01 novembro 2016

Resenha Crítica: "Il sorpasso" (A Ultrapassagem)

 Sentimentos a alta velocidade, ao sabor do vento, do cheiro do asfalto, quentes como o calor emanado pelo Sol num dia abrasador de Verão, prontos a serem vividos de forma plena, intensa, inquietante e perigosa, povoam o enredo de "Il sorpasso", um road movie enérgico com traços de "comédia à italiana", protagonizado por Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant, uma dupla com uma dinâmica certeira, convincente e inesquecível, capaz de despertar o mais largo dos sorrisos ou um sentimento de agonia quando a tragédia chega sem aviso. Vittorio Gassman interpreta Bruno Cortona, um indivíduo enérgico, extrovertido, mulherengo, machista, pronto a viver para o momento, a cantar e a conduzir em contramão, um espírito livre que gosta de apreciar os prazeres da vida e parece representar paradigmaticamente alguém que está a desfrutar de perto as alterações proporcionadas pelo denominado "milagre económico italiano". Não é que Bruno seja rico, ou tenha uma profissão segura, bem pelo contrário, mas parece bastar-lhe um carro (sinal de modernidade e estatuto neste período - o filme foi lançado originalmente em 1962), gasolina, cigarros, sopa de peixe e belas mulheres a acompanharem-no para este se sentir aparentemente feliz. Bruno é um dos protagonistas de "Il sorpasso", com Vittorio Gassman a exibir o seu carisma e talento para a comédia, bem como a sua expressividade e capacidade de explorar um lado mais frágil do personagem que interpreta. Jean-Louis Trintignant interpreta Roberto Mariani, com o actor a explanar a sobriedade e timidez deste estudante de advocacia recatado, filho de pais com algumas posses, que tenta ganhar coragem para falar com a vizinha da frente, embora tarde em cumprir esse desiderato. A vida de Roberto muda por completo quando conhece Bruno, com ambos a influenciarem os comportamentos um do outro, enquanto efectuam uma viagem aparentemente sem rumo e deparam-se com uma série de pessoas quer sejam estranhos ou velhos conhecidos. O enredo acompanha cerca de dois dias da vida de Roberto e Bruno, dois homens de personalidades distintas, que travam conhecimento no feriado de Ferragosto, ou seja, a quinze de Agosto, um dia solarengo, no qual a cidade de Roma parece completamente desértica e bafejada por um calor abrasador. Os edifícios parecem praticamente despovoados, as lojas fechadas, bem como os cafés, com a chegada efusiva de Bruno a contrastar com a atmosfera passiva e branda que marca a cidade de Roma durante o feriado. Bruno estaciona o carro junto ao prédio habitado por Roberto, com o primeiro a não ter problemas em exibir os traços extrovertidos da sua personalidade ao pedir ao segundo, um perfeito desconhecido, se este pode telefonar a Marcela, uma amiga com quem tinha marcado um encontro. O personagem interpretado por Vittorio Gassman evidencia um enorme à vontade ao ponto de parecer que conhece o seu interlocutor há bastante tempo, enquanto desperta uma certa sensação de estranheza em Roberto, com o estudante a não saber como reagir perante este furacão de emoções, que não tem tempo a perder, ou para grandes contemplações (veja-se o desprezo que nutre em relação às obras cinematográficas de Michelangelo Antonioni), embora seja uma figura mais solitária do que aparenta. Roberto chama Bruno e deixa o estranho telefonar no interior da sua casa, com esta decisão a surgir como um momento-chave para o início de uma estranha relação de amizade onde existe muito e pouco a ligar estes dois personagens simultaneamente antagónicos e semelhantes.

