10 novembro 2016

Resenha Crítica: "Il deserto dei Tartari" (Deserto dos Tártaros)

 No início de "Il deserto dei Tartari", a última longa-metragem realizada por Valerio Zurlini, encontramos Giovanni Drogo (Jacques Perrin), um jovem Tenente, a despedir-se da mãe, da namorada e do melhor amigo. A melancolia permeia estas despedidas que ocorrem a 2 de Agosto de 1907, com a banda sonora de Ennio Morricone a pontuar o ritmo simultaneamente triste, melancólico e esperançoso destes episódios. Drogo sabe que se prepara para partir em direcção a uma aventura incerta, estimulante, diferente de tudo aquilo a que estava habituado, embora não tenha pedido para ser destacado para o Forte Bastiano, uma base isolada que parece influenciar a mente e o corpo dos militares. O Forte Bastiano encontra-se situado numa zona de fronteira que separa o território pertencente ao Império do espaço denominado de Deserto dos Tártaros e da parcela que pertence ao Império do Norte, com os seus integrantes a contarem com regras bastante rígidas e um sentido de dever aparentemente inabalável. Todos os militares encontram-se fardados a rigor, contam com uma hierarquia bem definida e um conjunto de regras para cumprir e respeitar no interior do Forte Bastiano, com "Il deserto dei Tartari" a abordar o quotidiano destes indivíduos com enorme cuidado e acerto. Veja-se quando Drogo é apresentado ao Coronel Filimore (Vittorio Gassman), o líder do Forte Bastiano, um indivíduo de cabelos grisalhos, experiente, carismático, aparentemente brando, que transmite uma aura de respeito e sapiência. A apresentação decorre num jantar que permite exibir quer alguns dos luxos do Forte, quer a estrutura hierárquica e o respeito pela mesma, com cada elemento a posicionar-se à mesa de acordo com o seu estatuto no interior da base fronteiriça. A sensação de isolamento, alienação e a espera por um possível ataque dos Tártaros marca o quotidiano de boa parte dos militares que protegem o Forte Bastiano, enquanto "Il deserto dei Tartari" nos coloca diante dos laços que se formam entre estes personagens, bem como as tensões inevitáveis e o dia-a-dia destes indivíduos que procuram cumprir as tarefas para as quais foram designados, algo abordado e desenvolvido de forma precisa por Valerio Zurlini. As tensões entre alguns militares são praticamente inevitáveis, bem como a camaradagem e as relações de respeito e até de alguma amizade, com Valerio Zurlini a apresentar-nos a um leque alargado de personagens, enquanto aproveita o elenco de luxo que tem à sua disposição, onde constam nomes como Jacques Perrin, Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Helmut Griem, entre outros, com os intérpretes a elevarem os elementos que interpretam. Diga-se que o espaço do Forte surge praticamente como um dos grandes protagonistas do filme. O Forte aparece representado como um espaço de dimensões alargadas, praticamente isolado da humanidade, com o perigo a estar quase sempre presente na mente dos militares que trabalham e habitam neste local, embora tarde em aparecer de forma concreta, ou seja, na figura dos Tártaros. A viagem a cavalo, que Drogo efectua para chegar ao Forte Bastiano, permite exibir desde logo alguns dos elementos que marcam o quotidiano do protagonista nesta base, tais como a presença fantasmagórica e alienadora do deserto, a sensação de isolamento e a solidão, com o trabalho de Luciano Tovoli na cinematografia a permitir exacerbar as características específicas dos espaços que rodeiam os personagens. Veja-se a forma como a imensidão do deserto e as montanhas parecem agigantar-se diante de Drogo ao longo do trajecto que é efectuado pelo personagem principal, com os planos bem abertos, enquadrados com grande acerto, a deixarem o espectador diante da certeza que a viagem deste Tenente é longa e conta com passagens por locais inóspitos. É nesta viagem que Drogo encontra o Capitão Ortiz (Max von Sydow), um dos seus superiores, um indivíduo que se encontra há mais de dezoito anos no Forte Bastiano, tendo outrora tocado o alarme devido a ter visto, ou pensado ter visualizado, o inimigo.

