants Réguliers", "La Jalousie", entre outros. "L'Ombre des femmes" coloca-nos diante de relacionamentos conturbados, traições, figuras ligadas às artes, longos silêncios, ou seja, temáticas e elementos que atravessam diversos trabalhos de Philippe Garrel, tais como os citados, com o cineasta a apresentar-nos a Pierre (Stanislas Merhar) e Manon (Clotilde Courau), um casal cujo matrimónio já conheceu melhores dias. Pierre é um realizador falhado, que dirige documentários pouco conhecidos, encontrando-se a trabalhar num filme do género sobre um suposto elemento da Resistência Francesa (Jean Pommier). Manon trabalha no argumento e montagem dos filmes de Pierre, embora as parcas condições financeira do casal tenham conduzido a primeira a laborar como auxiliar de acção educativa, ainda que em part-time. Esta procura apoiar o esposo, com quem vive num apartamento barato, pontuado por paredes cobertas com papel florido e marcas de humidade, muitos livros e alguma desorganização, com este espaço habitacional a permitir explanar quer as dificuldades financeiras de Manon e Pierre, quer a confusão que percorre a mente dos protagonistas. A mãe de Manon (Antoinette Moya) encontra-se preocupada em relação ao futuro profissional da filha, embora a personagem interpretada por Clotilde Courau pareça manter-se fiel ao esposo e disponível para ajudá-lo a ser bem sucedido. Manon acredita no potencial de Pierre, embora o suposto talento deste para a realização, que nunca é exibido ao longo do filme, tarde em aparecer. É então que Pierre conhece Elisabeth (Lena Paugam), uma estagiária de um arquivo, licenciada em História, com quem o protagonista se envolve e inicia um affair. Lena Paugam consegue explanar a solidão de Elisabeth, uma figura pontuada por alguma estranheza, que tem conhecimento do facto de Pierre ser casado, embora não tenha problemas em ficar chocada quando descobre que Manon trai o protagonista. Elisabeth ama e deseja Pierre, embora o personagem interpretado por Stanislas Merhar apenas pareça nutrir este último sentimento em relação à amante. Pierre é um realizador errático, com uma olhar muitas das vezes vazio e comportamentos letárgicos, algo incutido com enorme sobriedade por Stanislas Merhar, com o actor a conseguir transformar este indivíduo numa figura que a espaços se torna num enigma, sobretudo em relação à forma como consegue atrair as mulheres com tanta facilidade quando é um tipo completamente machista, falhado do ponto de vista profissional, que é capaz de cometer actos de enorme crueldade para com Manon e Elisabeth. Estamos diante de uma figura que a espaços nos intriga, ou Pierre não surgisse como um indivíduo que parece incapaz de aceitar traições, embora não tenha problemas em cometê-las, que ama e deseja as mulheres mas é capaz dos actos menos delicados para com as mesmas.

