05 outubro 2016

Resenha Crítica: "Irmãs Amadas" (Die geliebten Schwestern)

Dominik Graf apaixona-se pelas três figuras históricas que retrata em "Irmãs Amadas" (Título original: "Die geliebten Schwestern"), nomeadamente, Friedrich Schiller (Florian Stetter) e as irmãs Charlotte von Lengefeld (Henriette Confurius) e Caroline von Beulwitz (Hannah Herzsprung), com o cineasta a explorar o intrincado triângulo amoroso formado pelos protagonistas, enquanto nos transporta para o interior da Alemanha nos finais do Século XVIII. Não estamos diante de um filme biográfico centrado exclusivamente em Friedrich Schiller, ou nos seus feitos profissionais como poeta, filósofo, historiador, dramaturgo e professor, mas sim perante um drama recheado de liberdades históricas à mistura, filmado com algum brio e requinte, que aborda a relação intrincada entre as duas irmãs e o intelectual. O contexto histórico não é totalmente descurado, embora seja abordado muitas das vezes de raspão, com os ecos da Revolução Francesa a serem sentidos e mencionados, bem como alguns dos trabalhos de Friedrich Schiller e a evolução da tecnologia de impressão, embora Dominik Graf esteja sobretudo interessado na vida privada deste indivíduo, ou seja, o lado menos conhecido do intelectual, algo que facilita as célebres liberdades históricas. Essas liberdades não implicam que exista um descuido na representação de alguns elementos que correspondem à época retratada, algo notório no aprumo colocado no guarda-roupa, nos penteados, na decoração dos cenários interiores, na exposição da estratificação social e dos códigos de conduta, bem como nos gestos e olhares trocados pelos personagens, com Friedrich Schiller, Caroline e Charlotte a protagonizarem um romance que mexe com alguns tabus da sociedade deste período. Charlotte e Caroline são duas irmãs oriundas de uma família aristocrática falida, com a mãe de ambas a viver sobretudo de aparências. Caroline está presa a um casamento por conveniência com o Barão Friedrich von Beulwitz (Andreas Pietschmann), enquanto Charlotte dirigiu-se para a capital do Ducado de Saxónia-Weimar, onde habita Charlotte von Stein (Maja Maranow), a sua madrinha, tendo em vista a aprender a ser uma dama de companhia. Charlotte aproveitou uma parte do Inverno de 1787 para aprender as "boas maneiras" da sociedade literária, participar em diversos eventos e conviver com alguns elementos da corte de Weimar, embora esteja longe de conhecer a felicidade, ou de se adaptar a este local. O destino conduz Charlotte a conhecer Schiller. Esta encontrava-se no interior da casa da madrinha quando um estranho gritou para o interior da habitação, tendo em vista a pedir informações. Este estranho é Friedrich Schiller, um intelectual inteligente, financeiramente depauperado, que conta com uma mentalidade aberta e valores muito próprios. A conversa entre Schiller e Charlotte conta com algumas doses de leveza, com o primeiro a interessar-se pela segunda, enquanto a jovem não expressa desde logo os seus sentimentos, embora exiba alguma simpatia para com o intelectual. Quem contribui inicialmente para o avançar da relação é Caroline, com esta a responder a uma carta que Schiller escreveu a Charlotte, tendo em vista a reunir a irmã com este individuo. Louise von Lengefeld (Claudia Messner), a mãe das protagonistas, exibe desde logo o seu descontentamento em relação a um possível envolvimento entre Charlotte e Friedrich, algo que remete para o facto do personagem interpretado por Florian Stetter ser um plebeu financeiramente depauperado. A estratificação social e as barreiras sociais ainda contam para alguns sectores mais conservadores da sociedade, que o digam Charlotte von Stein e Louise von Lengefeld, embora Friedrich, Charlotte e Caroline apresentem uma mentalidade aberta a novas ideias e experiências.

