12 outubro 2016

Resenha Crítica: "Estate violenta" (Um Verão Violento)

 Verão violento, de sentimentos efervescentes, emoções inquietas e separações difíceis de aceitar, onde um casal improvável se forma e a Segunda Guerra Mundial afecta a vida de quase tudo e todos, mesmo daqueles que não esperam sentir as consequências da mesma. Este não é um Verão qualquer, embora o calor seja notório e a praia um local visitado de forma recorrente por parte de alguns personagens. É o Verão de 1943. O Verão de "Estate violenta", a segunda longa-metragem de ficção realizada por Valerio Zurlini, com o cineasta a aproveitar o contexto histórico, social e económico deste período para desenvolver um melodrama sublime, onde os sentimentos tanto são contidos de forma exemplar como expostos com uma ferocidade impossível de esconder. Zurlini revela desde a sua segunda longa-metragem uma habilidade notória para extrair boas interpretações por parte do elenco principal, com o cineasta a saber aproveitar o talento dos seus actores e actrizes, bem como as dinâmicas que se formam entre os personagens que estes se interpretam. Carlo Caremoli (Jean-Louis Trintignant) e Roberta Parmesan (Eleonora Rossi Drago) surgem no centro de quase tudo aquilo que acontece em "Estate violenta". Estes formam o casal improvável, aquele que aquece os nossos sentimentos, que nos agarra para o interior da narrativa e nos faz apaixonar pela forma sublime como tudo se desenvolve entre a dupla de protagonistas. A atenção aos gestos e aos olhares trocados por estes personagens é enorme, com Valerio Zurlini a surgir como um poeta dos sentimentos e das imagens em movimento, esculpindo momentos que nos inebriam e envolvem de forma indelével. Veja-se quando, num determinado momento de "Estate violenta", encontramos Carlo e Roberta a dançarem ao som de "Temptation" de Bing Crosby. Carlo dança com Rossana (Jacqueline Sassard), uma jovem interessada no protagonista. Roberta dança com um amigo de Carlo. A música afecta o corpo e a alma destes elementos, bem como a parca e sedutora iluminação, com o cenário da mansão de Carlo, rodeada por um belo jardim, a surgir como o palco de um episódio sublime de "Estate violenta". Carlo e Roberta dançam com outros parceiros mas não conseguem desviar o olhar um do outro, parecendo certo que é apenas uma questão de tempo até os protagonistas soltarem os sentimentos contidos no interior das suas almas, qual vulcão pronto a entrar em erupção. É uma relação pontuada pelo desejo e sentimentos fortes, embora os receios de Roberta sejam imensos, enquanto Carlo respeita, admira e deseja esta mulher. Este é mais jovem do que Roberta, habita numa mansão luxuosa e desfruta dos benefícios do facto de ser filho de Ettore Caremoli (Enrico Maria Salerno), um fascista que conta com uma personalidade distinta do rebento. Se Carlo é um jovem relativamente sensato, embora algo mimado, já Ettore é um indivíduo preso às suas convicções e aos seus ideais pouco recomendáveis, com o primeiro a ser muitas das vezes julgado pelos actos do segundo, embora beneficie da preponderância social do progenitor. Carlo escapa inicialmente de participar da Segunda Guerra Mundial devido aos conhecimentos do progenitor, chegando no início do filme a Riccione, um espaço onde conta com vários amigos que desfrutam dos prazeres da vida e pouco ou nada parecem afectados pelo conflito bélico. O enredo de "Estate violenta" tem como pano de fundo a Invasão Aliada da Sicília, com os bombardeios a serem sentidos, bem como a presença militar. Diga-se que "Estate violenta" não escamoteia o contexto histórico, com Valerio Zurlini a deixar o mesmo em pano de fundo, até evidenciar o quão duramente este pode afectar a dupla de protagonistas. A vida de Roberta foi bastante afectada pela Segunda Guerra Mundial. Esta perdeu o esposo no conflito bélico mencionado, tendo uma filha deste homem, a jovem Colomba, com ambas a habitarem numa casa de dimensões alargadas, com a progenitora da primeira (Lilla Brignone), uma figura altiva, austera, pouco dada a grandes demonstrações de sentimentos ou afectos. 