Manon varia entre a posição submissa e independente, parecendo muitas das vezes à sombra de Pierre, embora Philippe Garrel comprove que a situação não é tão linear como parece, algo paradigmaticamente demonstrado no último terço do filme. Se o affair entre Pierre e Elisabeth é relativamente desenvolvido ao longo de "L'Ombre des femmes", com Lena Paugam a ter algum tempo para sobressair como esta figura atormentada e solitária, que procura o amor do primeiro embora apenas consiga conquistar o desejo, já o relacionamento adúltero entre Manon e o amante (Mounir Largoum) praticamente não é aproveitado, com este último a parecer quase um objecto decorativo que permite explanar a crise do casal de protagonistas. Pierre procura manter o casamento com Manon e o caso com Elisabeth, tentando esconder o affair, embora a esposa seja mais inteligente e denote uma sensibilidade que este nunca é capaz de apresentar. Pierre e Manon lidam de forma distinta com os affairs. Pierre pretende continuar envolvido com as duas figuras femininas, considerando que a traição é um acto relativamente normal devido a ser homem, ou pelo menos esta é a justificação que encontra para cometer um acto que demonstra pouco respeito para com a esposa. A palavra talvez, tão querida a Pierre, ajuda a definir este personagem indeciso, que tanto ama as mulheres como é capaz dos actos mais cruéis. A certa altura, Pierre descobre que é traído. Manon desiste do affair com o personagem interpretado por Mounir Largoum, apesar de começar a perceber que o casamento está numa fase demasiado venenosa. A personagem interpretada por Clotilde Courau também descobre que é traída, algo que obriga os protagonistas a tomarem opções que prometem marcar o futuro do seu matrimónio. Não vamos aqui revelar aquilo que acontece a este emaranhado de relações, que parece enclausurado por uma cúpula de sentimentos contraditórios que prometem envenenar muitos destes relacionamentos. Diga-se que estas relações têm muito de Philippe Garrel. Veja-se o caso de "Sauvage Innocence", uma obra cinematográfica onde tínhamos um realizador de pouco sucesso como protagonista, com este indivíduo a manter uma estranha relação com a estrela do seu novo filme, uma mulher que traíra o anterior namorado, ou os relacionamentos falhados e peculiares dos personagens principais de "La Jalousie" e "Les Amants Réguliers". Tal como nos três exemplos citados, também "L'Ombre des Femmes" é filmado a preto e branco, num estilo a espaços a remeter para a Nouvelle Vague, em particular para cineastas como Jean-Luc Godard (as relações intrincadas entre homens e mulheres, como por exemplo em "Masculin Féminin", aparentemente citado num cabeleireiro onde encontramos o letreiro inverso "Feminin Masculin") e François Truffaut (os relacionamento adúlteros de "La peau douce" e "Jules et Jim"), entre outros. Não faltam as relações conturbadas entre homens e mulheres, as traições, as filmagens fora dos locais dos estúdios, o aproveitamento dos espaços externos (no caso de "L'Ombre des Femmes, a cidade de Paris, com as suas ruas e cafés a serem bem aproveitados), entre outros elementos que remetem quer para a Nouvelle Vague, quer para outros trabalhos de Philippe Garrel. O cineasta coloca-nos diante de um casal que mantém uma relação que atravessa uma fase complexa, com a figura masculina a pensar que se encontra a controlar tudo, embora seja Manon quem apresenta a sensibilidade para compreender aquilo que se passa. Se Pierre precisa que Elisabeth descubra que este se encontra a ser traído, já Manon necessita apenas de observar os gestos e comportamentos do esposo, com Clotilde Courau a ter a interpretação que mais sobressai.

