21 outubro 2016

Resenha Crítica: "Smetto quando voglio" (Paro quando quiser - Génios à Rasca)

 Em "I soliti ignoti", Mario Monicelli colocou o espectador diante de um grupo composto por indivíduos com posses financeiras diminutas, pouco instruídos e incompetentes, que procuravam assaltar a "comadre" de uma loja de penhores. "I soliti ignoti" é um exemplo paradigmático das grandes comédias à italiana, com Mario Monicelli a encontrar o humor na tragédia, enquanto satiriza os filmes de assalto e coloca o espectador diante de um conjunto de personagens pouco instruídos, que efectuam pequenos roubos e vivem à margem da sociedade na periferia de Roma. No caso de "Smetto quando voglio" (em Portugal: "Paro quando quiser - Génios à Rasca"), a primeira longa-metragem realizada por Sydney Sibilia, o contexto é muito semelhante ao de "I soliti ignoti", embora conte com uma diferença: os protagonistas não são um grupo de indivíduos pouco instruídos, mas sim licenciados e mestres que caíram no desemprego ou em empregos precários. Não faltam pontos de união entre "I soliti ignoti" e "Smetto quando voglio", tais como os personagens à margem da sociedade, o aproveitamento de alguns espaços da cidade de Roma, um grupo de criminosos peculiares, a utilização de alguns estereótipos ao serviço da comédia, os planos rocambolescos, a capacidade de encontrar o humor em situações trágicas e os comentários de foro social. Os elementos que compõem o grupo de traficantes de "Smetto quando voglio" denotam um conhecimento acima da média em áreas tão distintas como antropologia, neurobiologia, arqueologia, macroeconomia, letras clássicas, embora não contem com experiência nos meandros do tráfico de substâncias estupefacientes. Esse desconhecimento não impede que os membros do grupo consigam criar uma smart drug que se revela um sucesso de vendas ao ponto destes indivíduos começarem a irritar traficantes poderosos e perigosos como Murena (Neri Marcorè) e despertarem a atenção das autoridades. No início de "Smetto quando voglio", somos colocados diante de um assalto a uma farmácia, enquanto Pietro Zinni (Edoardo Leo), o protagonista, expõe o contexto legal que o conduziu a reunir um grupo de amigos para entrar neste negócio que tem tanto de lucrativo como de perigoso: "Em Itália, para ser definida como uma droga, uma substância deve estar na lista de moléculas ilegais do Ministério da Saúde. Cocaína, Heroína, Anfetaminas, Metadona, Ecstasy, e mais ou menos 200 outras moléculas compõem esta lista. Se uma molécula não estiver nesta lista, pode-se fabricá-la, tomá-la, mas, acima de tudo, vendê-la". Nesta espécie de prólogo, encontramos o protagonista a entrar numa farmácia, bem como os restantes elementos do grupo, tendo em vista a furtarem o estabelecimento, embora a conjuntura que envolve este episódio apenas seja revelada numa fase mais adiantada da narrativa, com Sydney Sibilia a aproveitar os momentos iniciais para expor de forma prática e rápida o personagem principal e a forma como este procurou contornar as leis para iniciar um negócio lucrativo e perigoso. Pouco depois desta apresentação curta e rápida, a narrativa recua quatro meses, com Sydney Sibilia a colocar o espectador diante de todo o contexto que conduziu Pietro Zinni a entrar no negócio das smart drugs e a formar um grupo de traficantes peculiares. Pietro Zinni é um investigador universitário, formado em neurobiologia, que tem um mestrado em ciências neurológicas informáticas e outro em dinâmica molecular. Este procura fazer de tudo para convencer a comissão da universidade a conceder o financiamento necessário para uma investigação supostamente revolucionária na qual o investigador se encontra a trabalhar. No entanto, a crise financeira conduz a cortes nos investimentos e despesas da universidade, uma situação que afecta Pietro, com este a perder o concurso para a investigação, bem como o emprego como investigador.

