03 outubro 2016

Resenha Crítica: "The Girl on the Train" (A Rapariga no Comboio)

 Consta que Howard Hawks terá dito a Ernest Hemingway que conseguiria transformar o pior livro do escritor numa boa obra cinematográfica. O livro escolhido foi "To Have and Have Not", com Howard Hawks a comprovar que uma obra de literária de pouco sucesso pode servir de material para um bom filme. No caso de "The Girl on the Train", Tate Taylor teve a tarefa de realizar a adaptação de uma obra literária extremamente popular entre o público e alguns sectores da crítica, com o cineasta a contar com um elenco recheado de caras bem conhecidas, tais como Emily Blunt, Rebecca Ferguson, Haley Bennett, Luke Evans, Justin Theroux, Laura Prepon, Lisa Kudrow, entre outros. No entanto, com a honrosa excepção de Emily Blunt, poucos são os elementos do elenco que contam com espaço para sobressair, com o argumento de Erin Cressida Wilson a apresentar uma superficialidade latente na abordagem e desenvolvimento das temáticas e dos personagens, com a realização desinspirada de Tate Taylor a não ajudar, parecendo tudo demasiado artificial, imensamente forçado, sem verve ou capacidade de nos prender genuinamente ao enredo. Sem densidade psicológica na abordagem das temáticas, incapaz de desenvolver eficazmente duas das três personagens femininas que nos são dadas a conhecer no início do filme, "The Girl on the Train" surge como um thriller frustrante pela forma como desperdiça a boa matéria-prima que tem à sua disposição. A colagem a "Gone Girl" (filme) é notória, seja a nível do estilo, seja da narradora pouco confiável, seja das temáticas, com as falsas aparências das "boas famílias" dos subúrbios a serem destruídas (aqui também a remeter para o infinitamente superior "American Beauty"), enquanto ficamos diante de uma morte misteriosa, traições, mentiras, relações conturbadas, imensas viagens de comboio e relatos na primeira pessoa (muitas das vezes demasiado expositivos). A protagonista é Rachel (Emily Blunt), uma mulher que padece de depressão, gosta de desenhar e viaja todos os dias de comboio, em direcção a Nova Iorque, embora esteja desempregada há um ano, fruto de abusar constantemente no consumo de bebidas alcoólicas. Rachel aproveita as viagens de comboio para consumir bebidas alcoólicas através de um termo, bem como para observar quer a casa de Tom (Justin Theroux) e Anna (Rebecca Ferguson), quer a residência de Megan (Haley Benett) e Scott Hipwell (Luke Evans), dois casais que vivem na Beckett Road. Estes actos de Rachel contam com algumas pitadas de voyeurismo e imensa estranheza, com as suas rotinas a serem completamente enfadonhas e deprimentes. Rachel encontra-se emocionalmente devastada, embrenhada no interior de uma depressão que consome o seu corpo e a sua alma, enquanto tarda em esquecer o doloroso processo de divórcio. A observação dos dois casais remete para objectivos distintos. Tom é o ex-marido de Rachel, um indivíduo que a traiu com Anna, de quem tem uma filha, a jovem Eva. Os flashbacks e diversos episódios que ocorrem no presente permitem expor que a protagonista mantém uma relação problemática com o casal. Veja-se quando Rachel invade a casa de Anna e Tom e pega na bebé ao colo, ou a maneira perturbada e magoada como observa regularmente estes elementos. Já Megan e Scott são perfeitos desconhecidos, pelo menos a nível inicial. Rachel apenas observa Megan e Scott à distância, sem saber os seus nomes, ou as suas profissões, dedicando-se a imaginar que estes formam um casal perfeito, algo que expõe na primeira pessoa. No entanto, Megan e Scott estão longe de contarem com uma relação perfeita, um pouco à imagem da química, ou falta dela, entre Haley Bennett e Luke Evans, com a dupla a não ter tempo, nem espaço, nem engenho, para desenvolver a dinâmica do casal. Os problemas que ocorrem no seio da relação de Megan e Scott são expostos sobretudo nas sessões de terapia que a primeira efectua com o Dr. Kamal Abdic (Édgar Ramírez), um psiquiatra. Megan revela alguns elementos sobre o seu passado (é outra das personagens que nos apresenta alguns elementos da narrativa a partir da sua perspectiva), enquanto exibe o seu interesse no psiquiatra e conta com uma relação turbulenta com Scott, embora quase tudo seja abordado de forma pueril e imensamente burocrática.

