27 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Vicky Cristina Barcelona" (2008)

Obra cinematográfica pontuada por ritmos e sentimentos quentes, interpretações de bom nível e um aproveitamento assertivo dos cenários, "Vicky Cristina Barcelona" transporta o espectador para o interior das férias de Verão de Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), duas amigas que viajam até Barcelona. O narrador é essencial para ficarmos a conhecer diversos pormenores sobre a dupla de protagonistas e agilizar esta narrativa inebriante e envolvente, enquanto Woody Allen volta a colocar o espectador diante de temáticas e elementos que são transversais a diversas obras cinematográficas que realizou ao longo da sua carreira. Não falta o desejo e as frustrações de cariz sexual, um divórcio que deixou marca num dos personagens principais, as figuras femininas de características distintas e marcantes, a banda sonora a "rimar" com a narrativa, a utilização de um narrador que "comunique" com o espectador, a capacidade de Woody Allen em extrair boas interpretações dos intérpretes, entre outros elementos. "Vicky Cristina Barcelona" insere-se no périplo recente que este talentoso cineasta efectuou pela Europa, tendo realizado obras cinematográficas em Inglaterra ("Match Point", "Scoop", "Cassandra's Dream"), França ("Midnight in Paris") e Itália ("To Rome With Love"), com o filme que se encontra a ser alvo desta resenha a ter sido filmado em Barcelona, Avilés e Oviedo. O cineasta sabe tirar partido dos cenários, dos seus espaços históricos, das suas ruas mais pitorescas, para além de conseguir captar os seus ritmos, algo que também se parece dever à colaboração com Javier Aguirresarobe, um director de fotografia basco, que viria a trabalhar com Woody Allen em "Blue Jasmine". A própria banda sonora contribui e muito para os sentimentos quentes que envolvem a narrativa, em particular a canção "Barcelona" de Giulia y Los Tellarini, enquanto que a viagem de Vicky e Cristina à capital da Catalunha é pontuada por episódios que prometem marcar as vidas destas mulheres. Cristina é loira e sedutora, indecisa, impulsiva e incapaz de se envolver num relacionamento amoroso duradoiro. A personagem interpretada por Scarlett Johansson procura explorar as possibilidades proporcionadas pelo destino, embora não pareça encontrar algo que a satisfaça a longo prazo, ou um rumo para a sua carreira profissional, decidindo iniciar um novo hobbie nesta viagem a Barcelona, em particular, aprender a tirar fotografias. Vicky e Cristina ficam instaladas na casa de Judy (Patricia Clarkson) e Mark (Kevin Dunn), um casal que pertence à família da primeira e mantém uma relação aparentemente sólida. Vicky é morena e apresenta uma personalidade mais reservada do que Cristina, encontrando-se a aproveitar a viagem para consolidar os conhecimentos para os estudos que se encontra a efectuar sobre "Identidade Catalã", para o mestrado, sendo apaixonada pela arquitectura de Gaudí. A personagem interpretada por Rebecca Hall encontra-se noiva de Doug (Chris Messina), um indivíduo (demasiado) certinho, que ama Vicky, embora esta comece a colocar em dúvida os sentimentos que nutre em relação ao mesmo a partir do momento em que conhece Juan Antonio (Javier Bardem), um pintor que se apaixona com enorme facilidade.

 A primeira vez que Juan Antonio dialoga com Vicky e Cristina é num restaurante, após estas terem visto o pintor numa exposição de arte, onde Judy revelara que o personagem interpretado por Javier Bardem protagonizara um divórcio problemático com María Elena (Penélope Cruz), uma pintora. Os rumores sobre o divórcio são mais do que muitos, com uns a afirmarem que Juan Antonio agredia a esposa, enquanto outros salientam que María Elena procurou assassinar o pintor. O que é certo ao longo do filme é que María Elena e Juan Antonio viveram e vivem uma relação sentimental explosiva, onde parece existir paixão em excesso, sentimentos sempre prontos a serem expressos, embora falte o equilíbrio necessário para que consigam conviver de forma harmoniosa. Juan Antonio é um artista bem falante, que seduz as mulheres com facilidade e apresenta uma visão muito própria do amor e do mundo que o rodeia. Este convida Vicky e Cristina para visitarem Oviedo, num fim de semana, tendo em vista a observarem uma escultura que o inspira muito, comerem, beberem e fazerem amor. O próprio guarda-roupa utilizado inicialmente pelo personagem interpretado por Javier Bardem remete para a personalidade impulsiva do mesmo, com este a encontrar-se com uma camisa vermelha, uma tonalidade indicadora dos sentimentos quentes que se preparam para ser vividos por estas figuras. Vicky fica escandalizada com a proposta. Cristina fica intrigada, parecendo sempre mais aberta em relação aos avanços do protagonista. Em Oviedo, conhecemos um pouco mais sobre Juan Antonio, mas também sobre estas duas mulheres, com Vicky a ceder aos avanços do pintor, quando Cristina teve de ficar de cama devido a padecer de uma úlcera. Woody Allen capta o jogo de sedução entre Juan Antonio e Vicky de forma sublime, com o affair a deixar marca nesta mulher que começa a duvidar da relação com o noivo. Por sua vez, Mark decide viajar até Barcelona para casar com Vicky, com a relação entre ambos a ser marcada por uma segurança e palidez que contrasta com os momentos apimentados em Oviedo, onde a personagem interpretada por Rebecca Hall pareceu deparar-se com algo que mexeu com os seus sentimentos. Juan Antonio inicia posteriormente uma relação com Cristina, uma mulher que parece apresentar uma personalidade que combina mais consigo do que Vicky, embora María Elena ainda se junte ao ramalhete e prometa agitar o quotidiano dos protagonistas. A personagem interpretada por Penélope Cruz é explosiva, intensa e marcante, com a actriz a conseguir transformar esta mulher num autêntico furacão que não deixa ninguém indiferente, incluindo Cristina. María Elena desconfia de Cristina embora, aos poucos, comece a formar amizade com a mesma, gerando-se um estranho triângulo amoroso que parece funcionar demasiado bem para durar demasiado tempo. Veja-se quando o trio se encontra na sala de revelação das fotografias, com Woody Allen a fazer uso, mais uma vez, da tonalidade vermelha, num momento de enorme sensualidade e sedução entre os personagens interpretados por Scarlett Johansson, Penélope Cruz e Javier Bardem.

A relação aberta entre Cristina, Juan Antonio e María Elena choca de frente com os valores conservadores de Mark, embora estimule ainda mais a mente de Vicky. Esta ama o esposo mas deseja Juan Antonio, com o pintor a ter deixado marca na protagonista. Os espaços e a temperatura quente da Catalunha parecem contribuir para estes estados de espírito e relações, enquanto Woody Allen volta a abordar temáticas como as traições, o desejo e as frustrações de cariz sexual, ao mesmo tempo que explora as dinâmicas entre os elementos do elenco principal. O argumento de Woody Allen contribui para atribuir dimensão às personagens, embora as interpretações de Scarlett Johansson, Penélope Cruz, Javier Bardem e Rebecca Hall ajudem e muito a elevar um filme que gosta de surpreender o espectador em relação às opções tomadas pelos protagonistas. Scarlett Johansson interpreta uma figura sensual, algo naïve e pronta a efectuar novas descobertas, enquanto Rebecca Hall consegue exibir a procura de Vicky em manter o equilíbrio e reprimir as emoções que ameaçam tomar conta do seu corpo e da sua alma. Vicky tenta desfrutar dos prazeres deste território, parecendo hipnotizada quando alguém se encontra a tocar guitarra espanhola. Cristina procura encontrar-se a si própria, protagonizando uma série de episódios marcantes com Juan Antonio e María Elena. Penélope Cruz dá vida a um vulcão sempre pronto a explodir, enquanto Javier Bardem tem a tarefa "complicada" de interpretar um indivíduo que se envolve com estas mulheres, ainda que em níveis distintos. Diga-se que María Elena e Juan Antonio sobressaem acima de todos, formando um casal de pintores sempre pronto a discutir, amar e pintar, enquanto Woody Allen parece divertir-se a jogar com as emoções dos personagens e dos espectadores. Woody Allen explora com sucesso e inspiração esta miríade de relações intrincadas. O desejo que nasce e se desfaz, o amor que parece durar para sempre e se esvai num lampejo, as inseguranças e as discussões. Aos poucos somos inebriados para o interior deste universo narrativo marcado por jogos de sedução, traições e paixões, arte e sentimento, onde um conjunto de personagens vive uma série de episódios marcantes. É um Verão que promete marcar as vidas destas figuras que povoam a narrativa de "Vicky Cristina Barcelona", com Woody Allen a mesclar elementos de comédia, drama e romance, enquanto transporta diversas temáticas transversais às suas obras cinematográficas para o território de Barcelona. No final, Woody Allen cria mais um filme recheado de figuras marcantes, extrai interpretações de bom nível do elenco principal, aborda temáticas relacionadas com os relacionamentos humanos e explora os espaços por onde se encontrou a filmar, criando uma obra cinematográfica que, mais do que promover a cidade do título, exibe as qualidades de um cineasta e argumentista de grande valor.

Título original: "Vicky Cristina Barcelona".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen.
Elenco: Javier Bardem, Penélope Cruz, Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Patricia Clarkson, Kevin Dunn, Chris Messina.

25 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Valley of Love" (2015)

 "Valley of Love" desafia as nossas expectativas e as nossas crenças. A espaços testa a nossa paciência devido às suas redundâncias e à personalidade nem sempre agradável de Gérard (Gérard Depardieu) e Isabelle (Isabelle Huppert), a dupla de protagonistas. No final, "Valley of Love" desperta a estranha sensação de nos termos perdido pelo deserto do Death Valley (Vale da Morte), um local que tanto tem de inóspito como de desafiador, belo e monumental. Gérard e Isabelle encontram-se separados há vários anos, reunindo-se neste espaço da Califórnia a pedido do falecido filho. Aos poucos, Gérard e Isabelle exibem as suas fragilidades, aquilo que os une e os separa, enquanto Guillaume Nicloux realiza uma obra onde o pragmatismo e o misticismo parecem andar lado a lado. A aridez do deserto do Death Valley, os seus espaços montanhosos, o enorme calor e o misticismo surgem como elementos transversais a diversos momentos de "Valley of Love", uma obra cinematográfica que reúne Gérard Depardieu e Isabelle Huppert, cerca de trinta anos depois de terem protagonizado "Loulou". Depardieu e Huppert interpretam um casal de actores que se divorciara há longos anos, que se reúne seis meses após a morte do filho, tendo em vista a cumprir um desejo que o falecido expressara antes de se suicidar. Gérard e Isabelle parecem ter cometido diversos erros ao longo da vida, com as marcas da passagem do tempo a fazerem-se sentir no corpo e na alma de ambos os personagens. Isabelle passa boa parte do tempo a procurar falar ao telemóvel, penitencia-se por pouco saber da filha e ter descurado o contacto com o falecido filho, tendo outrora abandonado Gérard. Mais tarde descobrimos que Isabelle vai divorciar-se do esposo, um advogado, com a personagem interpretada por Huppert a surgir como uma figura de trato nem sempre fácil, que se encontra claramente abalada pela morte do filho. Gérard também não consegue manter relações afectivas sólidas, padecendo de cancro na bexiga, embora continue a levar um estilo de vida pouco recomendável, pontuado pelo consumo de tabaco e álcool em excesso. Ambos reúnem-se no local devido ao facto de Michael, o filho da dupla de protagonistas, ter enviado uma carta para cada um, com as missivas a surgirem acompanhadas de um cronograma estabelecido e a estranha promessa de que se voltariam a reunir por breves momentos no Vale da Morte. Estes têm de se deslocar a sete locais distintos do Vale da Morte, em diferentes períodos do dia, com este território a ser exibido muitas das vezes em planos bem abertos que permitem expor a grandiosidade do mesmo. Gérard apresenta algum cepticismo em relação a esta ideia, embora essas dúvidas não o impeçam de se deslocar até ao Vale da Morte. Isabelle acredita que vai reencontrar o filho, encarando este "contrato" enviado pelo rebento como uma última oportunidade para voltar a ver o mesmo e procurar alguma redenção. Ela apresenta um sentimento de culpa notório por se ter afastado durante largos anos do filho. Ele também pouco contactara com Michael nos últimos anos. A mágoa de ambos os protagonistas parece latente, com Gérard Depardieu e Isabelle Huppert a elevarem estas figuras que tanto se odeiam como parecem não conseguir passar um sem o outro. Depardieu sobressai com a sua presença física e enorme carisma, com o actor a exprimir o carácter nem sempre simpático do personagem que interpreta, uma figura que se queixa de forma amiúde do calor, pretendendo inicialmente abandonar os planos antes de tempo.