 De um momento para o outro, Pietro não só perdeu o sonho de conseguir alguma independência financeira, aos trinta e sete anos de idade, mas também ficou desempregado. É certo que Pietro conta ainda com um trabalho como explicador, embora os alunos não encarem as aulas de apoio a sério, para além de não pagarem a verba estipulada devido à crise financeira, ou seja, a vida profissional do protagonista está numa fase completamente caótica. Diga-se que a vida pessoal de Pietro também está longe de atravessar uma fase bastante positiva. Pietro habita com Giulia (Valeria Solarino), a sua namorada, uma assistente social, num apartamento modesto, sem grandes luxos, com ambos a terem de efectuar um esforço enorme para pagarem as contas mensais. Sem emprego ou perspectivas profissionais risonhas, Pietro encontra-se num beco aparentemente sem saída, sobretudo a partir do momento em que mente à namorada ao revelar que conseguiu a bolsa de investigação. Perante a instabilidade financeira que marca o seu quotidiano, Pietro decide revoltar-se contra o sistema e utilizar os seus conhecimentos e dos seus amigos para aproveitar as brechas na lei italiana e criar smart drugs. Os amigos de Pietro também não se encontram numa situação favorável, com "Smetto quando voglio" a abordar, sempre com algum humor e exageros à mistura, uma problemática bastante contemporânea, ou seja, a incapacidade do mercado de trabalho absorver todos os licenciados e mestres que se formam nas universidades em busca de uma perspectiva profissional que nem sempre se confirma. Diga-se que este é um problema que afecta não só Itália, mas também outros países, com Portugal a não ser excepção. Os elementos do grupo de Pietro contam com cursos superiores e mestrados mas estão à margem da sociedade, tal como os personagens de "I soliti ignoti", embora estes últimos não contassem com as condições dos primeiros, tal como não apresentavam grande vontade para trabalhar. Se os protagonistas de "I soliti ignoti" não parecem ter beneficiado do denominado "milagre económico italiano", já os personagens principais de "Smetto quando voglio" depararam-se com um contexto no qual o acesso ao ensino superior é facilitado, mas a crise financeira, o desemprego e a precariedade laboral acabam por contribuir para que estes elementos também estejam à margem da sociedade. A formação académica serviu para que os protagonistas de "Smetto quando voglio" contassem com mais cultura geral e conhecimento em áreas específicas, embora não lhes tenha fornecido a experiência prática que é necessária para áreas de trabalho distintas em relação àquelas em que se formaram. Ou seja, Sydney Sibilia encontra o humor na tragédia e no drama ao mesmo tempo que efectua um comentário social e desperta alguns risos. Nas notas do realizador, que constam no press kit do filme, Sydney Sibilia salienta que o ponto de partida de "Smetto quando voglio" surgiu de um artigo de jornal sobre dois jovens que tinham concluído o mestrado e trabalhavam na empresa municipal de tratamento do lixo, com o cineasta a aproveitar uma problemática que afectou Itália para destrinçá-la de forma mordaz ao longo do enredo. Não faltam alguns exageros e situações caricatas, mas também comentários dotados de alguma inteligência e mordacidade, bem como alguns episódios pontuados pelo perigo, com "Smetto quando voglio" a apresentar uma atmosfera que tanto remete para as "comédias à italiana" como para obras de Guy Ritchie (como "Lock, Stock and Two Smoking Barrels": os criminosos, o tráfico de droga, o humor negro, a atmosfera estilizada, o bando que se envolve numa enrascada) e Steven Soderbergh (o remake de "Ocean's Eleven" parece ter servido como uma forte fonte de inspiração, uma situação notória quer no aproveitamento das idiossincrasias do grupo, a música cheia de estilo, o tom leve sem descurar o perigo que envolve os personagens principais). Os membros do grupo de Pietro contam com áreas de formação e empregos distintos, com esta heterogeneidade a permitir que "Smetto quando voglio" conte com um conjunto de personagens que se destaca ao longo do enredo, com cada elemento a reagir de forma distinta ao sucesso e aos percalços que envolvem esta incursão pelo tráfico de estupefacientes (convém ainda salientar que cada membro do grupo tem funções específicas no negócio).

