24 outubro 2016

Resenha Crítica: "Comoara" (Tesouro)

 Será que ainda existem tesouros por descobrir? As salas de cinema surgem como locais propícios para a descoberta de alguns tesouros cinematográficos, algo que "Comoara", o novo filme de Corneliu Porumboiu comprova de forma relativamente eficaz. É uma pequena preciosidade oriunda da Roménia, com "Comoara" a colocar-nos diante de uma dupla de protagonistas relativamente peculiar, que enceta uma busca desajeitada por um hipotético tesouro. A procura pelo tesouro é efectuada por Costi (Toma Cuzin) e Adrian (Adrian Purcărescu), dois indivíduos de personalidades distintas, com esta aventura a permitir explorar não só a história da propriedade onde o tesouro se encontra supostamente localizado, mas também alguns episódios relacionados com o passado e o presente da Roménia, para além de nos dar a conhecer alguns traços da personalidade da dupla de protagonistas de "Comoara". A existência do tesouro não é uma certeza, embora esse "pequeno" detalhe não impeça a dupla de protagonistas de se envolver numa aventura de contornos caricatos, com o estilo meio ingénuo e sonhador de Costi a combinar praticamente na perfeição com o desespero e maior arrogância de Adrian. Costi é um indivíduo casado com Raluca (Cristina Cuzina Toma), de quem tem um filho, o jovem Alin (Nicodim Toma), com o trio a contar com um quotidiano aparentemente calmo. Alin é um rapaz de seis anos de idade, relativamente sonhador, que gosta de ouvir o pai a ler histórias, sobretudo quando estas se encontram relacionadas com Robin Hood. Raluca é uma mãe cuidadosa e extremosa, que se preocupa com o facto de o filho estar a ser alvo das tropelias de um bullie. Costi trabalha numa instituição pública, algo que lhe dá alguma segurança financeira, embora viva de forma simples com a esposa e o filho, num apartamento situado em Bucareste. Corneliu Porumbiou aborda eficazmente a vida pessoal de Costi, com Toma Cuzin a conseguir transmitir o tom ponderado, afável e sonhador deste personagem, um indivíduo com quem nos identificamos com alguma facilidade. A própria habitação de Costi, decorada de forma simples e modesta, permite expor as características despretensiosas e humildes desta família, com "Comoara" a contar com um trabalho eficaz a nível da decoração dos cenários interiores, algo notório no caso do apartamento do protagonista, com este espaço a reflectir a personalidade e o estatuto social do personagem interpretado por Toma Cuzin. O quotidiano de Costi muda quando Adrian, o vizinho do quarto andar, pede-lhe dinheiro emprestado. Adrian outrora contou com uma editora, embora a chegada da crise financeira tenha contribuído para o encerramento da mesma. Este tem uma série de contas para pagar, embora não possua condições para cumprir com os compromissos assumidos com os bancos, inclusive naquilo que diz respeito à renda da casa. Costi fica espantado com a dívida do vizinho, bem como com a taxa de juro que Adrian se encontra a tentar pagar, com Corneliu Porumboiu a mandar uma bicada nos bancos e a expor a crise financeira e o desemprego que assolou o país. Diga-se que Poromboiu efectua ainda um retrato mordaz da polícia (que tem a necessidade de contratar um assaltante para abrir um cofre), do funcionalismo público (veja-se a forma como Costi se consegue escapulir ao trabalho), bem como da burocracia do país, com o argumento da autoria do cineasta a contar com algum humor negro e trechos onde absurdo se encontra bastante presente. Após exibir o seu desespero a Costi, Adrian decide revelar um segredo mirabolante. Antes de falecer, o avô de Adrian revelou que o bisavô do protagonista escondera um tesouro no interior da propriedade da família, um acto que fora efectuado antes dos comunistas expropriarem os antigos ocupantes deste espaço.

