07 novembro 2016

Resenha Crítica: "I mostri" (Os Monstros)

 Entre o humor inteligente e o grotesco, os exageros e o realismo, os comentários de foro social e a sátira, "I mostri" coloca-nos diante de uma narrativa dividida em vinte episódios, todos de curta duração, enquanto Dino Risi utiliza a comédia para dissecar e expor as idiossincrasias de Itália nos anos 60, com Ugo Tognazzi e Vittorio Gassman a estarem presentes no elenco da maioria destes "sketches". O talento de Gassman e Tognazzi para o humor é exposto de forma paradigmática durante o filme, com a dupla a interpretar uma série de figuras peculiares ao longo dos diferentes episódios de "I mostri". Vittorio Gassman tanto interpreta convincentemente um advogado de expressões e gestos exagerados como um mendigo que engana um cego, ou um polícia desdentado, ou um cineasta excessivamente rigoroso, ou um marido que engana a esposa e as amantes, ou um pugilista caído em desgraça. Ugo Tognazzi também dá vida a uma série de figuras peculiares ao longo de "I mostri", tais como um polícia estrábico, um pai que ensina o filho a quebrar as regras e enganar aqueles que o rodeiam, um soldado que não tem problemas em vender o diário da irmã para um jornal após esta ter sido assassinada, um marido traído, entre outros personagens que são elevados pelas interpretações do actor. O mote para "I mostri" é dado desde o primeiro capítulo, com Dino Risi a colocar o espectador diante de um pai (Ugo Tognazzi) que ensina o filho (Ricky Tognazzi) a transgredir as regras. Desde ultrapassagens em contramão, passando por ludibriar a empregada da caixa do café, até ensinar o filho a bater nos colegas e a roubar, o personagem interpretado por Ugo Tognazzi pensa estar a educar o rebento para que este se consiga desenvencilhar no interior de um Mundo onde apenas os mais "espertos" se safam, embora o desfecho exiba que os planos deste indivíduo saíram completamente ao lado. O primeiro episódio é curto, pontuado por um ritmo frenético e eficaz nos seus propósitos, com o argumento a explorar de forma assertiva o humor a partir de situações trágicas ou exageradas, enquanto é efectuado um comentário do foro social sobre Itália em plenos anos 60, ou seja, durante o denominado "milagre económico". Não faltam alguns exageros na exposição deste comentário e sátira sobre a sociedade da época, com "I mostri" a partilhar diversos elementos transversais em relação à chamada "Commedia all'italiana", tais como as traições, a paixão de alguns personagens pelas ultrapassagens e pela alta velocidade (a fazer recordar "Il sorpasso"), o consumismo e o materialismo (veja-se o soldado que não tem problemas em vender o diário da irmã, recentemente falecida, ao melhor preço), a exposição das diferenças sociais, entre outros exemplos. Essa mudança de valores é particularmente visível no episódio intitulado "L'oppio dei popoli", onde encontramos um indivíduo (Ugo Tognazzi) sentado no sofá, a assistir ao seu programa televisivo preferido, enquanto a esposa (Michèle Mercier) aproveita o momento de distração do marido para traí-lo com o amante (Marino Masè). A presença da televisão no quotidiano das famílias, a necessidade de contar com carros caros, os políticos que pensam acima de tudo nos seus interesses, surgem como algumas temáticas abordadas ao longo destes episódios, com o argumento de Agenore Incrocci, Ruggero Maccari, Elio Petri, Dino Risi, Furio Scarpelli, Ettore Scola (um sexteto de meter respeito) a procurar não deixar escapar nada neste retrato muito particular sobre o território italiano em plena década de 60.

