07 outubro 2016

Resenha Crítica: "Jane Got a Gun" (As Armas de Jane)

 Western anódino e insípido, sem cunho autoral ou a mínima capacidade de surpreender, "Jane Got a Gun" dispara tiros de pólvora seca, enquanto ameaça efectuar algo que nunca chega a cumprir e desespera o espectador com uma miríade de flashbacks incutidos a martelo. Diga-se que "Jane Got a Gun" não poderia ser mais distinto de "The Hateful Eight", outro western que estreou nas salas de cinema portuguesas em 2016. Se Quentin Tarantino, o realizador de "The Hateful Eight", não tem problemas em apropriar-se dos elementos dos westerns, incutir o seu cunho pessoal e assumir opções que desafiam o gosto do espectador, já Gavin O'Connor, o cineasta responsável por "Jane Got a Gun", segue um rumo completamente distinto. Vale a pena recordar que o cineasta chegou a "Jane Got a Gun" com o barco praticamente em andamento, após Lynne Ramsay ter abandonado extemporaneamente o cargo de realizadora, algo que pode contribuir para justificar a forma quase anónima como Gavin O'Connor realiza esta obra cinematográfica. A juntar a tudo isso, "Jane Got a Gun" contou ainda com uma série de mudanças no elenco principal, bem como de argumentistas e director de fotografia, um conjunto de factores de peso que podem ajudar a explicar como um projecto que parecia ter tudo para dar certo acaba por resultar numa obra cinematográfica que promete sair com enorme facilidade da memória. É certo que Natalie Portman e Joel Edgerton contribuem para elevar o filme, embora o bom trabalho da dupla não seja suficiente para esconder a estrutura narrativa frágil e problemática de "Jane Got a Gun". Os flashbacks são inseridos de forma pouco homogénea (cortando muitas das vezes o suspense em relação ao ataque iminente do inimigo), as reviravoltas parecem ter sido efectuadas apenas para agradar ao invés de surpreenderem, com "Jane Got a Gun" a prometer imenso, embora acabe por disparar uma miríade de tiros de pólvora seca. A própria banda sonora está longe de deixar marca, embora o trabalho de Mandy Walker na cinematografia a espaços seja capaz de dar um ar da sua graça. Veja-se os planos bem abertos, que nos colocam diante dos territórios montanhosos, desérticos e poeirentos que rodeiam a habitação da protagonista, ou os planos fechados que nos deixam perante a capacidade de Natalie Portman transmitir quer a sensibilidade, quer a força de Jane Hammond. Portman interpreta Jane, a esposa de Bill Hammond (Noah Emmerich), um indivíduo procurado, de quem tem uma filha, a jovem Katie (Maisie McMaster), com o trio a viver no interior de uma habitação localizada num local remoto, longe de tudo e todos. Bill é um indivíduo procurado pelas autoridades, bem como pelo bando liderado por John Bishop (Ewan McGregor), com Jane a saber que, mais tarde ou mais cedo, algo de terrível pode acontecer. No início do filme, encontramos Jane a contar uma história a Katie, naquele que é um momento pontuado por alguma brandura. A calma é aparente e ilusória, precedendo apenas a tempestade. Pouco tempo depois, Bill aparece gravemente ferido, com balas bem cravadas nas costas, encontrando-se em estado grave. O ataque foi perpetrado pelos elementos do gangue de John Bishop, um grupo que procura descobrir a localização da casa de Bill e Jane. Ao invés de fugir, Jane deixa Katie na casa de uma amiga e decide proteger o esposo e o espaço onde vive, exibindo uma faceta determinada e corajosa, embora tenha a noção de que é impossível enfrentar o bando de Bishop praticamente sozinha. Jane pede ajuda a Dan Frost (Joel Edgerton), o seu antigo interesse amoroso, um indivíduo beberrão, de barba por fazer e roupas descuidadas. Dan recusa ajudar Jane, com Joel Edgerton a conseguir expor a mágoa que este personagem nutre em relação ao facto da protagonista ter formado família com Bill. O personagem interpretado por Joel Edgerton não simpatiza com Bill, embora acabe por ajudar Jane, com a dupla a envidar esforços para travar os ímpetos do grupo de John Bishop. Diga-se que Bill chegou a fazer parte do bando de Bishop, embora tenha abandonado o grupo devido a uma decisão que é exposta num dos vários flashbacks que entram quase sem aviso ao longo de "Jane Got a Gun".