Isabelle Huppert destaca-se pela mescla de altivez e fragilidade que incute à personagem que partilha o primeiro nome consigo. Gérard e Isabelle ficam instalados num espaço hoteleiro nas imediações do Vale da Morte, com este território desértico e montanhoso a surgir praticamente como o terceiro protagonista de "Valley of Love", com Guillaume Nicloux a incutir uma atmosfera misteriosa e mística a este local. A cinematografia exacerba o calor que assola o território, com a luz do Sol a embater de forma notória nos espaços do Vale da Morte, enquanto o guarda-roupa dos personagens, pontuado por vestes leves, remete para o facto da temperatura ser bastante elevada. Diga-se que não são raras as vezes em que encontramos os personagens a queixarem-se do calor, com Guillaume Nicloux a parecer temer que o espectador não perceba à primeira que este espaço é algo abrasivo, com a temperatura a contribuir para o fervilhar dos sentimentos das figuras que pontuam a narrativa. O Vale da Morte surge como um espaço simultaneamente inóspito, belo e místico, com Gérard e Isabelle a esperarem entrar em contacto com o falecido filho neste local, com o rebento a ter dado o prazo de uma semana para aparecer diante dos progenitores. Gérard apenas quer virar esta página da sua vida, embora pareça começar a acreditar, ainda que gradualmente, em algo de transcendente. Isabelle procura cumprir o desejo do filho ao mesmo tempo que (re)começa a exibir uma maior dinâmica com o antigo marido, ou estes não fossem duas figuras marcadas pelo sentimento de culpa e diversos erros cometidos no passado. A dinâmica entre Gérard Depardieu e Isabelle Huppert eleva e muito "Valley of Love", com Guillaume Nicloux a saber aproveitar o talento e carisma da dupla, deixando-a brilhar quer nos momentos mais dramáticos, quer nas situações mais desagradáveis, quer nos trechos mais leves. O humor é raro, ou não chegou totalmente a esta pessoa, embora esteja presente em alguns momentos. Veja-se quando um indivíduo reconhece o protagonista mas não sabe o seu nome, pedindo para que o actor autografe o livro. Gérard assina o autógrafo como "Bob De Niro", algo que promete gerar um mal-entendido. Temos ainda momentos como o personagem interpretado por Depardieu a atirar pão para os animais no espaço do deserto, algo que irrita a protagonista devido a considerar que o ex-marido está a mexer com o ecossistema. Gérard é uma figura que parece partilhar um pouco a personalidade do seu intérprete (o facto de personagens e intérpretes partilharem os mesmos nomes e a mesma profissão contribui para esses paralelismos), com o protagonista a surgir como um actor que se está a lixar para aquilo que os outros pensam sobre a sua pessoa, não tendo problemas em assumir que está gordo e vive de forma pouco saudável. Não são poucos os momentos onde encontramos Gérard em tronco nu, pronto a queixar-se do calor e a exibir a sua larga barriga "à Obélix", com o actor a expor o seu físico anafado, enquanto demonstra algumas das suas qualidades para a representação e eleva o personagem que interpreta. Os gestos e falas de Gérard nem sempre são os mais delicados, embora isso não o impeça de a espaços exibir um lado mais frágil e vulnerável, algo latente durante o desenrolar da narrativa, sobretudo quando parece voltar a ganhar um maior à vontade com Isabelle e se depara com episódios que desafiam a razão. Se o momento em que Gérard assina um autógrafo como "Bob De Niro" tem o condão de despertar um largo sorriso no espectador, já a cena em que o protagonista surge no último terço num estado de enorme nervosismo, após uma experiência aparentemente sobrenatural, exibe mais uma vez a capacidade de Depardieu em atribuir uma credibilidade notável às diferentes situações em que o personagem que interpreta se envolve ao longo de "Valley of Love".

Gérard Depardieu e Isabelle Huppert são as pedras de toque do filme, com o argumento de Guillaume Nicloux a nunca conseguir incutir figuras secundárias que sobressaiam verdadeiramente ao longo da narrativa. É certo que ainda temos um casal que procura conversar com os protagonistas, em particular o indivíduo que pediu o autógrafo a Gérard e a esposa do mesmo, embora Guillaume Nicloux descarte-se rapidamente dos mesmos. A esposa do indivíduo ainda tenta meter conversa com Isabelle, embora a actriz pareça ter pouca paciência para diálogos de circunstância. Huppert tanto sobressai nos momentos de maior calmaria como a expor alguma da histeria da personagem que interpreta, com a actriz a protagonizar alguns momentos dignos de atenção ao lado de Depardieu. Veja-se quando Gérard lê a carta que Michael escreveu à progenitora, ou os momentos em que Isabelle desata num choro compulsivo ao ler a missiva enviada para o primeiro. Gérard e Isabelle parecem inicialmente algo distantes, com ambos a exibirem que já não se encontravam há longos anos. Esta situação muda com o avançar do enredo, com Gérard e Isabelle a começarem a abrir um pouco mais o jogo em relação às suas vidas no presente e a assumirem alguns erros do passado, enquanto alguns estranhos episódios prometem marcar o seu quotidiano nesta jornada iniciada a pedido do falecido filho. "Valley of Love" aborda temáticas como a perda de um filho, questiona o afastamento entre progenitores e rebentos, exibe a complexidade dos relacionamentos e sentimentos humanos, a irracionalidade inerente ao sentimento de perda, os casamentos falhados, com os silêncios entre os protagonistas a serem mais do que muitos mas também as falas trocadas. O argumento, pese algumas redundâncias, apresenta alguns diálogos bem construidos que ganham outra dimensão com intérpretes como Gérard Depardieu e Isabelle Huppert. Depardieu interpreta uma figura que surge praticamente como um ogre brusco, que apenas quer seguir em frente com a vida, embora comece gradualmente a acreditar em algo de transcendente, com dois beijos trocados com a ex-mulher a indicarem que ainda sente algo pela mesma. Gérard parece apresentar a espaços alguma fragilidade emocional, com Depardieu a exibir isso mesmo, bem como as dificuldades do personagem que interpreta em locomover-se, ou aguentar o calor. Huppert concede alguma elegância a Isabelle, com Guillaume Nicloux a saber aproveitar o facto de contar com uma dupla de grande talento como protagonistas, tendo em vista a elevar esta obra cinematográfica. O enredo desenrola-se maioritariamente entre as imediações do Vale da Morte, o carro do protagonista (a espaços “Valley of Love” ganha características de road movie) e o espaço do hotel onde Isabelle e Gérard se encontram instalados, com "Valley of Love" a mesclar uma atmosfera que tanto tem de real como de surreal, onde uma estranha figura pode surgir durante a noite ou uma aparição deixar um elemento em pranto. A espaços questionamos se os protagonistas acreditam mesmo na possibilidade de reencontrarem o filho. Os próprios parecem apresentar algumas dúvidas, mas o sentimento de perda parece toldar a racionalidade e aumentar a crença em algo de transcendente. No final, Guillaume Nicloux não nos oferece certezas ou conclusões peremptórias, pede apenas que acreditemos nos seus protagonistas, com os próprios a parecerem ter imensas dúvidas. "Valley of Love" mantém durante um largo tempo as nossas duvidas em relação ao possível regresso de Michael, enquanto aborda temáticas como a perda de um ente querido, as relações sentimentais que falham, explora a dinâmica assertiva entre Gérard Depardieu e Isabelle Huppert, utiliza o espaço do deserto com alguma inspiração, com a dupla de protagonistas a ajudar a elevar esta obra cinematográfica realizada por Guillaume Nicloux.

Título original: "Valley of Love".
Realizador: Guillaume Nicloux.
Argumento: Guillaume Nicloux.
Elenco: Gérard Depardieu, Isabelle Huppert.

23 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "One Flew Over the Cuckoo's Nest" (1975)

 O hospital psiquiátrico onde se desenrola boa parte da narrativa de "One Flew Over the Cuckoo's Nest" surge como um espaço pontuado por um conjunto de regras rígidas e uma panóplia de funcionários prontos a coartarem o livre arbítrio dos pacientes. O quotidiano neste local é deprimente e modorrento, marcado por rotinas pouco dinâmicas, que não parecem contribuir para a melhoria dos pacientes, algo que fica latente nas diversas figuras que nos são apresentadas ao longo da narrativa. Uns divertem-se a jogar às cartas, ou a limpar o chão, outros encontram-se doentes ao ponto de não se conseguirem locomover, com "One Flew Over the Cuckoo's Nest" a colocar o espectador diante de um espaço que a certa altura parece uma metáfora para o estado em que alguns sectores da sociedade dos EUA se encontravam na época em que o filme foi lançado, em particular, na década de 70 (1975). O estado é letárgico, com Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson) a surgir como o elemento improvável que promete despertar sentimentos díspares no interior da instituição e quebrar as regras que toldam a liberdade dos pacientes. Jack Nicholson dá um recital de interpretação em "One Flew Over the Cuckoo's Nest", com o actor a encarnar uma figura complexa e impulsiva que ganha toda uma dimensão superior graças ao talento e carisma do intérprete. Nicholson consegue exprimir a personalidade problemática de Randle, as suas inseguranças e excentricidades, bem como a sua procura em mexer com o quotidiano dos pacientes do hospital psiquiátrico e a enorme humanidade e intensidade desta figura, algo que contrasta com a marcante enfermeira Mildred Ratched (Louise Fletcher). Se Randle é um indivíduo expansivo e politicamente incorrecto, já a enfermeira Ratched é uma figura fria, implacável e pouco dada a facilitar a vida aos pacientes, com a personalidade da dupla a ser amplamente distinta. Esta é a representante da ordem e da boa moral, do lado conservador de uma sociedade a necessitar de mudanças. Escusado será dizer que Randle e Ratched vão entrar em conflito em diversos momentos de "One Flew Over the Cuckoo's Nest", um drama emocionalmente envolvente, recheado de alguns momentos perturbadores, bem como de trechos pontuados por humor. Jack Nicholson está no epicentro de boa parte dos acontecimentos que rodeiam a narrativa de "One Flew Over the Cuckoo's Nest", com o personagem que este interpreta a protagonizar uma miríade de episódios que prometem não terminar da melhor maneira, uma situação que se torna cada vez mais evidente com o desenrolar da narrativa. Randle McMurphy está longe de ser um exemplo, bem pelo contrário. Este é um recluso que se encontra a cumprir pena de prisão devido a ter efectuado sexo com uma jovem de quinze anos de idade, sendo conhecido pela sua personalidade problemática, algo que outrora conduzira a que tenha sido detido por cinco vezes devido a agressões. A presença no hospital psiquiátrico é simples: os responsáveis da prisão pretendem saber se Randle é mesmo louco ou se procura apenas escapulir-se às tarefas dos campos de trabalho da instituição prisional. Diga-se que a chegada deste indivíduo ao hospital psiquiátrico é marcada por uma felicidade latente, exposta de forma efusiva junto dos guardas, num misto de alegria e loucura, com a retirada das algemas a permitir uma liberdade temporária.