 O primeiro elemento contactado por Pietro é Alberto Petrelli (Stefano Fresi), um especialista em química computacional, de barba farta, que trabalha num restaurante. Este é um indivíduo pouco habituado ao mundo da noite e das drogas, um pouco à imagem da maioria dos elementos do grupo, com este handicap a ser compensado com a presença de Andrea De Sanctis (Pietro Sermonti), um antropólogo que ensina os parceiros do gang a comportarem-se sem parecerem suspeitos. A juntar a estes elementos temos ainda Mattia Argeri (Valerio Aprea) e Giorgio Sironi (Lorenzo Lavia), dois latinistas que trabalham numa bomba de gasolina, que gostam de discutir em latim e entrarem em diálogos com os clientes sobre o tipo de discurso que estes apresentam. A completar o grupo encontram-se ainda Bartolomeo Bonelli (Libero De Rienzo) e Arturo Frantini (Paolo Calabresi). Bartolomeo é um especialista em macroeconomia dinâmica, que se envolve numa miríade de problemas, enquanto tenta fugir a um casamento que parece beneficiar os planos do grupo e despertar os receios do personagem. Arturo é um arqueólogo que trabalha de forma esporádica e recebe salários miseráveis, que serve como motorista do grupo e permite que estes utilizem material da universidade e dos museus (o armamento utilizado pelos protagonistas no ataque à farmácia remete e muito para os mosquetes dos personagens principais de "Lock, Stock and Two Smoking Barrels"). Pietro pretende aproveitar o conhecimento adquirido por estes elementos e criar as smart drugs mais populares do mercado, com o negócio a superar e muito as expectativas destes personagens, uma situação para a qual estes não estavam claramente preparados. A entrada de Pietro, Alberto, Andrea, Mattia, Giorgio, Bartolomeo e Arturo no mundo do tráfico conta com algumas doses de humor, tragédia e perigo à mistura. Veja-se o pouco à vontade que os elementos do grupo apresentam inicialmente nos espaços nocturnos, ou a forma quase infantil como lidam com o sucesso e a concorrência. Um elemento do grupo que não sabe lidar com o sucesso é Alberto, com Stefano Fresi a conseguir transmitir a dificuldade deste indivíduo em conviver com o excesso de dinheiro e a facilidade com que o químico sucumbe ao uso das drogas. Alberto apresenta uma atitude inicialmente calma e uma inteligência quase ao nível do protagonista, embora cometa erros como testar em demasia o produto que vende, gastar aquilo que não deve e assumir uma postura errática e extravagante. Sydney Sibilia aproveita eficazmente as dinâmicas do grupo de Pietro e as idiossincrasias que existem no interior do mesmo, enquanto concede espaço para os diversos elementos do elenco sobressaírem, sobretudo Edoardo Leo como uma espécie de Danny Ocean destambelhado. Edoardo Leo é o principal destaque do elenco, com o intérprete a conceder um estilo simultaneamente atrapalhado, inteligente e entusiasmado a Pietro, um líder peculiar, que é naïf ao ponto de cair nas mentiras dos seus alunos, embora consiga iniciar um negócio lucrativo. Por sua vez, Valeria Solarino interpreta eficazmente a personagem que apresenta a postura mais séria ao longo de "Smetto quando voglio", com a profissão de Giulia a colidir e muito com a nova actividade do namorado. A relação entre Pietro e Giulia conta com alguns problemas a partir do momento em que este se começa a ausentar constantemente de casa, com as mentiras do primeiro a prometerem despertar a ira da segunda. Já Valerio Aprea e Lorenzo Lavia protagonizam alguns dos momentos mais hilariantes do filme, com os actores a transmitirem a incapacidade dos personagens que interpretam em dialogarem de forma comum. Veja-se quando Giorgio e Mattia se encontram a discutir em latim, ou abordam a estrutura arquitectónica do hotel onde alugam um quarto, com "Smetto quando voglio" a utilizar alguns dos arquétipos e estereótipos associados aos intelectuais ao serviço da sátira.

