05 novembro 2016

Resenha Crítica: "Tutti i santi giorni" (2012)

 Com uma capacidade indelével para mesclar elementos de romance, drama e comédia, "Tutti i santi giorni" transporta-nos para o interior de uma relação aparentemente perfeita que aos poucos é minada por uma série de incertezas e adversidades. É praticamente impossível que uma relação não atravesse fases mais complicadas, com a longevidade de um envolvimento amoroso a depender imenso da capacidade apresentada pelo casal para ultrapassar as adversidades e aprender com os erros e reveses, algo abordado por Paolo Virzì em "Tutti i santi giorni", sempre com enorme humanidade, humor, doses assinaláveis de drama, romantismo e melancolia. O romantismo e a melancolia marcam o enredo e a banda sonora de "Tutti i santi giorni", a décima longa-metragem realizada por Paolo Virzì, um cineasta exímio a criar personagens plenos de humanidade, a extrair interpretações de relevo por parte do elenco principal e a elaborar obras cinematográficas que remetem para as tradições mais profundas do cinema italiano. O humor é encontrado muitas das vezes na tragédia, o comentário social não é descurado, enquanto Luca Marinelli e Thony compõem uma dupla de protagonistas plena de sentimento e humanidade. Luca Marinelli interpreta Guido, um indivíduo bastante reservado e educado, que fala de forma polida, é especialista em literatura latina e mártires cristãos, tendo efectuado uma tese de mestrado relacionada com estas temáticas. Guido trabalha como recepcionista nocturno de um hotel de luxo, situado em Roma, um emprego que lhe permite ler quando o espaço hoteleiro está vazio (um dos seus hobbies preferidos), reflectir, conhecer uma miríade de clientes (alguns bastante peculiares) e ganhar dinheiro suficiente para ter uma vida estável ao lado de Antonia (Thony), a sua namorada. Antonia trabalha numa empresa de aluguer de automóveis, em particular, a Europcar, embora ambicione construir uma carreira como cantora, um sonho deveras complicado de concretizar. Esta canta em algumas festas e clubes nocturnos, com Guido a ser o fã número um da namorada, enquanto Thony, uma cantora e actriz, exibe os seus dotes para a cantoria, com a intérprete a ter a banda sonora do filme a seu cargo. A relação de Guido e Antonia é aparentemente perfeita, com as diferenças destes personagens a parecerem complementar-se praticamente na perfeição. Guido é o elemento mais ponderado, responsável e passivo, que valoriza as palavras e os gestos. Antonia é mais impulsiva, faladora e instável. Ele é toscano, ela é siciliana, com a dupla a ter sido educada de forma bastante distinta. Ambos contam com alguns problemas com os respectivos familiares. O progenitor de Guido, um intelectual, parece pouco convencido em relação ao rumo profissional do rebento, apesar de apresentar uma postura condescendente e não levantar grandes problemas. É certo que o irmão e a cunhada de Guido ainda propõem que este viaje para os EUA, onde trabalham em cargos importantes, mas o protagonista prefere permanecer junto da amada ao invés de partir para uma aventura profissional que provavelmente atomizaria a relação que mantém com Antonia. Por sua vez, Antonia não consegue estar muito tempo junto dos pais, fruto de diversos problemas coleccionados ao longo do tempo, com a simples presença dos progenitores a irritar a protagonista, uma situação que podemos comprovar quando estes efectuam uma visita inesperada ao apartamento da filha. Guido e Antonia habitam num apartamento alugado, relativamente modesto, pontuado por uma decoração acolhedora, com ambos a procurarem aproveitar ao máximo o pouco tempo que têm para estarem juntos, com "Tutti i santi giorni" a colocar-nos diante de um casal de classe média, que tenta manter a chama da relação bem viva e ultrapassar as dificuldades e adversidades com que se deparam pelo caminho, inclusivamente a capacidade inolvidável que o ser humano tem para destruir aquilo que construiu. Ninguém é infalível, Guido e Antonia que o digam, sobretudo a partir do momento em que decidem ter um filho, com este desejo a trazer ao de cima uma série de dúvidas inerentes à incapacidade do casal em concretizar esse objectivo.