Max von Sydow incute carisma e ponderação a Ortiz, um Capitão experiente e organizado, que procura acatar as ordens, reflectir sobre as decisões que efectua e apresenta uma humanidade que contrasta com a personalidade implacável e irascível do Major Matis (Giuliano Gemma). O código de conduta dos militares que protegem o Forte é bastante rígido, com Giuliano Gemma a expressar o gosto e o entusiasmo que o personagem que interpreta tem em obedecer aos regulamentos e obrigar aqueles que o rodeiam a seguirem as regras. Giuliano Gemma surge quase sempre de feições rígidas e sérias, tendo em vista a imprimir um cunho duro a Matis, um Major que tenta respeitar ao máximo o regulamento e colocar em prática as tarefas impopulares que Filimore necessita de tomar. Matis forma uma estranha relação de respeito com Drogo, embora estes dois personagens nem sempre contem com uma convivência pacífica, com a personalidade de ambos a ser deveras distinta. Para Drogo, a realidade do Forte Bastiano é uma novidade, com este indivíduo a pensar que a sua presença neste espaço é apenas temporária, embora as suas ideias iniciais acabem por não se concretizar, sobretudo quando começa a ser contagiado por alguns dos ideais dos colegas. Jacques Perrin imprime uma personalidade relativamente ingénua e afável ao personagem que interpreta, um Tenente que procura cumprir o seu serviço e ambiciona sair do Forte Bastiano. Esta ambição encontra apoio na figura de Matis, com o Major a efectuar um acordo com Drogo para que o protagonista possa abandonar o local após quatro meses de serviço. Rovine (Jean-Louis Trintignant), o médico de serviço e Major de patente, não tem problemas em efectuar um relatório médico que permita a saída de Drogo do Forte, mas o protagonista parece começar a ser contagiado pelos ideais dos colegas e dos seus superiores, bem como pela esperança de efectuar uma batalha épica contra os Tártaros. O perigo parece rondar silenciosamente o espaço do Forte Bastiano, pelo menos na fase inicial da narrativa, com os militares a serem obrigados a gerir os seus medos, receios e expectativas. Veja-se quando Drogo se encontra de vigia durante a noite, com o protagonista a deparar-se com um estranho movimento. Esse movimento provém de um cavalo branco, ou seja, pertencente aos Tártaros, pois os militares do Forte Bastiano apenas utilizam cavalos negros ou baios. Drogo ainda pondera accionar o alarme, mas é travado pelo Primeiro-Sargento Tronk (Francisco Rabal), um indivíduo aparentemente carrancudo, que é um dos apoios do protagonista. O conselho de Tronk revela-se acertado, bem como a medida de Drogo de não capturar o cavalo, uma decisão que lhe vale uma repreensão por parte de Ortiz, bem como um elogio de Matis, devido ao facto do protagonista ter cumprido as regras do protocolo. A presença do cavalo parece mexer com os sentimentos dos soldados, ou o quotidiano dos mesmos não estivesse ligado a uma longa espera para travarem um ataque com o inimigo. Valerio Zurlini consegue transmitir essa sensação do tempo que tanto passa depressa demais como tarda em avançar, com os militares a parecerem umbilicalmente ligados a este Forte que tem tanto de austero e agreste como sedutor e propiciador de gerar a esperança de que grandes feitos aguardam aqueles que tiverem a sabedoria para esperar pelo momento certo. Também é um local que afecta a mente que neles habitam, uma situação notória no suicídio cometido por um personagem que é obrigado a reformar-se, com o argumento de Valerio Zurlini, inspirado no livro "Il deserto dei Tartari" de Dino Buzzati, a explorar a complexidade inerente ao quotidiano no interior de um espaço situado numa zona deserta, com o realizador a abordar a forma como este ambiente afecta psicologicamente os militares que trabalham no Forte Bastiano.