 Lilla Brignone expõe com facilidade a altivez da personagem que interpreta, uma mulher conservadora, que gosta de manter as aparências e entra facilmente em choque com a filha. Veja-se quando pede para que Roberta se comporte como uma mulher de trinta anos que tem uma filha, com as desavenças a aumentarem a partir do momento em que a protagonista se aproxima de Carlo. O primeiro encontro entre Carlo e Roberta acontece na praia, nomeadamente, quando Colomba se assusta com a aproximação perigosa de um avião, com o veículo a praticamente tocar ao de leve na areia e a efectuar um barulho que ecoa por este cenário. Colomba começa a fugir descontroladamente, com Carlo a conseguir segurar a rapariga que estranhamente simpatiza com este indivíduo. É assim que Carlo e Roberta entram em contacto pela primeira vez, com o grupo de amigos do primeiro a não ter problemas em fazer piadas sobre a diferença de idades da dupla, enquanto a progenitora da segunda exibe um conjunto de preconceitos em relação ao jovem devido ao facto do progenitor do mesmo ser um fascista. Roberta apresenta alguns receios em relação a este indivíduo, embora, aos poucos, comece a conquistar Carlo e a deixar-se conquistar pelo protagonista. Eleonora Rossi Drago interpreta de forma sublime esta personagem marcada pelo destino, de enorme beleza e personalidade, capaz de transmitir imenso com o seu olhar e receosa de soltar os seus sentimentos em relação a Carlo. Veja-se quando Carlo convida Roberta para viajar até San Marino, tendo em vista a comprarem café, algo complicado de adquirir em Itália durante o período da Segunda Guerra Mundial, com o jovem a estar habituado a lidar com o mercado negro. Roberta rejeita inicialmente o convite, embora acabe por ceder, com este passeio a contribuir para que a protagonista conheça melhor este indivíduo e vice-versa. Jean-Louis Trintignant transmite a polidez e ponderação de Carlo, um indivíduo que não concorda com os ideais do progenitor, embora encare os mesmos com alguma ligeireza, que se gosta de vestir bem, divertir e começa a nutrir sentimentos fortes por Roberta. Trintignant tem uma química marcante, envolvente e arrebatadora com Drago, com o actor e actriz a evidenciarem e a transmitirem a procura de Carlo e Roberta conterem os sentimentos, apesar do casal nem sempre ser bem sucedido nesse quesito. Quem não fica satisfeita com este romance é Rosanna, uma jovem de longos e sedosos cabelos negros, com uma beleza desarmante e uma personalidade pouco comedida, que faz parte do grupo de amigos de Carlo. Rosanna demonstra desde o início do filme que se encontra interessada em Carlo, embora as atenções deste indivíduo recaiam quase sempre em Roberta, algo que este evidencia, mesmo quando está junto do grupo. Estes jovens divertem-se imenso, seja a passearem na praia, a visitarem o circo, a efectuarem festas privadas, pelo menos até a narrativa chegar aos acontecimentos de 25 de Julho de 1943, que coincidiram com a reunião na qual alguns membros do Grande Conselho Fascista italiano votaram a favor da destituição do ditador Benito Mussolini. O contexto histórico é aproveitado de forma eficaz, com os tumultos, os bombardeios, o recolher obrigatório, o forte policiamento e presença militar a serem sentidos ao longo do filme, sobretudo a partir dos acontecimentos de 25 de Julho. Veja-se a forma como a casa do protagonista é alvo de despejo, com Valerio Zurlini a efectuar uma utilização eficaz dos cenários interiores. Os cenários interiores permitem evidenciar que tanto Roberta como Carlo descendem de famílias com algumas posses e tradições, embora os protagonistas não pareçam capazes de se comportar como os familiares desejam, sobretudo a primeira. Veja-se o relacionamento que se forma entre Roberta e Carlo, com estes a não se preocuparem com a idade ou as diferenças políticas, enquanto Valerio Zurlini desenvolve o romance destes personagens de forma sublime e aproveita ao máximo as dinâmicas convincentes entre Eleonora Rossi Drago e Jean-Louis Trintignant.