Clotilde Courau interpreta uma figura feminina que pretende ser desejada e amada, bem como manter o casamento, embora não esteja disposta a tudo para alcançar os seus desideratos, surgindo como uma mulher recheada de virtudes e defeitos, ou seja, completamente humana e dotada de alguma complexidade. Philippe Garrel está longe de nos apresentar a personagens completamente livres de defeitos, algo que a espaços faz com que estas figuras intriguem minimamente o espectador, mesmo quando não compreendemos totalmente os gestos e atitudes dos protagonistas. Pelo meio, Philippe Garrel aproveita ainda para abordar o papel da memória e da História, das fontes e da relevância de aferir a veracidade das mesmas, algo latente nos discursos aparentemente convincentes do elemento da Resistência, que reforçam a necessidade de encararmos os depoimentos de alguns documentários com muita parcimónia. É um método eficaz, prático, sucinto e irónico de Garrel desmontar alguns discursos de falsos patriotas (o desinteresse que a esposa do elemento da Resistência apresenta em relação às falas do marido é algo que ganha toda uma ironia no final do filme), enquanto expõe a incompetência do protagonista, ou a falta de sensibilidade de Pierre, com este a depender e muito de Manon quer a nível profissional, quer a nível pessoal. Muitos dos diálogos decorrem nos quartos destes personagens, seja na casa de Pierre e Manon, ou na divisória da habitação de Elisabeth, com esta última a parecer ter alguma dificuldade em lidar com a solidão. A casa de Elisabeth conta com uma decoração simples, um adjectivo que pode aparentemente ser aplicado a "L'Ombre des Femmes", embora essa simplicidade seja apenas ilusória, com Philippe Garrel a jogar com situações aparentemente banais para nos colocar diante de uma obra cinematográfica capaz de nos deixar a reflectir sobre os personagens e os seus actos, bem como sobre as temáticas abordadas. Os momentos de silêncio são mais do que muitos e dotados de significado, enquanto que as falas aparecem marcadas por um tom muito próprio, seja sobre o estado de um matrimónio ou questões tão banais como a dúvida se é mais nojento urinar na banheira ou tomar banho na sanita. Com uma carreira e uma história de vida fascinante, um conjunto de obras cinematográficas que dividem opiniões e contribuem para debates saudáveis sobre a Sétima Arte, Philippe Garrel exibe em "L'Ombre des Femmes", tal como demonstrara recentemente em "La Jalousie", que é um cineasta que merece toda a nossa atenção. Diga-se que "L'Ombre des Femmes" desperta um estranho fascínio. Nem sempre compreendemos totalmente as atitudes e comportamentos dos personagens, os planos apresentam uma beleza que não é de descartar, a banda sonora aparece em momentos-chave e certeiros, o narrador (Louis Garrel) inclui algumas falas relevantes, enquanto somos praticamente hipnotizados para o interior desta obra cinematográfica que tem o condão de permanecer na nossa memória.

Título original: "L'Ombre des femmes".
Título em Portugal: "À Sombra das Mulheres".
Realizador: Philippe Garrel.
Argumento: Philippe Garrel, Jean-Claude Carrière, Caroline Deruas-Garrel, Arlette Langmann.
Elenco: Clotilde Courau, Stanislas Merhar, Lena Paugam, Mounir Margoum.

17 março 2016

Resenha Crítica: "La grande guerra" (1959)

 Mario Monicelli é exímio a encontrar o humor na tragédia. "La grande guerra" exibe essa perícia, bem como o talento de Vittorio Gassman e Alberto Sordi para o humor, com a dupla a apresentar uma dinâmica assinalável e uma capacidade indelével para incutir uma enorme naturalidade na transição entre os momentos mais cómicos e as situações mais sérias. O caso não é para menos, ou Gassman e Sordi não interpretassem dois soldados italianos que se deparam com as dificuldades inerentes aos conflitos bélicos, com a dupla de protagonistas a participar na I Guerra Mundial. Vittorio Gassman interpreta Giovanni Busacca, um indivíduo preguiçoso, armado em esperto, que gosta de questionar os seus interlocutores se já leram Bakunin, tentando evitar cumprir o serviço militar, embora acabe por ser enganado por Oreste Jacovacci (Alberto Sordi). Os dois entram neste conflito sem grande vontade de participarem no mesmo, ou correrem riscos, embora acabem por se deparar com episódios de enorme perigo, incluindo na primeira batalha do Piave. Oreste e Giovanni reencontram-se no comboio que se prepara para transportar alguns soldados até à fronteira, algo que proporciona o primeiro conflito entre estes dois indivíduos que se procuram safar dos perigos, embora acabem por perceber a importância da batalha que se encontram a disputar, o valor da amizade e os sacrifícios protagonizados pelos seus colegas. "La grande guerra" usa assertivamente os planos gerais ou de conjunto para exibir o estranho grupo formado por este contingente humano que padece de enormes privações, enquanto somos apresentados ao quotidiano destes indivíduos quer nos treinos, quer no alojamento onde ficam instalados até partirem para as trincheiras, quer no palco de guerra. É um retrato cru e doloroso, embora pontuado por diversos salpicos de humor, a fazer recordar outras obras de Mario Monicelli como "I compagni", com as influências neorrealistas a parecerem notórias. Monicelli não parece interessado em apresentar heróis livres de defeitos, ou efectuar discursos patrióticos grandiloquentes, preferindo abordar uma história centrada num grupo de militares depauperados, que procura sobreviver e cumprir as ordens, apesar de alguns elementos se insubordinarem e protagonizarem situações de humor. Veja-se no início do filme, quando Giovanni enche a mochila com palha, tendo em vista a não se cansar nos treinos, ou o momento do reencontro entre os personagens interpretados por Gassman e Sordi. Giovanni é um soldado com uma compleição física imponente, uma infantilidade e ingenuidade notórias, bem como um descaramento e uma mordacidade que facilmente conquistam o espectador, algo que se deve não só ao magnífico argumento de Age & Scarpelli (colaboradores habituais do realizador), Luciano Vincenzoni e Mario Monicelli, mas também à interpretação de Vittorio Gassman. Este volta a trabalhar com Mario Monicelli, com quem teve oportunidade para explanar os seus dotes para a comédia em "I soliti ignoti", algo que repete em "La grande guerra", tendo em Alberto Sordi um companheiro de peso.