O lado psicológico nunca é deixado de lado, com o argumento a exibir que existe um misto de racionalidade e irracionalidade associado a esta missão dos elementos que se encontram no Forte, com cada militar a reagir de forma distinta ao dia-a-dia nesta base com características muito próprias. Veja-se quando Drogo questiona Rovine se o Major já efectuou algum pedido para se transferir do Forte Bastiano para outro local, com o médico a salientar que nunca tomou essa decisão devido a considerar que isso levaria a que se sentisse como um desertor. O próprio Drogo começa a sentir o apelo gerado por este espaço e pelos seus integrantes, com o Tenente a desenvolver uma relação de enorme respeito com Ortiz, Simeon (Helmut Griem) e Filimore. Simeon é um Tenente afável, sempre pronto a dialogar, que apresenta parte do Forte Bastiano ao protagonista e forma uma relação de amizade e respeito com Drogo. Helmut Griem sobressai quer nos momentos iniciais, quando o Sol e as tonalidades azuis parecem permear os cenários e tudo parece relativamente calmo, quer a partir do terceiro acto do filme, quando os personagens se encontram claramente mais envelhecidos e a lidar com uma situação inesperada que supera as piores (ou as melhores) previsões. A passagem do tempo é sentida e transmitida, seja pelos personagens ou pelas referências efectuadas ao decorrer dos meses e dos anos, ou às promoções dos militares, enquanto o trabalho de caracterização permite discernir o envelhecimento de alguns elementos. Por sua vez, o Forte Bastiano aparece praticamente intacto, pontuado maioritariamente por paredes de tonalidades desprovidas de vida e alguns luxos no seu interior, embora a vista que rodeia os personagens transmita uma certa sensação de claustrofobia. O deserto, as ruínas, a temperatura (nunca parece existir um meio termo, ou está muito quente ou frio), a possível chegada de um inimigo contribui para o modo muito próprio como estes elementos encaram este espaço, com Valerio Zurlini e Luciano Tovoli a concederem características transcendentes ao local. Filmado em parte em Arg-e Bam, uma fortaleza situada no Irão, "Il deserto dei Tartari" beneficiou e muito das características deste cenário praticamente perfeito para o Forte Bastiano. Austero no seu exterior, capaz de transmitir o sentimento de isolamento da base onde se encontram os personagens principais de "Il deserto dei tartari" este espaço do Irão serviu e muito as pretensões de Valerio Zurlini, com o cineasta a aproveitar o mesmo ao serviço do enredo de forma bastante precisa. O nevoeiro, as montanhas, as areias do deserto povoam o território que circunda o Forte, algo captado ao longo do filme, com "Il deserto dei tartari" a tanto colocar o espectador diante de céus límpidos e azuis que transmitem uma sensação de calor como de chuvas fortes que batem forte nos corpos e trazem consigo o adensar da incerteza. Veja-se quando Lazare (Shaban Golchin Honaz), um dos militares, desobedece às ordens e procura roubar o cavalo branco durante uma noite chuvosa, acabando por ser eliminado por um colega devido a não saber a senha para entrar no Forte. Este acto permite expor a faceta implacável de Matis quando alguém desobedece às ordens mas também a rigidez dos códigos de conduta e a necessidade dos militares não saírem de certos locais fronteiriços, caso contrário estarão a violar os acordos com o Reino do Norte. A disciplina faz parte do dia-a-dia destes elementos, seja no treino, a caçar, num simples jantar ou a efectuarem uma vigia, com Valerio Zurlini a ter tempo para explorar as diferentes vertentes do quotidiano no Forte. Não faltam duelos de esgrima, eventos relacionados com a caça, missões, treinos com os pelotões, entre outras actividades que visam solidificar as competências dos militares que se encontram a cumprir serviço militar no Forte Bastiano.

 O Forte conta ainda com uma série de elementos que se destacam no interior do contingente numeroso que se encontra no interior desta base. Um desses elementos é o tenente Pietro Von Hamerling (Laurent Terzieff), um indivíduo que se encontra debilitado, com problemas de saúde e uma fragilidade física notória. Laurent Terzieff consegue exibir a fragilidade física de Von Hamerling quer nos gestos que incute ao personagem, quer no modo de dialogar, sempre sem parecer algo forçado ou caricatural. Veja-se quando participa numa expedição para estabelecer os limites da fronteira do lado do Império, enquanto decorre uma forte tempestade de neve, com Pietro Von Hamerling a não ter problemas em "atirar-se" para a morte e assumir um papel de relevo na iniciativa, mesmo sabendo que não conta com condições físicas para tal proeza. Temos ainda figuras como o Tenente-Coronel Nathanson (Fernando Rey), um indivíduo que transmite uma enorme imponência, que se digladia com feridas de guerra que consomem o seu corpo, embora esteja sempre presente nas reuniões e momentos de decisão no Forte Bastiano. O elenco conta com interpretações coesas, com Valerio Zurlini a saber extrair desempenhos sólidos da parte dos seus intérpretes, embora o grande destaque recaia em Jacques Perrin, um colaborador habitual do cineasta e uma das figuras mais influentes para conseguir tirar "Il deserto dei Tartari" do papel. Perrin permite atribuir credibilidade a esta entrada de Drogo no Forte Bastiano, às dúvidas iniciais do protagonista, às relações de amizade e lealdade que o Tenente forma no interior da base, bem como às transformações físicas deste personagem com o avançar do tempo. A passagem do tempo e a forma como é exposta e aproveitada por Valerio Zurlini é outro dos pontos fortes de "Il deserto dei Tartari". A sensação da espera dos personagens é transmitida, bem como a forma como os militares parecem contagiados por algo de muito forte e contraditório que os compele quer a pretenderem permanecer no Forte, quer a desejarem sair deste local, embora anseiem por um momento que aqueça as suas almas e atribua relevância ao seu trabalho. O tempo passa, quase não damos por isso, nem os personagens, embora os seus corpos e as suas mentes se ressintam, enquanto são promovidos ou destacados para locais diferentes, ou são colocados diante de situações inesperadas. Drogo é o nosso elo de ligação com o Forte Bastiano. É na companhia de Drogo que viajamos até este espaço, que conhecemos as suas imediações e o deserto, que ficamos a percepcionar a realidade do Forte e as suas características muito particulares. Composto por paredes maioritariamente desprovidas de cores vivas, muitas das vezes com traços de humidade, o Forte Bastiano conta com uma atmosfera relativamente austera, algo notório nos seus corredores cinzentos e nos quartos dos militares, embora a sala de jantar seja um local dotado de alguns luxos. Veja-se a banda a tocar música ao vivo, o tapete vermelho e azul que se encontra a adornar o chão onde se encontra a mesa, os candelabros, todo o aprumo na colocação dos copos, pratos e talheres, ou seja, é um local bem distinto do espaço exterior do Forte.