 O problema encontrado pelo casal contribui para Paolo Virzì exibir a sua capacidade para conjugar o humor e a tragédia, algo muito próprio do cinema italiano (tal como o cineasta comprovou recentemente no recomendável "La pazza gioia"). Veja-se quando encontramos Guido a masturbar-se para recolher esperma no âmbito da realização de um espermograma, com Luca Marinelli a exibir a atrapalhação do protagonista, enquanto este procura inventar meios para terminar a sua tarefa com sucesso. Guido teme ser estéril, com Paolo Virzì a exibir os receios do protagonista ao mesmo tempo que aproveita os medos deste indivíduo ao serviço do humor. Temos ainda as visitas que Guido e Antonia efectuam ao professor Savarese (Franco Gargia), um ginecologista vetusto, conservador e bastante religioso, com a protagonista a não ter grande paciência para aturar os comentários espirituosos do médico. Paolo Virzì encontra humor em situações trágicas, ou caricatas, embora nunca descure a situação dramática que envolve a dupla de protagonistas. O casal procura fazer de tudo para ter filhos, seja consultar médicos de reputação inatacável, efectuar procriação assistida, frequentar um local que potencia a fertilidade, embora nada pareça resultar, uma situação que começa a mexer com Antonia e a quebrar a espiral de felicidade da dupla de protagonistas. Luca Marinelli e Thony convencem quer nas situações de maior intimidade do casal, quer nos trechos mais tensos e dramáticos. Thony transmite a personalidade mais impulsiva e errática de Antonia, uma mulher que fascina Guido e o espectador, com o casal a partilhar momentos de grande intimidade, amor e amizade. Veja-se quando observamos o casal despido, deitado na cama, a assistir a vídeos no portátil. Os vídeos remetem para os tempos em que Antonia vivia com Jimmy (Giovanni La Parola), o ex-namorado, em San Lorenzo, com o antigo casal a partilhar o gosto pela música. É um momento de intimidade partilhado pela dupla de protagonistas, embora Guido pareça claramente incomodado, sobretudo quando o casal se depara com Jimmy em plena cidade de Roma. Este é um dos personagens secundários que têm algum espaço para sobressair. Veja-se quando Jimmy entra no restaurante indiano onde Guido e Antonia estão a jantar, não tendo problemas em retirar alguma comida do prato do protagonista e dialogar com a ex-namorada como se ainda estivessem envolvidos. Temos ainda personagens como Patrizia (Micol Azzurro) e Marcello (Claudio Pallitto), os vizinhos da dupla de protagonistas, um casal que passa boa parte do tempo a discutir e a acumular gravidezes indesejadas. Marcello é um indivíduo violento e superficial, enquanto Patrizia é uma mulher pouco culta e espalhafatosa, mas simpática, que encara Guido como um exemplo. A demora para engravidar começa a afectar Antonia de forma indelével, com Thony a conseguir explorar a faceta mais problemática desta personagem que se envolve em diversas confusões e protagoniza actos desesperados. A proximidade dos vizinhos, capazes de terem filhos com enorme facilidade, embora não tenham planeado avolumar o núcleo familiar, ou desejado os rebentos, parece aumentar ainda mais as dificuldades de Antonia para enfrentar as adversidades. O destino pode ser cruel e contar com traços de humor negro, que o diga a dupla de protagonistas de "Tutti i santi giorni" (que confirmam o comentário de Bobby em "Café Society": "Life is a comedy written by a sadistic comedy writer."), com Paolo Virzì a desenvolver a relação de Guido e Antonia com enorme acerto e humanidade, sempre com algum humor e dramatismo à mistura. Inspirado no livro "La generazione", o argumento de "Tutti i santi giorni" aborda uma série de temáticas muito próprias das relações modernas e dos casais de classe média. Não faltam as dificuldades para conciliar o tempo livre, o apartamento alugado, o "hipotecar" dos sonhos para ceder ao pragmatismo de trabalhar em áreas distintas daquelas que sonhámos para o futuro, os reveses impossíveis de evitar, enquanto Luca Marinelli e Thony conquistam o espectador como um casal que conta com imensas diferenças mas um grande amor a uni-los.