Sordi e Gassman apresentam uma dinâmica convincente quando estão em conjunto, com Mario Monicelli a dar espaço para os actores comporem personagens que facilmente despertam a simpatia dos espectadores. Monicelli volta a abordar temáticas como a amizade entre um grupo de homens, dá o protagonismo aos elementos à parte da sociedade ou depauperados, expõe um conjunto de figuras que procuram cumprir uma missão ambiciosa que nem sempre parecem capazes de colocar em prática, quase sempre num tom de tragicomédia, exibindo ainda uma habilidade indelével para desferir murros no estômago do espectador ao "livrar-se" novamente de personagens relevantes. Parece praticamente impossível que Oreste e Giovanni consigam escapar das agruras da I Guerra Mundial, algo latente quando são enviados para as trincheiras, após o grupo receber a companhia dos elementos que regressaram da linha de frente. Um desses elementos que integra o grupo de militares que vai partilhar missões com a dupla de protagonistas é Giuseppe Bordin (Folco Lulli), um indivíduo anafado, corpulento, imprevisível, que procura ganhar sempre uns tostões a mais para sustentar a sua esposa e os seus filhos, algo que o conduz a protagonizar alguns episódios mais perigosos. Folco Lulli é um dos vários elementos secundários que se destacam, bem como Tiberio Murgia como Rosario Nicotra, um soldado oriundo de Catânia, que tem uma enorme devoção pela artista Francesca Bertini. Temos ainda figuras como o tenente Gallina (Romolo Valli), um indivíduo que é desde logo alvo de ironia devido ao seu nome, embora esteja habituado às piadolas, surgindo como um elemento dotado de enorme humanidade, algo notório quando ajuda Giacomazzi, um soldado analfabeto, a corresponder-se com a amada. A correspondência de Giacomazzi e a notícia pouco agradável que lhe é ocultada permite explorar as relações que se desfazem ou são mantidas à distância durante este conflito, com os soldados a encontrarem-se privados da presença de figuras femininas. Veja-se o breve momento de destaque dado à esposa de Bordin, um trecho que tanto tem de terno como de comovente e arrasador, com Monicelli a conseguir que nos preocupemos com esta plêiade de personagens. Existe uma dimensão humana indelével nestes personagens, com Mario Monicelli a não ter problemas em mesclar actos estapafúrdios com momentos de algum heroísmo, tendo como pano de fundo alguns dos palcos italianos da I Guerra Mundial, sempre sem enaltecer o conflito. Estes soldados estão longe de serem perfeitos, tal como os seus superiores, com "La grande guerra" a expor-nos a um grupo que nem sempre parece compreender todos os sacrifícios cometidos, contando com condições maioritariamente miseráveis. A comida escasseia, bem como as roupas, as condições de higiene e segurança, com "La grande guerra" a exibir um contingente que se prepara para conhecer baixas de relevo, tomar decisões complicadas e a espaços encontrar algum divertimento no interior de um meio marcado pela violência e a morte. As presenças femininas são escassas, destacando-se Costantina (Silvana Mangano), uma prostituta que desperta a atenção de quase todos os militares, acabando por se envolver com Giovanni (algo que permite reunir Gassman e Mangano, uma dupla que esteve presente no elenco principal de "Riso Amaro"). Silvana Mangano destaca-se nos momentos em que está presente, com a actriz a incutir um tom descontraído e espevitado a esta figura feminina que desperta facilmente as atenções. Constantina tem um filho, algo que permite a Monicelli efectuar um comentário que tanto tem de trágico como de mordaz, quando é dito que o bebé não terá de ir para a guerra, algo que se revela completamente errado, ou a Itália não se envolvesse alguns anos mais tarde na II Guerra Mundial. Os episódios entre Constantina e Giovanni surgem dotados de algum humor, enganos e tentativas de sedução, com Mario Monicelli a conseguir balancear com sucesso os momentos de comédia e os trechos mais trágicos, beneficiando não só de um bom argumento e de um elenco competente, mas também de uma banda sonora capaz de elevar a narrativa, com Nino Rota a ter um trabalho inspirado.