Adrian não sabe ao certo a localização do tesouro, embora encare a existência do mesmo como uma tábua de salvação para conseguir manter os seus bens e ultrapassar a crise financeira. Nesse sentido, Adrian propõe que Costi pague oitocentos euros para alugar um detector de metais e os serviços de um especialista para ajudá-los nesta empreitada, prometendo dividir metade do conteúdo do tesouro com o vizinho. Costi apresenta alguma relutância e cepticismo, embora embarque nesta aventura peculiar em busca de um suposto tesouro que se encontra algures numa propriedade em Islaz, um local que se encontra a onze quilómetros de Turnu Magurele. O terreno encontra-se actualmente dividido em duas partes, com uma parcela a corresponder a Adrian e outra ao irmão, embora, na prática, a propriedade ainda pertença à mãe do primeiro. Diga-se que este espaço conheceu uma série de alterações ao longo da história. Antes de ser nacionalizado pelos comunistas, este terreno era único, até ter sido transformado num jardim de infância. Posteriormente, este espaço foi utilizado quer como um bar de jogos (na parte do irmão de Adrian), quer como um clube de strip (na parte de Adrian), com a propriedade a contar com uma história imensa e um suposto tesouro. Costi contrata os serviços de Cornel (Corneliu Cozmei), um indivíduo que utiliza ilegalmente os materiais da empresa de detecção de metais do patrão, embora nem sempre pareça saber manejar estas máquinas. A busca é demorada, a espaços conta com episódios caricatos e assume contornos desesperantes, com Adrian a parecer estar sempre mais impaciente, enquanto Costi procura manter a calma. Adrian e Cornel chegam a entrar em conflito, com a personalidade forte de ambos a colidir, sobretudo quando se adensam as dúvidas em relação à localização e ao conteúdo do suposto tesouro. Os nervos e as dúvidas por vezes apoderam-se deste trio, embora Porumboiu premeie os personagens e os espectadores com uma conclusão que se adequa praticamente na perfeição ao tom de "Comoara", uma obra cinematográfica onde o "realismo", o absurdo e uma faceta a puxar para a fantasia se encontram presentes. O argumento consegue conjugar harmoniosamente estes ingredientes de características distintas, com o humor a encontrar-se presente em situações tão caricatas como Costi contactar uma empresa relacionada com a detecção de metais e não saber informações sobre a propriedade do vizinho, ou a polícia a necessitar dos serviços de Lica (Dan Chiriac), um ladrão, para abrir um cofre. Já o estilo meio sonhador de Costi permite alguns momentos que tanto têm de ingénuos como de ternos quando este personagem se encontra na presença do filho, algo clarividente no terceiro acto do filme. Por sua vez, Adrian apresenta uma personalidade menos afável, com a sua pouca saúde financeira a trair muitas das vezes o seu pragmatismo. Diga-se que os antepassados de Adrian contam com uma relação complicada com o passado da Roménia, enquanto este se digladia com alguns dos problemas do país no presente. Se outrora os familiares de Adrian foram expropriados devido à ascensão comunista, sobretudo com o "Regime Ceauşescu", já o protagonista está prestes a perder a habitação para os bancos, com as diferentes gerações desta família a lidarem com problemáticas diferentes que acabam por colocar em perigo a sua propriedade privada. Adrian Purcarescu conta com uma interpretação pontuada pela sobriedade, com Corneliu Porumboiu a conseguir que os seus intérpretes praticamente se transformem nos personagens e façam com que os espectadores se esqueçam que estamos diante de alguém que está a representar.

 "Comoara" remete ainda para elementos de outros filmes da chamada "Nova Vaga do Cinema Romeno", entre os quais se incluem obras cinematográficas de Corneliu Porumboiu, tais como "A fost sau n-a fost?" e "Când se lasã seara peste Bucuresti sau metabolism". No caso, "Comoara" remete sobretudo para "A fost sau n-a fost?". Não faltam os planos compostos de forma cuidada, que contam com uma duração relativamente longa, uma utilização assertiva dos sons diegéticos (a música não diegética praticamente não é utilizada), algumas doses de humor negro, temáticas que colocam em diálogo o passado e o presente da Roménia, comentários de cariz social, entre outros exemplos. O cuidado na composição dos planos é latente ao longo de "Comoara", com estes a surgirem muitas das vezes fixos, embora nem todos sejam completamente desprovidos de mobilidade, enquanto nos deparamos com uma dupla de protagonistas relativamente peculiar, que enceta desajeitadamente uma aventura em busca de um tesouro. Esta busca é efectuada num terreno de dimensões alargadas, com a temperatura relativamente fria a não ajudar em nada os protagonistas, até a noite cair e a incerteza se acercar da mente e da alma de Adrian, Costi e Cornel. Todos estão neste local com objectivos diferentes. Costi para comprovar a teoria do vizinho, ajudar o mesmo e ganhar algo pelo caminho (inclusive o respeito do filho). Adrian para resolver os seus problemas financeiros. Cornel para receber o dinheiro pelo serviço prestado a detectar os metais na área designada. O trio enceta uma tarefa que se encontra longe de ser fácil, com Adrian e Costi a estarem quase sempre em destaque, sobretudo este último. Costi procura manter uma faceta sonhadora e transportá-la para o filho, tendo em vista a que o rebento o encare como uma espécie de herói, enquanto procura enfrentar situações típicas do dia a dia, tais como pagar as contas, cumprir as tarefas laborais e efectuar os afazeres domésticos, com Toma Cuzin a surgir como um dos grandes destaques de "Comoara". Entre uma busca pelo tesouro que traz mais incertezas do que certezas, algumas contrariedades, humor negro e diversos comentários sobre o passado e o presente da Roménia, uma realização certeira de Corneliu Porumboiu e interpretações pontuadas pela sobriedade, "Comoara" faz justiça ao seu título e surge como um pequeno tesouro cinematográfico.

Título original: "Comoara".
Título em Portugal: "Tesouro".
Realizador: Corneliu Porumboiu.
Argumento: Corneliu Porumboiu.
Elenco: Toma Cuzin, Adrian Purcărescu, Corneliu Cozmei, Cristina Toma, Dan Chiriac.

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