 Num flashback, utilizado numa fase mais adiantada da narrativa, após Antonia e Guido terem atravessado uma crise, Paolo Virzì coloca-nos diante do primeiro diálogo entre a dupla de protagonistas. Este flashback reforça mais uma vez algo aparentemente óbvio, Antonia e Guido parecem ter sido feitos praticamente à medida um do outro. No entanto, tal como acontece com qualquer casal, a relação de Guido e Antonia atravessa uma fase complicada, com as rotinas aparentemente caóticas mas pontuadas pela felicidade a serem quebradas pelas tentativas frustradas de terem um filho. Será possível superar uma crise pontuada por episódios difíceis? Como ultrapassar um momento menos positivo e recuperar uma relação que parecia quase perfeita, mesmo com as suas pequenas imperfeições? "Tutti i santi giorni" responde a estas questões e aborda algo óbvio de forma inspirada e sincera, ou seja, tudo o que envolve sentimentos é complicado, sendo necessário esforços de parte a parte para que uma relação ultrapasse as dificuldades inerentes à nossa essência humana. Guido é o maior fã de Antonia, surgindo como um intelectual que parece ter sempre as palavras certas para dizer à amada, com Luca Marinelli a incutir um estilo de falar muito próprio ao personagem a quem dá vida. Veja-se quando Guido tenta convencer um grupo a fazer menos barulho para poder ouvir Antonia a cantar, ou assume uma postura lutadora para reconquistar a amada. Marinelli tem mais uma interpretação de bom nível, pontuada pelo carisma habitual do actor e a capacidade deste nos convencer que estamos diante de uma figura masculina que necessita da companhia da mulher amada, da sua amizade, da sua presença, da sua música (veja-se o seu rosto quando observa Antonia a cantar numa festa organizada por Marcello e Patrizia) e das suas palavras. Antonia ama Guido, mas nem sempre toma as decisões mais pragmáticas, com "Tutti i santi giorni" a colocar o espectador diante de um casal que erra, ama, procura ser feliz embora não evite alguns momentos de infelicidade, ou seja, pleno de humanidade. A tonalidade azul pontua diversos momentos da narrativa, uma cor muitas das vezes associada à harmonia, ou frieza e depressão. Ao longo de "Tutti i santi giorni", esta cor pode ser associada a estes diferentes estados de espírito e sentimentos, com Guido e Antonia a tanto protagonizarem alguns episódios que nos fazem esboçar um sorriso como vivem situações complicadas que nos tocam e compelem a torcer para que ambos fiquem juntos. A química entre Luca Marinelli e Thony é essencial para boa parte do enredo de "Tutti i santi giorni" funcionar, com os intérpretes a comporem personagens que se complementam praticamente na perfeição, enquanto aproveitam o bom argumento que têm à sua disposição e a realização certeira de Paolo Virzì, com o cineasta a saber jogar com as convenções dos romances e a incutir pelo meio alguns ingredientes de drama e comédia a esta obra cinematográfica que tem o condão de agarrar por completo a nossa atenção.  

Título original: "Tutti i santi giorni".
Título em inglês: "Every Blessed Day".
Realizador: Paolo Virzì.
Argumento: Francesco Bruni, Paolo Virzì, Simone Lenzi.
Elenco: Luca Marinelli, Thony, Micol Azzurro, Frank Crudele, Giovanni La Parola, Claudio Pallitto.

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