A química entre a dupla de protagonistas é visível ao longo de uma série de momentos marcantes de "Estate violenta". Veja-se o momento em que Roberta e Carlo trocam olhares ao som de "Tempation", ou um dança onde é impossível não reparar nos gestos subtis que são trocados pela dupla, ou um encontro nocturno que é interrompido pela presença dos militares, ou uma cena na praia na qual os protagonistas expõem que se encontram a viver uma paixão arrebatadora. Diga-se que o casal acaba por se aproximar ainda mais a partir do momento em que Maddalena (Federica Ranchi), a cunhada de Roberta, chega de Catanzaro para habitar com a protagonista. Maddalena é da idade de Carlo e do grupo de amigos do mesmo, com esta a apresentar uma personalidade relativamente arisca, embora consiga adaptar-se relativamente bem a estes elementos. Nesse sentido, Maddalena acaba por ser inserida no grupo, embora traga também consigo Roberta, algo que proporciona mais momentos que contribuem para a aproximação entre a protagonista e Carlo. Valerio Zurlini consegue desenvolver a relação "proibida" destes personagens de forma sublime, com tudo a desenrolar-se de forma aparentemente natural, mesmo quando o perigo começa a rodear o namoro de Carlo e Roberta. A partir de um determinado momento de "Estate violenta", Carlo e Roberta procuram acima de tudo desfrutar ao máximo das oportunidades em que estão juntos, com ambos a saberem que, mais tarde ou mais cedo, poderão ser afectados pelo contexto político e militar que os rodeia. Não é um contexto fácil, com Carlo e Roberta a contarem com contrariedades a mais para ultrapassarem, seja quando procuram escolher os actos mais pragmáticos, ou quando se deixam conduzir pelos ímpetos e optam por decisões nem sempre objectivas. A banda sonora não poupa no tom melodramático, contribuindo para adensar quer os momentos românticos, quer as situações mais dramáticas, quer os perigos que rodeiam o casal de protagonistas. Veja-se quando assistimos a um bombardeio efectuado por um conjunto de aviões, com Roberta e Carlo a serem obrigados a mudarem temporariamente de planos, com o destino a exibir uma certa malvadez para com a dupla. O namoro de Carlo e Roberta permite que Valerio Zurlini exponha algumas das hipocrisias da sociedade da época, em particular, os preconceitos relacionados com o envolvimento amoroso entre um homem mais novo e uma mulher mais velha, uma situação que não acontece quando o elemento masculino conta com uma idade superior à figura feminina, com o cineasta a abordar uma temática relevante e pertinente. Diga-se que Zurlini concede espaço para Jean-Louis Trintignant e Eleonora Rossi Drago comporem personagens com densidade, dotados de alguma complexidade, com o cineasta a rodear-se ainda de uma equipa competente. Veja-se o magnífico trabalho de iluminação e composição dos planos quando a canção "Temptation" invade o ecrã de poesia e sentimentos arrebatadores, com o contraste entre a luz e as sombras a contribuir para essa atmosfera de tensão sexual e desejo que se forma entre Carlo e Roberta (o trabalho de Tino Santoni na fotografia é mais uma vez exemplar). "Estate violenta" transporta-nos para o interior de um romance intenso, que é vivido em tempos de Guerra e enorme turbulência política, social e militar, com Valerio Zurlini a explorar eficazmente a forma como o contexto afecta a vida da dupla de protagonistas, enquanto nos deixa diante de uma obra cinematográfica pontuada por alguns momentos sublimes, emocionalmente intensos e interpretações de grande nível, com Eleonora Rossi Drago e Jean-Louis Trintignant a contarem com uma química marcante.

Título original: "Estate violenta".
Título em Portugal: "Um Verão Violento".
Realizador: Valerio Zurlini.
Argumento: Valerio Zurlini, Suso Cecchi d'Amico, Giorgio Prosperi.
Elenco: Eleonora Rossi Drago, Jean-Louis Trintignant, Enrico Maria Salerno, Jacqueline Sassard, Lilla Brignone.

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