De gorro na cabeça, roupa informal, uma personalidade peculiar, Randle parece apresentar uma saudável loucura e um feitio capaz de despertar os sentimentos mais variados. Os pacientes do hospital psiquiátrico parecem admirá-lo, ou pelo menos tolerá-lo, os médicos e as enfermeiras consideram-no praticamente um pesadelo, com Randle a colocar em causa o status quo e as rotinas desta instituição. A presença de Randle McMurphy é sentida logo nos momentos iniciais, com este a não ter problemas em intrometer-se no quotidiano de diversos pacientes e começar a desafiar as regras desta instituição, enquanto "One Flew Over the Cuckoo's Nest" aproveita para desenvolver alguns dos elementos secundários que povoam a narrativa. Randle é o foco principal de "One Flew Over the Cuckoo's Nest", embora exista espaço para diversos personagens secundários sobressaírem, apesar de representem muitas das vezes arquétipos de doentes. Veja-se o caso de "Chief" Bromden (Will Sampson), um nativo americano, aparentemente surdo-mudo, com quem Randle goza inicialmente, embora até acabe por formar amizade com este indivíduo de enorme estatura física. Temos ainda figuras como Billy Bibbit (Brad Dourif), um jovem com tendências suicidas que apresenta uma falta de confiança latente a lidar com as mulheres; Max Taber (Christopher Lloyd), um paciente brusco na exposição das suas opiniões; Martini (Danny DeVito), um tipo que gosta de ver as cartas dos outros, apresentando alguns problemas do foro mental; Dale Harding (William Redfield), um indivíduo paranoico que acredita ter sido enganado pela esposa, entre outros. Estes reúnem-se regularmente para sessões de grupo deprimentes, lideradas por Ratched, embora estas iniciativas apenas pareçam piorar o estado mental dos pacientes. Billy praticamente desfaz-se do ponto de vista mental, Dale exibe parte dos seus problemas, enquanto Randle decide tomar acções ao procurar instigar os colegas a votarem para mudar o horário das sessões de terapia tendo em vista a visionarem os jogos de basebol. Aos poucos, Randle consegue estimular alguns dos pacientes a desafiarem o sistema, algo que irrita Ratched e a direcção do hospital. Veja-se quando Ratched proíbe que vejam o jogo na televisão, com Randle a fingir que se encontra a visualizar o mesmo, enquanto Jack Nicholson brinda-nos com um momento memorável. Randle finge que se encontra a ver o jogo, exprime as emoções inerentes a um episódio do género e contagia aqueles que o rodeiam. Diga-se que Jack Nicholson tem diversos momentos memoráveis como Randle, seja num jogo de basquetebol com os enfermeiros, ou numa fuga que proporciona alguns trechos de liberdade e alegria aos outros doentes, com "One Flew Over the Cuckoo's Nest" a apresentar-nos a um indivíduo esgrouviado que se prepara para colocar um hospital psiquiátrico em polvorosa. Este é o agitador das gentes letárgicas, embora acabe por ser alvo de um conjunto de procedimentos e armadilhas por parte de Ratched e dos restantes médicos que prometem arrasar com sua a sanidade, com Milos Forman a questionar alguns dos métodos de tratamento destas instituições, ainda que de forma algo maniqueísta. Milos Forman apresenta uma segurança assinalável na realização desta adaptação cinematográfica do livro homónimo de Ken Kesey, com o cineasta a convencer o espectador em relação a esta realidade apresentada ao longo da narrativa, incluindo na representação do hospital psiquiátrico.

O cenário do hospital é aproveitado de forma exímia, com Forman a explorar diversos pormenores associados ao local, incluindo a música colocada supostamente para acalmar os doentes, com o personagem interpretado por Jack Nicholson a surgir como a figura que desestabiliza por completo o dia-a-dia desta instituição. Tudo parecia desenrolar-se conforme o rigoroso planeamento da enfermeira Ratched, embora Randle não pareça disposto a aceitar regras que perpetuam e instigam a apatia. O argumento é dotado de algumas falas bem construídas, enquanto Milos Forman consegue extrair interpretações convincentes de boa parte do elenco, em particular de Jack Nicholson e Louise Fletcher. Nicholson e Fletcher representam dois polos opostos, com a personagem interpretada por esta última a apresentar uma frieza e dissimulação que contrastam com a imprevisibilidade do protagonista. O filme permite abordar questões associadas ao tratamento dos doentes destas instituições, aos receios das figuras que se encontram internadas nestes espaços mas também a complexidade que apresentam a nível comportamental. Em certa medida, "One Flew Over the Cuckoo's Nest" traz à nossa memória "Shock Corridor" de Samuel Fuller, uma obra cinematográfica que nos colocou diante de um jornalista que se decidiu envolver no interior de uma hospital psiquiátrico para descobrir quem assassinou um paciente. Tal como no filme de Samuel Fuller, também em "One Flew Over the Cuckoo's Nest" são efectuados comentários sobre a sociedade dos EUA, para além da sanidade do protagonista começar a ser colocada à prova. "One Flew Over the Cuckoo's Nest" apela à diferença e à tolerância, bem como à capacidade de agir, enquanto utiliza um personagem recheado de contradições como motor de mudança para a luta contra a letargia num hospital psiquiátrico que pouco ou nada parece contribuir para melhorar a saúde dos pacientes. É certo que os enfermeiros do hospital surgem representados de forma maniqueísta, com quase todos a apresentarem atitudes frias e pouco humanas, com Ratched a ser o ponto máximo dessa ideia. Os close-ups no rosto desta mulher permitem exprimir o seu tom ameaçador e a sua capacidade de coagir diversos pacientes, algo latente no último terço, quando desfaz emocionalmente Billy. Este é um paciente emocionalmente instável, com baixa auto-estima, que parece temer aquilo que os outros pensam sobre si, uma situação que promete trazer estragos no último terço. Entre momentos de humor sinceros, falas e situações marcantes, um final emocionalmente arrasador e uma interpretação de grande nível de Jack Nicholson, "One Flew Over the Cuckoo's Nest" arrasta-nos para a miríade de emoções que envolvem o quotidiano dos pacientes de um hospital psiquiátrico, conseguindo despertar a sensação de que vivemos estes episódios com Randle, um protagonista carismático e inesquecível.

Título original: "One Flew Over the Cuckoo's Nest".
Título em Portugal: "Voando Sobre Um Ninho de Cucos".
Realizador: Milos Forman.
Argumento: Lawrence Hauben e Bo Goldman.
Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Will Sampson, Brad Dourif, Christopher Lloyd, Danny DeVito.

21 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Queen of Earth" (2015)

 Voyeur e intruso, desgastado e hipnotizado, preso à atmosfera criada por Alex Ross Perry e rendido ao trabalho de Katherine Waterston e Elisabeth Moss. Foi assim que me senti no final de "Queen of Earth", a quarta longa-metragem de Alex Ross Perry, com o realizador e argumentista a não ter problemas em atirar-nos para o interior de uma amizade intensa e venenosa entre duas amigas que tanto apresentam uma frontalidade desarmante como reprimem perigosamente os seus sentimentos. A narrativa deste drama, salpicado por elementos de terror psicológico, tem como pano de fundo uma casa de campo e as redondezas da habitação, um espaço aproveitado pelo cineasta para adensar a atmosfera opressora que pontua alguns momentos do enredo. A estadia neste espaço deveria servir para as protagonistas "lamberem feridas" e fortalecerem laços, embora Alex Ross Perry comece a exibir precisamente o contrário, com "Queen of Earth" a remeter para obras cinematográficas como "Repulsion" e "Rosemary's Baby", da "trilogia do apartamento" de Roman Polanski, ou não ficássemos perante uma mulher que cai gradualmente numa espiral descendente, com o espaço da habitação a tornar-se claustrofóbico e sufocante. A personagem mencionada é Catherine Hewitt (Elisabeth Moss), uma mulher que se prepara para passar alguns dias na casa dos tios de Virginia Lowell (Katherine Watereston), a sua melhor amiga, contando com a companhia desta última. O enredo acompanha sete dias destas figuras femininas, expostos em sete capítulos, com diversos flashbacks pelo meio, enquanto ficamos diante da amizade intrincada entre estas duas mulheres e o adensar dos problemas que assolam a mente de Catherine. Logo no início de "Queen of Earth", Alex Ross Perry não poupa a protagonista, exibindo um close-up intenso sobre o rosto de Catherine Hewitt, enquanto esta se encontra a discutir com James (Kentucker Audley), o seu ex-namorado, com quem terminou recentemente o relacionamento amoroso. As lágrimas cobrem o rosto desta personagem, parecendo uma boneca de porcelana cuja pintura derreteu por completo diante do calor, com a maquilhagem a encontrar-se borrada e pronta a expressar a inquietação que percorre a alma de Catherine. Os sentimentos expostos por Catherine no início do filme são intensos e dolorosos, com esta a parecer claramente perturbada quer pelo final da relação, quer pela morte do pai, um artista que padecia de depressão e cometeu suicídio. Esta geria os negócios do pai, vivendo na sombra do mesmo, apesar de apresentar algum talento para a pintura. Virginia conta com diversos problemas e poucos objectivos para o futuro. Esta é uma figura pronta a despachar os elementos que despreza, não tendo problemas em ser inconveniente ou brusca, embora também apresente algumas fragilidades. Diga-se que as trocas de palavras entre as duas amigas nem sempre são meigas, bem pelo contrário, algo que podemos comprovar quer nos episódios do presente, quer nas memórias que assolam a mente de Catherine.

 Os episódios do passado, expostos em flashback, remetem para o ano anterior, em particular para os dias que Catherine passou com o namorado e Virginia na casa de campo. Catherine e Virginia tinham combinado desfrutar alguns momentos uma com a outra, embora a primeira quebre a promessa e surja acompanhada por James. Este procura exibir alguma cordialidade e simpatia para com Virginia, enquanto a protagonista não tem problemas em demonstrar o seu desagrado pela "surpresa". A dependência de Catherine em relação a James leva a que Virginia efectue uma comparação entre a amiga e Smeagol, tendo em vista a ilustrar a relação doentia do casal, algo que desperta um certo incómodo na dupla. É um momento algo tenso, com Virginia a expor o seu lado implacável e politicamente incorrecto. Em "Listen Up Philip", Alex Ross Perry colocou o espectador diante de um escritor misantropo, incapaz de manter um relacionamento ou formar amizades sólidas, a não ser com um colega de profissão por quem nutria uma enorme admiração, com ambos a contarem com personalidades bastante semelhantes. No caso de "Queen of Earth", Alex Ross Perry coloca-nos perante duas amigas cuja relação está longe de ser pacífica. É certo que existe um progresso: Catherine e Virginia são capazes de formarem amizades. No entanto, é impossível não questionar a solidez desta amizade, ou as duas amigas não trocassem muitas das vezes algumas palavras pouco simpáticas. O cineasta não julga as personagens, nem parece tomar posições em relação às mesmas, deixando essa tarefa para o espectador, enquanto somos absorvidos para o interior da dinâmica intensa entre a dupla de protagonistas. Catherine e Virginia tanto parecem capazes de desabafar uma com a outra, como logo de seguida não apresentam um "travão moral" que impeça a troca de diálogos mais duros, algo que promete abrir brechas no interior desta amizade problemática. É certo que os amigos devem confrontar ideias e expor as suas opiniões, embora a dinâmica entre as personagens interpretadas por Katherine Waterston e Elisabeth Moss seja demasiado venenosa para acreditarmos que estas vão conseguir manter a amizade. O recurso de Alex Ross Perry e do seu director de fotografia aos close-ups conduz a que a dupla de protagonistas seja praticamente obrigada a não falhar nos ritmos das trocas dos diálogos e nas expressões faciais, com Katherine Waterston e Elisabeth Moss a sobressaírem em bom nível, com ambas a comporem personagens complexas e intrigantes. As dinâmicas entre Katherine Waterston e Elisabeth Moss são intensas e marcantes, com Alex Ross Perry a aproveitar o talento das suas protagonistas, enquanto cria alguns momentos poderosíssimos. Moss é simplesmente arrasadora. O seu sorriso desequilibrado fica na memória. O seu olhar é enigmático, frágil e a espaços assustador. As alucinações da personagem que Elisabeth Moss interpreta perturbam e fazem recordar a protagonista de "Repulsion", algo latente no episódio de uma festa que decorre na casa de Virginia, com os delírios a apoderam-se da mente e do corpo de Catherine. Entramos em terrenos praticamente de terror psicológico, com os desequilíbrios emocionais de Catherine a fazerem com que muitas das vezes nos questionemos sobre o futuro desta mulher.