  Se o casamento de Caroline nasceu torto, com esta mulher a contrair matrimónio para ajudar financeiramente a mãe e a irmã, já a relação entre Charlotte e Friedrich contém um conjunto de sentimentos bem mais intrincados e profundos. Caroline tem uma relevância muito forte junto de Charlotte e Friedrich quer quando está presente, quer nos momentos em que se encontra ausente, com estes personagens a formarem um triângulo amoroso dotado de alguma complexidade. Nem sempre é fácil compreender este triângulo amoroso, uma dificuldade que se adensa com o avançar da narrativa, quando parece óbvio que alguém tem de se afastar, ou ceder, ou mentir, ou simplesmente explodir e expor os seus sentimentos de forma bem viva, com Friedrich, Charlotte e Caroline a protagonizarem algo que tanto tem de especial como de propiciador de problemas. Num determinado momento de "Irmãs Amadas", encontramos Friedrich a procurar salvar uma criança que se encontra prestes a afogar-se, embora o próprio também não saiba nadar. Este episódio ocorre num rio situado em Rudolstadt, nas imediações da propriedade onde Caroline vive com o esposo e Louise (Dominik Graf efectua um aproveitamento eficaz do espaço exterior e interior da habitação). É exactamente após este salvamento que encontramos a primeira aproximação física entre as irmãs e Friedrich, com o desejo de cariz sexual a ser latente. O intelectual está completamente molhado, desnudo e cheio de frio, com Caroline e Charlotte a aproximarem-se para aquecerem o corpo deste indivíduo. Friedrich treme de frio, embora os sentimentos do trio estejam a fervilhar, com Hannah Herzsprung, Henriette Confurius e Florian Stetter a protagonizarem um dos grandes momentos de "Irmãs Amadas". Este momento protagonizado por Friedrich, Charlotte e Caroline permite evidenciar a relevância que Dominik Graf atribui aos gestos e olhares, algo notório quando observamos o trio, para além de reforçar que as duas irmãs contam com personalidades relativamente distintas. Caroline expõe os seus sentimentos com alguma facilidade, não tendo problemas com a nudez de Friedrich, ou em exibir o desejo que nutre pelo mesmo, enquanto Charlotte apresenta uma certa timidez, com Hannah Herzsprung e Henriette Confurius a exprimirem eficazmente as idiossincrasias das personagens que interpretam. Charlotte não gosta da vida na corte, conta com um olhar cândido e uma simplicidade desarmante. Caroline é mais decidida e faladora, procurando efectuar um arranjinho entre a irmã e Schiller, embora esteja claramente interessada neste último, apesar de não querer magoar a familiar. Estas comunicam imenso através de cartas, com as missivas a surgirem como um meio de contacto extremamente importante na época retratada por "Irmãs Amadas", algo que Dominik Graf expõe de forma eficaz e dinâmica. Veja-se os códigos muito próprios que Schiller, Caroline e Charlotte criam para poderem comunicar sem que boa parte das pessoas perceba o conteúdo das missivas, com o trio a protagonizar inicialmente alguns momentos pontuados pela leveza e pela libertação dos sentimentos. Diga-se que Dominik Graf opta inteligentemente por colocar o autor de cada carta a narrar aquilo que se encontra escrito na missiva, um recurso que permite provocar uma aproximação do espectador com o remetente e o destinatário. Schiller envolve-se com Charlotte e Caroline, com as duas irmãs a criarem uma trindade com o intelectual que tanto tem de estranha como de utópica, enquanto quebram barreiras morais e sociais, com tudo a tornar-se ainda mais complexo a partir do momento em que o primeiro casa com a segunda.  

O olhar e o modo de falar de Henriette Confurius como Charlotte permitem transmitir a candura e o tom relativamente naïf desta personagem, sobretudo no início do filme, com a intérprete a imprimir uma faceta relativamente frágil a esta mulher. Hannah Herzsprung exprime de forma competente o lado mais sedutor de Caroline, uma mulher comprometida que não consegue resistir aos prazeres da carne, embora a espaços conte com uma faceta destrutiva. Por sua vez, Florian Stetter convence o espectador quer em relação ao estilo galanteador de Schiller, quer naquilo que diz respeito à faceta idealista e intelectual deste indivíduo inspirado numa figura histórica. Charlotte casa com Schiller não só devido a amar este indivíduo, mas também para encobrir o affair entre o protagonista e Caroline, com esta última a incentivar o matrimónio, surgindo como uma presença muito forte no seio da relação dos dois primeiros. O aproximar da Revolução Francesa, inicialmente recebida com entusiasmo, bem como a cultura oriunda de França e os valores do Romantismo, parecem inspirar as duas irmãs e Friedrich, algo notório na relação que estes formam. O triângulo amoroso formado por Charlotte, Caroline e Friedrich é complexo e propicia a erupção de uma miríade de sentimentos, embora a passagem do tempo se revele simplesmente cruel e pouco complacente para com estas figuras que pretendem amar e ser amadas. Os ciúmes, a necessidade de privacidade ou simplesmente a complexidade inerente aos sentimentos humanos, contribuem e muito para ajudar a explicar o deteriorar do relacionamento dos integrantes deste triângulo amoroso aparentemente perfeito, com Hannah Herzsprung e Henriette Confurius a protagonizarem alguns momentos emocionalmente arrasadores que contrastam com a leveza dos episódios iniciais desta relação a três. Caroline e Charlotte sempre partilharam os segredos, ansiedades, desejos, mas tudo isso começa a ser corrompido pelas dúvidas que se formam nas mentes das duas irmãs, algo que provoca uma dor profunda quer nestas mulheres, quer na progenitora de ambas. A mãe de Charlotte, uma representante da aristocracia falida, exibe inicialmente as suas reservas em relação a Schiller, sobretudo devido às parcas condições financeiras do intelectual, embora aceite o matrimónio entre este e a filha, com Claudia Messner a ter algum espaço para sobressair no último terço do filme, quando assistimos a um extremar de posições por parte das duas irmãs