Os flashbacks são utilizados sem grande critério, com Gavin O'Connor a usar e abusar deste recurso para preencher alguns "espaços em branco" do enredo, algo notório naquilo que diz respeito à exposição de alguns elementos sobre o passado de Jane e Dan, ou o modo como esta e Bill se conheceram. Se Jane e Dan reprimem um conjunto de sentimentos que se tendem a soltar com o avançar da narrativa, já Bill aparece como um elemento que se encontra gravemente ferido, que praticamente não consegue sair da cama, sendo notório que ama a esposa e pretende protegê-la de John Bishop. O gang de John Bishop conta com cerca de uma dezena de elementos, tais como Vic Bishop (Boyd Holbrook), o irmão do personagem interpretado por Ewan McGregor, e Fitchum (Rodrigo Santoro). Vic e Fitchum quase não se conseguem destacar ao longo do filme, embora o primeiro ainda consiga exibir que conta com alguns traços de sadismo e perfídia, enquanto o segundo apresenta uma habilidade latente para levar tiros. Os receios em relação a este grupo criminoso são latentes, com John Bishop a surgir como uma figura que é temida por diversos elementos, inclusive por Dan. Esse receio de Dan é particularmente visível no plano que este coloca em prática para ajudar Jane a rechaçar a incursão de John Bishop, com a protagonista a encontrar-se muitas das vezes na dependência dos homens que marcam a sua vida. Produtora e protagonista, Natalie Portman sobressai em bom nível ao longo do filme, com a actriz a criar uma personagem feminina forte, que é capaz de utilizar as suas forças e fraquezas, enquanto se digladia com um desafio deveras complicado. As próprias roupas de Jane, muitas das vezes pontuadas por tonalidades escuras, remetem para o negrume do quotidiano desta personagem, com a vida a nem sempre ter sido fácil para a protagonista. O trabalho de Terry Anderson e Catherine George na selecção do guarda-roupa de cada personagem é bastante competente, algo notório nas vestimentas de Jane, ou nas roupas utilizadas por Dan. Mais do que transmitir uma ideia do tom da época (o enredo desenrola-se em 1871), o guarda-roupa permite discernir e exacerbar alguns elementos da personalidade da protagonista, com as tonalidades escuras das roupas de Jane a evidenciarem o carácter pragmático desta mulher, enquanto o vestuário de Dan transmite a personalidade prática do personagem. Natalie Portman e Joel Edgerton contam com alguma química e uma dinâmica convincente, algo que atribui credibilidade à união de esforços entre Jane e Dan contra o grupo de John Bishop, com a dupla a procurar travar os avanços dos criminosos, enquanto reacende uma série de sentimentos que pareciam perdidos no interior de uma teia de mal-entendidos. Por sua vez, Ewan McGregor interpreta uma espécie de caricatura dos antagonistas dos westerns, com o actor a sobressair sobretudo pelo bigode peculiar de John Bishop, embora falte quase sempre algo para acreditarmos na falsa polidez deste antagonista capaz dos actos mais atrozes. "Jane Got a Gun" está longe de nos colocar diante de um Liberty Valance (Lee Marvin), ou um Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), com Ewan McGregor a contar ainda com a dificuldade acrescida da invasão do último terço não provocar o efeito desejado. O grupo criminoso tenta invadir a casa de Jane, disparando violentamente contra esta habitação que se encontra situada numa zona remota do Novo México, algo que poderia adensar o sentimento de perigo, embora Gavin O'Connor raramente consiga transmitir a suposta tensão que rodeia a chegada do bando liderado pelo antagonista, até pela protagonista e Dan conseguirem superar facilmente o facto de se encontrarem em desvantagem numérica. Não faltam explosões, tiros e violência, com a invasão a permitir expor o lado mais corajoso de Jane, bem como algumas das suas fragilidades, com Natalie Portman a elevar e muito a personagem e o filme, tal como Joel Edgerton, com a dupla a conseguir que nos preocupemos com os elementos que interpretam. Esta invasão parece ainda servir como uma desculpa para Gavin O'Connor livrar-se de um "empecilho" que tinha para avançar com um romance mais do que esperado, algo que incomoda e exacerba a faceta previsível e preguiçosa do filme. Western previsível, sem chama e pouco corajoso, "Jane Got a Gun" conta com uma estrutura narrativa quase tão problemática como o seu desenvolvimento, com Natalie Portman e Joel Edgerton a não conseguirem salvar uma obra cinematográfica que parecia inicialmente destinada a uma grandeza que nunca chega a alcançar.

Título original: "Jane Got a Gun".
Título em Portugal: "As Armas de Jane".
Realizador: Gavin O'Connor.
Argumento: Brian Duffield, Anthony Tambakis, Joel Edgerton.
Elenco: Natalie Portman, Joel Edgerton, Noah Emmerich, Ewan McGregor, Boyd Holbrook, Rodrigo Santoro.

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