No final, Mario Monicelli deixa-nos diante da puerilidade da guerra, do anonimato daqueles que cometeram grandes feito e as dificuldades sentidas pelos militares, com o cineasta a apresentar um contingente heterogéneo que procura travar os planos do inimigo e vencer o conflito. Veja-se quando procuram destruir uma ponte a todo o custo, embora esse episódio traga perdas humanas, com estes elementos a procurarem combater os adversários austríacos. Por vezes existe espaço para algum humor no meio do conflito, em particular nos tempos mortos, que parecem tão complicados de enfrentar como os momentos em que os soldados se encontram no activo, algo notório quando procuram caçar uma galinha, embora esta passe para a fronteira austríaca. O conflito é violento e exposto sem contemplações, com a morte a poder chegar a qualquer momento. Veja-se quando encontramos Giovanni e Oreste a procurarem ligar a linha ao comando, uma missão de risco, enquanto decorre toda uma acção militar que promete colocar a vida de todos os elementos em perigo. Oreste e Giovanni apresentam muitas das vezes uma atitude temerosa, algo notório quando encontram um austríaco sozinho e receiam disparar, enquanto os seus colegas, a alguma distância, tratam de cumprir a missão. Esta cena permite evidenciar todo o bom trabalho no aproveitamento da profundidade de campo, com Mario Monicelli a expor diversas acções em simultâneo. Veja-se ainda quando encontramos o Tenente Gallina no seu escritório, a falar com Giacomazzi, enquanto conseguimos observar pela janela as movimentações dos soldados. Estes militares contam com diversas proveniências, algo que adensa a heterogeneidade do batalhão. Oreste é proveniente de Roma, Giovanni de Milão, Rosario de Catânia, com cada um a apresentar especificidades muito próprias inerentes às suas personalidades mas também ao local onde habitam. Mario Monicelli preocupa-se com estes personagens, transmitindo esse sentimento para o espectador, enquanto nos confronta com as contradições dos conflitos bélicos. Veja-se o jornal que apresenta os períodos de pausa dos soldados de forma apolínea, embora estes se encontrem a experienciar uma série de privações, ou um acto heroico protagonizado pela dupla de protagonistas que nunca chegará a ter o reconhecimento que merece. Giovanni e Oreste a certa altura começam a exibir uma humanidade desarmante. É certo que são preguiçosos, que temem inicialmente perder a vida, que apresentam atitudes que arrasam por completo com os protocolos e colocam a cabeça em água aos seus superiores, mas também são capazes dos actos mais corajosos e ternos, algo visível quando contactam com a esposa de Bordin. Mario Monicelli mescla eficazmente elementos de comédia e tragédia em "La grande guerra", uma obra cinematográfica que procura explorar o lado mais duro da guerra e as privações dos soldados, bem como o quotidiano destes elementos, enquanto ficamos diante da dinâmica magnífica entre Alberto Sordi e Vittorio Gassman como duas figuras que tanto são capazes de despertar o nosso riso como de comover.

