14 outubro 2016

Resenha Crítica: "La ragazza del lago" (2007)

 Nunca é demais repetir que contar com Toni Servillo como protagonista é meio caminho andado para uma obra cinematográfica funcionar, ou, pelo menos, ser elevada pelo trabalho do intérprete. "La ragazza del lago" não é excepção, com Andrea Molaioli a realizar um filme que mistura investigação policial e mistério, enquanto nos deixa diante de um assassinato que mexe com o quotidiano de uma série de personagens. Imensos elementos são investigados e inquiridos, diversas mentiras são desmascaradas, alguns segredos adensam o mistério em volta de um assassinato, enquanto Giovanni Sanzio (Toni Servillo), um comissário experiente e competente, procura resolver o caso ao mesmo tempo que tenta manter a estabilidade do lar. Toni Servillo transmite a experiência de Giovanni, bem como os lados distintos deste personagem que protagoniza uma investigação intrincada e enfrenta um grave drama familiar. No trabalho, Giovanni apresenta uma postura segura e justa, embora também cometa erros de julgamento, apesar de tentar evitá-los ao máximo. Em casa, o protagonista evidencia algumas fragilidades emocionais, algo notório nos comportamentos que assume quando está acompanhado por Francesca (Giulia Michelini), a sua filha, uma adolescente rebelde. A relação entre Giovanni e a filha é relativamente complicada, com o primeiro a procurar proteger a segunda, enquanto a jovem tenta demonstrar que já tem maturidade para compreender a doença delicada da progenitora (Anna Bonaiuto), com Andrea Molaioli a procurar intercalar a investigação problemática que o comissário protagoniza com elementos relacionados com a sua vida privada. Esta conjugação da vida laboral e pessoal de Giovanni permite atribuir uma dimensão mais alargada ao protagonista ao mesmo tempo que evidencia a tentativa de Molaioli em evitar que a narrativa se concentre apenas na investigação, embora a doença da esposa do comissário esteja longe de surgir como uma temática abordada na justa medida. A mulher de Giovanni padece de Alzheimer, algo que a impede de reconhecer o marido e a filha, uma situação que conduziu o protagonista a internar a esposa. Esta situação contribui para um ou outro momento mais dramático, embora a doença da esposa de Giovanni nunca seja abordada com a devida complexidade e relevância, bem pelo contrário. É certo que permite expor um lado mais sensível do protagonista, com o olhar de Toni Servillo, quando Giovanni percebe que a esposa não o reconhece, a ser simplesmente arrasador, apesar do enredo "viver" perfeitamente sem esta subtrama que parece sempre algo desgarrada da restante narrativa. A estrutura narrativa está longe de surpreender, embora o enredo não desiluda, apesar de a espaços quase clamarmos por um pouco mais de irreverência ou que seja introduzido um sentido de urgência palpável a uma investigação onde quase tudo e todos são suspeitos, com excepção dos elementos das autoridades. Não faltam imensas mentiras, segredos, figuras a serem interrogadas, com o elenco secundário a ter espaço para sobressair, ou a investigação não conhecesse alguns avanços e recuos. A morte de Anna (Alessia Piovan), uma jovem misteriosa que praticamente apenas conhecemos através das informações reunidas pelas autoridades, traz algumas doses de mistério e intriga ao enredo de "La ragazza del lago", com as forças policiais a depararem-se com o corpo da falecida junto ao lago de Fusine, naquele que é um episódio que promete mexer com o quotidiano de diversos personagens.

Os planos bem abertos permitem expor que estamos diante de um território aparentemente idílico, pontuado pela presença das montanhas, diversos arvoredos, um lago e imensos espaços verdejantes, com este local a transmitir uma miríade de sensações. Tanto parece que estamos diante de um espaço aparentemente agradável para passear, como diante de um território que transmite uma certa sensação de isolamento, desesperança e mistério. Os planos mais aproximados permitem que o espectador fique diante do corpo praticamente desnudo da falecida, com esta a encontrar-se coberta por um casaco azul, uma cor fria que enche de desesperança as tonalidades verdes que circundam os espaços que rodeiam o lago. Os objectivos que conduziram alguém a cometer este assassinato, ou a personalidade desta jovem, são inicialmente um mistério para o espectador e para Giovanni, com Andrea Molaioli a lançar gradualmente pequenas pistas em volta de todo este caso. Os primeiros suspeitos a serem investigados são Mario (Franco Ravera) e o pai deste indivíduo, dois elementos que vivem nas redondezas do espaço onde ocorreu o assassinato. Mario é descrito como um indivíduo que padece de perturbações mentais e conta com uma relação problemática com o progenitor (Omero Antonutti), enquanto este último despreza o primeiro e apresenta uma personalidade deveras abrasiva. O pai de Mario é paraplégico, locomovendo-se numa cadeira de rodas, embora tenha uma força braçal e uma personalidade que o colocam facilmente na larga lista de suspeitos. Ambos são suspeitos, tal como Roberto Biasiutti (Denis Fasolo), o namorado de Anna, um operário que se coloca praticamente a jeito para figurar na lista de figuras a averiguar com enorme atenção. Denis Fasolo imprime um estilo intempestivo e insolente a Roberto, um jovem que assume uma série de atitudes que despertam uma miríade de dúvidas em volta da sua pessoa, algo que o coloca como um dos suspeitos pelo assassinato de Anna, sobretudo quando decide fugir das autoridades num momento que tanto evidencia desespero como receio e dor. Outro dos elementos investigados é o treinador de hóquei de Anna, com esta jovem a ter abandonado a modalidade sem justificação, uma situação que é esclarecida mais tarde. Diga-se que, ao longo do filme, ficamos a descobrir diversos elementos sobre Anna a partir de terceiros. Um desses elementos que fornece informações sobre Anna é Davide Nadal (Marco Baliani), o progenitor da falecida, um indivíduo com uma estranha obsessão pela filha, algo que podemos comprovar nos vídeos caseiros que este filmou, onde apresenta uma fixação latente pelo corpo da jovem. Davide é outro dos suspeitos, com "La ragazza del lago" a manter durante algum tempo o mistério em volta da identidade do elemento que cometeu o assassinato de Anna. Temos ainda Silvia Nadal, a meia-irmã de Anna, uma figura relativamente afastada do padrasto, com a familiar da falecida a apresentar uma postura particularmente fria naquilo que diz respeito a todo este caso. A investigação protagonizada por Giovanni e a sua equipa envolve o diálogo com uma miríade de figuras e a certeza de que as informações reunidas nem sempre batem certo, algo que se torna latente quando somos colocados diante de Corrado (Fabrizio Gifuni) e Chiara (Valeria Golino), um casal que se encontra separado, que outrora conviveu com Anna devido a esta última ter sido babysitter do rebento da dupla. Corrado apresenta uma postura aparentemente segura, pronta a ludibriar tudo e todos. Chiara parece menos disposta para conversar, embora admita que sentia ciúmes pelo facto do filho apenas parecer calmo e feliz quando estava acompanhado por Anna. No entanto, o filho de Chiara e Corrado faleceu num acidente deveras estranho, com este a ser um dos vários fiapos que Giovanni tem de segurar para não se perder nesta investigação sinuosa. Em determinados momentos de "La ragazza del lago", quase todos os personagens investigados são suspeitos, ou despertam as nossas dúvidas, com Andrea Molaioli a conseguir que este caso labiríntico desperte o nosso interesse, enquanto nos intriga em relação às figuras que povoam a narrativa.