O trabalho de câmara contribui para termos a noção do espaço do Forte, bem como das suas divisórias, com este cenário a ser utilizado de forma bastante assertiva. O Forte Bastiano parece contar com um superpovoamento notório, tendo em conta que os militares pouco ou nada fazem para além de treinarem e aguardarem pela chegada de um possível ataque dos Tártaros, embora, num determinado momento, uma decisão prometa mexer com as rotinas destes homens que procuram dar o melhor de si próprios na defesa de uma das bases mais longínquas e relevantes do Império. Drogo chega a este espaço como um Tenente que quer mudar rapidamente de base, até começar a ser atraído pelo canto desta sereia em formato de Forte, que provoca um apelo quase irresistível nos soldados. Veja-se o caso de Ortiz, um indivíduo que outrora visualizara o inimigo, tendo ficado no Forte Bastiano à espera de um possível ataque, embora a solidão da reforma e a noção de que ficou algo por cumprir acabem por provocar uma atitude poderosa e inesperada por parte do personagem interpretado por Max von Sydow. Também Drogo não consegue evitar o sentido de missão e de defesa do Forte, com Valerio Zurlini a deixar-nos a espaços na dúvida se algumas observações efectuadas pelos personagens correspondem à realidade ou aos truques da mente, embora o cineasta desfaça rapidamente essas questões no último terço de "Il deserto dei Tartari". Diga-se que estamos ainda diante de uma das provas de maturidade de Valerio Zurlini, com o cineasta a conseguir transmitir a sensação de isolamento e espera dos militares no Forte Bastiano, a recorrer de forma certeira à banda sonora de Ennio Morricone (já em "Estate Violenta", "La ragazza con la valiglia" e "Cronaca Familiare" demonstrara essa apetência para utilizar a música para os efeitos pretendidos), a criar personagens dotados de dimensão e extrair interpretações de um nível elevado por parte do elenco, com "Il deserto dei Tartari" a exibir ainda o talento do realizador para explorar os efeitos da passagem do tempo e as especificidades do território. Valerio Zurlini transmite a atmosfera de camaradagem e algumas tensões que ocorrem no Forte Bastiano, enquanto permite que o elenco sobressaia, sobretudo Jacques Perrin, com "Il deserto dei Tartari" a aparecer como uma obra cinematográfica que nos assombra e nos compele a visualizarmos tudo mais do que uma vez, seja para apreciar a magnífica banda sonora de Ennio Morricone ou o trabalho sublime de Luciano Tovoli na cinematografia, ou observar as características específicas dos cenários e das interpretações, ou a degustar o argumento de Jean-Louis Bertucelli, com tudo a parecer obter ainda mais valor após cada nova degustação.

Título original: "Il deserto dei tartari".
Título em Portugal: "Deserto dos Tártaros".
Realizador: Valerio Zurlini.
Argumento: Jean-Louis Bertucelli.
Elenco: Jacques Perrin, Vittorio Gassman, Helmut Griem, Jean-Louis Trintignant, Giuliano Gemma, Fernando Rey, Max von Sydow, Laurent Terzieff.

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