Título original: "La grande guerra".
Título em Portugal: "A Grande Guerra"
Realizador: Mario Monicelli.
Argumento: Mario Monicelli, Age & Scarpelli, Luciano Vincenzoni.
Elenco: Alberto Sordi, Vittorio Gassman, Silvana Mangano, Romolo Valli, Folco Lulli, Tiberio Murgia.

15 março 2016

Resenha Crítica: "A Tale of Love and Darkness" (Uma História de Amor e Trevas)

 O talento de Natalie Portman para a interpretação é sobejamente conhecido, embora a qualidade dos filmes que esta protagoniza nem sempre se adequem ao seu valor como actriz, algo notório em "Your Highness", "Thor", "Thor: The Dark World", as prequelas da saga "Star Wars", entre outros. "A Tale of Love and Darkness", um filme inspirado no livro homónimo de Amos Oz, marca a estreia de Natalie Portman na realização de longas-metragens, com a actriz a assumir ainda o cargo de argumentista e protagonista desta ambiciosa obra cinematográfica. A palavra ambição não significa competência ou assertividade, com Natalie Portman a não parecer ter unhas para, pelo menos nesta sua fase da carreira, conseguir tocar esta guitarra. O maior elogio que podemos fazer a "A Tale of Love and Darkness" surge com algum veneno pelo meio: é semelhante à carreira de Natalie Portman como actriz, ou seja, alterna entre o bom, o razoável e o medíocre. No entanto, "A Tale of Love and Darkness" perde-se em demasia em alguns tropeços de iniciante, aliados a uma devoção excessiva de Natalie Portman em relação ao material que tem entre mãos. É certo que existem alguns planos belíssimos, dotados de enorme lirismo e inspiração, sobretudo quando Fania (Natalie Portman), a mãe de Amos Oz (Amir Tessler), se encontra a contar histórias ao seu rebento ou parece perder-se em sonhos alegóricos que tanto têm de descartáveis como de relevantes. Algumas destas histórias ocorrem no deserto, com os tons quentes destes momentos a contrastarem por vezes com a frieza que marca alguns acontecimentos do quotidiano de Fania, com os sonhos que esta guardava da juventude a parecerem dilacerar-se diante da realidade. As histórias contadas por esta mulher, a espaços fazem recordar o momento em que a personagem interpretada por Monica Vitti conta uma historieta ao seu filho em "Il deserto rosso". Tal como a personagem interpretada por Monica Vitti, também Fania parece ter algumas dificuldades em enfrentar a realidade com que se depara, com Natalie Portman a conseguir transmitir que esta figura feminina por vezes parece carregar o peso do Mundo no seu olhar, apresentando uma fragilidade desarmante e uma força interior que não é de descurar. Fania é casada com Arieh (Gilad Kahana), um intelectual pouco dado a grandes demonstrações de afecto, que parece mais absorto nos livros e na escrita do que na sua esposa. A relação entre Arieh e Fania é marcada pela falta de uma chama forte que envolva estas duas figuras que encontram na literatura um meio de refúgio. A casa destes personagens é pontuada por diversos livros e uma falta de paixão entre este casal, enquanto Fania procura dar o máximo de atenção possível a Amos, um jovem que se apresenta em pleno crescimento num período histórico fervilhante. Fania é oriunda de Rovno, enquanto Arieh é proveniente da Lituânia, com este casal de origem judaica a ter partido em direcção ao Mandato Britânico da Palestina, ainda nos anos 30, do Século XX, tendo em vista a escapar às perseguições efectuadas aos judeus.