Perante o pouco sucesso que obteve com a sua chamada telefónica, Bruno convence Roberto a ir beber ou comer qualquer coisa a algum lado, com o segundo a acabar por ser convencido, apesar de recear inicialmente as intenções do primeiro (algo exposto em voiceover). Aquilo que se segue é uma viagem louca e perigosa, no interior de um Lancia Aurelia descapotável, marcada por uma miríade de episódios inesquecíveis, com os espaços de Roma a serem utilizados com acerto, bem como as suas estradas, enquanto Bruno extravasa os sentimentos em pleno asfalto e os protagonistas deparam-se com uma série de figuras que representam as idiossincrasias do povo italiano. Não falta uma família que viaja numa carripana, um indivíduo a comer um pão enorme no interior do carro, um ciclista, mas também trocas de insultos e uma imensidão de transgressões cometidas por Bruno, com este indivíduo a colocar o quotidiano de Roberto em polvorosa, embora aprecie nitidamente a companhia do estudante. Bruno conduz a alta velocidade, muitas das vezes em contramão, desrespeita as autoridades, ironiza com aqueles que se encontram atrás de si, profere insultos, ouve as suas canções preferidas, tenta meter conversa com duas alemãs, efectua ultrapassagens mirabolantes, parecendo não ter medo de nada, pelo menos até ser confrontado com as consequências de alguns dos seus actos menos ponderados. Jean-Louis Trintignant consegue expressar a surpresa inicial de Roberto em relação a Bruno, com o actor a imprimir um estilo ponderado e tímido ao personagem que interpreta, um estudante que se envolve no interior de uma viagem rocambolesca praticamente por acaso, muitas das vezes sem estar convencido de ter efectuado a melhor opção até ser contagiado pelo seu companheiro de aventura, com o argumento a desenvolver assertivamente esta mudança. Trintignant e Gassman convencem o espectador da estranha dinâmica que se forma entre Roberto e Bruno, com a viagem efectuada pela dupla de protagonistas a trazer algumas descobertas e lições inesperadas, bem como a formação de uma amizade curta, mas intensa e inesquecível. A viagem é marcada por uma série de paragens que contribuem para que fiquemos a conhecer melhor quer a dupla de protagonistas, quer alguns familiares de Roberto, quer a esposa e a filha de Bruno. Os tios de Roberto habitam numa propriedade rural, situada num local perto de Grosseto, um espaço onde o protagonista viveu alguns episódios marcantes da sua infância, com este reencontro a contar com situações pontuadas pelo humor, pela nostalgia e a certeza de que a memória pode ser bastante traiçoeira. Diga-se que a visita a este local permite ainda que Roberto comece a reflectir sobre a sua vida, nomeadamente, sobre o seu passado, o presente e aquilo que planeou para o futuro ao mesmo tempo que compreende que os familiares não correspondem totalmente às memórias que guardava dos mesmos. Nem todas as recordações que guardamos de alguns espaços e de situações de outrora são tão apolíneas como as idealizamos, com Roberto a perceber isso mesmo quando reencontra os tios e descobre alguns segredos sobre os seus familiares, enquanto "Il sorpasso" deixa o espectador diante de uma das imagens de marca das comédias à italiana, ou seja, a capacidade de mesclar o humor com o drama.

A visita aos familiares de Roberto permite ainda que "Il sorpasso" se embrenhe temporariamente pela "Itália rural", com a dupla de protagonistas a deparar-se com uma festa onde os homens e a mulheres do campo se divertem de forma muito própria, com a viagem dos personagens interpretados por Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant a contribuir para que a dupla se envolva por diversos espaços italianos de características distintas. Outra paragem marcante, efectuada no âmbito desta viagem mirabolante e perigosa, acontece em Castiglioncello, um local onde Bruno reencontra a futura ex-mulher (apenas são casados no papel) e a filha. O reencontro de Bruno com as familiares permite exibir que estamos diante de um personagem mais complexo do que aparenta, com Gianna (Luciana Angiolillo), a esposa, a encontrar-se a tratar do divórcio, enquanto Lilli (Catherine Spaak), a filha do protagonista, uma adolescente de quinze anos, pouco contacta com o pai. Lilli encontra-se envolvida com Bibi (Claudio Gora), um indivíduo mais velho do que Bruno, com este último a não parecer aceitar inicialmente a relação, embora pouco ou nada consiga fazer para evitar a mesma, sobretudo quando ganha consciência que foi uma figura quase sempre ausente da vida da adolescente. A presença de Lilli permite que Vittorio Gassman explore um lado mais frágil do protagonista, bem como a procura que este indivíduo efectua para exibir uma atitude extrovertida, pouco contemplativa e aparentemente descomplexada para esconder algumas das suas fraquezas. Por sua vez, Bibi é um indivíduo completamente distinto de Bruno, surgindo como um empresário rico, que representa a segurança e a estabilidade que o segundo nunca conseguiu dar à filha. A casa de férias de Gianna e Lilli encontra-se situada perto da praia, com o protagonista a aproveitar a situação para se divertir neste espaço balnear, ou não estivéssemos diante de um indivíduo que não perde uma oportunidade para desfrutar da vida, mesmo quando leva um ou outro pontapé do destino. Estes reencontros permitem exibir uma faceta distinta dos protagonistas, com Roberto e Bruno a efectuarem imensas paragens ao longo desta jornada e a formarem laços que parecem aparentemente inquebráveis. Veja-se ainda quando frequentam um espaço nocturno onde Bruno dança com a esposa de um conhecido e acaba por se envolver em problemas, ou a ida a um restaurante no qual o personagem interpretado por Vittorio Gassman exibe o seu gosto por sopa de peixe, bem como pela funcionária do local. A viagem e as paragens contribuem para dar a conhecer um pouco mais sobre estas duas figuras peculiares, enquanto Roberto e Bruno protagonizam uma série de episódios marcantes, envolventes e perigosos, com ambos a surgirem como representantes da Itália deste período dos anos 60. O final é inesperado, trágico e doloroso, com Dino Risi a não ter problemas em mexer com os sentimentos do espectador, colocar um personagem diante das consequências dos seus actos pouco ponderados e desfazer uma dupla que tinha conquistado por completo a nossa atenção. É um final surpreendente, que quebra com a noção de que nada de mal aconteceria aos protagonistas, enquanto Dino Risi destrói por completo as expectativas do espectador, com o cineasta a surpreender e a tirar um coelho da cartola que contribui para "Il sorpasso" contar com um desfecho que perdura na memória, preenche a narrativa de desesperança e exibe paradigmaticamente que os actos perigosos podem trazer consequências gravosas.