 A política, o desporto, a justiça, a religião, a sexualidade, as relações sentimentais, o cinema e a literatura marcam presença em diversos episódios, com o argumento a revelar uma criatividade latente na procura de atribuir um corpo homogéneo a um conjunto de "sketches" aparentemente desgarrados que conseguem efectuar um retrato mordaz sobre a Itália dos anos 60. A política é alvo de um comentário pouco abonatório em "La giornata dell'onorevole", um episódio onde Ugo Tognazzi interpreta o personagem do título, um deputado que procura manter distância de um general que pretende denunciar um negócio ruinoso para o Estado. O deputado adia a reunião por longas horas, tendo em vista a aguardar que o contrato seja assinado e os planos do general sejam sabotados. Temos ainda a religião a ser alvo de escárnio a partir da figura de um padre (Vittorio Gassman) que não descura uma boa dose de maquilhagem em "Il testamento di Francesco". Ironia das ironias, o padre profere um discurso no qual crítica a vaidade, com "I mostri" a colocar-nos um pouco diante da hipocrisia humana. Essa hipocrisia permeia ainda episódios como "La strada è di tutti", onde um transeunte (Vittorio Gassman) reclama com o facto dos automobilistas não travarem os carros na passagem de peões, embora o protagonista seja o primeiro a apresentar esta atitude quando se encontra no seu veículo, ou "La raccomandazione", no qual um actor egocêntrico (Vittorio Gassman) ignora o pedido de ajuda de um colega de profissão (Franco Castellani). Já o sistema judicial é criticado no rocambolesco "Testimone volontario", onde um advogado (Vittorio Gassman) consegue destruir a reputação de uma testemunha (Ugo Tognazzi) no interior de um julgamento caricato. Diga-se que a testemunha tinha uma série de rabos-de-palha, tais como enganar a entidade patronal e a esposa. As traições amorosas são visíveis em episódios como o mencionado "L'oppio dei popoli", bem como em "Il sacrificato" (um indivíduo trai a esposa e as amantes), "Come un padre" (o elemento interpretado por Lando Buzzanca é traído pelo melhor amigo) e "Vernissage" (o personagem interpretado por Ugo Tognazzi trai a esposa com prostitutas). Diga-se que "Vernissage" remete ainda para o materialismo e para o carro como um sinal de prosperidade, embora neste episódio o protagonista utilize ainda o veículo para pagar menos a uma prostituta. Por sua vez, o prazer dos italianos pelo futebol é satirizado em Che vitaccia!", no qual um indivíduo da periferia, depauperado, pai de uma família numerosa, decide gastar o seus últimos fundos num bilhete para ver um jogo de futebol, embora tenha o rebento doente e a necessitar de medicação. Ou seja, "I mostri" coloca-nos diante de um estranho retrato de Itália em plenos anos 60, com os defeitos e os estereótipos a serem exacerbados de forma mordaz ao serviço do humor, embora exista todo um comentário do foro social que explana paradigmaticamente as idiossincrasias de uma sociedade em mudança. "I mostri" confirma ainda a apetência de Dino Risi para mesclar o humor com a tragédia, com o último episódio a ser paradigmático dessa situação e a trazer à memória os desfechos trágicos de "Il vedovo" e "Il sorpasso", duas obras cinematográficas muito recomendáveis deste cineasta. A criatividade de Dino Risi e do grupo de argumentistas permite que "I mostri" efectue comentários certeiros e mordazes sobre a Itália dos anos 60, enquanto Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi parecem divertir-se imenso e a divertirem-nos pelo caminho a interpretarem uma miríade de figuras de personalidades e características físicas distintas, com a dupla a apresentar-se em bom nível ao longo desta obra cinematográfica cheia de ritmo, humor e situações peculiares.

Título original: "I mostri".
Título em Portugal: "Os Monstros".
Realizador: Dino Risi.
Argumento: Agenore Incrocci, Ruggero Maccari, Elio Petri, Dino Risi, Furio Scarpelli, Ettore Scola.
Elenco: Vittorio Gassman, Ugo Tognazzi, Michèle Mercier, Ricky Tognazzi, Franco Castellani, Lando Buzzanca.

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