 A narrativa de "A Tale of Love and Darkness" centra-se sobretudo no período em que Amos tem cerca dez anos de idade, com o enredo a acompanhar, ainda que superficialmente, diversos eventos históricos que marcaram Israel e a vida destes personagens inspirados em figuras reais. Veja-se o momento em que encontramos diversos personagens reunidos para ouvirem o reconhecimento da Independência do Estado de Israel, por parte das Nações Unidas, a 14 de Maio de 1948. A medida foi aplicada após uma resolução das Nações Unidas, "de onde sairia, no final de 1947, o plano de partição da Palestina, dividindo-a entre um estado árabe e um estado judeu". O momento é de festa, embora os conflitos logo se façam sentir ao longo do filme. Diga-se que a "guerra intestina entre as comunidades árabes e judaicas começou ainda durante o mandato britânico e prolongou-se até ao final de 1948, quando também acabou a primeira guerra israelo-árabe que se iniciou mal Israel declarou a independência, a 14 de Maio de 1948 (vale a pena ler o artigo de José Manuel Fernandes no Observador). "A Tale of Love and Darkness" não procura dar uma lição de história, nem tenta, embora seja frustrante verificar que Natalie Portman não consegue incutir a profundidade necessária a uma obra cinematográfica que tinha material para resultar em algo mais do que um filme bem intencionado (basta efectuarmos uma pesquisa rápida para percebermos a complexidade dos assuntos abordados, com a cineasta a optar por uma via demasiado simplista). É certo que a cineasta procura a espaços representar os conflitos e tensões políticas, bem como alguns dos elementos culturais e religiosos. Veja-se quando Amos, um rapaz judeu, aleija inocentemente uma criança, numa festa na casa de uma família de árabe, algo que logo promete causar problemas, ou os sonhos que a mãe do jovem criou em relação à Independência de Israel. Fania é natural de Rovno, de onde partiu com as suas duas irmãs e a sua mãe, apresentando uma mente sonhadora e uma personalidade demasiado romântica para perceber que a realidade nem sempre acalenta a concretização de todos os sonhos. A chegada a Jerusalém e a independência de Israel pareciam simbolizar todo um conjunto de sonhos que se concretizaram, embora Fania encare a realidade com um romantismo que contrasta com a crueza do Mundo que a envolve, com Natalie Portman a compor uma personagem que facilmente desperta o nosso desejo para gostarmos mais de "A Tale of Love and Darkness" do que aquilo que conseguimos. Fania tem no filho a sua maior paixão, procurando incutir um conjunto de valores que Amos parece carregar consigo para a vida, enquanto assistimos a situações típicas do crescimento de um jovem. Os problemas na escola, em particular com os bullies, a forma algo ingénua como Amos encara o mundo que o rodeia, com "A Tale of Love and Darkness" a variar o foco entre a história da relação do jovem e a sua mãe, bem como destes dois personagens em separado, enquanto Natalie Portman polvilha a narrativa de alguns elementos do contexto histórico que necessitam sempre de uma consulta prévia para serem totalmente apreendidos. O jovem Amir Tessler tem uma interpretação convincente como Amos Oz, um rapaz observador e inteligente, embora caiba a Natalie Portman contar com alguns dos momentos de maior destaque, sobretudo a partir do momento em que a personagem que interpreta começa a padecer de uma depressão, algo que afecta a sua vida, do seu filho e do esposo. A depressão de Fania é abordada de forma pueril, tosca e redundante. Veja-se quando esta é enviada para casa das irmãs, supostamente para ver se anima, quando até então as familiares pouco ou nada tinham sido desenvolvidas.

