14 novembro 2016

Resenha Crítica: "Il vedovo" (O Viúvo Alegre)

 Um dos aspectos fundamentais da chamada "Commedia all'italiana" centra-se na capacidade das obras cinematográficas do género encontrarem o humor a partir de situações trágicas. "Il vedovo" não é excepção, com Dino Risi a realizar uma comédia à italiana onde não faltam tentativas de golpes, traições, planos mirabolantes e personagens incapazes de melhorarem as suas condições de vida, com o filme a remeter para outras obras do género como "I soliti ignoti" e "Divorzio all'italiana". Não falta um marido que se tenta livrar da esposa, traições, um grupo que elabora um plano que parece incapaz de executar, mas também diversos momentos onde o humor e a tragédia andam lado a lado, bem como um retrato sobre a Itália do denominado "milagre económico", com "Il vedovo" a surgir como um dos recomendáveis representantes do género. Um dos intérpretes que sobressaiu em grande nível neste género de filmes é Alberto Sordi, o protagonista de "Il vedovo", com o actor a exibir o seu carisma e talento para o humor como Alberto Nardi, um empresário romano que tarda em conseguir obter sucesso e respeito. Sordi imprime uma lábia latente a este empresário bem falante e confiante, mas pouco sagaz para os negócios, que engana os funcionários, trai a esposa, ludibria a amante e traça um plano rocambolesco para ficar milionário. Se têm dinheiro disponível, o melhor é afastarem-se de Nardi, caso contrário o mais provável é que este empresário tente convencê-los a investirem no seu negócio, com Alberto Sordi a conseguir transmitir a confiança deste indivíduo que tem "mais olhos do que barriga". Nardi investe os fundos que tem e aqueles que não estão à sua disposição, tendo um negócio relacionado com o fabrico de elevadores onde os prejuízos superam e muito os lucros. Os funcionários encontram-se quase sempre revoltados devido aos ordenados em atraso, os produtos fabricados nem sempre funcionam, os credores não "largam" Nardi, enquanto o empresário conta com companhia leal do tio (Nando Bruno), do marquês Stucchi (Livio Lorenzon) e de Fritzmayer (Enzo Petito). O tio de Nardi é um antigo taxista que investiu todo o seu dinheiro no negócio do sobrinho, sendo sócio e motorista do familiar, apresentando um estranho orgulho por fazer parte deste projecto que tem tudo para não vingar. Stucchi é um marquês caído em desgraça, que respeita e admira Nardi, enquanto Fritzmayer é um técnico alemão que trabalha na criação dos elevadores da empresa do protagonista. Nando Bruno, Livio Lorenzon e Enzo Petito convencem como este trio peculiar, sobretudo no último terço, quando os personagens que interpretam são "empurrados" para o interior de um plano rocambolesco e perigoso. Quem não partilha qualquer admiração por Alberto Nardi é Elvira Almiraghi (Franca Valeri), a esposa do protagonista, uma mulher financeiramente abastada e pragmática, que já não suporta os negócios falhados e os devaneios do esposo. Franca Valeri exprime de forma hábil o enfado de Elvira em relação a Alberto, com o casal a contar com uma relação pontuada pela frieza, diversos enganos e traições. O casal habita num espaço de dimensões alargadas, decorado de forma a expressar a saúde financeira de Elvira, uma mulher experiente, de personalidade forte, que não está disponível para conceder mais dinheiro ao esposo, após diversos negócios falhados deste indivíduo. A casa conta ainda com diversos funcionários e uma série de produtos que Alberto furta para oferecer a Gioia (Leonora Ruffo), a sua amante, uma jovem loira, algo ingénua e pouco expedita a perceber que se está a envolver com um aldrabão.