 Scott pretende ter um filho, supostamente conta com uma personalidade controladora e obsessiva, embora esses atributos apenas nos sejam dados a conhecer quase a partir do ponto de vista de Megan. A relação de Megan e Scott é pouco aproveitada, tal como o trauma desta mulher devido a um acontecimento desastroso que ocorreu no passado. Megan relata-nos que gosta de correr, pretende ter uma galeria de arte e mudar o rumo da sua vida, embora trabalhe como babysitter de Eva, algo que Rachel desconhece, pelo menos a nível inicial. A personagem interpretada por Haley Bennett surge quase como o estereótipo da babysitter saída de filmes para maiores de idade, com os traumas da primeira a serem abordados de forma banal, bem como os seus anseios de ordem profissional e os seus affairs. Ao longo do texto temos procurado evitar abordar a personagem interpretada por Rebecca Ferguson. A razão é simples. Tate Taylor praticamente não dá espaço para Anna crescer na narrativa, com Ferguson a ter apenas alguns momentos de destaque perto do final do filme (supostamente é outra das personagens que deveria servir como ponto de contacto com o espectador). Anna parece denotar algum prazer em ter conquistado Tom, embora o relacionamento do casal pouco seja explorado, com os cônjuges a parecerem relativamente felizes, pelo menos até alguns segredos começarem a emergir e a mudarem a percepção que tínhamos em relação a alguns personagens. Justin Theroux interpreta um indivíduo aparentemente confiável, apesar de ter traído Rachel, embora esta última, durante boa parte do filme, seja exposta como uma figura mentalmente instável. Theroux raramente está à altura da dimensão e complexidade do personagem que interpreta, embora o argumento não ajude em nada o actor. Se Theroux raramente convence, já Emily Blunt consegue expressar a fragilidade psicológica de Rachel, uma mulher destroçada por uma relação venenosa e destrutiva. Rachel vive com Cathy (Laura Prepon), uma amiga de longa data, embora esta última apenas descubra tardiamente que a primeira perdeu o emprego, com a amizade destas duas personagens a não ser desenvolvida ao longo do filme (Laura Prepon tem um papel quase tão relevante como a importância que "The Girl on a Train" tem para a Sétima Arte). Durante uma das suas viagens, Rachel depara-se com Megan abraçada a outro homem. As memórias da traição de Tom emergem no interior da sua mente, com Rachel a ficar revoltada e a pensar o pior sobre Megan, refugiando-se em mais umas belas doses de álcool. Tudo piora quando Megan desaparece na noite em que a protagonista se encontrava a perambular na mesma rua dos dois casais. No entanto, Rachel não se recorda de tudo aquilo que acontece nessa noite. Rachel tem apagões quando bebe imenso, algo que a conduz a esquecer-se de alguns actos que cometeu ou que alguém cometeu sobre a sua pessoa (algo que a torna numa narradora pouco confiável, com a protagonista a nem sempre ter consciência daquilo que lhe aconteceu). Nesse sentido, Rachel percebe que algo correu mal quando acorda ensanguentada, na sua casa, após ter estado na rua onde Megan vive com o esposo. Apesar de ser considerada uma das suspeitas, Rachel decide investigar aquilo que aconteceu a esta mulher, entrando em contacto com Scott e Kamal. Rachel começa a investigar por conta própria, enquanto lida com problemas do passado e do presente, começando aos poucos a juntar uma série de peças que prometem surpreendê-la, sobretudo a partir do momento em que Megan é encontrada morta. Esta investigação parece trazer um estranho sentido à vida da protagonista, com Rachel a procurar deixar de beber, enquanto se embrenha no interior de uma teia de mentiras e intrigas, com a própria a enganar inicialmente Scott ao fingir que é uma amiga de Megan. A polícia, representada sobretudo através da Sargento Riley (Allison Janney), procura descobrir quem é que cometeu o assassinato, com os suspeitos a serem mais do que muitos, embora a identidade do assassino apenas seja descoberta perto do final, com as autoridades a praticamente nem "cheirarem" o culpado. A repetição pode remeter para limitações do autor do texto, ou para reforçar uma ideia, pelo que podem interpretar a necessidade de repetir que Allison Janney é mais uma actriz secundária que parece uma convidada especial de luxo, embora não tenha espaço para exibir o seu talento, como uma mistura de ambos os argumentos.