As dúvidas são mais do que muitas, bem como os personagens que são interrogados e os objectos de Anna que são encontrados. O mistério em volta da figura do assassino existe, embora a espaços falte um pouco de sentido de urgência, ou perigo, a rodear todo este caso, com Andrea Molaioli a optar por privilegiar um tom mais calmo e contemplativo. Diga-se que praticamente nunca duvidamos que Giovanni vai conseguir resolver o caso, com "La ragazza del lago" a deixar subentendido, por diversas vezes, que tudo irá contar com uma resolução, embora consiga envolver-nos para o interior da investigação. A banda sonora a espaços adensa a atmosfera de mistério que rodeia a investigação, algo comprovado quando Giovanni se desloca com os seus colaboradores até ao lago onde se encontra o corpo de Anna. O personagem interpretado por Toni Servillo está no centro de quase todos os episódios de relevo que decorrem no interior do enredo, com o actor a explanar as diferentes vertentes deste comissário que se depara com um caso intrincado que ocorre num pequeno espaço da região de Friuli-Venezia Giulia. Diga-se que quase tudo e todos se parecem conhecer no interior deste território rural, embora muitos segredos permaneçam escondidos no seio da aparente calmaria que permeia o local. A paz neste espaço do Norte de Itália é apenas aparente, algo notório quando nos deparamos com o assassinato de Anna, bem como com os segredos guardados por diversos elementos. Veja-se o caso de Corrado, um indivíduo que mantém em sigilo alguns episódios sobre a morte do seu filho, tal como esconde diversas informações sobre a relação que mantinha com Anna. Diga-se que quase todos os personagens mentem, ou omitem factos, com o próprio Giovanni a não conseguir dizer toda a verdade sobre a doença da esposa à jovem Francesca, tal como não comenta inicialmente tudo o que sabe sobre Anna quando dialoga com Roberto. A relação entre Giovanni e os jovens é relativamente problemática, com o comissário a procurar manter uma postura discreta, embora nem sempre consiga esconder as suas emoções, ou o medo de falhar. Se contasse com um pouco mais de arrojo, incutisse um sentido de urgência à investigação protagonizada por Giovanni e apresentasse uma abordagem mais assertiva da temática relacionada com a doença da esposa do protagonista, "La ragazza del lago" certamente conseguiria ultrapassar a mediania na qual a espaços se deixa enlamear. No entanto, embora prefira muitas das vezes seguir por caminhos previsíveis e pouco ousados, Andrea Molaioli tem em "La ragazza del lago", uma estreia relativamente interessante na realização de longas-metragens, com o cineasta a conseguir abordar a complexidade inerente à personalidade do protagonista, enquanto nos deixa diante de uma investigação onde quase tudo e todos são suspeitos, algo que permite incutir algum mistério em relação à identidade do elemento que eliminou Anna. Pelo caminho, "La ragazza del lago" brinda-nos com mais uma interpretação de bom nível de Toni Servillo, um actor capaz de aliar talento, carisma e uma capacidade indelével para elevar os personagens a quem dá vida, para além de contarmos com um trabalho praticamente imaculado a nível de cinematografia, com as especificidades deste espaço do Norte de Itália a serem captadas e utilizadas assertivamente ao serviço do enredo deste filme onde um assassinato mexe por completo com o quotidiano de uma série de personagens. 

Título original: "La ragazza del lago". 
Título em inglês: "The Girl by the Lake". 
Realizador: Andrea Molaioli.
Argumento: Sandro Petraglia (inspirado no livro "Se deg ikke tilbake!" de Karim Fossum).
Elenco: Toni Servillo, Fabrizio Gifuni, Valeria Golino, Denis Fasolo, Alessia Piovan, Franco Ravera,
Giulia Michelini.

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