 O trabalho a nível de caracterização e maquilhagem é importante para adensar o contraste entre o estado de espírito de Catherine no passado e no presente. Nas cenas do passado, Catherine aparece arranjada e confiante, contando com a presença do namorado e o apoio profissional do pai, esquecendo-se parcialmente da amiga. No presente, Catherine encontra-se praticamente num farrapo, procurando conviver com a amiga, embora esta conte regularmente com a companhia de Rich (Patrick Fugit), um vizinho com quem se encontra envolvida. As olheiras de Catherine são bem salientes, bem como os gestos nervosos, com Alex Ross Perry a exacerbar ainda alguns sons que rodeiam esta mulher (bom trabalho a nível de sonoplastia), incluindo batatas fritas ou legumes a serem mastigados, para explanar as dificuldades desta personagem em contactar com o mundo que a rodeia. Diga-se que esta desenvolve um estranho vício por batatas fritas, enquanto Alex Ross Perry parece atribuir um cuidado especial à alimentação como um meio para evidenciar a perturbação de Catherine. Veja-se a salada que Virginia prepara para Catherine, que nunca chega a ser comida pela segunda, embora fique no quarto da mesma, com a refeição a degradar-se com o passar dos dias, tal como a mente da personagem interpretada por Elisabeth Moss. No presente, é Virginia quem se encontra regularmente acompanhada, enquanto Catherine procura manter-se firme perante a perda de duas pedras basilares da sua existência, embora apresente uma atitude possessiva em relação à amiga. Katherine Waterson compõe uma figura complexa, que se encontra longe de estar livre de defeitos, com a actriz a conseguir expressar-se imenso através do seu rosto, com um sorriso mais infantil de Virginia a nem sempre indicar felicidade, embora esta personagem até pareça mais descontraída do que a amiga. Waterston eleva a personagem que interpreta, tal como Moss, com a dupla a apresentar uma naturalidade latente na exposição dos sentimentos e nas trocas de diálogos entre as protagonistas. Virginia e Catherine contam com problemas, isso parece certo, com a presença da dupla na casa de campo a ser marcada por uma atmosfera opressora, adensada pelo trabalho de câmara e pela banda sonora. Os close-ups são bastante utilizados, sobretudo para adensar a atmosfera opressora e aumentar a carga dramática de alguns momentos, embora Alex Ross Perry e Sean Price Williams, o director de fotografia, não tenham problemas em recorrer a alguns planos mais abertos, sobretudo nas cenas filmadas nos cenários exteriores. Alex Ross Perry, apesar de utilizar alguns flashbacks de forma completamente aleatória, conduz a narrativa com segurança, explorando assertivamente a relação entre a dupla de protagonistas. Catherine procura pintar, inclusive um retrato da amiga, exorcizar fantasmas recentes e recuperar psicologicamente. Aos poucos parece impossível que Catherine atinja os seus objectivos. É uma mulher algo frágil, mimada e hipocondríaca, que se encontra numa fase pouco positiva da sua vida, enquanto "Queen of Earth" envolve o espectador para o interior das dinâmicas intrincadas entre Catherine e Virginia, com os diálogos entre as duas amigas a contarem com alguma dureza.

A personagem interpretada por Katherine Waterson também não parece contar com grandes planos para o futuro, tendo na casa dos tios o seu porto de abrigo. Esta gosta de correr, nadar no lago e expressar livremente as suas opiniões, deixando apenas que algumas pessoas a tratem por Ginny. Veja-se quando James utiliza essa alcunha para se dirigir a Virginia, com o rosto de Katherine Waterston a mudar radicalmente, apresentando uma expressão próxima a um felino que se prepara para arregaçar as unhas e vincá-las no seu alvo. No meio destas mulheres encontra-se Rich, um indivíduo que parece despertar a atenção de Virginia e o desprezo de Catherine. Este também não apresenta grande simpatia em relação a Catherine, considerando-a uma mulher mimada que vive na sombra dos feitos do pai, embora o personagem interpretado por Patrick Fugit esteja longe de apresentar o feitio complicado destas figuras femininas. A certa altura, Catherine verbaliza aquilo que pensa em relação a Rich, num momento que tanto tem de perturbador, constrangedor e pontuado por algumas verdades incómodas, embora a revolta desta figura feminina pareça ser contra o destino. O espaço que rodeia a casa tanto tem de idílico como de misterioso, com a própria banda sonora a contribuir para esta atmosfera opressora que envolve a dupla de protagonistas. Estas procuram confrontar alguns episódios que marcaram o passado, exprimir os seus sentimentos e desfrutar da companhia uma da outra, embora reprimam muitas das vezes aquilo que assola as suas almas. A espaços ambas parecem algo egoístas, simultaneamente frágeis e cruéis, com "Queen of Earth" a contar com duas personagens femininas complexas, compostas com enorme argúcia por Elisabeth Moss e Katherine Waterston. Episódios do presente diluem-se diante de acontecimentos que ocorreram no passado, outros quase que se interligam, enquanto que estas mulheres não parecem esconder algum rancor em relação a diversos momentos e diálogos pouco positivos que partilharam ao longo do tempo. O espaço da casa assume rapidamente características opressoras, com as dinâmicas destas mulheres a não igualar a violência da dupla de "What Ever Happened to Baby Jane?", embora resvale para caminhos "polanskianos". Com interpretações de bom nível de Katherine Waterston e Elisabeth Moss, uma dupla que apresenta uma dinâmica intensa e claustrofóbica, um argumento sagaz, dotado de falas prontas a exporem e explorarem o lado negro de uma amizade, "Queen of Earth" surge como mais um exemplar digno de interesse da autoria de Alex Ross Perry.

Título original: "Queen of Earth".
Realizador: Alex Ross Perry.
Argumento: Alex Ross Perry.
Elenco: Elisabeth Moss, Patrick Fugit, Katherine Waterston, Kentucker Audley.

20 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Professione: reporter" (1975)

 Em "Il deserto rosso", Giuliana (Monica Vitti), a protagonista, encontra-se a atravessar uma enorme crise existencial. Esta é um enigma difícil de decifrar, que tanto aproxima como afasta aqueles que a rodeiam, incluindo o seu esposo. "Il deserto rosso" foi a primeira longa-metragem a cores realizada por Michelangelo Antonioni, com o cineasta a apresentar diversos traços transversais em relação a trabalhos como "L'Avventura", "La Notte" e "L'Eclisse". Não faltam temáticas e elementos como a solidão e as crises existenciais, a utilização paradigmática da arquitectura local ao serviço do enredo, um aproveitamento exímio dos espaços dos cenários interiores e exteriores, os silêncios que são capazes de transmitir imenso, enquanto somos colocados diante de figuras complexas que nem sempre são fáceis de avaliar. David Locke (Jack Nicholson), o protagonista de "Professione: reporter", não é diferente, com este a surgir como um jornalista que parece desiludido com as rotinas que pontuam o seu quotidiano, bem como com a sua existência, decidindo assumir a identidade de um indivíduo que faleceu. Esse indivíduo é David Robertson (Charles Mulvehill), um traficante de armas que faleceu devido a um ataque cardíaco. Locke e Robertson conheceram-se durante a estadia de ambos no Chade, algo exposto quer em flashback, quer numa conversa gravada pelo protagonista no seu gravador. Robertson encontra-se no local para tratar do tráfico de armas junto das forças guerrilheiras que se revoltaram contra o Governo, embora o protagonista apenas descubra esta informação quando assume a identidade do falecido. Locke é um jornalista que procura entrevistar os revoltosos, tendo em vista a reunir informação para um documentário. Diga-se que o jornalista não é bem sucedido nessa tarefa, conhecendo uma série de contratempos como a fuga do guia e o jipe ter ficado atolado no deserto do Saara, com Michelangelo Antonioni a aproveitar paradigmaticamente os cenários desérticos, pontuados por um enorme calor e uma sensação de vazio. A temperatura elevada é captada com mestria pela câmara, com o trabalho de Luciano Tovoli na cinematografia a contar com toques de brilhantismo. O calor é ainda transmitido pelo guarda-roupa utilizado pelos personagens, com Locke a surgir quase sempre de camisa desabotoada e roupas leves. Jack Nicholson consegue apresentar a subtileza necessária para transmitir a complexidade de Locke, uma figura que nem sempre conseguimos compreender, algo comum a diversas obras de Antonioni. O cineasta volta a construir uma obra cinematográfica capaz de questionar, estimular e envolver o espectador, com tudo a ser aproveitado ao pormenor, incluindo a arquitectura local, sobretudo quando o protagonista se desloca para Espanha. A arquitectura local tem influência na narrativa e nos personagens que a povoam, algo desde logo latente nos momentos iniciais, quando Locke decide assumir a identidade de Robertson, após este último padecer de um ataque cardíaco. O ambiente é quente. O estado de espírito do protagonista parece convulso e ansioso por algo diferente. Não se sabe se Locke pretende mudar para sempre a sua identidade, ou se esta decisão é temporária, embora não deixe de ser um acto meio louco e extemporâneo. Locke abdica de uma profissão segura, de um casamento e de toda uma estabilidade financeira, para apostar em algo incerto e pouco planeado. Diga-se que, gradualmente, compreendemos um pouco o desejo do protagonista em quebrar com o seu quotidiano e assumir uma "nova vida", parecendo ansiar efectuar um "reset" na sua existência e recomeçar como alguém distinto e percepcionar o Mundo que o rodeia de maneira diferente. Claro que esse desiderato é impossível, algo que o próprio Locke percebe, sobretudo quando se depara com os negócios de tráfico de armas de Robertson, um indivíduo procurado pelas autoridades.

 Locke decide seguir o cronograma que consta na agenda de Robertson, algo que conduz o protagonista a Londres, Munique, Barcelona, entre outros espaços citadinos. Diga-se que é exactamente em Londres que se encontra a viver Rachel (Jenny Runacre), a esposa de Locke, uma mulher infiel que procura descobrir o paradeiro de Robertson, o último a falar com o falecido. Quem também tenta encontrar Robertson é Martin (Ian Hendry), um amigo do protagonista, produtor da BBC, que quase se depara com esta figura em Barcelona, embora o personagem interpretado por Jack Nicholson se consiga esconder graças a uma estranha estudante de arquitectura (Maria Schneider). Na agenda de Robertson, encontramos uma série de nomes de mulheres, com especial incidência para Daisy, uma figura que desconhecemos. Não sabemos se a personagem interpretada por Maria Schneider conhecia ou não o falecido, aquilo que temos a certeza é que esta vai embarcar na jornada do protagonista, tendo um papel fulcral na mesma. Os dois conhecem-se pela primeira vez no Palácio Güell, em Barcelona, um dos vários edifícios históricos aproveitados por Antonioni. Esta é uma cidade recheada de História e histórias, onde Locke procura encontrar um rumo para o seu futuro, encontrando-se num enclave entre a sua nova e antiga vida, embora perceba gradualmente que é impossível mudar a sua essência. Por um lado tem a sua esposa e o seu produtor cada vez mais perto de encontrá-lo, por outro arrisca-se a ser morto no negócio do tráfico de armas, sobretudo se descobrirem que se encontra a utilizar uma identidade falsa, enquanto se depara com uma jovem que desperta a sua atenção. Quem não indica estar preocupada com tudo isto é a personagem interpretada por Maria Schneider, com esta a apresentar um misto de curiosidade e irreverência, parecendo encontrar em Locke um meio para quebrar com as rotinas. Ambos são figuras complexas, com Maria Schneider a contar com uma relevância inolvidável na narrativa, com a personagem a quem dá vida a surgir como uma estudante misteriosa, que conhece diversos locais e parece tão curiosa em relação a Locke como o espectador. Nicholson deixa transparecer as inseguranças de Locke, as suas inquietações e desejos, com este a procurar algo que não parece conseguir obter. Este atravessa uma crise existencial, com as regras da sua profissão a não permitirem que consiga efectuar todas as questões que pretende. O próprio casamento do protagonista já parece ter conhecido melhores dias, algo latente no facto de Rachel ter mantido um caso extraconjugal. Diga-se que os problemas conjugais, as traições, as crises existenciais, a influência dos espaços arquitectónicos, os planos compostos com uma subtileza notória, a utilização exímia das elipses, a abstracção, surgem como elementos transversais a trabalhos de Michelangelo Antonioni como "Professione: reporter", "L'Avventura", "La Notte", "L'Eclisse" e "Il deserto rosso". "Professione: reporter" é o terceiro e último filme do acordo entre o produtor Carlo Ponti e a MGM, do qual resultaram anteriormente "Blow-Up" e "Zabriskie Point". No caso de "Professione: reporter", Antonioni procura ainda abordar questões associadas aos países africanos, em Guerra Civil, ou em confrontos internos, com diversos elementos a lucrarem com o tráfico de armas, enquanto a imprensa tarda em conseguir encontrar um equilíbrio entre a informação oficial e não oficial sobre estes eventos. Esta situação fica bem evidente numa entrevista efectuada pelo protagonista ao líder de um país africano, exibida por Martin quando se encontra a recolher trabalhos do amigo para uma hipotética homenagem, com o governante a apresentar uma versão distinta dos acontecimentos em relação aos "rebeldes". Por sua vez, temos ainda a representação de figuras como Robertson, que lucram com a guerra, uma situação exposta paradigmaticamente num encontro entre o protagonista e dois compradores de armas, numa igreja em Munique.