O afastamento das duas irmãs é gradual, com a passagem do tempo a contribuir para a dissolução de algo que parecia perfeito. Diga-se que "Irmãs Amadas" aborda um período alargado de tempo, com Dominik Graf a utilizar pequenas legendas que indicam a passagem dos anos, ou meses, tendo em vista a situar o espectador no período histórico em que decorrem certos episódios, embora alguns "saltos" temporais pareçam relativamente abruptos ou seleccionados de forma aleatória. Se Dominik Graf acerta em diversos momentos de "Irmãs Amadas", sobretudo quando concentra as atenções no triângulo formado por Friedrich Schiller, Caroline e Charlotte, também não deixa de ser notório que o cineasta se perde imenso em diversas subtramas que exibem ambição mas raramente são devidamente desenvolvidas, constando na narrativa apenas para ilustrar superficialmente o período histórico ou alguns acontecimentos de relevo que aconteceram na vida dos elementos retratados. Veja-se quando encontramos Schiller a dar aulas em Jena, ou o momento em que Caroline se dedica à escrita, ou a abordagem insípida do desencanto do protagonista em relação ao rumo da França após a Revolução Francesa, com estas subtramas a nunca ganharem a coesão e força necessária na narrativa. A ambição de Dominik Graf e a sua paixão pelo trio de protagonistas nem sempre se repercute no resultado final de "Irmãs Amadas", com o cineasta e argumentista a exibir ainda uma leveza excessiva na abordagem de alguns personagens secundários. Veja-se o caso de Charlotte von Kalb (Anne Schäfer), uma personagem histórica, que é simplesmente retratada como alguém que manteve um affair com o protagonista, embora nunca cheguemos a conhecer esta figura para além das pinceladas iniciais de Graf, ou a pouca preocupação em desenvolver o caso entre Caroline e Dalberg. O mesmo pode ser dito para a relação de amizade entre Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich Schiller, após o desprezo inicial do primeiro, com o argumento a deixar imensas pontas soltas que abre por culpa própria (o estado de saúde frágil do protagonista é outra das subtramas abordadas de forma sensaborona). Quando se concentra no triângulo amoroso, bem como a explorar as relações e a personalidade complexa dos protagonistas, Dominik Graf acerta e cria um drama envolvente, embora seja impossível escamotear que o realizador e argumentista nem sempre é bem-sucedido a desenvolver as subtramas, embora tenha a capacidade de criar uma dinâmica convincente entre Florian Stetter, Hannah Herzsprung, Henriette Confurius, com o trio a expressar a complexidade dos relacionamentos que envolvem os personagens que interpretam.  

P.S. - A versão visualizada foi a de 138 minutos. O filme contou ainda com uma versão com 170 minutos exibida em festivais de cinema como o Festival de Cinema de Berlim. Para além dessa versão, "Irmãs Amadas" foi ainda exibido como uma minissérie de 190 minutos, ou seja, os meus problemas com algumas subtramas abordadas de forma superficial ou truncada podem advir desta situação

Título original: "Die geliebten Schwestern".
Título em Portugal: "Irmãs Amadas".
Título no Brasil: "Duas Irmãs, Uma Paixão".
Título em inglês: "Beloved Sisters". 

Realizador: Dominik Graf.
Argumento:  Dominik Graf
Elenco: Florian Stetter, Hannah Herzsprung, Henriette Confurius, Andreas Pietschmann, Anne Schäfer.

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