No final, a tragédia sobrepõe-se aos momentos de humor, com o destino a ser implacável para com os personagens principais de "Il sorpasso", um dos grandes exemplares da "comédia à italiana". Diga-se que "Il sorpasso" conta com diversos elementos deste subgénero tipicamente italiano, tais como a capacidade de encontrar humor em situações trágicas, o drama no interior de um enredo aparentemente leve, os comentários do foro social, a representação de situações muito típicas da época, o final em que diversos personagens não ficaram melhor do que no início do filme, entre outros exemplos. A capacidade de encontrar humor na tragédia é desde logo visível na personalidade de Bruno, um indivíduo extrovertido, que parece contar com grandes amizades e saúde financeira, embora seja um "fura-vidas" solitário que tarda em encontrar estabilidade, tendo em Roberto um inesperado companheiro de viagens. Veja-se quando Bruno não reconhece a filha e tenta galantear a jovem até perceber que está diante de Lilli, um momento que tem tanto de trágico e patético como de cruel, permitindo expor o desfasamento deste indivíduo em relação à realidade e à família. Não faltam traços de drama a "Il sorpasso", bem como uma certa leveza, enquanto ficamos diante de um retrato de uma Itália em mudança, onde os homens e as mulheres contam com valores distintos em relação a um passado recente, com o "milagre económico" a não ter chegado a todas as pessoas apesar de ter afectado o território e boa parte dos comportamentos das suas gentes. Veja-se os elementos do campo a dançarem uma versão muito própria do twist, o gosto pelos carros e pela alta velocidade, a procura de alcançar estatuto social (como o primo de Roberto), as falsas aparências, o materialismo (visível em Bibi e na filha do protagonista), mas também a tentativa de desfrutar de toda uma conjuntura distinta, algo notório na figura de Bruno, um indivíduo magnético, imprevisível, quase sempre pronto a pedir dinheiro emprestado e a influenciar a vida de Roberto, um estudante que é apresentado a uma realidade diferente em relação ao mundo fechado no qual se tinha escondido durante um largo período da sua vida. Se Roberto pensa em compromissos a longo prazo, já Bruno pretende diversão no imediato, com a dupla a apresentar visões distintas da vida, pelo menos a nível inicial, com o segundo a influenciar e muito o primeiro. O argumento, escrito por Dino Risi, Ettore Scola e Ruggero Maccari, explora eficazmente a dinâmica entre Roberto e Bruno, bem como a personalidade de cada um dos personagens principais ao mesmo tempo que aproveita a faceta de road movie de "Il sorpasso" para deixar o espectador diante de uma miríade de episódios que nos dão a conhecer não só a dupla de protagonistas, mas também um território de Itália pontuado por diversas idiossincrasias. A própria banda sonora remete para os ritmos do início da década de 60, com o filme a contar com músicas tão marcantes como "Saint Tropez Twist" de Peppino di Capri, "Quando, quando, quando" de Emilio Pericoli, "Guarda come dondolo" de Edoardo Vianello, "Vecchio frac" de Domenico Modugno, entre outras que são utilizadas eficazmente ao serviço do enredo. Comédia à italiana com características de road movie, pontuada por uma dinâmica notável entre Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant, "Il sorpasso" coloca-nos diante de dois indivíduos de personalidades distintas mas igualmente solitários, que efectuam uma viagem marcante, rocambolesca e intensa, onde confrontam o passado e o presente e vivem intensamente, até a desgraça chegar e Dino Risi desferir um murro no estômago do espectador. Não é possível esquecer o final, nem boa parte do filme, com Dino Risi a realizar uma obra cinematográfica que tem o mérito de ultrapassar as expectativas, desafiar o tempo e perdurar na memória.

Título original: "Il sorpasso".
Título em Portugal: "A Ultrapassagem".
Realizador: Dino Risi.
Argumento: Dino Risi, Ettore Scola, Ruggero Maccari.
Elenco: Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Catherine Spaak, Luciana Angiolillo, Claudio Gora. 

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