 O edifício da igreja para efectuar a troca de dinheiro relacionada com o tráfico de armas permite uma dicotomia entre o espaço sagrado e o profano, exacerbado num sonoro "Jesus Cristo" do protagonista quando repara na verba que tem entre mãos. No entanto, as cenas mais marcantes vão decorrer em solo espanhol. Veja-se no último terço, a curta estadia da rapariga misteriosa e do protagonista no Hotel de la Gloria, em Osuna. Antonioni brinda-nos com um magnífico plano-sequência, arquitectado de forma a explanar o momento emocionalmente poderoso, enquanto a banda sonora exacerba a situação. A profundidade do campo é aproveitada, bem como o espaço fora do campo, com a inquietação a assolar a alma dos personagens e do espectador. No final, o desfecho é previsível, ou talvez, nem tanto, com Michelangelo Antonioni e Luciano Tovoli a contribuírem para trechos simplesmente brilhantes. O poder da imagem associa-se à força do argumento, com Antonioni a conseguir imensas vezes que os longos momentos de silêncio tenham tanto ou mais poder do que os diálogos, algo que requer um elenco competente e comprometido. Jack Nicholson e Maria Schneider são o rosto mais visível desse comprometimento, numa obra onde as emoções e os episódios fluem a um ritmo certeiro. Veja-se por exemplo a entrada em cena de Maria Schneider, com a personagem que esta interpreta a assumir uma relevância inesperada após ter passado inicialmente despercebida, ou o plano-sequência perto do final de "Professione: reporter". Diga-se que este plano é pontuado pela presença notória de umas grades que envolvem as janelas, com estas a poderem simbolizar a prisão a que o protagonista se encontra sujeito. Locke está constantemente entre o presente e o passado, entre a sua "nova vida" e a identidade que não pode apagar, parecendo tomar consciência, ainda que gradualmente, das implicações inerentes à sua decisão. A entrada em cena da personagem interpretada por Maria Schneider permite que Locke finte temporariamente a solidão, com estes personagens a formarem uma estranha dinâmica, embora a relação entre ambos esteja marcada pelas dúvidas que o rodeiam o passado, o presente e o futuro da dupla. Se o protagonista parece preso entre a identidade do passado e aquela que assumiu no presente, já a câmara de filmar apresenta uma mobilidade assinalável, colocando-nos imensas vezes diante dos cenários, concedendo a noção do espaço que rodeia os personagens e dos territórios por onde estes circulam. Veja-se quando encontramos a câmara de filmar a mover-se delicadamente para a direita, quando David Locke ainda se encontra em África, com Michelangelo Antonioni a deixar-nos diante da aridez do território, ou os edifícios em Barcelona, entre outros exemplos. O risco marca a vida de David Locke, com este a tomar uma decisão que promete mudar a sua existência, enquanto Michelangelo Antonioni realiza mais uma longa-metragem marcante, pontuada por interpretações de relevo de Jack Nicholson e Maria Schneider, uma narrativa estimulante e envolvente, muitas questões e dúvidas existenciais, com "Professione: reporter" a enobrecer o currículo notável do cineasta.

Título original: "Professione: reporter".
Título em Portugal: "Profissão: Repórter".
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Mark Peploe, Michelangelo Antonioni e Peter Wollen.
Elenco: Jack Nicholson, Maria Schneider, Steven Berkoff, Ian Hendry, Jenny Runacre.

18 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "L'Eclisse" (1962)

 Sensual, misteriosa, indecisa em relação ao futuro, pronta a amar e a afastar aqueles que se aproximam da sua pessoa, Vittoria (Monica Vitti) é uma tradutora que apresenta uma personalidade complexa e enigmática. Vittoria é uma das protagonistas de "L'Eclisse", a obra cinematográfica que termina a trilogia informal do "isolamento", formada ainda por "L'Avventura" e "La Notte", com Michelangelo Antonioni a apresentar novamente uma habilidade inolvidável para captar os ritmos dos sentimentos e sensações humanas, bem como a alienação no interior dos espaços urbanos. Todas estas obras cinematográficas abordam relações complexas, crises existenciais, a alienação do ser humano no espaço urbano, a incerteza em relação ao futuro, embora o final de "L'Eclisse" seja bem mais pessimista. Diga-se que o início de "L'Eclisse" é desde logo marcado pelo final da relação entre Vittoria (Monica Vitti) e Riccardo (Francisco Rabal), uma decisão que parte desta mulher e deixa o namorado devastado. Tal como é apanágio de diversos filmes realizados por Michelangelo Antonioni, a arquitectura local e os cenários apresentam uma relevância notória ao serviço da narrativa, com estes a surgirem muitas das vezes quase como personagens, enquanto o cineasta explora os mesmos de forma imaculada. O design a nível dos cenários interiores é sublime, com um simples cinzeiro recheado de cigarros, aliado aos diálogos entre Vittoria e Riccardo, a permitir que o espectador perceba que o casal esteve a falar durante toda a noite. As falas parecem ter sido relativamente inconclusivas. Diga-se que a falta de diálogo ou a incapacidade de alguns personagens em compreenderem a cara-metade é algo que marca esta trilogia, com o término da relação a parecer apanhar Riccardo de surpresa. Até o espectador é surpreendido, enquanto Antonioni evita seguir uma estrutura narrativa certinha, ou pronta a fornecer todas as respostas. Veja-se que nos coloca desde logo diante de uma separação de um casal que não conhecemos, embora facilmente nos apercebamos das dúvidas de Vittoria em relação ao futuro deste namoro. Vittoria é um mistério, com Monica Vitti, uma actriz brilhante, a conseguir explorar o lado enigmático desta figura feminina que vai facilmente da alegria à tristeza, da euforia ao tédio, tendo muitas dúvidas e poucas certezas em relação à vida. Não tem ambições de ser rica, ao contrário da sua mãe (Lilla Brignone), uma mulher que gasta boa parte dos seus dias a comprar e vender acções na Bolsa de Roma. "L'Eclisse" apresenta este espaço da bolsa quase como se fosse um ringue de boxe, onde vários correctores procuram fazer os melhores negócios, as finanças de diversas pessoas estão em jogo e o ritmo das transacções é frenético, com todos os intervenientes a procurarem desferir o golpe certo para conseguirem lucrar. É neste local, exposto de forma semi-documental, que Vittoria conhece Piero (Alain Delon), um corrector de bolsa que efectua os negócios da progenitora da protagonista.

Se Vittoria parece uma jovem algo indecisa, calma e sensível, já Piero surge como um indivíduo frenético, sem tempo a perder, dinâmico, materialista e pragmático, com ambos a contarem com características transversais a diversos personagens desta trilogia informal de Antonioni. Veja-se que estes vivem no meio dos luxos, entediam-se com alguma facilidade, não conseguem manter uma relação sólida, surgindo como duas figuras complexas e intrigantes. Vittoria e Piero iniciam um romance que tem tudo para fracassar ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica que surge como o culminar de uma trilogia pontuada pelas dificuldades do ser humano em comunicar ou encontrar a felicidade. Michelangelo Antonioni não procura caminhos fáceis ou oferecer conclusões peremptórias, com o cineasta a conseguir captar mais uma vez a complexidade dos sentimentos e relações humanas, algo visível ao longo de "L'Eclisse", uma obra cinematográfica belíssimamente filmada a preto e branco onde cada plano parece ter sido pensado ao pormenor. Veja-se quando encontramos os personagens a saírem do edifício da Bolsa de Roma, com a porta a surgir quase como uma moldura, ou a utilização exímia do deep focus, ou os momentos em que Vittoria e Piero aparecem separados pelas grades que antecedem a entrada no prédio da tradutora, algo simbolicamente relevante, ou a relação entre a dupla não se encontrasse agrilhoada pelas indecisões. Tudo parece pensado ao pormenor, incluindo as deambulações dos personagens pelo espaços urbanos, ou a exibição dos cenários sem a presença dos protagonistas, com Antonioni a brindar-nos com um final que tem tanto de poético como de arrasador, com o destino a seguir o seu curso, algo que também se aplica a Vittoria e Piero. Alain Delon e Monica Vitti brindam-nos com interpretações brilhantes. Ela pelos elogios que já lhe foram efectuados, mas também pela estranha dinâmica que Vittoria cria com Piero e aqueles que a rodeiam. Veja-se quando passa a noite com Anita (Rosanna Rory) e Marta (Mirella Ricciardi), duas vizinhas, com a casa desta última a exibir uma série de objectos que o esposo trouxe do Quénia. Marta apresenta uma atitude algo xenófoba em relação aos habitantes do Quénia, embora aprecie o local, encontrando-se sozinha, tal como Vittoria. Diga-se que esta noite é marcada por alguma bizarria e momentos meio surreais, não faltando uma pata de elefante como suporte de mesa, Vittoria a dançar como se fosse uma indígena do Quénia (ou pelo menos como esta idealiza uma indígena do Quénia), ou a personagem interpretada por Monica Vitti a procurar um cão no meio da rua. No dia seguinte, as personagens interpretadas por Rosanna Rory e Monica Vitti efectuam um passeio de avião, ou o marido da primeira não fosse um piloto, com "L'Eclisse" a deleitar-nos com alguns belos planos aéreos. Antonioni faz questão de realçar a enorme dimensão do espaço citadino de Roma e a pequenez do ser humano diante dos territórios que o rodeiam ao mesmo tempo que evidencia as idiossincrasias de cada personagem de relevo da narrativa. Diga-se que qualquer personagem pode ganhar relevo num determinado momento do enredo, incluindo um indivíduo alcoolizado que furta o veículo de Piero. Ao outro dia, o carro é retirado do fundo do rio, numa das várias cenas marcantes do filme, com o condutor a encontrar-se morto no interior do bólide, enquanto Piero aproveita para exibir mais uma vez a sua personalidade fútil e materialista ao preocupar-se apenas com o veículo. A espaços Piero consegue trazer à nossa memória os personagens burgueses pontuados por enorme vacuidade de "L'Avventura" e "La Notte", com Antonioni a exibir uma visão algo cínica em relação à humanidade.