Allison Janney, Luke Evans, Édgar Ramírez, Rebecca Ferguson, Laura Prepon, Lisa Kudrow (a sua relevância num episódio fulcral surge como algo forçado, quase como se fosse um acto desesperado para avançar a narrativa de forma rápida em direcção à sua conclusão), praticamente não contam com espaço para desenvolverem os personagens que interpretam. Por sua vez, Justin Theroux não tem o carisma e a capacidade para convencer como Tom, com o actor a ser incapaz de apresentar a versatilidade necessária para tocar em extremos distintos, ou seja, passar de uma postura confiável para uma atitude mais ambígua e dissimulada. Diga-se que o argumento pouca ou nenhuma profundidade consegue dar a boa parte dos personagens, com "The Girl on the Train" a abordar algumas temáticas relevantes, tais como os abusos psicológicos, a depressão, o alcoolismo, embora tudo de forma muito superficial. A própria tentativa de "The Girl on the Train" em criar um suspense centrado sobretudo nas personagens femininas é de elogiar, com Emily Blunt a convencer, mesmo quando Tate Taylor se parece esquecer completamente daquilo que anda a fazer. Veja-se quando Rachel frequenta uma sessão de terapia de grupo destinada a alcoólicos e logo larga a mesma, ou a forma extemporânea como descobre que foi manipulada (é levar as coincidências ao extremo), com o enredo a parecer muitas das vezes truncado, ou destrambelhado. O próprio aproveitamento do espaço dos subúrbios está longe de ser o mais inspirado, com os dois casais a viverem em habitações espaçosas e reveladoras de alguma segurança financeira, embora pouco sejam aproveitadas ao serviço da narrativa. Nem tudo é mau em "The Girl on a Train". Emily Blunt tem uma interpretação convincente, a banda sonora procura atribuir um tom misterioso ao enredo, a premissa inicial é relativamente interessante e propiciadora de despertar a nossa atenção, mas Tate Taylor não tem a capacidade para incutir o mistério necessário à obra cinematográfica. Falta tensão, falta sentimento, falta inquietação, falta a necessidade querermos descobrir mais. Falta o doce sabor de sabermos que estão a manipular subtilmente as nossas emoções, falta a capacidade de atribuir mais atenção aos personagens, falta conceder espaço aos actores e actrizes para exporem a sua arte. Ou seja, falta muito a "The Girl on the Train", embora pareça certo que pudesse dar tanto. A reviravolta final permite dar a conhecer uma faceta desconhecida de um personagem, embora esse choque seja completamente esbatido devido a não existir toda uma construção desse elemento ao longo da narrativa. Primeiro esse personagem deveria conquistar a nossa confiança, até Tate Taylor tirar o tapete e fazer com que nos sentíssemos enganados em relação a esse elemento. Queremos sentir a curiosidade de Rachel, mas não conseguimos, parecendo tudo muito superficial, demasiado burocrático e desprovido de emoção, com "The Girl on the Train" a conseguir sobretudo despertar um sentimento de desilusão e a sensação de que Tate Taylor não teve unhas para tocar esta guitarra. No entanto, Tate Taylor arriscou e a música saiu simplesmente desafinada.

P.S. - A resenha diz respeito ao filme. Não é uma crítica ao livro ou um artigo comparativo.

Título original: "The Girl on the Train".
Título em Portugal: "A Rapariga no Comboio".
Realizador: Tate Taylor.
Argumento: Erin Cressida Wilson.
Elenco: Emily Blunt, Rebecca Ferguson, Haley Bennett, Justin Theroux, Luke Evans, Édgar Ramírez, Allison Janney, Laura Prepon, Lisa Kudrow.

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