 A relação entre Fania e a mãe, bem como com os sogros, parece algo conturbada, embora a maioria dos personagens secundários raramente ultrapassem a exposição inicial. Não faltam ainda subtramas como o envolvimento de Arieh com outra mulher, ou a entrada em cena da "nova melhor amiga" de Fania, ou uma estranha figura denominada de "The Pioneer" que aparece nas divagações de Fania (que simboliza um ideal de Israel), entre outras, que pouco são exploradas, com Natalie Portman a parecer querer dizer imenso na sua estreia como realizadora de longas-metragens, embora nem sempre encontre a maneira certa para o fazer. O pouco desenvolvimento das figuras secundárias é revelador de alguns dos problemas de "A Tale of Love and Darkness", bem como a necessidade de Natalie Portman usar e abusar da narração em off para expor os sentimentos dos personagens e aquilo que se encontra a ocorrer. A utilização destrambelhada e excessiva da narração em off é a prova de algum amadorismo de Portman, mas também da incapacidade do argumento em conseguir explorar as temáticas que apresenta sem necessitar de uma "muleta" para expor as mesmas. Torna-se cansativo, redundante e exibe ainda uma falta de confiança na capacidade do espectador em interpretar aquilo que está a ser exibido. É certo que Portman procura expor o ponto de vista de Amos Oz, sobretudo em relação a Fania, mas aquilo que a cineasta deveria tentar é que o espectador interpretasse e sentisse, sem ter um narrador completamente intrusivo. O próprio tom de voz de Moni Moshonov, demasiado monocórdico, não ajuda, com este a surgir como o narrador de serviço, como Amos já nos seus setenta anos de idade. Diga-se que três actores interpretam Amos Oz: Amir Tessler (juventude); Yonatan Shiray (quando entra para o Kibbutz Hulda, uma fase explorada de forma sensaborona); Alex Peleg (setenta e poucos anos de idade). A relação entre Amos Oz e a mãe é uma das temáticas fundamentais do filme, com o jovem a apresentar uma postura protectora em relação à progenitora, enquanto esta última exibe uma afinidade latente com o petiz. Este inicialmente não pretende ser um escritor, algo que muda com avançar da vida, ou Amos Oz não surgisse como um autor literário de relevo (e não só). Natalie Portman tem em "A Tale of Love and Darkness" um trabalho de amor, tendo demorado diversos anos até conseguir tirar o projecto do papel e transformado o mesmo numa obra cinematográfica que quase beira a mediania, embora as boas intenções não sejam tudo. Diga-se que é praticamente impossível não procurar gostar do filme. As temáticas são relevantes. As interpretações de Natalie Portman e Amir Tessler são convincentes. O retrato do espaço de Jerusalém no final dos anos 40 é bem arquitectado (com as cores esbatidas e frias, bem como alguns episódios que ocorrem neste local, a exporem que a expressão trevas não foi colocada no título ao acaso). Alguns planos são belíssimos. Queria imenso gostar do filme, de abraçá-lo sem reservas e agraciar a estreia de Natalie Portman como realizadora de longas-metragens. No entanto, se o valor de Natalie Portman como actriz está comprovado, já o talento como realizadora e argumentista não encontra uma resposta cabal em "A Tale of Love and Darkness". Com uma história relevante, que se perde devido à inépcia de Natalie Portman na realização e um argumento que dispara para vários lados sem incutir profundidade a diversas temáticas, "A Tale of Love and Darkness" deixa-nos com um travo amargo. Tem bons pormenores, promete que pode dar algo mais, mas perde-se em demasia para conseguir que nos esqueçamos das suas limitações e problemas.

Título original: "A Tale of Love and Darkness".
Título em Portugal: "Uma História de Amor e Trevas".
Realizador: Natalie Portman.
Argumento: Natalie Portman.
Elenco: Natalie Portman, Gilad Kahana, Amir Tessler.