Com tanta divagação, praticamente saímos dos elogios a Monica Vitti sem abordar a interpretação de Alain Delon, com este a incutir um estilo frenético e pragmático a Piero. Veja-se as cenas no interior do edifício da Bolsa, com Alain Delon a incutir uma energia notável ao personagem que interpreta, com este indivíduo a ter que lidar quer com o sucesso, quer com o insucesso nos seus negócios. Diga-se que "L'Eclisse" surpreende ainda pela quantidade de temáticas que aborda e pela facilidade que tem em despertar a sensação de que é praticamente impossível captar tudo aquilo que Antonioni tem para nos dar. Não falta a solidão do ser humano, as relações que se iniciam e terminam, a complexidade do mercado da Bolsa e as suas perigosas oscilações, os resquícios do colonialismo através de uma mulher que despreza os negros, a forma como os cenários parecem afectar os personagens, a atmosfera de malaise que rodeia os territórios citadinos, entre outras temáticas. No caso do cenários é impossível não efectuar uma dicotomia entre o edifício da bolsa e os momentos quase infantis entre Vittoria e Piero no parque. Na bolsa aquilo que conta é o negócio, enquanto que no parque a dupla tem alguns raros momentos de diversão e sedução. Antonioni consegue ainda explorar a capacidade de sedução da sua protagonista, com um simples descoser de uma alça do vestido da personagem interpretada por Monica Vitti a surgir como um toque sublime que parece aumentar o desejo de Piero por Vittoria e adensar vulnerabilidade e sensualidade da mesma. Não vão ainda faltar outros momentos marcantes entre Vittoria e Piero. Veja-se quando se beijam, com uma porta vidrada a dividir os corpos de ambos, uma cena que tanto tem de infantil como de romântica e simbólica. Existe muito a dividir estas duas figuras, incluindo as suas personalidades. Piero é materialista, seguro na sua pessoa, algo frio e pragmático, não tendo tempo a perder, incluindo a exibir o interesse na protagonista. Vittoria é mais insegura, algo latente quando exibe as suas dúvidas quer diante de Riccardo, quer de Piero, com esta a parecer simbolizar uma geração que vive o clima de incertezas deste período do pós-Guerra. Alain Delon e Monica Vitti convencem, com "L'Eclisse" a contar ainda com uma série de personagens secundários que sobressaem, incluindo Riccardo, um indivíduo desesperado devido ao facto da protagonista ter finalizado a relação; a mãe de Vittoria, uma mulher que teme voltar a ser pobre, que arrisca boa parte das suas poupanças em acções da Bolsa; Marta uma mulher que tem uma quinta no Quénia, um local onde reside o seu esposo, entre outros personagens. A cidade de Roma e os seus cenários surgem como uma peça relevante deste tabuleiro onde Antonioni joga de forma exímia com as peças que tem à sua disposição ao mesmo tempo que cria uma obra cinematográfica de enorme beleza, onde os sentimentos são expostos e explorados de forma complexa.

 É praticamente impossível ficar indiferente a estas figuras que "L'Eclisse" coloca diante do espectador, com Antonioni a explorar os sentimentos das mesmas a um ritmo bem real. Os planos são elaborados com um cuidado notório, com o cineasta a parecer aproveitar cada pedacinho das imagens que tem para nos exibir, enquanto nos deleita com esta obra cinematográfica memorável. Michelangelo Antonioni consegue deleitar-nos não só por aquilo que "oferece" em "L'Eclisse", mas também pelos elementos que deixa ao critério da imaginação do espectador e para a capacidade de interpretação do mesmo, ou Vittoria e Piero não fossem duas figuras difíceis de decifrar, embora os seus sentimentos sejam e soem bem reais. Os silêncios desta dupla por vezes significam tanto como as suas palavras, com Antonioni a exacerbar muitas das vezes a alienação dos personagens através dos planos ou dos cenários que os rodeiam, algo comentado por Susan Doll no seu artigo para o TCM: "Vittoria lives in the EUR in a modern-looking building devoid of decorative detail or visual interest. Antonioni depicts her in long shots tightly framed within her window or doorway, visually underscoring her isolation and alienation". A alienação e o desprovimento de valores desta classe burguesa é ainda visível no espaço da Bolsa de Roma, onde um minuto de silêncio em memória a um membro que faleceu é interrompido constantemente pelos telefonemas, ou pelo enfado do protagonista para quem o tempo é dinheiro. Vittoria e Piero desfrutam de alguns dos luxos aparentes desta sociedade do pós-Guerra, uma prosperidade tão ilusória como a riqueza que é obtida na Bolsa. Veja-se quando encontramos um indivíduo que perdeu uma quantia elevada de dinheiro a sair do edifício da Bolsa, algo cabisbaixo, ou não tivesse acabado de perder parte dos seus bens, com "L'Eclisse" a colocar-nos diante do lado negro de quem joga com as suas poupanças. No final fica a certeza de que é impossível absorver tudo aquilo que "L'Eclisse" tem para nos dar apenas com uma visualização. Diga-se que, após um segundo visionamento, fica sempre a sensação de que existe algo a pedir para ser revisitado, com "L'Eclisse" a parecer sair valorizado a cada nova visualização. Entre sentimentos que nascem e se perdem, planos elaborados de forma meticulosa e relações complexas, interpretações de grande nível de Monica Vitti e Alain Delon e uma realização exemplar de Michelangelo Antonioni, "L'Eclisse" termina com chave de ouro uma trilogia informal brilhante na qual as qualidades deste magnífico cineasta são expostas de forma clarividente.

Título original: "L'Eclisse".
Título em Portugal: "O Eclipse".
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Michelangelo Antonioni, Tonino Guerra, Elio Bartolini, Ottiero Ottieri.
Elenco: Alain Delon, Monica Vitti, Francisco Rabal, Louis Seigner.

16 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "L'Avventura" (1960)

 Os sentimentos humanos nem sempre são compreensíveis ou passíveis de serem completamente justificados, algo que "L'Avventura", uma das obras-primas de Michelangelo Antonioni, exibe de forma paradigmática. Os comportamentos dos protagonistas de "L'Avventura" são imprevisíveis, com o desejo a levar muitas das vezes a melhor sobre a razão, com Michelangelo Antonioni a estar longe de nos procurar dar lições de moral. As traições são imensas, a alienação, a incompreensão e a vacuidade marca o quotidiano de diversas figuras que povoam o enredo, enquanto um estranho desaparecimento promete deixar marca em alguns personagens de "L'Avventura". Anna (Lea Massari) é a mulher que desaparece, com a sua presença a ser sentida, mesmo quando não está fisicamente presente. No início do filme encontramos Anna a deslocar-se a casa de Sandro (Gabriele Ferzetti), o seu noivo, um indivíduo misterioso e mulherengo, que não parece ser apreciado pelo pai da primeira. Diga-se que o namoro entre Anna e Sandro é marcado pelo ressentimento desta mulher em relação ao amado, com "L'Avventura" a deixar claro que diversos personagens contam com alguns problemas no seio dos respectivos relacionamentos. No caso específico, um simples diálogo entre Anna e Sandro permite expor que estes se encontraram separados durante um período de tempo considerável, com esta a parecer colocar em causa a continuidade da relação. Temos ainda um diálogo que ocorre no início do filme entre Anna e o pai (Renzo Ricci), onde este expõe o desagrado em relação ao namoro entre a filha e Sandro, com "L'Avventura" a deixar latente que existe uma enorme fragilidade a marcar o envolvimento entre os personagens interpretados por Lea Massari e Gabriele Ferzetti. Anna dirige-se a casa de Sandro na companhia de Claudia (Monica Vitti), a sua melhor amiga, com o trio a planear viajar num cruzeiro com um grupo de amigos em comum. Se Anna aparece como uma jovem morena, de personalidade algo fleumática e irascível, que vive uma relação pontuada pela instabilidade, já Claudia surge como uma loira com uma enorme amizade pela primeira, que se encontra solteira e procura divertir-se no cruzeiro que vão fazer até às Ilhas Eólias. Para além de Sandro, Claudia e Anna, o barco conta ainda com a presença de um conjunto de figuras de posses elevadas e valores diminutos: Giulia (Dominique Blanchar) e Corrado (James Addams), um casal que mantém uma relação marcada por alguma frieza, com a beleza da primeira a contrastar com o pragmatismo do segundo, um homem mais velho que não parece ter paciência para os comentários pueris da esposa; Raimondo (Lelio Luttazzi), um indivíduo falador que corteja Patrizia (Esmeralda Ruspoli), uma mulher casada, com todas estas figuras a procurarem desfrutar de um período de descanso. A viagem é marcada pela turbulência a nível dos sentimentos, com Giulia a não esconder o desagrado pela forma como o esposo a trata, enquanto Anna toma uma série de atitudes que surpreendem tudo e todos. Veja-se quando decide saltar do barco a meio da viagem para mergulhar, ou finge que viu um tubarão, com estes actos a tanto parecerem medidas para despertar a atenção dos outros como a indicarem que algo vai mal no interior da mente desta mulher. O quotidiano destes personagens é alterado quando Anna desaparece misteriosamente nos territórios rochosos desta ilha. Anna não deixa rasto, com tudo e todos a ficarem preocupados, embora pareçam incapazes de descobrir o paradeiro desta jovem.

O pai de Anna chega ao território, bem como as autoridades e as nuvens cinzentas, prontas a exibirem que vem aí tempestade quer a nível do clima, quer a nível dos sentimentos, enquanto as buscas apenas parecem adensar o sentimento de desespero. Os planos permitem expor a ferocidade deste território que tanto tem de belo como de perigoso, com Antonioni a procurar muitas das vezes exacerbar este espaço, enquanto nos coloca diante das estranhas dinâmicas entre os personagens que povoam o enredo. As buscas conduzem a sentimentos díspares por parte dos diversos personagens, com Claudia e Sandro a parecerem viver os acontecimentos de forma mais intensa. Giulia parece apenas interessada em si própria, uma situação que se mantém ao longo de todo o filme, com Dominique Blanchar a conseguir exprimir de forma convincente o egoísmo desta personagem, uma figura que facilmente cede aos prazeres, algo latente quando trai o esposo com Goffredo (Giovanni Petrucci), um jovem pintor. Corrado surge como um indivíduo mais pragmático e frio, que parece incapaz de comunicar com a esposa. Por sua vez, Sandro decide seguir algumas pistas relacionadas com Anna, embora comece a demonstrar sentimentos mais tórridos por Claudia. Esta encontra-se inicialmente num pranto devido ao desaparecimento da amiga, procurando encontrá-la a todo o custo. No entanto, Claudia também começa a nutrir sentimentos por Sandro, embora procure resistir aos seus instintos mais primitivos e ao desejo que nutre pelo namorado da amiga, enquanto viaja por uma miríade de locais. Os cenários são um elemento fulcral do filme, com Michelangelo Antonioni a aproveitar os mesmos de forma paradigmática ao serviço do enredo quer para expor o contacto dos personagens com os espaços, quer para explanar o efeito que estes territórios parecem causar nestas figuras e no espectador. Veja-se desde logo os planos gerais que nos permitem ficar diante da vastidão dos territórios rochosos das Ilhas Eólias, com este espaço a ganhar características misteriosas e claustrofóbicas a partir do momento em que Anna desaparece. O cenário encontra-se cercado pelo mar, pelas nuvens cada vez mais cinzentas, pelos sentimentos fervilhantes, enquanto o mistério em relação ao desaparecimento é imenso, com Michelangelo Antonioni a jogar com as nossas emoções e sensações mas também com os tabus da sociedade da época ao construir uma série de relações intrincadas. A relação entre Sandro e Anna era complexa, embora não chegue ao nível intrincado dos sentimentos vividos pelo primeiro e Claudia. Monica Vitti concede carisma, presença e dimensão a Claudia, uma mulher que procura conter os seus sentimentos, que tanto parece querer ceder ao desejo como logo de seguida desespera perante os pensamentos que surgem na sua cabeça. Inicialmente desconfia de Sandro, procura afastá-lo, embora acabe por se encontrar de forma amiúde com este homem enquanto procuram por pistas, apesar de nem sempre parecerem  querer concluir esta busca com sucesso. Não falta uma ida de Sandro a Milazzo tendo em vista a ouvir um grupo de contrabandistas que passou pelas imediações do local onde Anna desaparecera, uma visita do personagem interpretado por Gabriele Ferzetti a Zuria (Renato Pinciroli), um jornalista, entre outros episódios, com os destinos do primeiro e Claudia a acabarem muitas das vezes por se reunir. Veja-se a viagem de comboio que antecede o encontro entre Sandro e Zuria, onde existe a noção que Claudia e o primeiro se desejem embora a personagem interpretada por Monica Vitti pareça temer a possibilidade de ceder aos seus instintos. Aos poucos começam a ceder, embora a relação pareça sempre atormentada pela noção de Claudia se estar a envolver com o namorado da melhor amiga. A juntar a todas estas situações temos ainda o facto de Anna continuar desaparecida, sem ninguém saber ao certo se esta se encontra viva ou morta, se cometeu suicídio ou foi assassinada, ou se simplesmente fugiu de tudo e todos. Em certa medida as comparações efectuadas com "Psycho", de Alfred Hitchcock, contam com alguma pertinência, ou Michelangelo Antonioni não se decidisse "livrar" da sua protagonista numa fase relativamente precoce da narrativa, com o desaparecimento de Anna a marcar uma "fatia" importante da narrativa.