O filme conta ainda com outros personagens que conseguem ter espaço para um ou outro momento de relevo ao longo do enredo, embora raramente evoluam ao longo da narrativa (diga-se que "Smetto quando voglio" não é um filme que sobressai pela complexidade dos personagens). Um desses personagens é Maurizio (Guglielmo Poggi), um jovem que não perde uma boa festa, ou uma oportunidade para se escapulir aos estudos. Vale ainda a pena realçar Seta (Sergio Solli), o estereótipo do professor universitário ultrapassado, que surge inicialmente como o orientador de Pietro embora pouco ou nada beneficie o seu aluno. O elenco consegue cumprir quer nas situações mais cómicas e rocambolescas, quer nos momentos mais sérios, embora, em alguns momentos resvale em alguns exageros. Diga-se que estes exageros parecem propositados, com o humor de "Smetto quando voglio" a variar entre o tom inteligente (o aproveitamento de um grupo de licenciados e mestres que se revoltam contra o sistema) e o boçal (não falta um pénis desenhado na face do protagonista quando este desmaia, ou piadas com urina, entre outras situações estapafúrdias), enquanto ficamos diante de um grupo de traficantes deveras peculiar. O sucesso do grupo tem tanto de inesperado como de propiciador de problemas, com os elementos do gang a não saberem lidar com o excesso de dinheiro e os luxos proporcionados pelo mesmo, com a postura de alguns personagens a mudar por completo, pelo menos até um elemento ser detido e Murena aparecer pelo caminho. A partir de um determinado momento, o grupo depara-se com uma série de problemas e situações rocambolescas, parecendo uma questão de tempo até a pouca preparação dos protagonistas nos meandros do tráfico levar a melhor em relação à inteligência para o fabrico e negociação de smart drugs, com Sydney Sibilia a saber aproveitar a premissa deste filme dotado de alguns momentos de humor e uma banda sonora cheia de estilo. O humor resulta em grande parte graças à interacção dos elementos do grupo e às situações peculiares em que são colocados, com o elenco principal a cumprir com aquilo que parece ter sido pedido. No entanto, a cinematografia e as opções estéticas estão longe de serem um dos pontos fortes do filme, com a utilização de filtros manhosos que já passaram de moda no Instagram a pouco beneficiarem a narrativa, com a paleta cromática e a exposição dos cenários a não ganharem nada com esta decisão desinspirada, bem pelo contrário. Pronto a beber nas raízes da "comédia à italiana", "Smetto quando voglio" utiliza um conjunto de problemáticas modernas ao serviço do humor, enquanto nos coloca diante de um gang peculiar formado por intelectuais que se decidem rebelar contra o sistema, com Edoardo Leo a aparecer como o elemento do elenco em maior destaque ao longo desta obra cinematográfica leve, divertida e eficaz a efectuar alguns comentários do foro social, sempre com alguns exageros e devaneios à mistura.

Título original: "Smetto quando voglio".
Título em Portugal: "Génios à Rasca - Paro quando quiser".
Título em inglês: "I Can Quit Whenever I Want". 
Realizador: Sydney Sibilia.
Argumento: Valerio Attanasio e Sydney Sibilia.
Elenco: Edoardo Leo, Stefano Fresi, Paolo Calabresi, Valerio Aprea, Libero De Rienzo, Lorenzo Lavia, Neri Marcorè, Valeria Solarino, Sergio Solli, Pietro Sermonti. 

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