Leonora Ruffo transmite a ingenuidade da personagem que interpreta, uma jovem que não liga à opinião daqueles que a procuram alertar sobre Nardi, com Gioia a confiar no empresário, mesmo quando este recolhe o casaco de peles que lhe oferecera, tendo em vista a utilizar o adereço para adiar o pagamento de uma dívida. Alberto Nardi tem planos grandiosos para a sua empresa, mas poucos fundos e parco engenho para concretizar esse desiderato. Nardi sonha com grandes feitos, mas também com a morte da esposa, um desejo que exibe paradigmaticamente a falta de amor que existe entre o protagonista e Elvira, bem como o lado negro deste empresário. Se Nardi é um indivíduo que é facilmente enganado, que apenas parece estar rodeado por aqueles que são incapazes de contrariá-lo, já Elvira apresenta uma sagacidade latente a gerir a fortuna da família e uma perspicácia sublime para efectuar bons negócios. Elvira mantém uma série de contactos junto de empresários abastados, tenta manter a sua fortuna e despreza a companhia do esposo, enquanto este último procura obter um empréstimo bancário para investir no negócio dos elevadores. O empréstimo apenas é avalizado pela entidade bancária se Elvira assinar o contrato, algo rejeitado por esta mulher, uma situação que coloca Alberto em pânico. A dinâmica entre Sordi e Valeri como este casal disfuncional funciona quase sempre na perfeição, com a segunda a exibir com gosto o desprezo que Elvira nutre pelo esposo, enquanto o primeiro demonstra por diversas vezes o lado negro deste empresário neurótico e egocêntrico, que sonha com a morte da esposa e pretende livrar-se da mesma para enriquecer com a herança. Num determinado momento de "Il vedovo", Elvira prepara-se para efectuar uma viagem de comboio, tendo em vista a visitar a progenitora. A notícia de que ocorreu um acidente no comboio onde Elvira estava presente e o anúncio nos jornais de que esta poderá ter falecido conduzem Alberto Nardi a evidenciar um falso sentimento de dor e a desfrutar imediatamente da possibilidade de ser milionário devido à morte da esposa. Nardi nem se preocupa em aguardar pela confirmação da morte de Elvira, ou pela hipotética descoberta do corpo, com o empresário a iniciar os preparativos do funeral, enquanto exibe o seu lado mais impulsivo e errático. O humor negro permeia a organização do funeral, bem como os comportamentos de Nardi, com Alberto Sordi a exibir o estilo megalomaníaco e pouco controlado do personagem que interpreta. O empresário ainda vai contar com (mais) uma surpresa desagradável, com Dino Risi a controlar os timings dos momentos de humor e das reviravoltas de forma exímia, inclusive quando o protagonista planeia um assassinato escabroso. Nardi anseia ser bem-sucedido a todo o custo, com este personagem a surgir como um estereótipo das ambições da classe média deste período, algo exposto de forma propositadamente exagerada por Dino Risi. A necessidade do protagonista trazer o carro da esposa para exibir prosperidade, a procura de investir em negócios citadinos e descurar os espaços rurais, o materialismo, as traições, surgem como comentários do foro social de Dino Risi, algo transversal a diversas "comédias à italiana", com o cineasta a colocar-nos diante de um empresário peculiar que raramente consegue executar um plano com sucesso.

Nardi procura apoios financeiros, prepara um velório com o entusiasmo de quem está a comemorar um feito glorioso, decide retirar-se temporariamente num convento, planeia um assassinato e anseia ardentemente ser viúvo. No entanto, os momentos de alegria de Nardi como viúvo duram pouco tempo, sobretudo quando ocorre uma reviravolta na narrativa, com "Il vedovo" a contar com uma série de situações que resultam não só devido ao argumento e à realização de Dino Risi, mas também graças ao elenco competente que o cineasta tem à disposição. Para além dos nomes mencionados, o elenco conta ainda com alguns elementos capazes de darem um ar da sua graça. Veja-se o caso de Mario Passante como Lambertoni, um dos indivíduos que emprestam dinheiro a Nardi, ou Ruggero Marchi como Carlo Fenoglio, um empresário do sector industrial que ascendeu praticamente do zero e conta com um enorme sucesso financeiro. Fenoglio representa um elemento que beneficiou do chamado "milagre económico italiano", tendo investido em negócios rentáveis que contribuíram para que acumulasse riqueza, respeito e poder. Alberto Nardi tarda em conseguir alcançar a prosperidade ansiada e o respeito desejado, uma situação que conduz este indivíduo egocêntrico ao desespero, enquanto encara a morte ou assassinato da esposa como a única possibilidade para se tornar rico de forma rápida. Nardi bem quer ser viúvo, embora Dino Risi não esteja pelos ajustes ao planear um destino bem menos agradável para este empresário que pretende enriquecer através de um método pouco ortodoxo. Com uma interpretação de grande nível de Alberto Sordi como um empresário falhado, charlatão, falador e neurótico, um argumento capaz de explorar a premissa e contar com uma série de ingredientes típicos das "comédias à italiana", "Il vedovo" transporta-nos para o interior do quotidiano caótico de um indivíduo ambicioso mas incompetente, com Dino Risi a efectuar alguns comentários do foro social e a colocar o espectador diante de situações pontuadas quer pelo humor, quer pela tragédia, enquanto o protagonista se prepara para enfrentar a ironia do destino.

Título original: "Il vedovo".
Título em Portugal: "O Viúvo Alegre".
Realizador: Dino Risi.
Argumento: Rodolfo Sonego, Fabio Carpi, Sandro Continenza, Dino Verde, Dino Risi.
Elenco: Alberto Sordi, Franca Valeri, Livio Lorenzon, Nando Bruno, Enzo Petito, Leonora Ruffo, Ruggero Marchi, Mario Passante.

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