 A forma distinta como cada um lida com o desaparecimento de Anna diz muito sobre estes personagens, com Roger Ebert a efectuar uma descrição precisa sobre os mesmos: "It is about the sense in which all of the characters are on the brink of disappearance; their lives are so unreal and their relationships so tenuous they can barely be said to exist. They are like bookmarks in life: holding places, but not involved in the story". O desaparecimento de Anna não vai ser o único destaque de "L'Avventura", embora seja um mistério que vai assolar a alma de diversos personagens, ainda que temporariamente. Michelangelo Antonioni procura fugir de caminhos fáceis ao elaborar uma obra cinematográfica que se desenrola a um ritmo contemplativo, na qual os pequenos episódios podem contar com mais relevância do que podemos esperar. Veja-se a entrada em cena de Gloria Perkins (Dorothy de Poliolo), uma celebridade, pseudo-escritora, aspirante a actriz, sensual e provocadora. Gloria Perkins é o paradigma das celebridades sem grande talento que procuram fazer de tudo para serem conhecidas, com o argumento a apresentar alguma mordacidade, embora esta personagem até permita expor a enorme capacidade destrutiva do ser humano, que o diga Sandro. Este é interpretado de forma sublime por Gabriele Ferzetti, com o actor a conseguir mesclar a personalidade mulherenga do protagonista com um lado mais sério, ou Sandro não fosse uma figura com uma enorme facilidade em ceder ao desejo, embora pareça assolado por uma sensação de vazio que é difícil de preencher. Veja-se a facilidade com que se pretende envolver com Claudia, ou os episódios que testemunhamos durante o decorrer do enredo. Os sentimentos de Claudia são mais difíceis de discernir, com o argumento a explorar a situação intrincada em que esta se encontra, enquanto "L'Avventura" nos coloca diante de um grupo de personagens cujos comportamentos desafiam muitas das vezes a moral da sociedade do seu tempo. A maioria dos personagens não parece encontrar a felicidade nos seus relacionamentos, com Michelangelo Antonioni a colocar-nos diante do sentimento de vazio e tédio que parece rodear muitos destes elementos: a relação entre Anna e Sandro parecia estar no seu ocaso; o relacionamento entre Claudia e Sandro parece desde o início fadada ao fracasso, embora o desejo seja mútuo e exista alguma esperança para ambos; Giulia não tem problemas em trair o esposo, enquanto Corrado demonstra pouco interesse na esposa; o casamento entre Patrizia e Ettore (Cucco) parece estar longe de conhecer momentos de grande fervor, com ambos a dormirem em quartos separados. A juntar a estes personagens temos os territórios que nos são expostos por Michelangelo Antonioni, com este a contar com o notável contributo de Aldo Scavarda na cinematografia. Os planos são muitas das vezes de longa duração, prontos a deixarem-nos observar e apreciar aquilo que se encontra a decorrer, com "L'Avventura" a surgir como o primeiro volume da "trilogia da alienação", que contaria ainda com "La Notte" (1961) e "L'Eclisse" (1962). Não faltam elementos e temáticas a unirem os três filmes citados: a alienação do ser humano no espaço urbano, as relações humanas complexas, as traições, as crises existenciais e do foro sentimental, os momentos de silêncio que transmitem imenso, os personagens que ganham mais relevância do que esperamos, os planos de longa duração, o aproveitamento do espaço dos cenários e da arquitectura local, entre outros exemplos. Como salienta James Brown no seu interessantíssimo artigo sobre Antonioni no site Senses of Cinema, esta trilogia surge ainda unida pelo interesse crescente do cineasta em relação à "(...) abstraction of space: for instance, the shot of the church in the deserted village in L’Avventura; the opening shot of La Notte that tracks down the Pirelli building; and the final seven minute montage of L’Eclisse".

No caso de "L'Avventura", um desaparecimento conduz a uma miríade de episódios, enquanto Claudia e Sandro encontram-se regularmente no cerne de uma narrativa povoada por figuras cujos desejos não parecem durar muito tempo. Sandro é o paradigma dessa situação quer a nível da sua vida sentimental, quer a nível da sua vida profissional, com este arquitecto a exibir numa determinada fase da narrativa que se encontra frustrado com o rumo tomado pela sua carreira. Quase todos os personagens de "L'Avventura" parecem marcados por frustrações, embora viajem imenso, participem em festas e contem com finanças relativamente sólidas. Aos poucos, a busca por Anna parece perder interesse, com "L'Avventura" a concentrar-se antes em situações como a relação entre Claudia e Sandro (exacerbada pela boa dinâmica entre Monica Vitti e Gabriele Ferzetti), a falta de diálogo entre diversos personagens, o desejo e o sexo como um meio utilizado pelos personagens para fugirem às rotinas e à vacuidade que marca o seu quotidiano. Michelangelo Antonioni apresenta uma enorme inspiração a expor e explorar os cenários e sentimentos que rodeiam estes personagens, enquanto nos coloca diante das inquietações e sensações que envolvem estas figuras. Veja-se quando encontramos Claudia e Sandro a falarem sobre Anna no topo da ilha montanhosa, com o som do vento a ser bem audível, o sentimento de desalento pelo desaparecimento da personagem interpretada por Lea Massari a ser latente na face dos dois primeiros, enquanto as nuvens ganham destaque, bem como todo o espaço que circunda os personagens. A profundidade de campo é bem utilizada, tal como a sonoplastia, com tudo a parecer ter sido pensado ao pormenor. A ausência de Anna deixa Claudia inicialmente desolada e desesperada, pelo menos até começar a sentir algo mais forte por Sandro e desejar que a amiga não regresse, com Antonioni a abordar a complexidade dos relacionamentos e sentimentos humanos. Essa situação é visível quando encontramos Claudia a dançar no interior de um quarto, com o casal a viver momentos de aparente felicidade até um episódio menos positivo prometer trazê-los de volta para a realidade. O momento é antecedido de outro episódio não menos memorável, com Claudia a tocar por engano os sinos da Chiesa del Collegio, enquanto fala abertamente com Sandro e observam os cenários a partir do alto do edifício. Diga-se que Antonioni aproveita muitas das vezes para nos colocar diante de planos abertos dos cenários sem a presença dos personagens, com o cineasta a explorar estes espaços de forma exímia, enquanto exibe a sua vastidão diante das figuras que povoam estes territórios. Com um aproveitamento notável e belíssimo dos cenários, uma representação complexa dos sentimentos e relações humanas, "L'Avventura" começa com chave de ouro esta trilogia informal realizada por Michelangelo Antonioni.

Título original: "L'Avventura".
Título em Portugal: "A Aventura".
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Michelangelo Antonioni, Elio Bartolini, Tonino Guerra.
Elenco: Gabriele Ferzetti, Monica Vitti, Lea Massari, Dominique Blanchar.

15 fevereiro 2016

Resenha Crítica: "Il deserto rosso" (1964)

 Primeira longa-metragem a cores de Michelangelo Antonioni, "Il deserto rosso" coloca-nos diante de Giuliana (Monica Vitti), uma mulher deprimida, algo neurótica e problemática, que teme a solidão embora contribua muitas das vezes para afastar aqueles que se aproximam da sua pessoa. A certa altura de "Il deserto rosso" encontramos diversos personagens envolvidos pelo nevoeiro, algo que torna praticamente impossível visualizar os mesmos de forma clara, com a neblina a parecer simbolizar a confusão que rodeia a mente caótica da protagonista, enquanto Monica Vitti consegue explanar de forma sublime as dúvidas que inquietam esta mulher que tem uma enorme dificuldade em adaptar-se às mudanças do Mundo que a rodeia e deixar de lado alguns episódios negativos que a marcaram de forma indelével. Esta tem imensas duvidas em relação a si própria e àqueles que a rodeiam, teme a solidão embora pareça afastar muitas das vezes a felicidade, com o seu casamento a parecer já ter conhecido melhores dias. Tal como na trilogia informal formada por "L'Avventura", "La Notte" e "L'Eclisse", Michelangelo Antonioni volta a abordar temáticas como as relações amorosas que falham ou as dificuldades de comunicação entre os cônjuges, as traições, a alienação do ser humano no espaço urbano, entre outras. Diga-se que "Il deserto rosso" marca ainda a quarta colaboração seguida entre Michelangelo Antonioni e Monica Vitti, com a actriz a exibir mais uma vez a facilidade indelével que tem para mudar de registos, conseguindo transformar as personagens que interpreta em enigmas e fazer com que acreditemos nas dúvidas que rodeiam a alma das mesmas. Em "L'Avventura", "La Notte" e "L'Eclisse", Michelangelo Antonioni colocou-nos diante de personagens com alguma segurança financeira, muitos deles novos-ricos ou aburguesados, com esta trilogia a sobressair ainda pelo magnífico aproveitamento dos cenários, com o cineasta a atribuir uma enorme relevância à arquitectura local, algo que repete em "Il deserto rosso". A cidade onde se desenrola boa parte do enredo de "Il deserto rosso" é Ravenna, com Antonioni a voltar a explorar os cenários exteriores e interiores de forma sublime ao serviço do enredo, com estes a surgirem cheios de simbolismo, influenciando e muito os personagens, com o cineasta a parecer conseguir captar quer os ritmos destes espaços, quer das emoções das diversas figuras que povoam a narrativa de "Il deserto rosso". Veja-se logo nos momentos iniciais, quando somos colocados diante de Giuliana acompanhada por Valerio, o seu filho, a andarem pelas imediações de uma fábrica. Os sons deste espaço são exacerbados, o fumo que sai da fábrica é imenso, a poluição é latente, os protestos dos operários em greve surgem bem audíveis, enquanto assistimos a Giuliana e o filho a caminharem pelas imediações do local. Michelangelo Antonioni capta os sons e os ritmos da fábrica quer no seu interior, quer no seu exterior, exibindo mais uma vez a relevância da arquitectura local e dos cenários para o enredo dos seus filmes. No caso do espaço industrial, o cenário surge marcado por alguma frieza a nível de tonalidades no seu exterior, embora as emoções estejam ao rubro, com funcionários a protestarem e uma mulher a exibir um comportamento deveras estranho. A primeira impressão que criamos em relação a esta figura feminina não é a melhor, com Giuliana a comprar uma sandes que estava a ser comida por um operário, com a voz da protagonista a denotar um enorme nervosismo enquanto o seu interlocutor apresenta um espanto semelhante ao espectador quando se depara com este episódio peculiar.

Quem gere uma destas fábricas é Ugo (Carlo Chionetti), o esposo de Giuliana, um indivíduo que parece ter algumas dificuldades em compreender a esposa, algo que comenta com Corrado Zeller (Richard Harris), um colega de profissão e amigo. Ugo salienta que Giuliana sofreu um acidente de viação, ainda que pouco grave, embora tenha sido internada durante um mês devido ao choque, com o estado mental desta mulher a revelar-se deveras instável, algo que podemos comprovar ao longo do filme. Mais tarde percebemos que a situação não é tão linear, com as verdadeiras razões do acidente a exibirem que o caso é bem mais complexo. A relação entre Giuliana e Ugo parece encontrar-se numa fase aparentemente complicada, com a falta de comunicação e compreensão entre ambas as partes a ser latente. Diga-se que temáticas como a alienação do ser humano no espaço urbano, as relações complexas entre casais, as traições, a solidão, a relevância que os cenários parecem exercer sobre os personagens, entre outras, já tinham sido abordadas por Antonioni na trilogia informal citada, com o cineasta a voltar a desafiar as nossas expectativas em relação aos protagonistas e ao enredo em "Il deserto rosso". Mais do que oferecer respostas paradigmáticas ou conclusões que nos confortem, "Il deserto rosso" coloca-nos questões complexas, desafia-nos, atormenta-nos, seduz-nos, envolve-nos, atira-nos para fora da narrativa até nos hipnotizar para o interior da mesma. As emoções dos personagens nem sempre são discerníveis, embora seja notório que Corrado começa a sentir uma certa curiosidade e algum desejo por Giuliana, enquanto Ugo pouco parece compreender ou preocupar-se com a esposa. Ugo é o gerente de uma fábrica, amigo de Corrado, com este último a procurar trabalhadores especializados para um projecto na Patagónia, uma tarefa que parece assaz complicada devido a não encontrar mão-de-obra. O diálogo entre Ugo e Corrado é interrompido pela chegada de Giuliana, uma mulher que apresenta um rosto de enorme beleza e uma fragilidade emocional desconcertante. Corrado não fica indiferente a esta mulher. Diga-se que Antonioni faz questão de deixar essa situação bem saliente ao longo do filme, com alguns simples olhares e gestos de Corrado a servirem para expor que este indivíduo deseja a esposa do amigo. Veja-se quando Corrado decide visitar Giuliana no espaço da loja que esta pensa abrir. Esta pretende abrir um negócio, embora não tenha ideias claras sobre aquilo que pretende fazer. Giuliana ainda pensa vender objectos em cerâmica, embora pouco perceba do negócio, com o espaço desta loja a apresentar-se tão caótico e vazio como as ideias desta mulher para o futuro. Esta pensa pintar o local com cores neutras, embora seja notório que as paredes da loja se encontram recheadas de tintas de várias tonalidades, algo que demonstra a indecisão de Giuliana nas suas escolhas. O cuidado a nível do design dos cenários interiores fica paradigmaticamente representado neste espaço praticamente vazio, apenas composto por algumas latas de tintas e paredes com pedaços de cores diferentes, algo que remete para a solidão da protagonista e para a confusão que percorre a sua alma. Corrado parece procurar interpretar e compreender esta figura feminina enigmática, enquanto Giuliana demonstra alguma abertura para falar com este homem sobre o seu passado e os seus sentimentos. Richard Harris tem um desempenho sóbrio e eficaz como Corrado, com o actor a conseguir transmitir a calma do personagem que interpreta, uma figura solitária, sem grandes laços, que se prepara para viajar para a Patagónia, acabando pelo caminho por começar a desejar a esposa do amigo. Corrado parece compreender Giuliana melhor do que o esposo desta, com o personagem interpretado por Carlo Chionetti a apresentar uma postura mais fria. Não é que Ugo pareça não gostar da esposa, embora denote dificuldades em compreender a mesma, algo notório quando Corrado questiona o primeiro sobre aquilo que este efectuou assim que recebeu a notícia do acidente. Ugo permaneceu em Londres, desconhecendo por completo as dúvidas que vão na alma da esposa e a sua tentativa de suicídio. Diga-se que Giuliana apresenta uma complexidade notória, ou esta não fosse uma figura feminina imprevisível que tanto é capaz de parecer estar prestes a entregar-se a alguém como logo de seguida exibe uma série de duvidas, um pouco a fazer recordar a personagem que Monica Vitti interpretou em "L'Eclisse".

Os momentos de silêncio entre estes personagens contam muitas das vezes com tanto impacto como os trechos em que se encontram a dialogar, com Antonioni a demonstrar mais uma vez que é um cineasta exímio a captar os ritmos dos sentimentos humanos, conseguindo transportar as dúvidas e inquietações das figuras que povoam a narrativa das suas obras cinematográficas para o espectador. Antonioni obriga-nos a ser parte activa da narrativa, com "Il deserto rosso" a estar longe de ser uma obra completamente "fechada" ou linear". Os personagens são ambíguos e complexos, as questões que são levantadas nem sempre são respondidas, cada plano parece ser composto com um cuidado exímio, com tudo a parecer ter sido pensado ao pormenor. Veja-se por exemplo a dicotomia entre a casa de Giuliana e Ugo e o espaço da casa de um indivíduo que Corrado pretende contratar. A casa da protagonista surge dotada de tonalidades brancas e azuis, arquitectura moderna e obras de arte, dois andares e espaço a mais para apenas três pessoas, embora transmita uma enorme frieza. O quarto de Valerio conta ainda com a presença de um brinquedo em forma de robô, com o jovem a parecer apresentar um maior à vontade com a tecnologia do que a progenitora. A habitação de Mario, o indivíduo que Corrado pretende contratar, é modesta mas acolhedora, com a esposa do primeiro a denotar uma união com o cônjuge dicotómica da relação entre Giuliana e Ugo. O espaço da habitação de Mario é marcado por tons verdes pálidos, com estes a parecerem combinar com as roupas dos personagens. É na casa de Mario que Giuliana revela a Corrado alguns episódios sobre a sua presença na clínica, utilizando para isso uma hipotética figura feminina que supostamente conheceu no local onde se encontrou internada. Monica Vitti compõe esta personagem de forma sublime, conseguindo transmitir-nos uma imensidão de sentimentos, incluindo a insegurança e imprevisibilidade de Giuliana. Essa imprevisibilidade é visível quando encontramos Giuliana, Ugo e Corrado em conjunto com Max e Linda, um casal amigo, num espaço perto do rio, localizado no Porto Corsini. O jantar conta ainda com a presença de Emilia, uma mulher muito cortejada por Max, apesar da esposa estar por perto, com estes momentos a serem marcados por diálogos aparentemente simples, muitas das vezes de cariz sexual, até as diversas figuras se reunirem numa divisória mais pequena deste local. As paredes desta divisória encontram-se pintadas de vermelho e acreditamos que as emoções de Corrado também se encontrem tão quentes como esta cor quando Giuliana se aproxima em demasia do seu corpo. A tonalidade vermelha indica também algum nervosismo, com Antonioni a jogar com as múltiplas interpretações das cores. O espaço é demasiado apertado, embora seja possível discernir que Corrado não é indiferente a Giuliana, enquanto esta mulher tanto apresenta uma postura calma como exibe um lado mais sensual, como entra num enorme histerismo. A saída deste espaço é marcada pelo forte nevoeiro, com Giuliana a encontrar-se em pânico enquanto Michelangelo Antonioni parece estar no controlo de tudo. Veja-se que um quadro colocado perto de um personagem, ou uma simples parede pintada com diversas cores, ou um plano com as imagens mais desfocadas podem simbolizar imenso, com "Il deserto rosso" a deixar mais uma vez a ideia que é impossível absorver tudo aquilo que o cineasta tem para nos dar nas obras cinematográficas citadas ao longo de uma única visualização. Mesmo após uma segunda visualização é latente que Antonioni não nos oferece respostas para tudo, nem esperaríamos isso do cineasta, com "Il deserto rosso" a colocar-nos diante de situações complexas, sentimentos bem reais, personagens que formam relações intrincadas, com o realizador a parecer conseguir captar os ritmos da vida e transportá-los para o grande ecrã.

 Visionar filmes como "L'Avventura", "La Notte", "L'Eclisse", "Il deserto rosso" é algo simplesmente estimulante, com Michelangelo Antonioni a criar experiências únicas para o espectador. As narrativas das obras citadas estão longe de apresentarem um estrutura certinha, os planos contam muitas das vezes com uma duração relativamente longa, o espaço dos planos é explorado ao pormenor, os personagens contam com relacionamentos complexos, os silêncios apresentam um relevo semelhante aos diálogos, os cenários são aproveitados de forma imaculada, com "Il deserto rosso" a exibir ainda o cineasta como alguém brilhante no aproveitamento da paleta cromática. Deixemos de lado as paredes do estabelecimento que Giuliana pretende abrir, uma ideia que duvidamos que esta consiga levar adiante. Veja-se o fumo emanado pela fábrica, ou o rio poluído, ou a forma como Antonioni consegue captar os ritmos de um espaço industrial com um misto de poesia e terror. O espaço industrial é o paradigma da complexidade do filme ou não ficássemos diante de algo que simboliza o progresso, embora os efeitos secundários provocados no território, em particular a poluição, sejam notórios. Veja-se logo nos momentos iniciais do filme quando encontramos um espaço completamente poluído, dominado por tonalidades escuras, com o a paleta cromática a ter sido propositadamente alterada por Antonioni, com o cineasta a mandar colorir diversos cenários e objectos filmados para provocar o efeito desejado no espectador. Esta situação é salientada por Mark Le Fanu no seu artigo escrito para a Criterion: "The publicity for the film made much play with the way Antonioni had instructed his art director, Piero Poletto, in certain sequences, to apply coverings of paint to the living landscape, and to certain objects (like the displayed fruit on the cart); yet the contemporary viewer, half a century later, is struck by how little the film’s total aesthetic effect seems to owe to such overt stylization". Encontramos uma forte ligação entre o cinema e a pintura, com cada plano a ter sido pensado e planeado ao pormenor. Veja-se quando encontramos Corrado na rua onde se encontra localizada a loja de Giuliana: os edifícios são marcados pelas tonalidades cinzentas, surgindo algo degradados, enquanto a roupa do protagonista combina com este espaço. O clima é frio, bem como a atmosfera que rodeia alguns dos cenários, embora as emoções encontrem-se bem vivas, com Antonioni a captar uma certa atmosfera de malaise que parece representada na figura da protagonista, uma mulher recheada de neuroses, que procura cuidar do filho da melhor forma possível, que tenta amar o marido, embora pareça muitas das vezes deprimida e isolada de tudo e todos. Nem sempre a compreendemos, nem Giuliana deve saber propriamente aquilo que pretende para futuro, com este a parecer encontrar-se envolvida numa névoa tão forte como aquela que cobre os personagens num determinado momento da narrativa. Diga-se que esta parece ser afectada pelo espaço que a rodeia, ao contrário do esposo, uma situação comentada de forma bastante assertiva por Jamie S. Rich no seu texto para o DVD Talk: "The smokestacks, hazardous sludge, and industrial grays and browns of her village are like a living metaphor for the disconnect she feels. While her husband and even her son have adapted to modern life, Giuliana has not". Parte daquilo que encontramos e ouvimos ao longo de "Il deserto rosso" também pode reflectir a maneira como a protagonista encara o espaço e as gentes que a rodeiam, com Antonioni a deixar em aberto uma série de interpretações em relação ao filme. A não adaptação de Giuliana às mudanças é algo que parece ficar latente num história que esta conta ao filho sobre uma rapariga que gosta de nadar isolada na praia. O conto é representado com tonalidades mais quentes, com "Il deserto rosso" a expor-nos a alguns momentos que mesclam uma estranha beleza e mistério. Entre relações complexas, sentimentos díspares, planos belíssimos, uma utilização sublime da paleta cromática e da sonoplastia, "Il deserto rosso" inquieta-nos, desperta uma miríade de sentimentos, estimula a nossa capacidade de interpretar as imagens, apoquenta a nossa alma, deleita-nos com a interpretação brilhante de Monica Vitti e um trabalho soberbo de um dos grandes mestres da História do Cinema: Michelangelo Antonioni.

Título original: "Il deserto rosso".
Título em Portugal: "O Deserto Vermelho".
Realizador: Michelangelo Antonioni.
Argumento: Michelangelo Antonioni e Tonino Guerra.
Elenco: Monica Vitti, Richard Harris, Carlo Chionetti, Xenia Valderi.